Fôra grande o escandalo em Lisboa pela fuga do Visconde, repercutindo-se
fortemente na villa onde tantos interesses os ligavam a todos.
Havia quem acusasse violentamente a Candida pela leviandade de que dera
provas; outros tornavam o Visconde como unico responsavel de todo o mal,
e visto que, definitivamente, tinha deixado a politica, já não havia
considerações que tolhessem a livre critica dos seus antigos partidarios.
Houve tambem quem arrastasse por todas as baixesas o nome do Braga,
ambicioso e usurario, a quem o caso não déra maior abalo, o que parecia
indignar os homens sérios e convulsionar em risos chocarreiros as
meninas, que a proposito segredavam coisas, pelos modos, nada edificantes.
Não faltou até quem perfidamente quizesse attingir a Viscondessa,
que viera acolher-se aos muros amigos da velha casa e se fechára
resolutamente na mais completa reserva, porque ao tempo que o caso se
déra estava o Ramalho em Lisboa e com João as acompanhára alli.
A pretexto da doença de D. Genoveva escusara-se ella ás visitas dos que
pressurosos accorrem sempre onde ha desgraças, não pela natural piedade
de corações bem formados mas pelo gosto de insectos poisando com delicia
sobre cadaveres e podridões.
Esse affastamento, que em boa logica não devia fornecer pasto á
malevolencia, era o que mais a expunha ás considerações dos que nenhuma
idealisação affasta da mesquinha curiosidade das vidas alheias e mais
irritava as opiniões que tão agremente se referiam já aos primos.
O menoscabo das suas pessoas calava fundo no orgulho d’aquella gente e
fazia desembestar saraivadas de doéstos pelas salas e lojas, com estupida
superioridade do boticario Domingos José da Silva, appoiado pela mana
Josepha, que procurava em vão no principe Rodolpho caso similar e bradava
não ter nunca visto uma ingratidão assim.
O Padre Mathias, grave e conspicuamente, como lhe pedia a sua nova
encarnação, bordava commentarios phylosophicos sobre o caso, que cahiam
no ânimo dos ouvintes como sentenças de prégador. Fazia-os notar o
orgulho e ingratidão d’esses herejes, comparada á lhaneza proverbial do
conselheiro, que era um talento—a melhor cabeça do paiz! Nem elles sabiam
apreciar o bem que tinham com tal protector,—um homem de vastissimos
conhecimentos e de uma prodigiosa faculdade assimiladora—coisas que
ouvira ao Telles n’uma noite em que tivera que se defrontar em discussão
acalorada com um antigo companheiro de casa, algo desdenhoso pelos
méritos da Excellencia.
—Sim, comparassem elles o que tinham ganho os seus partidarios, desde
o Telles secretario particular e inspector das escolas, até ao Neves
vantajosamente empregado na fiscalisação do alcool, ganhando dinheiro
sem sahir de casa, nem fazer mais do que assignar o nome no fim de cada
mez. E os adversarios?! Nada tinham obtido com a sua dedicação, politica,
recebendo por paga o despreso da _fidalga_ que achara maior prazer na
degradante companhia dos _esfarrapados_, seguindo as pisadas da tal
_inglesa_, e do orgulhoso padre a quem o sr. Bispo tivera que expulsar do
gremio christão...
Entretanto ia a Viscondessa retemperando as forças, e o seu espirito tão
dolorosamente abalado a pouco e pouco se ia alevantando no sadio regimen
moral das verdadeiras dedicações, das amisades sem movel interesseiro.
Bella affirmava peremptoriamente que a queria vêr feliz e que não lhe
bastava para isso o socego de espirito; precisava tambem de tonificar o
organismo, despir, como quem arremessa do corpo uns miseraveis andrajos,
os habitos de cidadã que do campo só ama e conhece as avenidas sombreadas
dos jardins e quintas de regalo. Seria ella, uma _estrangeira_, quem lhe
faria as honras da paysagem, que já conhecia como os seus dedos. Quem
lhe mostraria os mais doces caminhos afofados de musgos que o sol tonisa
em toda a brilhante gama de verdes. Quem a acompanharia por essa serra
que os castanheiros vestem alternando com os pinhaes sombrios o seu
bello verde luzente; ella quem lhe ensinaria os sitios onde a agua corre
fresca e leve entre arrendados de avencas e fetos, chorada pelas pedras
barbaras do monte.
