E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para

ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos

doze annos, emquanto fôra um bicho superiormente amimado, com a sua

pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira

fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram

para elle tão incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando

crescêra, e da animalidade penetrára na humanidade, despontára n'elle

esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das

primeiras curiosidades, e que depois alastrára, o invadira todo, se lhe

tornára consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto

era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos

differentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo pão,

pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,

é a amargura das desillusões, o mal da imaginação insatisfeita, o

orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e

desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,

fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a

sua occupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face

pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.

Foi então que o meu Principe começou a ler apaixonadamente, desde o

_Ecclesiastes_ até Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos

do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovação

de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacinthico»--mas grandiosamente

resultante d'uma Lei Universal. Já ha quatro mil annos, na remota

Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia

em Illusão. Já o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,

summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas

conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil

concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle

as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! Não ha nada novo sob o

sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males.

Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do

pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó ephemero, em Jerusalém e em Paris!

E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu

throno d'ouro, entre os seus quatro leões d'ouro, o filho magnifico de

David.

Não se separava então do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo

dentro do coupé Salomão, como irmão de dôr, com quem repetia o grito

desolado que é a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo é

Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sophá,

n'um roupão de sêda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro,

ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos

pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse café de Moka

enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela

força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um

olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dôr o

torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o

remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se

erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um

«adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»

Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tédio.

Jacintho encontrára emfim na vida uma occupação grata--maldizer a Vida!

E para que a podésse maldizer em todas as suas fórmas, as mais ricas, as

mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de

novo luxo, de interesses novos d'espirito, e até de fervores

humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes.

O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi então que elle

iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Côr contados na

Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas esse sublime jantar côr de

rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louças,

os crystaes, os gelados, os Champagnes, e até (por uma invenção da

Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros

serviam, empoados de pó rosado, com librés da côr da rosa, em quanto do

tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A

Cidade, deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacintho!» E o meu Principe, ao

rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mãos nas ilhargas e

gritou triumphalmente:--«Hein? Que massada!...»

Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre

jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças debeis á beira

do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de

Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para

verificar a mysteriosa _exteriorisação da motilidade_. Depois,

desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para

que no seu gabinete, como n'um coração, palpitasse toda a vida Social da

Europa.

E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo, da

sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de

braços alegres, com um grito victorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma

massada!»--Arrebatava então o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,

estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina

e da Experiencia. Possuia uma Fé--o Pessimismo: era um apostolo rico e

esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da

sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu desgraçado Principe!

No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacintho já não

folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem

Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam

interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua

Crença. E a sua abominavel funcção de novo se limitou a bocejar, a

passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.

Incessantemente alludia á morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo,

no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,

consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes

rapidas, sem dôr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela

violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que

apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito

elegante--atacára bruscamente a Vontade!

Todo o seu movimento então foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a

canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento--nem mesmo se

lastimava que ella lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indifferente, Zé

Fernandes!» E tão indifferentemente sahiria á sua janella para receber

uma Corôa Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma

poltrona rôta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e não

conduzindo senão a maior desillusão, que podia importar a mais rutilante

actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me

irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,

dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto,

raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão

desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos até á alma,

pelas voltas apertadas d'uma corda que se não via e que o travava.

* * * * *

Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de

Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um

açafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este

mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o

fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:

--Então, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?

E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o

Champagne do «Natalicio»--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! Não!

Que horrivel sécca!... E bradou mesmo para o Grillo:

--Eu hoje não estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei

para Marselha... Morri!

E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os

telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a

meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flôres que vieram, em

vistosos cestos, com vistosos laços, foram por elle comparadas ás que se

depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente

de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se

alteava até ao tecto--para que, senhor Deus meu?

Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os

pés estendidos ao lume, em preguiçoso silencio. Eu terminára por

adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grillo...

Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!

E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que cançára a mocidade a

accumular todas as noções formuladas desde Aristoteles e a juntar todos

os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em

que elle, cercado de Civilisação nas maximas proporções para gozar nas

maximas proporções a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao

seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!

O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada

de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, flôr a flôr, nas veigas de

Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Asia, em

caravanas, com a veneração d'uma reliquia. Então, para despertar o nosso

torpôr, lembrei que tomassemos o divino chá--occupação bem harmonica com

a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma

bailando no fogão. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza

de Ephraim para que nós lhe estreassemos os serviços destros. Mas o meu

Principe, depois de a altear, para meu espanto, até aos crystaes do

lustre, não conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as

molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o

escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,

unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do

chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de

alfaias de prata, que communicavam a essa occupação, tão simples e dôce

em caza de minha tia, _fazer chá_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo

meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, ergui a chavena

aos labios com reverencia. Era uma infusão descorada que sabia a malva e

a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... Não tomamos chá.

Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no

lume:

--E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá egreja nova?

Jacintho retomára o papel e a thesoura:

--Não sei... Não tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde

param os ossos... Que lugubre historia!

Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára pelo Grillo

ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dôce, com as

iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, á moda amavel da nossa

meiga terra. E o meu Principe á meza, percorrendo a lamina de marfim

onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervôr

a ideia patriarchal:

--Arrôz dôce! Está escripto com dois _ss_, mas não tem dúvida...

Excellente lembrança! Ha que tempos não cômo arrôz dôce!... Desde a

morte da avó.

