Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu

considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Chorographico, assim

familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus

velhos solares. Já elle atirára a carteira para o bolso... E «nós, seus

caros senhores, não tinhamos senão a encaixotar as roupas, as mobilias,

as preciosidades! Elle mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a

que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...»

--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...

Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!

Perfeitamente, perfeitamente!

Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca,

com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus

Transportes.

--Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptidão, que

facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. Não ha senão Paris!

Começou então no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos

necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna,

banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para

vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os

sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram

esvasiados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós

romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manhã

fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,

atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os

nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,

organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de

conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as

trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o amanhecer,

nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como

na construcção d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do

portão, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.

Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava aquella

actividade e aquella disciplina:

--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos á

serra, encontramos o 202. Não ha senão Paris!

Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu

Exodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores,

descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas

listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se

vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava

para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba

talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o

Psychologo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de

oito-molas fornecida pelas operações conjunctas da Bolsa e da alcôva.

Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no

Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome

alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos

e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveautés_, no

_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na côxa, com encanecidas

facecias d'encanecidas farças, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos

actores, com que já rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo

Napoleão!

De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A

magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,

deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem

fui, de «moço de forcado».) E na _Associação para o Desenvolvimento das

Religiões Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construcção

d'um Templo Budhista em Montmartre!

Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos tempos de Escóla,

da «famosa Civilisação nas suas maximas proporções.» Mandou encaixotar o

seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu

espirito germinasse a idéa de crear, no cimo da serra, uma Cidade com

todos os seus orgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacintho que essas

semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulação das

noções--porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que

entre tantos confortos e fórmas de Civilisação esqueceramos os livros!

Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros

escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu

Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da

Historia Natural--e nós mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo

d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.

Despejamos depois para dentro, ás braçadas, Geologia, Mineralogia,

Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para

fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor

cunhas de Metaphysica.

Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do

portão do 202 na derradeira carroça da _Companhia dos Transportes_, toda

esta animação de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de

Champagne. Era em meados já tepidos de Março. E de novo os seus

desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophás rangeram sob o

peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela

fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de

solidão e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle

Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo

entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, á doçura das

mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah

não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de

braços em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu

jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:

--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar prompto, a

reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em

cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os

vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!

O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:

--O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito,

deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente creados, o

cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grillo, e o Anatole que envernisa

bem o calçado, e tem geito como pedicuro... Hoje é Domingo.

Atirou os pés para o tapete, com heroismo:

--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!

Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo

magro de Jacintho, por sobre o mappa, avançando e recuando entre Paris e

Tormes. Para escolher o «salão» que deviamos habitar durante a temida

jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estação d'Orleans,

atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu

Principe recusava este salão por causa da côr tristonha dos estofos;

depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do

Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que

passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,

indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del

Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do

Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,

socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no

comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de

Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe

offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo

conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos pela face:--«E os

saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun

para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores

de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle

murmurava:--«Pois sim, mas em Hespanha, de noite!...» A noite, longe da

Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia

ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só acalmou depois de

verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor

Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!

Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisação d'aquella viagem

historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de

affagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel

pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e

sete mezes de Paris, me tinham chamado «_mon petit chou! mon rat

cheri!_»--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de

orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.

--Vamos ao Bosque, por despedida?

Fomos--á grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da

vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela

Avenida do Bosque, quasi me pezava não ficar sempiternamente rolando, ao

trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,

sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre tão bem regadas

flôres e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,

de elegancia bem acabada, que almoçára o seu chocolate em porcellanas de

Sevres ou de Minton, sahira d'entre sèdas e tapetes de tres mil francos,

e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos

ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.

Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte

traçou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava

as ondulações macias da folhagem que o Estado escóva e lava. O piar das

aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;--e

mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas

novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas

pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos

Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais

avivado áquella hora pelo vermelhão ainda humido. Logo atraz a barba

talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manhã, no

alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas

Acacias--e as mãos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calçavam luvas

frescas côr de palha, côr de perola, côr de lilaz. Todelle relampejou

rente de nós sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira

de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o seu immenso charuto, como

perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,

que nos não avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro

d'um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia

dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a

cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a

Jacintho se apparecia á noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu

Principe rosnou um--«não, parto para o sul...»--que mal lhe passou

d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa

estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!...

Madame Verghane, de Magdalena, de braços nús, peitos nús, pernas núas,

limpando com os cabellos os pés do Christo!--O Christo, um latagão

soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,

derreado, sob uma cruz de papelão! Havia tambem Lucrecia na cama, e

Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E depois ceia, em

mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle já estava

aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso

esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as

fórmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por

polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem reserva todas as fórmas

de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!

Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos sem que

Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com os

braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e

fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou:

--É muito grave, deixar a Europa!