—Ah como esse paiz é lindo e como até ahi o tinha desconhecido, assim
como tinha ignorado o encanto de ser livre, de viver ao seu gosto,
sem ser confragida pela vontade alheia!—pensava ella, remoçada,
tendo readquirido, no pouco tempo que decorrera, o encanto do riso
sem constrangimento, a alegria das côres perdidas na descrença e na
melancolia, que envenenam o espirito e o sangue.
E com a saude e a serenidade vinha-lhe o desejo de trabalhar, de ser
util, de acrescentar á iniciativa dos primos a energia da sua actividade
e da sua intelligencia. Isto alegrava Isabella, que assim a via resurgir
para a vida e para a felicidade como se milagre fosse, e de boa vontade
lhe ia confiando as multiplas obrigações, que nos derradeiros tempos de
gravidez já lhe custavam a desempenhar.
Planeavam novos estabelecimentos, gisavam melhorías nos existentes, que
urgia completar para que a obra fosse verdadeiramente justa e util.
Queriam todos que a criança de pequenina arrancada á miseria e á dôr não
tivesse que voltar para a vida mais infeliz do que nunca, com a alma
vulneravel a todas as amarguras, a todas as faltas, que mais sentirá
depois de ter conhecido o aconchego e asseio da roupa, a delicia de uma
cama limpa, a fortuna de comer sem ter sentido o estomago crispar-se
com fome, o luxo das abluções e dos sabonetes, tendo adquirido, pelo
simples uso de singelissimos habitos de hygiene, necessidades materiaes,
impossiveis de satisfazer entre a miseria dos seus, tendo aberto o
espirito a horisontes largos, que a tornarão na propria familia uma
estrangeira, victima indefesa da philantropia usada luxuosamente por quem
nada se importa da desgraça alheia.
Para evitar esse mal é que tinham criado, como continuação do asylo e
do hospital, as escolas-officinas onde rapazes e raparigas adquiriam
aptidões para seguirem o caminho traçado pela propria intelligencia
e gosto, tendo junto real a real e com o proprio trabalho, o pequeno
capital com que fazer face aos primeiros embates da lucta, chegados que
sejam á idade de serem livres e tratar de si.
De todo o paiz tinham já vindo modelos de industrias acompanhados por
quem as podesse ensinar alli, porque Isabella punha muito de phantasia e
de arte na maneira prática de ver e apreciar a vida.
Mas para o trabalho de administração propriamente dita, para seguir
pacientemente o fio encetado, esperando que o tempo lhe trouxesse o
resultado benefico, não tinha maior paciencia. Não, para isso era melhor
Maria Helena e o proprio dr. Ramalho, encarregando-se de calculos
meticulosos, sempre sereno e bondoso, sob a mesma calma e apparencia de
reserva.
O velho abbade, que não descançava um instante, descobrindo meio de ser
util em toda a parte, augmentando cada dia o asylo, enchendo a créche
de pequenos, que vinham entregar-lhe sem receio, desde que constara que
não se olhava a procedencia nem se esperava idade para admissão, que se
dispensava dinheiro e enxoval, não só a desgraçadas sem marido infelizes
que os homens abandonam com um filho nos braços e a fome a brutalisa-las
ferozmente, como a casa das cujos homens mal podem sustentar o rancho
esfomeado que pede pão, com o producto da sua enxada de cavador ou das
ferramentas officinaes.
Trouxessem lhe pequenos entes fracos a criar e a proteger, que a todos
egualmente abriria os braços e o coração, novo apostolo dos desherdados,
casto como uma virgem, puro como criança de um anno, ardendo em fogo
sagrado de espiritual fraternidade.
