--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente

nada fizeram.

O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:

--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem

muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo

não ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto,

que por fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram

a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as

minhocas são uteis. Não ha nada inutil... Eu tinha lá na residencia uma

porção de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e

terminei por me regalar com elles em xarope. Os avós de v. ex.^a por cá

andaram, por cá trabalharam, por cá padeceram. Quer dizer: por cá

serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma

não lhes póde fazer senão bem, a elles e a nós.

E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,

onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,

depois do rheumatismo do ultimo inverno, já não affrontava rijamente

como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente

Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego

acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava

o velho, nós recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez

dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa

preta do meu Principe.

--Estão pois accommodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar

por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Sómente, eu não sei,

já não me lembro do Padre-Nosso.

--Não te afflijas, Jacintho: peço á tia Vicencia que reze por mim e por

ti. É sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos.

Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com

internecido interesse, a uma consideravel evolução de Jacintho nas suas

relações com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplação,

em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava

Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava

para o desejo da Acção... E d'uma acção directa e material, em que a sua

mão, emfim restituida a uma funcção superior, revolvesse o torrão.

Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a

_crear_.

Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em

quanto o Manoel hortelão apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada

a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim:

--É curioso... Nunca plantei uma arvore!

--Pois é um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz não sei que

Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar

uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É

possivel que talvez nunca prestasses um serviço a uma arvore, como se

presta a um semelhante!

--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no verão é

um bello serviço! Mas nunca semeei.

E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditára

inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente

reclamou o parecer d'aquella auctoridade:

--Oh Manoel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?

Como cesto das laranjas enfiado no braço, o Manoel exclamou, atravez

d'um lento riso, entre respeitoso e divertido:

--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a

eirasinha para a debulha, meu patrão.

--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então alli no pomar, rente

do muro velho, não se podia plantar uma fila de pecegueiros?

O riso do Manoel crescia.

--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora

só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãosinho em

terra muito fresca...

O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.

--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o

Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos.

Leve muitas para os pequenos.

Não! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em

sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura

emballadora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a

povoam, começára talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora

sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e

sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o

cuidado das suas mãos paternaes.

No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda:

--Oh Zé Fernandes; quaes são as arvores que crescem mais depressa?

--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa é o eucalypto, o

feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de

eucalyptos...

--Tudo tão lento, Zé Fernandes...

Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroços que

subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de

elle voltar ao 202, no começo do inverno...

--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanímo! É bom

para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos!

D'aqui a trinta annos, arvores só para me cobrirem a sepultura!

--Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho...

--Filhos! onde os tenho eu?

--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por ahi terras

agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais

tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.

Elle murmurou, crusando as mãos sobre o joelho:

--Tudo leva tanto tempo!...

E á borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doçura do

anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o

crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.

E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um

sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os

gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe

notava a solidão.

--Faltam aqui animaes, Zé Fernandes!

Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e

pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre

escasso d'agoas, agora mais resequido por verão de tanta seccura, o meu

Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouçavam

com penuria uma relvagem pobre.

E, de repente, como magoado:

--Justamente! Aqui está o espaço para um bello prado, um immenso prado,

muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos

como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hein? É facil,

não é verdade, Zé Fernandes?

--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas não faltam, na serra.

E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica

e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,

esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas,

bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados

ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util,

toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados

pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o

leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e até mais moral, que

a installação d'uma queijeira, á fresca moda Hollandeza, toda branca e

reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os

Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a

serra, que actividade!

--Pois não te parece, Zé Fernandes?

--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a

agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se

faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!

--Pois não é verdade? E até como negocio! Está claro, para mim o lucro é

o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma

queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o

paladar, incita a installações eguaes, implanta talvez no paiz uma

industria nova e rica! Ora com essa installação, perfeita, quanto me

poderá custar cada queijo?

Fechei um olho, calculando:

--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o

Camembert ou o Rabaçal, póde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro,

entre duzentos e cincoenta e trezentos mil réis.

O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim.

--Como trezentos mil réis?

--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os

encanamentos d'agoa e a configuração da serra alterada, e as vaccas

inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a

extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti

productor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um

tostão. Põe cincoenta réis para a caixa, rotulos, transporte, commissão,

etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil

oitocentos e cincoenta réis!

O meu Principe não desanimou.

--Perfeitamente! Faço um d'esses espantosos queijos por semana, ao

sabbado, para o comermos nós ambos ao domingo!

E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, tão anciosamente

aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por

cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar

onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se

ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a

esplendida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia

difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com

respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle não afastasse brandamente, com

geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda.

Aquellas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno

dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando

sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente

sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despezas que

se affiguravam sobrehumanas á sua parcimonia serrana, forçado a

arquejar, sem descanço, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomára

na Serra o geito que Jacintho deixára em Paris,--e era elle que corria

pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde

desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na

livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo

Mór da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos d'uma queijeira

perfeita.

--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe

digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos...

Dezenas de contos!

E como eu alludia á fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras

tão vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, não custavam

mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os

longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:

--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho não tivesse

a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para deante; e eu não o censuro

pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma

lavoura de capricho. Mas não aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias,

entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de

Montemór, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de

desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr.

Fernandes não conhece a Velleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é

um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, alli em volta da

casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemór!

Lá é que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta

rica, de fartar, e ahi trinta perús na capoeira...

--Então que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este é o

solar da familia, e aqui começaram no seculo XIV os Jacinthos...

