Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle
cartão de _Madame Colombe_ que eu lia sempre tão devotamente e que era a
sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse!
Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechára! Para além estavam
as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficára sósinho,
n'aquelle patamar do Não-ser, fóra da porta que se fechára, unico ser
fóra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
pedra, até ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado
o Universo!
--Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
--Ja não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei n'um
banco da Praça da Magdalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a
febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já
se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordação que m'escaldava a
alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
da Magdalena, pensei com desconfôrto:--«Santissimo Nome de Deus! Que
immensa sêde me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao moço:--«Antes
do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito gêlo, e um grande
copo!...» Creio que aquelle Champagne se engarrafára no Ceu onde corre
perennemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bemdita que
me coube penetrára, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
Hortelã-Pimenta granitada em gêlo! E depois um desejo arquejante de
espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guiães, a porca que fugira com
outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
202, não suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhára!
Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a
besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moços accudiram e me
sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
cançados da minha colera.
Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impôr ao _siô_ Zé
Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a immensa indignidade d'um chá de
macella! E estirado no leito de D. Galião, com as botas sobre o
travesseiro, o chapéo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
esfuziára da chamma da vela, e saltára sobre o meu leito, e desabotoára
o meu collete, e arrombára as minhas costellas, e toda ella, com as
saias sujas, mergulhára dentro do meu peito, e abocára o meu coração, e
chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu coração!
Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
mergulhar na minha sepultura, que, através da nevoa final, eu distinguia
sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
minha sepultura, que tão irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não sómente toda a
entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
sobre o leito de D. Galião... Recarreguei o chapéo sobre os olhos para
não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
embalada n'um berço de verga pelo Anjo da Guarda.
De manhã, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
aromas do 202, desde folhas de limonete da India até essencia de jasmin
de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
compota de ginja que nunca lhe sahíra tão fina, e da alegre fogueira do
pateo em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabelluda que
viéra do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, á janella, bem
limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando chá
de Naïpò, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
emporcalhára, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezão, sezão da carne, sezão
da imaginação, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se
formam através da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
tortulhos e os vermes d'uma Civilisação que apodrece.
* * * * *
Então, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
sophás, ou vagueando através da Bibliotheca entre os seus trinta mil
volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
pressa indigna, só lhe lançava um distrahido--«que é isso?» Elle, no seu
moroso desalento, só murmurava um sêcco--«é calor!»
E, n'essa manhã da minha libertação, ao penetrar antes d'almoço no seu
quarto, no sophá o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
e os pés abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
minhas flanellas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a
segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a
agudeza. Ergueu mollemente um braço molle:
--Então esse capricho?
Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou
antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
esgoto!
Jacintho bocejou, murmurou:
--Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...
E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou
esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho
atravessava uma densa nevoa de tedio, tão densa, e elle tão afundado na
sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada não o
commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
sensibilidade por immensas camadas de algodão. Pobre Principe da
Gran-Ventura, tombado para o sophá de inercia, com os pés no regaço do
pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar tão bravamente
todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Força e
a Materia!--E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes
quando recomeçou entre nós a communhão de vida e de alma a que eu tão
torpemente me arrancára, uma tarde, deante da Estação dos Omnibus, no
charco da Magdalena.
Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado
Jacintho não torcia os braços, gemendo--«Oh vida maldita!» Eram apenas
expressões saciadas; um gesto de repellir com rancôr a importunidade das
coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
d'um divan, d'onde se não desenterrava, como para um repouso que
desejasse eterno; depois os bocejos, os ôcos bocejos com que sublinhava
cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
sobretudo aquelle murmurar que se tornára perenne e natural--«Para
que?»--«Não vale a pena!»--«Que massada!...»
Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grillo:
--Jacintho anda tão mucho, tão corcunda... Que será, Grillo?
O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
--S. Exc.^a soffre de fartura.
Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e forte (como
elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
saborear plenamente a «delicia de viver», elle não encontrava agora
fórma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
esfôrço d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica até aos Annuncios,
com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitario,
que só possuisse na sua Solidão esse alimento intellectual, do que o
Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse verão
capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão
d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente á cadeira com um
maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o
castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada,
que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e então com vehemente
arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
dos Campos-Elyseos. Não se occupara mais das suas Sociedades e
Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religiões
Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
suas convivencias. As paginas da Agenda côr de rosa murcha andavam
desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era tão
arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletot leve,
que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
comer uma lamprêa de ovos!
Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem
defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu
Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
Civilisação, não lhe désse uma sensação dolorosa de abafamento, de
atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
roliços e fôfos, todos os seus metaes e todos os seus livros, tão
espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira,
suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
--Oh, este pó da Cidade!
--Mas, oh Jacintho, por que não vamos para Fontainebleau, ou para
Montmorency, ou...
--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
E na sua face enrugada, através d'este berro, lampejava sempre tanta
indignação, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava então pelas
salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeições
e sem occupações. Esses desaffeiçoados e desoccupados passos
monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, á Bibliotheca
d'ebano, onde accumulara Civilisação nas maximas proporções para gozar
nas maximas proporções a delicia de viver. Espalhava em tôrno um olhar
farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mãos,
enterradas nas algibeiras das pantalonas de sêda, n'uma inercia de
derrota. Annulado, bocejava com descorçoada molleza. E nada mais
instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
de todos os apparelhos reforçadores dos seus orgãos, e de todos os fios
que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universaes, e dos seus trinta
mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mãos
derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão
molle d'um bocejo, o embaraço de viver!
VI
Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
cança jámais cançam, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota,
visitava Madame d'Oriol:--por que essa flôr de Parisianismo permanecera
em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado,
avisou Jacintho de que a sua dôce amiga jantava em Enghien com os
Trèves. (Esses senhores gozavam o seu verão á beira do lago, n'uma casa
toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás
voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
a Jacintho que subissemos á Basilica do _Sacré-Coeur_, em construcção
nos altos de Montmartre.
--É uma secca, Zé Fernandes...
--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...
--Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
E por fim logo que começamos a penetrar, para além de S. Vicente de
Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietação de provincia,
com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descançando diante
das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
em canas--o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza
das cousas.
A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando
viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se
ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois
padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
--É curioso!
Mas a Basilica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e
andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
o vestigio visivel da sua vida magnifica.
Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
cinzenta da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No
emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgãos funccionando,
abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora
eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisação da Cidade não
percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para
este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço?
Hein, Jacintho?... Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil
caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba,
fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificação dos
Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da côr do pó
final. O que será então aos olhos de Deus!
E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para espicaçar o meu
Principe, elle murmurou, pensativo:
--Sim, é talvez tudo uma illusão... E a Cidade a maior illusão!
Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
Cidade a base de toda a sua grandeza e só n'ella tem a fonte de toda a
sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza
harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem
sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na
Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma
necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar,
rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
serviços mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua
tranquillidade (bem tão alto que Deus com elle recompensa os Santos)
onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gôzo, ou pela fugidia
rodella d'ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de
seres que tumultuam na arquejante occupação de _desejar_--e que, nunca
fartando o desejo, incessantemente padecem de desillusão, desesperança
ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
deshumanisam! Vê, meu Jacintho! São como luzes que o aspero vento do
viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianças que o
interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão
a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia,
por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e Formulas que
constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as
expressões já exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacente e
chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
gemente esforço, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
que detenha a multidão como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
as pégadas pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros
vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
n'esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e
alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
murmuram através d'arames--o homem apparece como uma creatura
anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem
sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo
ou impudente como um histrião... E aqui tem o bello Jacintho o que é a
bella Cidade!
E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelação superior, n'aquelles
cimos de Montmartre:
--Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa!
Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a
totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e
reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos
especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica
Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com
este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não
abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham;
abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a
neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
policia, em torno, ronda attenta para que não seja perturbado o tépido
somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
Bolonha com pelliças de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua
Civilisação reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,
n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada
arquejante esfôrço, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que
incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a
condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
justa ração de caldo--não poderia apparecer nas baixellas de prata a
luxuosa porção de _foie-gras_ e tubaras que são o orgulho da
Civilisação. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas
d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondulação, a
escadaria da Opera. Ha mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos
que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham
dez milhões no Banco de França, se aqueçam á chamma rica da lenha
aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
d'ether!
--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
Elle murmurou, desolado:
--É horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illusão!