João triumphava com o seu lindo bairro operario—o encanto de mr. Burns,
que ajudava todos com o seu lucido criterio e vastos conhecimentos,
aconselhando, fornecendo capitaes, e comprando, por fim, terrenos
incultos que repartia com egualdade em arrendamentos que terminariam pela
posse, em tempo marcado para a remissão. Lembrava ao sobrinho a utilidade
de uma industria que aproveitasse e desenvolvesse energias e aptidões,
que fosse o complemento do trabalho rural, como a escola deve completar o
asylo, seguido da aprendizagem prática.
O tempo caminhava e com elle cresciam as impaciencias e cuidados, que
mais ou menos todos sentiam por ver chegar o momento em que Bella, emfim
livre dos incommodos e do mal estar que em vão tentava disfarçar, lhes
desse o pequenino anjo que tantos braços esperavam para acalentar, que
tantos carinhos encontraria á sua chegada ao mundo.
Antonio de Mello e Josephina sentiam-se remoçar aguardando o primeiro
neto, como outrora tinham esperado com alvoroço a vinda do primeiro
filho. A velha Engracia descrevia ás amigas o enxoval que esperava o
seu menino e não se continha sem mostrar cada peça de roupa que das
artisticas mãos da mãe e da viscondessa sahia, como modelo de outros
mais, que a Aurora Cunha fazia executar no asylo.
Maria Helena contava as horas e os dias e em cada noite que se despedia
não deixava de recommendar—que havendo qualquer coisa a fossem prevenir.
Uma madrugada, emfim, Isabella queixou-se mais. João, nervoso, correra
ao quarto da mãe, que lhe dizia em modo de consolação:—coitadinha,
soffria, soffria muito, mas então!? Tivesse paciencia, quem lhes dera que
soffresse muito mais, que era para se despachar depressa.
Pobre João! elle queria sorrir da prática phylosophia da mãe, queria
convencer-se da justeza das suas observações, mas custava-lhe tanto ver
Bella muito pallida, silenciosa, encostando-se aos moveis a cada assalto
das dôres, arrumando o enxoval na cestinha forrada de seda azul—pois se
seria um rapaz, todos sabiam!...—sorrindo-lhe com resignação e coragem,
entre dois gemidos abafados.
Elle mexia em tudo, arrumava tambem, pensava em muitas coisas, excitado,
atordoando-se um pouco, dando ordens, e pretendendo ser o que tinha mais
sangue frio para pensar em todas as coisas; para o provar repetia mil
vezes que fossem chamar a _comadre_, e que não se esquecessem tambem de
ir ao palacio prevenir Maria Helena, e a casa do dr. Ramalho, isto já
quando todos estavam em casa e rodeavam a doente.
Emquanto ao tio, lembrou Bella que o não prevenissem e encarregassem
o abbade de o levar para longe n’alguma visita ás propriedades que
adquirira e que andava melhorando.
Soffreu ella muito todo o dia; João já desanimava, perdia a energia,
pareciam-lhe eternas aquellas horas, e, disfarçadamente, a cada gemido de
Bella, limpava uma lagrima silenciosa que lhe vinha aos olhos.
Só mais tarde já quando no horizonte aclarava o céo de uma rosea aurora
primaveril, é que; n’uma convulsão de dôres e de gritos, a criança nasceu.
Josephina chorava de alegria recebendo o embrulho precioso que a parteira
lhe pusera nos braços, indo palavrosa e desembaraçada tratar da mãe, que
já sorridente e feliz perguntava—se era rapaz.
Todos fallavam a um tempo, em voz baixa, havia risos felizes olhando
João, que não queria crêr que fosse um menino—nem já lhe importava, nem
mesmo que morresse, o que queria era a mãe com vida, a mulher que amava
com todos os transportes de amante, que o sentimento paternal não podia
extinguir e tão sómente completar.
—Viviam ambos, felizmente, e que engraçado que era o gorducho, e tão
feiosinho com a carita inchada de recemnascido, mas tão engraçado aos
seus olhos, e tão amado tambem!
O restabelecimento foi rapido, e com a saude voltou a Bella a sua
energia e bom humor. A criancita crescia a olhos vistos, querido e
amimado por todos, só lhe chegando aos braços na hora marcada para mamar.
Mas então o seu orgulho de mãe satisfazia-se bem com a alegria animal do
pequenino glotão, que era bem seu, duas vezes seu, pelo sangue rubro de
que o alimentara em seu seio e pelo branco leite correndo dos seus peitos
como fonte de vida, de alegria e de amôr.
