Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade,

estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a

molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta

iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os

Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só

abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia

celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes

converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no

peccado--e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os

raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão

duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente

posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,

para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela

porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um

meigo sermão n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehensão

moderada aos Phariseus que então redigiam o _Boulevard_; algumas

vergastadas nos Ephrains vendilhões; e logo, através da porta da morte,

a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve

demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle

incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influencias

dos Ephrains, dos Trèves, da gente do _Boulevard_, bem depressa

esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu

turno revestem a purpura, e são Bispos, e são Papas, e se alliam á

oppressão, e reinam com ella, e edificam a duração do seu Reino sobre a

miseria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da

Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que

Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da

Asia, deverá novamente descer á terra de servidão. Virá elle, o

desejado? Porventura já algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a

estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e montou pensativamente

sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute,

emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,

attento, n'um vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que

os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,

trotando o burrinho?

--Tu sabes, Jacintho?

Não, Jacintho não sabia--e queria accender o charuto. Forneci um

phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar

outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na

Basilica--quando um Sachristão nedio, de barrete de velludo, cerrou

fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um

cançado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.

--Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada

comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando

alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:

--Eh Jacintho!

O meu Principe abriu os braços, tambem espantado:

--Eh Mauricio!

E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de

riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,

com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa

de sêda, sem gravata, como se descançasse n'um banco, entre as sombras

do seu jardim.

E ambos, apertando as mãos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um

domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre.

--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em

familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da

Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas

d'Israel!

O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes:

--Com este amigo, em peregrinação á Basilica... O meu amigo Fernandes

Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.

Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava

Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapeu de palha. E

empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho

ou para um bock.

--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com

sêde!

Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais sêcos que pergaminhos:

--Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um

vinhosinho gelado!

Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malicia. E

immediatamente, para o meu Principe:

--Ha tres annos que te não vejo, Jacintho... Como tem sido possivel,

n'este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?

--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,

desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?

Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:

--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma

turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo

estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental...

Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á _Cerveja ideal_,

o que reinava?...

Jacintho catou lentamente as suas recordações por entre os pêllos do

bigode:

--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as

Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em

moral, o Renanismo.

Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado

archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a

sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'açafrão, já o

Renanismo passára, tão esquecido como o Cartesianismo...

--Tu ainda és do tempo do culto do _Eu_?

O meu Principe suspirou risonhamente:

--Ainda o cultivei.

--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o

Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um

furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um

jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,

que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e

que grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por baixo, no

pó da terra!»--E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do

trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde

dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio

Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma

Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns

desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,

coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada

mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez

Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de

repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!

Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que

redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado:

--O Ruskinismo?

--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!

O meu ditoso Principe comprehendeu:

--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Corôa de

Oliveira Brava_... É o culto da Belleza.

--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,

enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais

seguro, mais fertil.

Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho

esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flôr de

Novidade que ia desabrochar:

--E então? então?...

Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se

velava:

--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que

percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de

Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo

de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnação de Guatama, e era

portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões.

Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de

Christna...

Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos

ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa,

distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de

cobre, murmurava com os olhos descançados em Jacintho, mas perdidos

n'outra visão:

--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da

suprema pureza da Vida. É toda a sciencia e força dos grandes mestres

Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!

Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto

Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem

extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas

sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibrações do som,

tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia,

portanto homem d'estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas

retortas! Nós fômos além. Verificámos as _ondulações da Vontade_! Deante

de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadencia com o

seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu

linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,

resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza

morreu!

E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braços

abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe

d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,

accendendo de vagar um cigarro:

--Uma d'estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, para almoçar comtigo, e

levo o meu amigo. Elle só come arrôz, uma pouca de salada, e fructa. E

conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do

_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.

Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e

serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,

as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas

naturaes.

--Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é elle, santissimo nome

de Deus?

Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu Principe

contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito

intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques

de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo:

--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo

isoterico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma massada!

Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza abafada do

crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão d'Armenonville,

onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com

paixão, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.

E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:

--Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado!

Grandemente o mereço, caramba, que superiormente philosophei!... E creio

que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar

horror da cidade!

O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em

quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:

--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um

Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... Não, de Bussang!

Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.

Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:

--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,

com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descançar de tarde

e dominar a Cidade...

VII

Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em

realisar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre

retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.

Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a reclamar que o seu Zé

Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E

eu comprehendi que o meu Principe (á maneira do divino Achilles, que,

sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca

dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o

confôrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manhã

combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e

doçura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e

solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal

cabiamos, suffocavamos na confusão, entre os cestos de flôres, e os

ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos

Saxes, e as pelles de feras estiradas aos pés de sophás adormecedores, e

os biombos de Aubusson formando alcôvas favoraveis e languidas...

Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas

aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regaço, ella

esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me

lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas

Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes cançada do grande

seculo; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era

como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na

intimidade d'aquellas tardes, não a contrariava--antes lhe trazia um

vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu

_cher Fernandez_!

E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma

ferida fresca, e começava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a

murmuração de Paris. Ella só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o

resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu

Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com

suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeição n'uma sala e

irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande

costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de

cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em

mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a

vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e

as «Festas» do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--«Ah,

és tu?...» Além d'isso, ao lusco-fusco, n'um sophá, alguns certos

suspiros, entre os braços d'alguem a quem era constante. Ao meu

Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes deveres de

Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que

já duas prégas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas

nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua

Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.

Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjára no cerebro

(onde de certo penetrára o pó d'arroz que desde o collegio acamava na

testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os

outros «horrores», a Republica, o Socialismo, a Democracia que se não

lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa

juntava ás rendas do chapeu a Corôa amarga de espinhos--por serem esses,

para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dôr. E, deante de todo o

Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o

juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fôsse elegante formular e

sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embaraçára nos tormentos d'uma

paixão. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um

Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religião intíma

(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos á missa

de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel

cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem

abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de

patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e

concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados

pelas Duquezas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito

methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de

inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flôr de Parisianismo.

Pois respirando esta macia e fina flôr passamos nós as tardes d'esse

julho em quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma e no pó.

Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho não parecia encontrar esse

contentamento d'alma, que entre tudo que cança jámais cança. Era já com

a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem

tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e

orlada de tão frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com

dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão

desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pêllos do bigode

murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, em quanto os

melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso

funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mão da

sua dôce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.

Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da

Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,

atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar

desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a

collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, já com a

preguiça triste da façanha a que se impellia:

--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para

hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma secca! Vamos a casa de

Madame d'Oriol... Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz.

E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava

desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio

da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu

já o conhecia--porque Jacintho m'o mostrára uma noite, no Grand Café,

ceiando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um moço gordalhufo,

indolente, de uma brancura crúa de toucinho, com uma calvice já séria e

já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos

carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha vermelho, todo

emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e

sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:

--Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima disposição... Tivemos

uma scena, e tremenda.

Deu outro puxão desesperado á luva côr de palha, já esgaçada:

--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é excellente! Mas

em tudo ha medida e fórma... Ella tem o meu nome, não posso consentir

que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do

trintanario. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer

dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua

casa de Corbelle. E lá até com os animaes!... Foi o que eu lhe disse!

Ficou como uma fera.

Sacudiu então a mão do Jacintho que «era da sua roda»--rebolou pela

escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face

pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando

para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo póde

caber:

--Já agora subamos, sim?

* * * * *

Parti então, com muita alegria, para a minha appetecida romagem ás

Cidades da Europa.

Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo

o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um

wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de

suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas

mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi

derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;

e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma

cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas

desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina

que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com

cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenços, tres

ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé

direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me

chegasse o _boeuf-a-la-mode_, já frio, com môlho coalhado--e que o

copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com

desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos

marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei

mollemente, com uma dôr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e

quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heroes, santos,

nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias

manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dôce

foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho

inglez de penca flammejante que habitára o Porto, conhecêra o Ricardo, o

José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista...

Gastei seis mil francos. Tinha viajado.

Emfim, n'uma bemdita manhã d'outubro, na primeira friagem e nevoa

d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda

fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde

encontrei o ar macio e tepido que deixára em Florença, apertei os ossos

do Grillo excellente:

--E Jacintho?

O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:

--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da

Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de

Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a

coçar a cabeça: «Eh! que massada! Eh! que massada!»

Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho

dentro do roupão de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de

braços abertos e sedentos:

--Oh Jacintho!

--Oh viajante!...

Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a

face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno côr de malva

orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas

duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo

parecia já vergado sob o pezo e a oppressão e o terror do seu dia. Eu

sorri, para que elle sorrisse:

--Valente Jacintho... Então como tens vivido?

Elle respondeu, muito serenamente:

--Como um morto.

Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fôsse leve:

--Aborrecidote, hein?

O meu Principe lançou, n'um gesto tão vencido, um _oh_ tão cansado--que

eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar

uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!

* * * * *

Desde essa manhã, Jacintho começou a mostrar claramente,

escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existencia o

saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfôrço consistiram então em

sondar e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo que lhe

conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu

a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a

sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do facto

irrecusavel e massiço--que a sua vida especial de Jacintho continha

todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,

n'uma vida de homem que não é um Genio, nem um Santo. Com effeito!

Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e môlhos ricos

elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua

intelligencia não apparecêra nem tremor nem morrão; a boa terra de

Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a

sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as

sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de

confôrtos; nenhuma amargura de coração o atormentava;--e todavia era um

Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclusão

de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava

amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da

Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,

intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombára no Pessimismo.

A Cidade e as Serras · 第 6 / 17 段