N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando

Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.

--Uma festa?...

--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso

e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O

Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do

seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo

tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.

Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas é uma massada

amarga!

Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com

relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os

Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas

ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na

Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,

com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico

até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa

da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a

faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha

bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de

crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação

de luxo e gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!»

Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante

e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades

da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua

fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas

frigorificas. Oh, este 202!

Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever

a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o

manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,

florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,

subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança

d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas

trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em

cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva

ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com

lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um

engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução

outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo

desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados

castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma

reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á

ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O

Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade

se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na

algibeira dous côtos de estearina.

A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu

quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca

furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202

refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam

as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos

Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,

arfavam, boliam com os pés venerandos!

Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de

Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,

acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),

percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa

Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais

magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no

peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo

sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso

sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir

d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga

acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do

Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os

commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade

penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente

torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas

aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a

mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o

«numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia

demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os

endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades

adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e

facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,

para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella

offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou

a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim

(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de

«vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e

lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae

atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella

nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda

sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de

que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E

de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu

enlevado sorriso murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa electrica!...»

Jacintho accudiu:

--Não! Não! Esta é...

Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves não comprehendera nenhum

apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma

dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica

ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a

Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a

Danjon a admiração que me penetrava.

O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:

--Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!... E depois como se

janta bem em casa d'ella! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor,

verdadeiramente superior!

Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da

estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei

a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do

_Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no

202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha

presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e

com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com

effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana

entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um

sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia

postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão

fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!

Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por

«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da

_Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de

mais mel, murmurei com um leve assobio:--«uma delicia!»

E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto

collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente

que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,

sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a

sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um

sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos

bolsos:

--No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um

erro bem estranho, bem curioso!...

O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:

--Um erro?

Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!... Era

attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto

mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de

setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se

despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos

bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era

verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que

se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um

collete de setim preto?

O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão

suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em

quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma

dolorida--se põem em collete e saia branca!... De resto o director do

_Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme,

aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda

procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me

não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,

mettendo os dedos pelo cabello:

--Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!

O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em

Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira

uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então,

passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o

erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:

--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com

effeito! é absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado

da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito

desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso

como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,

bem documentadas!...

Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por

toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de

artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas

profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os

tons... E gritou, com os braços estendidos para o director do

_Boulevard_:

--Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro

mestre! Mande um dos seus redactores... Ámanhã, ás dez horas! Fazemos

uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz... Mande um dos

seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar,

bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias

psychologicas e feministas!

Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos

Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se

debatia e se recusava entre dous homens.

Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves,

descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,

David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem

me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por

«caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de

limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da

Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os

dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o

nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado

dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da

Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face

rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella

como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já

preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das

_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas

convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma

corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle

acceitára a direcção por patriotismo...

--De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser

feito, n'um mundo superior, entre amigos...

E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a

sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava

o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os

Nagayers, os Bolsans, os Saccart...

Jacintho franzia o nariz, enervado:

--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha

esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:

--Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas

desde que haja accionistas!

E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido,

desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle

(Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia

Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,

conhecia todos os enredos de Paris.

--Já veio?... Já cá está o Gran-Duque?

Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?

--Não poude... No sophá... Esfolou uma perna.

--Oh!

--Quasi nada... Cahiu do velocipede!

Jacintho, logo interessado:

--Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?

--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, é que se applicou

mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no

Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.

E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.

Ephraim, brutal e serio, murmurou:--«Diabo! é no melhor sitio!» Mas

Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se

avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um

pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.

Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de

Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta

neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado

nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois

botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do

collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle,

também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de

cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta

de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára

certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan,

de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de

gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de

periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso!

divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade

obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois

de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das

palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:

--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame

Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...

Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando

Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no

Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,

n'uma surda irritação:

--Aria da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além

d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum

trabalha!

--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... É mais

de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...

Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr

de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,

resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o

uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e

d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido

branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.

Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem é?» Mas já o

festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma

familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço

de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava

gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado

contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,

quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho

(que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,

pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina

era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú

e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento

ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente

lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,

reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de

Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella

despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe

liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:

--O Gran-Duque vem, com certeza?

--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

--P'ra o peixe?...

Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a

marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo

annunciava:

--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!

Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como

para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,

o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a

porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.

Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de

barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,

com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,

quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,

veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em

mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no

hombro de Jacintho:

--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?

Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.

--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que

eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando

deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao

Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»

Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,

gallinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!

Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela

indignação:

--Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em

Paris!

Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de

Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o

director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia

a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e

torpe pelo barato.

--No Paillard, todavia...--começou o Ephraim.

--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!

os Borgonhas são tão maus!...

Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu

lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para

traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella

faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas

côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como

uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do

Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:

--Em communicação com o Alcazar?... O Theatrophone?

--Certamente, meu senhor.

Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte

n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a

essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista

Electrica_...--Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e

quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um

commando forte:

--É ella! Chut! Venham ouvir!... É ella! Venham todos! Princeza de

Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut...

Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um

provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se

apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer

immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha,

na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu

fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.

No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o

movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a

mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,

a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada

orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.

Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de

monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta

delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria

um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio

lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.

Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para

entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo

da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia

o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado

n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane

arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação

conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre

uma sepultura.

Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um

silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo

do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos

canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,

que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e

as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais

lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe

no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,

nuasinha e candida...

Uma das senhoras murmurou:

--Mas, não é a Gilberte!...

E um dos homens:

--Parece um cornetim...

--Agora são palmas...

--Não, é o Paulin!

O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam

os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me

encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao

hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o

cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez

das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...

Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o

Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:

--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois é

uma belleza, a cançoneta:

Oh les casquettes,

Oh les casque-e-e-tes!...

Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo

bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:

--_Monseigneur est servi_!

A Cidade e as Serras · 第 3 / 17 段