No meio da satisfação geral sómente D. Genoveva soffria da doença
incuravel que trazia a filha em sobresalto e da ferida que o seu orgulho
sentira com o escandalo dado pelo visconde, aggravado a seus olhos pela
noticia que lera nos jornaes de que um grande leilão liquidaria em
breve o palacio de Lisboa recheado de magnificencia e preciosidades, um
verdadeiro museu de arte e mobiliario, como se não reuniria tão cedo
outro na capital.
Sentia-se ferida na sua vaidade vendo o nome do genro, que era o seu
proprio como tia, lançado assim á curiosidade publica, baralhado na
confusão da sociedade como o de qualquer bricabraquista interesseiro
ou pretencioso. Achava que a viscondessa se devia oppôr a tal venda, e
era baldado o esforço do velho abbade para lhe fazer comprehender as
vantagens que da presente situação advinham á filha, senhora emfim de
viver ao seu gosto na serenidade de uma existencia sem obrigações, que
intimamente despresava.
Muito agarrada aos velhos codigos nobiliarchicos, á boa senhora era
custosa a conformação com essa maneira simples de ver as coisas, que
se lhe antolhava por demais despresadora das leis da sociedade a que
pertenciam.
A seu ver não devia Maria Helena ter sahido de sua casa, do seu mundo,
não deveria ter despresado os parentes e amigos que em Lisboa lhe fariam
uma côrte, de lamentos, anathematisando o procedimento do Visconde.
Custava-lhe realmente a comprehender que se preferisse a solidão
d’aquelle grande palacio ao convivio das relações mundanas. Não attingia
o motivo que levara a filha a, mesmo alli, cortar relações com toda
a gente que mais ou menos a distrahiriam. Dir-se-hia que era ella a
criminosa, ella a que tinha motivos para se envergonhar e fugir.
Depois essa maneira de fazer bem educando os filhos do povo para serem
tanto ou mais do que os nobres, não lhe quadrava.
—Decididamente já não comprehendia nada do mundo, nem a gente nova se
parecia com a velha—concluia pegando no _crochet de_ lã grossa com que
se entretinha a fabricar saias e casacos para as criancitas pobres, na
convicção intima de que era assim que se praticava o _bem_; distribuir
esmolas a uns e a outros conforme o capricho e a sympathia de cada qual,
sem livros e sem escolas... Escolas para que?! Só se era para os criados
se julgarem mais senhores do que os proprios patrões... A seus olhos,
o mundo tinha-se voltado do avesso; se até o velho abbade passava sem
dizer missa e respondêra com o despreso ás accusações que da camara
ecclesiastica lhe tinham mandado!...
Valia-lhe o dr. Pinto, a irmã mais nova do abbade e as Cunhas para lhe
fazerem a partidinha do whist e lhe irem contando os casos da villa; era
o que a distrahia um pouco depois das rezas obrigatorias e da leitura,
feita pela dama de companhia, de toda a grinalda romantica do principio
do seculo passado.
Com a aproximação do inverno seguinte a sua saude resentira-se-lhe
e muitos dias havia já em que a filha a não podia deixar. Habituada
áquelle affecto sempre prompto e tocante, acostumara-se tambem a vê-la
sacrificada sem um murmurio e acceitava como obrigatorio o que só o amor
lhe offerecia.
N’um d’esses dias, em que, por Maria Helena não sahir, Bella a fôra
visitar, viu com surpreza, á sahida, que uma carroagem parava ao portão
e um homem se apeava, fechando-a logo cuidadosamente. Ia passar sem
procurar conhecer o visitante, mas sabendo que a amiga não tinha segredos
para ella e presentindo desgosto ou incommodo que a sua interferencia
podia talvez evitar, resolveu dirigir-se ao desconhecido.
Sem saber porquê, pensou no Visconde e lembrou-se que seria porventura
estrangeiro rico seduzido pelas maravilhas de arte expostas no catalogo
do leilão, que preferisse comprar a propriedade em globo e para isso
necessitasse a assignatura da viscondessa.
