Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sop

EÇA DE QUEIROZ

A CIDADE E AS SERRAS

PORTO

LIVRARIA CHARDRON

De Lello & Irmão, editores

1901

Todos os direitos reservados

EÇA DE QUEIROZ

A CIDADE E AS SERRAS

PORTO

LIVRARIA CHARDRON

De Lello & Irmão, editores

1901

Todos os direitos reservados

Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão

Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia

que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente

deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o

da mesma Lei.

_Porto--Imprensa Moderna_

[Figura de Eça de Queirós]

A CIDADE E AS SERRAS

Obras do mesmo auctor:

*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000

*As minas de Salomão.* 1 volume $600

*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000

*O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,

recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso

volume 1$200

*O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000

*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000

*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500

*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600

*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000

A CIDADE E AS SERRAS

I

O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de

renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival.

No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes

ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,

estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já

entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta

e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o

Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro.

E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora.

Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em

Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.

Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em

Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,

rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma

casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse

momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e

botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou

o enorme Jacintho--até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára

para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:

--Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas

pedras?

E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!

Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de

tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala

nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do

«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a

bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o

adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo

senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em

Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do

_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos

bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou

a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.

Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava

de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia

vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»

mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,

caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz

atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando

soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um

macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galião_

correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando

furiosamente:

--Tambem cá não fico! tambem cá não fico!

Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e

escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!

Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão

fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino

amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com

o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares

que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do

beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa

d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em

Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada

d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam

partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o

menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma

aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram

nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,

soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o

quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em

camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu

amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:

--Irra! É de mais!

Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um

Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade

cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado

ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,

descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,

com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde

de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma

lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os

amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a

boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se

queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe

comprehendiam os escrupulos e a asthma.

--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta

a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.

O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de

longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas

pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse

e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e

os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e

indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo

de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos

seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,

pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla,

educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,

concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851,

quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o

'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma

ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o

golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.

'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da

Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha

sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu

um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.

* * * * *

Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a

_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica

d'um pinheiro das dunas.

Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim

entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os

camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e

lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,

e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e

Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos

quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem

fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu

velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e

certas--sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem

desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte

para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o

libertava, do amor só experimentou o mel--esse mel que o amor reserva

aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e

cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,

nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias

Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e

controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia

lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino

quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou

mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e

concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas

alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e não

recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel

maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua

vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo

com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão

hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre

a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil

pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem

guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle

passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham

escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a

_Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava

citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso

de boa lição:

Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...

Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido

sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas

aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem

toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,

um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança

e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.

Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»!

* * * * *

Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em

Paris, nas Escólas do Bairro Latino--para onde me mandára meu bom tio

Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me

riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de

procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.

Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia... Este Principe concebêra

a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente

civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,

robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde

Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com

todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se

torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto

portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso

(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os

proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho

formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e

destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias

philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.

Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo,

que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a

batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde

então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha

que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan,

estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos

individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado

desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o

nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe

facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:

Summa sciencia}

X }= Summa felicidade

Summa potencia}

E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva

a _Equação Metaphysica de Jacintho_.

Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e

lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:--mas

constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a

conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o

seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos

Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados

do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse

telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,

de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos

languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as

frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de

vestidos claros.

--Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do

mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que

recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas

distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça

alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros

simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça,

presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo

portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com

os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se

agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de

composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os

mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia

d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra

noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,

elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já,

pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o

incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não

suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e

comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade

que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco

que compares Renan e o Grillo... Claro é portanto que nos devemos cercar

de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções

a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?

Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o

Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em

distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida

dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou

bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra

segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e

lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:

--Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com

gelo!

Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho,

não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os

seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu

super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por

tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias

de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de

Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas

abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas

de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios

de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante

dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de

luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,

atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo--o

homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!

Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os

lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.

Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por

ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...

--Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma?

Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento

sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o

terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o

chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,

prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!... Mas

o telephone! o phonographo!

--Ahi tens tu, o phonographo!... Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz

verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa

do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a

Cidade!

E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria

á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando

considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois

milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na

natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só

comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no

seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de

lumes e de armas...

Eu murmurava, impressionado:

--Caramba!

Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da

Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.

Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum

silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com

fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na

ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á

subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores.

De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As

searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro

ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento

milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis,

que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!

Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a

bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas

funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem

occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar,

suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda

se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha

espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa

materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e

o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão

nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A

alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,

mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a

crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e

Jacinthico!

E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos

reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que

fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.

Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava

dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés

calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais

crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,

da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de

fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre

despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que

lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto

degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não

tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de

servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma

melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa

esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões

do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.

Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre

amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir

d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando

penetramos no lagêdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se

despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou

descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,

aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um

boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para

sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe

ficára dos melros cantando nos choupos altos.

Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um

soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes.

Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma

mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás

delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das

éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,

cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu

fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as

luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes

de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta

destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes,

cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma

leve folhagem de funcho.

* * * * *

Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi

uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de

lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a

pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas

mais rijas»--me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no

Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha

Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei

severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a

flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle

accrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas,

e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque

vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o

Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».

Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da

tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o

arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas

do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço

de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio,

entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,

ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam

agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte

e cheiroso de serra e de pinheiral.

Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e

metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil,

para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as

leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que

partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto

e piedade:

--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!

E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me

deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão

longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma

poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...»

Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era

arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao

comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre

mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de

sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas.

Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi

com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti

á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das

eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na

poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia,

atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli

me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir

o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,

em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das

Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á

pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito

quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão

quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um

passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia

a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco.

Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.

II

Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu

desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,

levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas

recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava

elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz

das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com

castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o

nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.

--Oh Jacintho!

--Oh Zé Fernandes!

O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na

lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:

--Ha sete annos!...

--Ha sete annos!...

E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda

entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e

varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril

para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de

margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,

as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as

antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.

Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado

por Jacintho--apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma

escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina!

Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete

segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro

das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na

antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida

d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro

que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do

calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de

Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo

aquelle ar delicado e superfino.

Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:

--Eis a civilisação!

Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e

sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa

de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa

de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as

estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta

mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com

retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores

n'um concilio.

Não contive a minha admiração:

--Oh Jacintho! Que deposito!

Elle murmurou, n'um sorriso descorado:

--Ha que lêr, ha que lêr...

Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára

mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os

anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a

antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode

murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.

Elle erguêra uma tapeçaria--entramos no seu gabinete de trabalho, que me

inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos

perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os

divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.

Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão

baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de

arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma

estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de

que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,

fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de

mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre

aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma

Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,

hastes, friezas, rigidezas de metaes...

Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo

cançado que eu não lhe conhecia:

--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas

nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!... Em Guiães, sete annos! Que

fizeste tu?

--E tu, que tens feito, Jacintho?

O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra--cumprira com

serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que

pertencem ao espirito...

--E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus... Está tremendo, o

202!

Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga

vivacidade:

--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal

apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistencias.

Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o

meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?--Está

lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma

estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre,

de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,

expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei

manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante

rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho

acudiu, com a face no telephone:

--Vê ahi o telegrapho!... Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve

estar a correr.

E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um

apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a

longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,

apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo

Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria!

Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o

prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.

--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... Não! É uma noticia.

Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,

marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:

--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, não, Zé

Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,

d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com

ferragens.

Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade

serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de

Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava

as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles,

colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira

de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz

como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era

uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde

espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em

frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma

torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces

estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a

ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das

ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras

admirei apparelhos que não comprehendia:--um composto de laminas de

gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez

amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o

decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda

aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás

cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.

Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças

universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e

entrára na sua domesticidade!...

Jacintho atirou uma exclamação impaciente:

--Oh, estas pennas electricas!... Que secca!

Amarrotára com colera a carta começada--eu escapei, respirando, para a

Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da

Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto

essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma

lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.

Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois

avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma

parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas.

N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que

todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as

doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em

cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as

Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,

cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,

como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa

collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um

assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia

para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella

rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por

traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia

Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos

ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do

Senhor.

Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos

Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber

positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa

de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de

cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de

madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do

Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um

volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto

de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel

n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto

e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma

_Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio,

escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,

encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos

rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,

aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu

entendimento, susurrou capciosamente:

--...«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a

verificar os espaços hypermagicos!...»

Pulei, com um berro.

--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro

d'uma caixa!

O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou:

--É o Conferençophone... Exactamente como o Theatrophone; sómente

applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!... Que diz o

homem, Zé Fernandes?

Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:

--Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores...

Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:

--Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metaphysica Positiva sobre a

Quarta Dimensão... Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas

commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?

--Não, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!

E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella

grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em

Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade

montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...

Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza

transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em

Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára

ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,

n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_...

Eu coçava a barba:

--Não, Jacintho, não... Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar

em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo

na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços

hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é

excessivo! Volto ámanhã.

Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço

(como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do

ramo que lhe floria o peito.

--Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro

d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são

embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...

Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,

murmurou:

--Grillo!

Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,

surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.

Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,

reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de

botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E,

quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro

sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o

sentir emfim reprovido d'uma familia.

--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!

Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no

domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.

Fricção com malva-rosa.

E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e

vago:

--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,

n'este velho Paris...

Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha

iniciação:

--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já

ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São uteis?

Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os

sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela

simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as

pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;

aquell'outro, além, raspava emendas... E ainda os havia para collar

estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...

--Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os

bicos, ás vezes magoam, ferem... Já me succedeu inutilisar cartas por as

ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada!

Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não

lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa.

--Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei... Agora até ámanhã, com as

malas.

--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de

jantar. Talvez te tentes!

E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me

encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,

mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando

medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado:

os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,

resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam

tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de

gulas delicadas, de gulas intellectuaes.

--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito

comprehensivel e muito repousante, Jacintho!

--Então janta, homem!

Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher

correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me

impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,

outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro

para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma

sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:--um

Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de

baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,

quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas

phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em

garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.

--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo

bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta

chileno, que andava a traduzir Klopstock.

Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal,

um olhar desconsolado:

--Não... É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de

microbios... Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que

me satisfaça... Até soffro sêde.

Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traçado,

ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.

Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois

apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...

--É bom?

Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:

--Sim... Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos... Já ha annos.

Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois

saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com

gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.

--Em ether, Jacintho?

O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que

s'evola.

--É novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das

fructas...

Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:

--Eis a Civilisação!

E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este

prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães,

onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e

desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares

que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora

porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como

Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da

Civilisação.

E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um

homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa--e através d'ella e

por ella recolhe a felicidade perfeita.

Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da

Gran-Ventura!

III

No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda

em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo

banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de

cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por

causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,

marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita

para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella

o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o

meu espanto--porque as havia largas como a roda massiça d'um carro

sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em

fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que

nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas,

fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu

Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,

permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante

quatorze minutos.

No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de

sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do

lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de

Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados

existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as

duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os

dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,

que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve

orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham

em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,

sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a

uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a

circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este

rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,

Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,

inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão

numerosas por vezes que cobriam duas laudas.

A Cidade e as Serras · 第 1 / 17 段