Mas quando o arrôz dôce appareceu triumphalmente, que vexâme! Era um

prato monumental, de grande arte! O arrôz, massiço, moldado em fórma de

pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os

fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma

corôa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as

iniciaes, a data, tão lindas e graves na canella ingenua, vinham

traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,

n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de

Champagne, murmurou como n'um funeral pagão:

--_Ad Manes_, aos nossos mortos!

Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no conchego e alegria do lume.

Fóra, o vento bramava como n'um êrmo serrano: e as vidraças tremiam,

alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez

mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre

cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob

o abrigo da sua telha vã, com a sua panella atestada de couves, se

agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha

ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,

que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como

sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no fôrno.

Ah Portugal pequenino, que ainda és dôce aos pequeninos!

Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer languidamente os

jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de

prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,

Revistas, Illustrações... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas

espreitava o summario, logo farto; ás Illustrações rasgava as folhas com

o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais

estirado para o lume:

--É uma sécca... Não ha que lêr.

E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,

saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou

erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se

intimasse aquelle seu 202, tão abarrotado de Civilisação, a que por um

momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um

fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o

animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate

mais rude de agua e vento.

Então o meu Principe, succumbido, arrastou os passos até ao seu

gabinete, começou a percorrer todos os apparelhos completadores e

facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu

Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a

sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa

Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus

tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares

d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou

rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina

vibrasse, para entreter o seu Senhor.

Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o

curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,

annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu

pêzo--diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.

O Principe da Gran-Ventura, então, decidiu recolher para a cama--com um

livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,

considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e

magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos

livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a

consagração das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou

por fim para a região dos Historiadores: espreitou seculos, farejou

raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou

na Revolução Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mão

indeliberada toda a vasta Grecia desde a creação de Athenas até a

aniquilação de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,

que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,

nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. Não

appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, até

aos Biologos... Tão massiça e cerrada era a estante de Biologia que o

meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!

Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia:

destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com

fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das

obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.

Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma

torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões:

e relanceando uma linha, esgravatando além n'um indice, todos

interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas

grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de

encontrar um Livro! Parou então no meio da immensa nave, de cocoras, sem

coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle chão todo

alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia,

já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua

abundancia. Findou por voltar ao montão de jornaes amarrotados, ergueu

melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do

braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.

VIII

Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava

na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pallido um bafo

de Primavera ainda timido--Jacintho assomou á porta do meu quarto,

revestido de flanellas leves, d'uma alvura de açucena. Parou lentamente

á beira dos colxões, e, com gravidade, como se annunciasse o seu

casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração

formidavel:

--Zé Fernandes, vou partir para Tormes.

O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.

Galião:

--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...

Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran Ventura tirou da

algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas,

fundamente estudadas:

--«Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfação em communicar a

v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da

capella...»

--É do Silverio? exclamei.

--É do Silverio. «...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos

excelsos avós de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois

ser em breve trasladados da egreja de S. José, onde têm estado

depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.

exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito

d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...»

Atirei os braços, comprehendendo:

--Ah! bem! Queres ir assistir á trasladação...

Jacintho sumiu a carta no bolso.

--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que

são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galião...

Tambem não o conheci. Mas este 202 está cheio d'elle; tu estás deitado

na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. Não posso abandonar ao

Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.

Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi.

Apertei os punhos na cabeça, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu

vens!

Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do roupão:

--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está

inhabitavel...

Elle cravou em mim os olhos aterrados.

--Medonha, hein?

--Medonha, medonha, não... É uma bella casa, de bella pedra. Mas os

caseiros, que lá vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo

á lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos

moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e uma espinetta de

charão, côxa, já sem teclas.

O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava

ao Destino:

--Acabou!... _Alea jact est!_ E como só partimos para abril, ha tempo de

pintar, d'assoalhar, d'envidraçar... Mando d'aqui de Paris tapetes e

camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarçar algum

buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E é mesmo

uma occasião de pôr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma

decencia e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de

1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!

Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu

Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do

toucador, considerando o meu preparo com uma attenção triste que me

incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe

reter bem a moral e o succo:

--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um

absoluto dever, ir eu a Tormes?

Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o

meu Principe:

--Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E

honra te seja, menino... Não cedas a ninguem essa honra!

Elle atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas algibeiras das

pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os

postes torneados do velho leito de D. Galião, n'um balanço vago, como

barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar

incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,

por gradações de sentimentos, desde o dagarreotypo do papá até á

photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.

E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me

pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde

muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em

Civilisação, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem

energia, a raça fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthões,

que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado

ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para

lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a

lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, alli estava

aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em

aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando

baixinho na miuda indecisão de viver.

--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?

Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera d'entre a minha

galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:

--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,

cavalheiro!... É minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flôr da

Malva.

--Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa do Condestavel, de

Nun'alvares.

--Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flôr da Rosa, no

Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!

O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha

prima d'entre os dedos molles--que levou á face, no seu gesto horrendo

de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo

esforço, em que se endireitou e cresceu:

--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem

reflexão, nem descanço!... Á obra! E a caminho!

Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que

abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e

açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe

ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste

marche, com pendões e bagagens...

Logo n'essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa

enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando

caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço appareceu na

Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a

remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de

Transportes_.

Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um

jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas

brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta

multicor resumindo as suas condecorações exoticas de Madagascar, de

Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos

seus serviços. Apenas Jacintho mencionou «Tormes, no Douro...»--elle

logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros

esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.

--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!

A Cidade e as Serras · 第 7 / 17 段