D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de

suas Incellencias». Era n'outra sala, mais núa, mais abandonada:--e ahi

logo á porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo

desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro

denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,

duas velas de sêbo em castiçaes de lata alumiavam grossos pratos de

louça amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.

Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que

n'elles passára em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro,

atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na côdea

d'um immenso pão reluzia um immenso facalhão. E na cadeira senhoreal

reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de

hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia

em melenas pelos rasgões do assento poido.

Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das

ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira,

entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que

seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe

perdoassem porque faltára tempo para o caldinho apurar... Jacintho

occupou a séde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade

para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da

toalha, o garfo negro, a fusca colhér de estanho. Depois, desconfiado,

provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para

mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos.

Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,

com espanto:--«Está bom!»

Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:

tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.

--Tambem lá volto! exclamava Jacintho com uma convicção immensa. É que

estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que não sinto esta fome.

Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta,

esperando a portadora dos piteus, a rija moça de peitos trementes, que

emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa

uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho,

em Paris, sempre abominára favas!... Tentou todavia uma garfada

timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovoára,

luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma

lentidão de frade que se regala. Depois um brado:

--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres

palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao

brodio...

--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:

--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até

suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem

vae engordar e enrijar!

O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o

Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...

E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma

longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em

louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da

salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da

serra digno dos labios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas

nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda

infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,

entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela

de sèbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu

Principe, com um resplendôr d'optimismo na face, citou Virgilio:

--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantará, vinho

amavel d'estas serras?

Eu, que não gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo

tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da vida rural:

--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos

Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim

Roma se tornou a maravilha do mundo!

E immovel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós

os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.

* * * * *

Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que

ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós

se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraçadas,

na sala immensa, a contemplar o sumptuoso céo de verão. Philosophámos

então com pachorra e facundia.

Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os

astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade

que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa

communhão com o Universo que é a unica gloria e unica consolação da

Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a

fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam

a alma para o pó rasteiro--um Jacintho, um Zé Fernandes, livres, bem

jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os

astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime

immobilidade ou de subllime indifferença. Mas outros curiosamente,

anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se

tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe

comprehender os nossos...

--Oh Jacintho, que estrella é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do

telhado?

--Não sei... E aquella, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?

--Não sei.

Não sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi

do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Elle, porque na sua

Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o

Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se transpõe nem se

desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro além se chamasse

Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de

nós fosse Jacintho, outro Zé? Elles tão immensos, nós tão pequeninos,

somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e

Sande, constituimos modos diversos d'um Sêr unico, e as nossas

diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do

mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do

astro ao homem, do homem á flôr do trevo, da flôr do trevo ao mar

sonoro--tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo

Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse

sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até ás mais humildes, até

ás que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que não avisto, nunca

avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de

limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,

quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno

estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho

abateu rijamente a mão no rebordo da janella. Eu gritei:

--Acredita!... O sol tremeu.

E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses

grãos de pó luminoso, existia uma creação, que incessantemente nasce,

perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zés

Fernandes, sentados ás janellas d'outras Tormes, contemplam o céo

nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante

Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa fórma, bem

fragil, bem desconfortavel, e (a não ser no Apollo do Vaticano, na Venus

de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca.

Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais

dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles

são sêres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada

Mundo possue o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a

todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,

formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.

Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, ás janellas dos nossos

casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente

perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que é

sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e

portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do

Universo!--Hein, Jacintho?...

O meu amigo rosnou:

--Talvez... Estou a cahir com somno.

--Tambem eu. «Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.!» como dizia o Pestaninha

em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto

das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanhã?

--Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso _logo

fujo_!» Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma

poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas

demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E

tambem á espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa

voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...

--É verdade, os ossos...

--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andará esse perdido?

Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sêbo já

derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro n'um

descampado, meditámos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fôra

despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos

gritos--ou, regaladamente adormecido, rolára com o Anatole no comboio

para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como

irremediavelmente destruidores do seu conforto...

--Não, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na

Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando

ámanhã desceres á Estação, ás quatro horas, encontras o teu precioso

homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva

ao Porto e á Capital...

Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas d'uma rede:

--E se seguiu para Madrid?

--Então, por esta semana, cá apparece em Tormes, onde encontra ordem

para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o

interessante caso das minhas bagagens. Se ámanhã encontrares na Estação

o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira.

O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para

Guiães. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda

essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu ámanhã

fallo ao Melchior.

Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:

--Mas como posso eu partir para Lisboa, ámanhã, com esta camisa de dous

dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao

menos uma escova de dentes!

Fertil em idéas, estendi as mãos, n'um bello gesto tutelar:

--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui

cedo, pelas seis horas, chego a Guiães ás dez, ainda sem calor. E, mesmo

antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te

mando por um moço um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as

minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem

direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moço, n'um bom trote,

entra aqui ás duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a

Estação... Posso metter na mala uma escova de dentes.

--Oh Zé Fernandes! Então mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa

de colonia!

--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...

O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e

esta dadiva de roupas:

--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e d'astros...

Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que

«estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias.» E seguindo o bom

caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Principe e eu,

ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma

abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o

soalho. Junto á cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de

Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatorio,

um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano d'aquellas

serras, nem alguidar nem alqueire.