O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido á secular

nobreza da casa.

--Ora! até ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da

liberdade... Pois estamos lá em tempos de se fallar em fidalguias, agora

que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr.

Fernandes! leia o _Seculo_, e verá! E depois eu sempre quero vêr o Snr.

D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela

manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram

carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a

serra!... Olhe, até mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que é

fraquinho e acostumado á cidade, necessita sahir da serra. Em Montemór,

em Montemór é que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, tão amigo

d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, até que o

levasse para Montemór.

Mas, infelizmente para a quietação do Silverio, Jacintho lançára raizes,

e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o

tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo chão, d'onde brotára a

sua raça, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o

andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, tão do chão, e

preso ao chão, como as arvores que elle tanto amava.

E depois o que o prendia á serra era o ter n'ella encontrado o que na

Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrára nunca,--dias tão

cheios, tão deliciosamente occupados, d'um tão saboroso interesse, que

sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria.

Logo de manhã, ás seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda

regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os

seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas

ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a

minha porta, já de chapeu desabado, já de bengalão de cerejeira,

disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era

sempre a mesma nova, quasi orgulhosa:

--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal

serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!

Quando abri a janella, ás cinco horas, quasi gritei de puro gosto!

Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando

eu repetia a risca mal começada do cabello, aquelle antigo homem das

trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um

tempo devido aos fortes gozos da terra.

Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da

alameda de platanos, e deante de nós se dividiam matutinamente, mais

brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a

sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de

quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser «contrario á

Esthetica, á Philosophia e á Religião, andar depressa através dos

campos.» De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle

se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza,

do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente

poderia elle entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral,

de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no

resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas seccas.

Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella serviçal

actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sêde, e

n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio

domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral

desmantellado, sob uma grande arvore,--só por que em torno havia

quietação, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de

regato entre canas verdes, e por sobre a sébe, ao lado, um perfume,

muito fino e muito fresco, de flores escondidas.

Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos

mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda noviça--o meu

Principe rugia, com a indignação d'um poeta que descobre um mercieiro

bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria.

--Meu filho, olha que eu não passo d'um pequeno proprietario. Para mim

não se trata de saber se a terra é _linda_, mas se a terra é _boa_. Olha

o que diz a Biblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E

não diz «contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»

--Podéra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por

asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repára, homem,

para aquelle bocadinho de valle, e consegue não pensar, por um momento,

nos trinta mil reis que elle rende! Verás que pela sua belleza e graça

elle te dá mais contentamento á alma que os trinta mil reis ao corpo. E

na vida só a alma importa.

Recolhendo ao casarão, já o encontravamos com as janellas meio cerradas,

os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que

depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.

Mas realmente a alegre actividade do meu Principe não cessava, nem

amollecia, sob o peso da sésta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo

mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,

immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito

acordado,--ávido de sempre gosar, agora que reconquistára essa

faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta

mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o

homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligára das

ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritára o seu bello _Ambula_,

caminha!--tambem certamente lhe gritára _et lege_, e lê. E libertado

emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso

amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lêr um livro_.

Quando eu correra a Tormes, (depois das revelações do Severo na venda do

Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutára as

derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que

o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o

meu Principe mergulhára na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no

deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o

velho errante, o velho Homero!

--Oh Zé Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter

lido Homero?...

--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...

--Tu leste a _Illiada_?

--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_.

Os olhos do meu Principe fuzilavam.

--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,

um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de não ter lido a

_Illiada_?

--Não.

--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.

--Para lá, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_!

Oh! mas de certo eu a lêra, corridamente, com a alma desattenta! E

insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, através do Livro sem egual.

Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me

estirava no canapé de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira,

abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava

n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--resplandecente e

sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vôo branco das

gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra

as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura

salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra

se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus

perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio tão

espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava

os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabôr

ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de

engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança immutavel com que cada

manhã sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por

agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado

pela recitação grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras

docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroçava...

E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses

roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para

Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso

Ulysses, de carapuço vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com

a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos

ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes

dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras

consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio

adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina

Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,

hesitante, procurando Ithaca...

Depois da sésta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a

essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos «seus planos», a

essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de

magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma

horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os

legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos

talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazêma, de

dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrêgos de louça

esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel,

pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhára o

plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que

o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um

coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente crusados, e

o sobrôlho tragico.

Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um

pombal tão povoado que todo o ceu de Tormes ás tardes se tornaria branco

e todo fremente d'azas--não sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos

papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza,

platonicos, immoveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flôres.

Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocára pedra, nem serra

serrára madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia

rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do

Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como

galeras vistosas em rochas ou em lôdo.

Não convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e

da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande

promessa) «para boas obras mez de Janeiro» porque lá ensina o dictado:

Em Janeiro--mette obreiro

Mez meante--que não ante.

E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a

bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas

aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo

que operante. E, em quanto meditava estas transformações da terra, muito

progressivamente e com um amavel esforço, se ia familiarisando com os

homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu

Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos

jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma

vacca para o pasto. Nunca elle então se demoraria a conversar com os

moços, quando á borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se

endireitavam de chapeu na mão, n'um respeito de velha vassalagem. De

certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor

toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada

super-civilisação até á rude simplicidade d'aquellas almas

naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da

lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupações e de

interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia

então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos,

tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de

polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros:

«Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!»

A Cidade e as Serras · 第 12 / 17 段