Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos

de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de

pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de

desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,

Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para

percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de

Apostolo obeso:

--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...

Hein?

Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas

classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os

longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os

escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho,

que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma

desconsolação risonha:

--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!

Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas

do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais

cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que

orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um

lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e

muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que,

com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella

carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde,

com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo

peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella

reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos

alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades

flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o

prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão

pelas barbas, rosnou com desdem:

--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!

No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não

possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...

--Para que, meu caro senhor?

Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:

--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de

flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de

dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de

seculo!

E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de

Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina,

seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o

dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas

almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava

esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!

Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.

Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro

cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára

como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe

famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!

Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os

escudeiros sumidos!

Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de

Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente

do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores

param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para

traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,

n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo

appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,

que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se

entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com

paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:

--Meus amigos, ha uma desgraça...

Dornan pulou na cadeira:

--Fogo?

Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao

subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!

O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como

um esmalte mal posto:

--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que

estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á

mão, simplesmente? Encalhado... Quero vêr! Onde é a copa?

E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que

tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.

Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu

não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,

emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!

O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde

mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.

Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma

larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda

fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata,

torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o

Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos

cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de

bronze eterno.

Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame

Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que

o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,

risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o

Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes

ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,

mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos

afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,

quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,

ganindo:--«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os

decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó

d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o

Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz

bicudo e triste.

De repente, Todelle teve uma idéa!

--É muito simples... É pescar o peixe!

O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o

peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua

colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica

polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca

miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a

divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.

Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.

Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,

todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca

se pescára com tão divino anzol!

Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um

cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho,

com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço

fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do

_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam,

amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.

Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre

luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os

punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio

sombrio de fera a quem arrancaram a posta.

No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco

agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não

fisgava.

--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...

Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender.

Agora... Qual! Que diabo! Não vae!

Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só

carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se

abandonasse o peixe!

O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra

mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu

sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes

arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou

ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava

o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina

intelligencia do conforto!

S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de

Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os

escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias

marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome

sonoro e entra no Nobiliario de França.

Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de

Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma

fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam

na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime

a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura

insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o

Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação,

todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no

emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,

que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a

doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da

sua festa.

Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na

antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar

com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a

enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás

suas terras da Dalmacia...

--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella

caçada!

E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta

escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,

S. Alteza repisava, pegajoso:

--Uma bella caçada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé

Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_,

divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de

Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!

Ah!... Não venham fóra! Não se constipem!

E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:

--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio,

com môlho verde!

Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em

que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:

--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o

elevador...

E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:

--Uma massada! E tudo falha!

* * * * *

Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe

inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta

e solar de Tormes, por toda a serra, passára uma tormenta devastadora de

vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que

os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador

Silverio), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o valle

da Carriça, desabára, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica

do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacintho desde os

tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam

agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silverio já

começára com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas

esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a...

Jacintho empallidecêra, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo

e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz

piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro

fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,

uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!

--Coisa estranha, coisa estranha!...

E toda a noite me interrogou ácerca da serra e de Tormes, que eu

conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda

de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo

caminho de Guiães á estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom

Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,

depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrára no robusto casarão

de granito, e avaliára o grão espalhado pelas salas sonoras, e provára o

vinho novo nas adegas immensas...

--E a egreja, Zé Fernandes?... Entraste na egreja?

--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,

onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel

transtorno para as cegonhas!

--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.

E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as

ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e

reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.

V

No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as

torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se

encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as

resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais poderosas

accumulacões de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as

rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas

dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu,

envolta n'um pó de caliça e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o

retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era

dôce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde

madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o

_Petît-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em

fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava

com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com

uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme

d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente,

como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os

sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.

Cada dia estacava deante do portão alguma lenta carroça, d'onde os

creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos

de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao

fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado

pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida

mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a

Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenção,

ensaiamos esperançadamente, para refrescar as aguas mineraes, a

Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na

copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um

instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente.

Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer

phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo

o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos

uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou

apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por

intervenção d'uma machina que abotoava as ceroulas.

E simultaneamente, ou em obediencia á sua Idéa, ou governado pelo

despotismo do habito, não cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de

accumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitarios, aos

pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de

auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de

marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as

largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se

repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas

robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,

como se, suffocados pela sua propria multidão, procurassem com ancia

espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos

restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um

pensativo crepusculo de outono emquanto fóra Junho refulgia. A

Bibliotheca transbordára através de todo o 202! Não se abria um armario

sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não

se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de

livros! E immensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo

urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda

collecção de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!

Mais amargamente porém me lembro da noite historica em que, no meu

quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras

poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,

praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete

volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,

os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E já me

estirára, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do

joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhára entre a

parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo

affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E

nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, a que não sentia nem o

pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a

tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o

luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa

como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram

construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de

livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com

titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a

brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concordia,

avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,

arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora

batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e

Critica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das

nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam

serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,

d'onde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal

juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao

Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila

avistei o Ancião da Eternidade, aquelle que não tem Manhã nem Tarde.

N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,

entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em

vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por

sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo

lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão

super-forte que o Mundo creára--e o Creador lia e sorria. Ousei,

arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro

coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia

Voltaire, n'uma edição barata, e sorria.

Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei

que um Santo novo chegára da Terra. Era Jacintho, com o charuto em

braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando tres livros amarellos

que a Princeza de Carman lhe emprestára para lêr!

* * * * *

N'uma d'essas activas semanas, porém, a minha attenção subitamente se

despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202

a minha mala e a minha roupa: e, acostado á bandeira do meu Principe,

ainda occasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha

alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,

habitavam então na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta á

esquerda.

Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idéas e sensações, o Boulevard da

Magdalena, quando avistei, deante da Estação dos Omnibus, rondando no

asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,

quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta

de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapéo velho de

plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A

creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de

telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos não luzem mais negra e

taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não

recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sêda, lustroso e

encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súpplica por entre os

dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais

silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Café Durand, safado e

môrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentidão d'um rito triste,

tirou o chapéo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sêda poida do

corpete esgarçava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram

immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons

amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma

torta ao sahir quente do forno.

Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:

--E o nomesinho, hein?

Ella séria, quasi grave:

--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta á esquerda.

E eu (miseravel Zé Fernandes!) tambem me senti muito sério, trespassado

por uma emoção grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcôva de Café,

a magestade d'um Sacramento. Á porta, empurrada levemente, o creado

avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e

Borgonha. E foi sómente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando

convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a

tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre

saliva e gôsto de pimentão! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo

molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em

frente á grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--«Móro

alli, todo o anno!...» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ella

roçára a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei

desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o

16, quarto andar, porta á esquerda!

Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os

Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,

como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um

bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava

a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gôsto afundava

a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas

semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Zé

Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me affigurava

ser um pedaço de cêra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno

rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde

flammejava, estalava e se consumia um mólho de galhos seccos. D'esses

dias de sublime sordidez só conservo a impressão d'uma alcôva forrada de

cretones sujos, d'uma bata de lã côr de lilaz com sotaches negros, de

vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo

tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a

sensação de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,

arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns

joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os

meus botões de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em

ouro que eu trouxera de Guiães n'uma cinta de camurça. Do solido,

decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcassa errando

atravéz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.

A Cidade e as Serras · 第 4 / 17 段