largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada,
branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito
caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem
se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
carregado de pipas. Para além, outros socalcos, d'um verde pallido de
rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até
outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:
--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu
estou com uma fome, Zé Fernandes!
Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
de duas nobres garrafas d'Amontillado, além de duas garrafas de Rioja,
aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho
lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manhã tão
lustrosa e tepida, subir á serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio,
tantos caixotes de Civilisação remettidos de Paris, Tormes estaria
confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio
perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as
perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estação. Era a Regoa. E o meu
Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que
traziam o aceio dos nossos corpos.
--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pára aqui uma hora...
Come com tranquillidade. Não escangalhemos este almocinho com arrumações
de maletas... O Grillo não tarda a apparecer.
E corri mesmo a cortina, porque de fóra um padre muito alto, com uma
ponta de cigarro collada ao beiço, parára a espreitar indiscretamente o
nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente
desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
comparecessem, eu, inquieto, corri á portinhola para apressar esses
servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o
mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:
--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
mudar de camisa! Por culpa tua, Zé-Fernandes!
--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estação de Tormes...
Tambem não valia a pena mudar de camisa para subir á serra! Em casa
tomamos um banho, antes de jantar... Já deve estar installada a
banheira.
Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
Depois, estendidos nos sophás, saboreando os dois charutos que nos
restavam, com as vidraças abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes.
Na estação certamente estaria o Silverio, com os cavallos...
--Que tempo leva a subir?
Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E á noite o
primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!
Jacintho sorria, seduzido:
--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
trufar um perú, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples
da cozinha de França!... O peor é não te demorares, seguires logo para
Guiães...
--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
Bucolica. E, está claro, para assistir á trasladação.
Jacintho estendera o braço:
--Que casarão é aquelle, além no outeiro, com a torre?
Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse
feitio atarracado e massiço. Casa de seculos e para seculos--mas sem
torre.
--E logo se vê, da estação, Tormes?...
--Não! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo.
No meu Principe já evidentemente nascèra uma curiosidade pela sua rude
casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos!
Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
iniciado:
--Que doçura, que paz...
--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!
Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot,
que deitei sobre o braço;--e ambos em pé, ás janellas, esperamos com
alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas
provações. Ella appareceu emfim, clara e simples, á beira do rio, entre
rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as
duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de
velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa
barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta,
meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto
esperavam, á sombra, sob as figueiras.
Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
rebolou para mim com amizade:
--Viva o amigo Zé Fernandes!
--Oh bello Pimentão!...
Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:
--Ouve lá, Pimentinha... Não está ahi o Silverio?
--Não... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de
Vide, vêr a mãe que apanhou uma cornada d'um boi!
Atirei a Jacintho um olhar inquieto:
--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão ahi os cavallos
para subirmos á quinta?
O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas côr de milho:
--Não!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu
não vejo o Melchior!
O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então,
não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem creados nem
malas, o meu Principe e eu lançamos o mesmo grito de angustia:
--E o Grillo? as bagagens?...
Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!
Na esperança que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
trepavamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos
compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
retumbava:--«Grillo, estás ahi, Grillo?»--Já d'uma terceira-classe, onde
uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando:--«Não ha por ahi um
grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!»--E nem Anatole,
nem Grillo!
A sineta tilintou.
--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As
nossas bagagens, homem!
E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgão de carga, a
pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos
barris, cestos de vime, latas de azeite, um bahú amarrado com cordas...
Jacintho mordia os beiços, livido. E o Pimentinha, esgazeado:
--Oh filhos, eu não posso atrazar o comboio!...
A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por
detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem
procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma
bengala. Eram todos os nossos bens!
O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos.
Contei então áquelle amigo o atarantado trasfêgo em Medina sob a
borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou
rolando talvez para Madrid sem nos deixar um lenço...
--Eu não tenho um lenço!... Tenho este _Jornal do Commercio_. É toda a
minha roupa branca.
--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, á pata... A não ser que se
arranjassem ahi uns burros.
Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um
jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a
Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco,
arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as
mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar:--«É de
arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a
calma já pesada de maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com
uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
villasinha clara. O espaço immenso repousava n'um immenso silencio.
N'aquellas solidões de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado,
pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
dominava, atulhava a região.
--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm ahi os bichos!... Só o que não
calhou foi um selimsinho para a jumenta!
Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mão
duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não tardaram a apparecer no
corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua ruça, um jumento com
albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mão suada e amiga do
Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E começamos a trepar o
caminho, que não se alisára nem se desbravára desde os tempos em que o
trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os
Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte
de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das
oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel
belleza d'aquella serra bemdita!
Com que brilho e inspiração copiosa a compozera o divino Artista que faz
as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, n'este seu
Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graça. Para os valles,
poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e
redondos, d'um verde tão môço que eram como um musgo macio onde
appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaçar leve dos
passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem
as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que
mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flôres
silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do
seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de
silvados floridos, avançavam como prôas de galeras enfeitadas: e,
d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá
galgára, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeára nas telhas.
Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos
regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do
burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
alturas aos barrancos; e muita fonte, posta á beira de veredas, jorrava
por uma bica, beneficamente, á espera dos homens e dos gados... Todo um
cabeço por vezes era uma ceára, onde um vasto carvalho ancestral,
solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos
prados com carneiros e vaccas retouçando:--ou mais estreitos, entalados
em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de
repouso e frescura. Trepavamos então alguma ruasinha de aldeia, dez ou
doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar
pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar
fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e força. Um
esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
Jacintho adiante, na sua egua ruça, murmurava:
--Que belleza!
E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:
--Que belleza!
Frescos ramos roçavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por
traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam
as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros
d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
quando nós passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de
macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos,
serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as
serras!
Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos áquella avenida de faias,
que sempre me encantára pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
vergastada ao burro e á egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
calcanhares, gritou:--«Aqui é que estêmos, meus amos!» E ao fundo das
faias, com effeito, apparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu
brazão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
envelhecia. Dentro já os cães ladravam com furor. E quando Jacintho, na
sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar
solarengo, desceu para nós, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca,
acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu Principe. Era o
Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe
escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma.
--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois então...
E, entre o rosnar dos cães, n'um bracejar desolado, balbuciou uma
historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do
casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava s. ex.^a! Ninguem
esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio
estava para Castello de Vide desde março, com a mãe, que apanhára uma
cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
o snr. Silverio só contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na
casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem
vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
Jacintho cruzou os braços n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por
fim, com um berro:
--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
quatro mezes?...
O desgraçado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de
lagrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada apparecera!... E na sua
perturbação mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das
pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!
--E agora, Zé Fernandes?
Encolhi os hombros:
--Agora, meu filho, só vires commigo para Guiães... Mas são duas horas
fartas a cavallo. E não temos cavallos! O melhor é vêr o casarão, comer
a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
n'uma enxerga, e ámanha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
tia Vicencia.
Jacintho replicou, com uma decisão furiosa:
--Ámanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para
Lisboa!
E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de
negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz
de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de
horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
núas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
através dos rasgões manchas de céo. As janellas, sem vidraças,
conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que,
quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além,
uma taboa pôdre rangia e cedia.
--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...
Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura crúa da cal
fresca. E o sol mal atravessava as vidraças--embaciadas e gordurentas da
massa e das mãos dos vidraceiros.
Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de
Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Através das
janellas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e
circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o
que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
cabeço e descendo pelo pendor suave, á maneira d'uma hoste em marcha,
com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
longe as serras d'além rio, d'uma fina e macia côr de violeta; depois a
brancura do céo, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E lá
debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de
pegureiro cantando.
Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
desapparecimento de toda a Civilisação! Eu palpava a enxerga, dura e
regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colchões de
pennas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem
a minha indignação:
--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
caixotes enormes?...
Jacintho saccudiu amargamente os hombros:
--Encalhados, por ahi, algures, n'um barracão!... Em Medina, talvez,
n'essa horrenda Medina. Indifferença das Companhias, inercia do
Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!
Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por céo
e monte:
--É uma belleza!
O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
encostada á mão:
--É uma lindeza... E que paz!
Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
talhões de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha
e mal alisada, dominava o valle, d'onde já subia tenuemente a nevoa
d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão d'esse lado se
encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas
tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua.
--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
muito sério.
--Tambem eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a
saber do frango.
Voltamos á varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino
inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de
rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de caliça, sem
tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de
pardaes.
--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.
E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
capazes de guardar todo o grão d'uma provincia. Ao fundo a cozinha,
immensa, era uma massa de fórmas negras, madeira negra, pedra negra,
densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um
canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os
Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade
toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava frangos, remexia
as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior,
estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para
nós, jurando «que o jantarinho de suas Incellencias não demorava um
credo»...
--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergasinhas no
chão...»
--É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençoes
frescos...
--Ah, lá pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
senhor! A gente apanhada sem um colxãosinho de lã, sem um lombosinho de
vacca... Que eu já pensei, até lembrei á minha comadre, V. Inc.^{as}
podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham lá camas de
ferro, lavatorios... Elle sempre é uma legoasita e mau caminho...
Jacintho, bondoso, accudiu:
--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gósto mais de
dormir em Tormes, na minha casa da serra!
Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a alface
rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada
cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
que um bando de pombas branqueava o telhado, deslisámos até ao carreiro,
cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe
pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por
vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeços á orla
negra dos pinheiraes.
De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o portão senhorial
entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacintho
reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para
n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens.
Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o
Silverio, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
--E esta varanda tambem é agradavel, murmurou elle mergulhando a face no
aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...
Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentamos nos poiaes da janella,
contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia
sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus
diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos.
Jacintho nunca considerára demoradamente aquella estrella, de amorosa
refulgencia, que perpetua no nosso Céo catholico a memoria da Deusa
incomparavel:--nem assistira jámais, com a alma attenta, ao magestoso
adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuçam
em sombra; os arvoredos emmudecendo, cançados de susurrar; o rebrilho
dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e
agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola
pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
escuras--eram para elle como iniciações. D'aquella janella, aberta sobre
as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem
e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim
descança.