Lentamente, com o pé, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E

decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre

ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.

--E o peior não é ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. É que

não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de

camisa engommada.

Por inspiração minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito

providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os pés, uns

tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de

estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos

e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei

que Platão quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o

Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas

fortes, oh Jacintho!... E é só vestido de estamenha que se penetra no

Paraiso.

--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? Não

posso adormecer sem um livro.

Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_,

que escapára á dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo

meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade,

que era a dos annuncios... E quem não viu então Jacintho, senhor de

Tormes, acaçapado á borda da enxerga, rente da vela de sêbo que se

derretia no alqueire, com os pés encafuados nos sócos, perdido dentro

das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo

n'um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos

Paquetes--não póde saber o que é uma intensa e veridica imagem do

Desalento.

Recolhido á minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um

delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me reclamou:

--Zé Fernandes...

--Dize.

--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.

Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao

penetrar no Somno, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois

tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.

--Zé Fernandes...

--Que é?

--Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima das

unhas... E um romance!

Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova,

depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:

--Zé Fernandes...

--Hein?

--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençoes ao menos são

frescos, cheiram bem, a sadio!

IX

Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacintho, que,

com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga

de granito--parti para Guiães.

Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no

corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta

trouxera n'um carro com «recados do Snr. Pimentinha». O meu pensamento

pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o

Hotel Bragança, este brado alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grillo e

Civilisação! Hurrah! Abraço!»--Só depois de sete dias, occupados n'uma

delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisára a horta da tia

Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei,

desenvolvi o grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim

te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas?

Tempo delicioso! 23^o á sombra. E os ossos?...»--Veio depois a devota

romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um córte

de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma

indigestão de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e

ferrenho.

Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima

Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de

certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.

Defronte, á porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes

e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um

banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoço da minha

egua que já salvára d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso

Melchior, o Severo contou que na véspera jantára com elle em Tormes, e

se abeirára tambem do fidalgo...

--Ora essa! Então o snr. D. Jacintho está em Tormes?

O meu espanto divertiu o Severo:

--Então v. exc.^a... Pois em Tormes é que elle está, ha mais de cinco

semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma

grandeza!

Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me

assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes.

Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do

Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem

encostado á cintura.--Então o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho

andava lá para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de

Freixomil...

--E o Snr. Grillo, o preto?

--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar

limões doces...

Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas.

A um canto do páteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada

de pedreiro descançára durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,

rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montões de palha

desempacotada de caixotes consideraveis.

--Bem, pensei eu. Eis a Civilisação!

Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,

reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos

os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas

e núas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram

tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de

Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com

coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um

canto, entre o muro e a banquinha onde um castiçal de latão resplandecia

sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello,

imitando bambú, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e

uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do

pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que

eu mandára de Guiães. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a

belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava

nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no

corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a

previdencia do meu Principe o destinára ao seu Zé Fernandes. Pendurei

logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.

Mas na sala immensa, onde tanto philosopháramos considerando as

estrellas, Jacintho arranjára um centro de repouso e d'estudo--e

desenrolára essa «grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de

verga da Madeira, amplas e de braços, offereciam o conforto de

almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada

em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de

frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de

cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens

lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um

Presepio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros

d'esguedelhada lã, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que

na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por uma enorme Corôa Real.

Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois

retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras

repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os

primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um

Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas

de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito

novas, muito envernisadas. E a um canto um mólho de varapaus.

Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas,

abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os

peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada

penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da

casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. E,

penetrado por aquella consoladora quietação de convento rural, terminei

por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir

languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso

que encontrára:

Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota

Et fontes sacros, frigus captabis opacum...

Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que são teus e

aguas que te são sagradas, colhes emfim a sombra e a paz!

Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor

desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino

Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E

muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei

a uma planta estiolada, emmurchecida na escuridão, entre tapetes e

sêdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,

desabrocha e honra a Natureza! Jacintho já não corcovava. Sobre a sua

arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais

verdadeira, espalhára um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que

o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão

crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,

resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. Até o

bigode se lhe encrespára. E já não deslisava a mão desencantada sobre a

face,--mas batia com ella triumphalmente na côxa. Que sei? Era um

Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e

penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idéas novas.

--Caramba, Jacintho, mas então...?

Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E só me soube contar,

trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho

remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e

d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como

_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almoçára uma pratada de ovos com

chouriço, sublime. Passeára por toda aquella magnificencia da serra com

pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandára ao Porto comprar uma

cama, uns cabides... E alli estava...

--Para todo o verão?

--Não! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chouriços, e a agoa da

fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber tão

divinamente!

Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi

esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,

tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava:

--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei já hoje quatro

trutas, magnificas... Lá em baixo, no Naves, um riachote que se atira

pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!

Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreição:

--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei...

--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da

Lira, á sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ não sei quê, a lêr

esse adorável Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te

parece, Zé Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraçado,

caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! Até eu pintei,

com uma immensa brocha. Viste o comedoiro?

--Não.

--Então vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro!

A Cidade e as Serras · 第 10 / 17 段