complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára
para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade.
(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao
meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem
livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de
vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia
depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
ecarté... E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por
Jacintho a lapis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das
_Variedades_--Levar a nota ao jornal...» Considerei o meu Principe.
Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
bocejo immenso e mudo.
Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do
banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas
pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina.
Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi
inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
memorial ou o seu catalogo!
Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:
--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma
sécca!
Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
o seduzia;--e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis
cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso
copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor
do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
de canella!
--E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?
--Eu?
Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
collete:
--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava
através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me
encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou
monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
--Por fim nem vale a pena, é uma sécca!
Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava
um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da
Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
* * * * *
Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo
de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais
minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr,
porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença)
descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha
claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções
da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos
museus do seculo XIX»...
--Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas
pelucias... Não vale a pena!
Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
impressionava o seu horror pela Multidão--por certos effeitos da
Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».
--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende
n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a
immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão
repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!
Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle
chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma
tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
bazar!
E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na
fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são
prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça...
Jacintho murmurou, com a face arripiada:
--É feio, é muito feio!
E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
producção!
Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira
sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum
elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
astros, garantindo a eternidade da sua luz!
Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com
rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as
bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame
Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e
palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado,
esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente
negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz,
na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava
ao cocheiro:
--Para casa, depressa!
E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á
de Jacintho.
Para o sondar eu denegria o Bosque:
--Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...
Elle acudia, timidamente:
--Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas...
E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas,
com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a
adornar para o serviço social da noite.
E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos,
n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata
branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se
agitassem, animadas por aquella rebellião da agua--ouvimos roncos surdos
no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo
para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»
Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
quarto, em ceroulas, livido:
--Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que
impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
perfeitos, um processo novo...
--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua
aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da
Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no
Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos
sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia
estonteadoramente a flores de Nessari.
* * * * *
No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as
trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as
cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
--Vem no _Figaro_!
Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
publicidade, que tambem sorrí, deleitado.
--E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo,
rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... «Está lá?
Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!
O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só
desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o
Grillo e eu:
--É do Gran-Duque Casimiro... Ratão amavel! Coitado!
Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu
Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem
boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei tambem com
deferencia:--«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:
--Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
telephona, te telegrapha, te...?
--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!
--Tua?
--Minha, minha... Não! tenho um bocado.
E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino
orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado
no garfo:
--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é
necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente
por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
não chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a
pelle côr de neve ou côr de limão.
Arregalei um olho divertido:
--Dos hombros para baixo?... E para cima?
--Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma sécca! Sempre bilhetes,
sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além
das flores... Uma massada!
E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os
reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro,
d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
docemente chalrada:
--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me
contive, quiz vêr os estragos... Uma inundação em Paris, nos
Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
Vesuvio... Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!
Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
interesse, retomára risonhamente o charuto:
--Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
cahido uma parede!
Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
d'uma inundação. O _Figaro_ contára... E era uma aventura deliciosa, uma
casa escaldada nos Campos-Elyseos!
Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á
ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo
espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma,
uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.
Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu
voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida.
Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri
vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da
janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela
mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo
cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do
cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de
macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de
Civilisação:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já
desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e
d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
ante-murcho.
No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
montão de telegrammas sobre a toalha.
--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacintho é hoje o
homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
séria:
--É brilhante!
Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho,
n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar,
porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!
Jacintho exclamou com innocencia:
--Sermão?... É já a estação dos sermões?
Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê!
pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De
resto não se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia!
d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a
fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma
brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo,
muito branco, muito forte!
O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo
negro. E Jacintho, rindo:
--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
almas...
Ella acudiu:
--Não! infelizmente o Père Granon não confessa!
E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era
necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos
nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que
ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que
ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
--Elegante, não é verdade?... É uma creação inteiramente nova de Madame
Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema
do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava
delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!
Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se
deslocasse um mundo:
--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
natural...
--Em quê?
Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
longe, cançados e com pouca esperança:
--Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!
IV