* * * * *

Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se enublára deixamos o

202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de

estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas

mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um

omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estação, Jacintho

ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustrações, Horarios, mais

livros, e um saca-rolhas de fórma complicada e hostil. Guiados pelo

Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o

nosso salão. Eu puz o meu bonet de sêda, calcei as minhas chinellas. Um

silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro clarão de

janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou á portinhola.

Mas rolavamos já na treva da Provincia. O meu Principe então recahiu nas

almofadas:

--Que aventura, Zé Fernandes!

Até Chartres, em silencio, folheamos as Illustrações. Em Orleans, o

guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com

aquelles quatorze mezes de Civilisação adormeci--e só acordei em Bordeus

quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fóra, uma chuva

miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodão sujo. Jacintho

não se deitára, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençoes. E,

mettido n'um roupão de flanella branco, com a face arripiada e

estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:

--Este horror!... E agora com chuva!

Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:

--É Biarritz.

Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o

lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.

Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama

roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a

vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar

ainda, através d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio

mergulhára na chuva e nevoa.

Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos

da Incivilisação, Jacintho suspirou com desalento:

--Agora adeus, começa a Hespanha!...

Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei

para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,

castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna:

A la puerta de mi casa

Ay Soledad, Soleda... á... á... á.

Elle estendeu os braços, supplicante:

--Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!

--_Irun_! _Irun_!...

N'essa Irun almoçamos com succulencia--por que sobre nós velava, como

Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el

jefe d'Estacion», preciosamente nos installaram n'outro salão, novo, com

setins côr d'azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos

confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o

compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,

ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!

_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos.

Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,

que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma

somnolencia dôce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava

Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que

cruzára os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia

de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,

arremessando o livro, enterrando mais o chapéo molle, se ergueu com

tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar á estrada,

correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!

Sacudi o meu torpôr, exclamei:--«oh menino!...» Não! O pobre amigo ia

apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra

almofada, com outro livro fechado. E á maneira que a escuridão da tarde

crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietação mais

aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisação,

arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não

cessou então de me interrogar sobre Tormes:

--As noites são horriveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme

solidão... E medico?... Ha medico?

Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as

vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um

grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna

lampejou, correndo. Jacintho batia o pé:--«É medonho! é medonho!»...

Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam

cabeças esticadas, assustadas.--«_Que hay_? _Que hay_?»--A uma rajada,

que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos,

esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a

escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.

Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estação abarracada. Um

conductor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão:--e

por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o

trem, muito atrazado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de

Salamanca!

--Mas então?...

O casaco de oleado escorregára pela portinhola, fundido na noite,

deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetamos um novo

tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até

Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as

nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre

vinte e trez malas, n'uma rude confusão hespanhola, sob a tormenta de

ventania e d'agua!

--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!

Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,

n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos

atravez dos lençoes d'estopa encardida!... Não cessei então de fitar,

n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela

vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a

negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio

paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os

olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da

planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum

sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,

emquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas,

rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam

mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--«Mas por que pára este

infame comboio? Não ha trafico, não ha gente! Oh esta Hespanha!...» A

sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.

Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,

trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salão com

passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, ás

gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes

mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos

solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de

barracão alvejou--e bruscamente, á portinhola aberta com violencia,

apparece um cavalheiro barbudo, de capa á hespanhola, gritando pelo snr.

D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!

--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!»

Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos

com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de

charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa

á hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo

tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salão forrado de um panno verde

que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos

carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas

mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.

Ambos nos atiramos ás vidraças, em brados furiosos:

--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!

Oh Grillo!

Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado

tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor

que o engasgava:

--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Hespanha!... E agora? As

malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!

Calmei o meu desgraçado amigo:

--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas...

Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com

tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grillo

comnosco, no salão... Até podiamos jogar a manilha!

De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o

nosso conforto--pois que á porta do lavatorio branquejava o cesto da

nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces

palavras a lapis--_á D. Jacintho y su egregio amigo, que les dè gusto_!

Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no

coração sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa

omnipresente.

--Tens fome Jacintho?

--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.

Com effeito! depois de tão desencontradas emoções só appeteciamos as

camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,

sem gravata, em ceroulas, já o meu Principe, que não se despira, apenas

embrulhára os pés no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com

magestade.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na

claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um

bonet, que murmuravam baixinho com immensa doçura:

--V. exc.^as não têem nada a declarar?... Não ha malinhas de mão?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:

--Não temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz,

n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... É o Grillo.

A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci

com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicencia, atarefada, de lenço

branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.

Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estação muito

socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e

outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de

limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido,

de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava

pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha,

diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o

telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio

azul de que meus olhos andavam agoados.

Sacudi violentamente Jacintho:

--Acorda, homem, que estás na tua terra!

Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem

pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.

--Está claro que cheira bem, animal!

A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descanço,

como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'aço, assobiando

e gozando a belleza da terra e do ceu.

O meu Principe alargava os braços, desolado:

--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...

Entro em Portugal, immundo!

--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os

nossos confortos... Olha para o rio!

A Cidade e as Serras · 第 8 / 17 段