Tudo isto lhe atravessou o cerebro apenas no tempo preciso para se lhe
dirigir perguntando o que desejava.
Muita habituada a conhecer a sociedade a que pertence qualquer individuo
pelo exame rapido de toda a sua pessoa, Bella constatou no olhar em que o
envolveu por completo que nada faltava ao trajo, consagrado pelo figurino
britannico, de um homem rico em viagem.
Não sabendo muito bem em que lingua devia fallar a um homem que o
cosmopolitismo parecia ter marcado fórtemente tirando-lhe a distincção de
qualquer nacionalidade, perguntou em francez o que desejava.
Elle parou, cumprimentando. Era um homem de que se não poderia bem
precisar a idade porque, se o busto se endireitava n’uma arrogancia de
juventude, o cabello e o bigode já grisalhos davam-lhe uma apparencia de
velhice precoce.
A pelle de um amarello verdoso denunciava longos annos de vida nos
tropicos, as pregas mal difarçadas junto aos olhos, de uma intelligente
viveza, accusavam uma longinqua mocidade mal aproveitada em vigilias e
prazeres ou esgotadoramente trabalhosa. A bocca, onde fortes dentes ainda
brilhavam, tirava ao rosto toda a expressão de bondade, franzida n’um
rictus de ironia.
—«V. Exc.ᵃ poder-me-ha dizer se a sr.ᵃ Viscondessa está?—respondeu no
mais correcto portuguez, acompanhando a phrase do seu riso escarninho,
como quem esperava gosar do espanto da interlocutora.
Mas Bella pensou:—bom, já sei que é brazileiro que deixou a patria e com
ella o _soutaque_ da pronuncia e que vive cá pela Europa muito ao seu
gosto. Conheço o typo geral, tão poucos existem, por cá! Principalmente
em Paris, que é para todo o legitimo brazileiro o resumo das perfeições
humanas, a terra promettida onde vão terminar todos os seus sonhos de
ambição.—E respondeu sem se desconcertar:
—«A sr.ᵃ Viscondessa tem a mãe tão perigosamente enferma, que me parece
inutil qualquer pedido de attenção. Mas se não é caso urgente, V. Ex.ᵃ
esperará...
Reprimindo sob o seu eterno sorriso um gesto de impaciencia, respondeu:
—«Perdão, o caso não admitte a menor de longa.
—«Então, asseguro a V. Ex.ᵃ que minha prima não tem segredos para mim e
pode confiar-me a sua pretensão. N’este momento é inteiramente impossivel
obter d’ella uma audiencia.
—«Em todo o caso, repito, o que tenho a dizer-lhe não admitte delongas...
—Entraremos, pois, porque me parece que o mysterio se liga á urgencia e
V. Ex.ᵃ me confiará a sua missão, subindo eu depois a communicar-lha. É o
unico remedio que vejo.
—«Effectivamente...—respondeu curvando-se—não ha grande inconveniencia
em dar contas a uma amiga da sr.ᵃ Viscondessa da minha espinhosa e
mysteriosa missão.
Isabella baixou a cabeça e passando á frente fê-lo subir alguns degraus
e entrar na sala, de que fechou cautelosamente a porta. Sentou-se junto
a uma meza e indicou-lhe uma cadeira a que elle preferiu encostar-se,
ficando de pé.
Tudo isto tinha sido feito com tanta serenidade e gentileza natural, tão
sem sombra de pretenção ou vaidade, que o estrangeiro, evidentemente
apreciador e habituado a julgar os mais raros exemplares da graça
feminina, não poude deixar de manifestar no sorriso o encanto que o
subjugava.
—«V. Ex.ᵃ dirá...—começou Bella para terminar o silencio.
—«Não sei bem como principiar, pois é estranho, em verdade, o motivo que
me traz...—disse um pouco embaraçado.
—«Em todo o caso...—sublinhou com ironia.
—«Sim, em todo o caso o tempo urge e eu não posso deixar de dizer a V.
Ex.ᵃ o que vinha pedir á dona da casa. Em primeiro logar, minha senhora,
é da mais rudimentar cortezia dizer-lhe o meu nome. Chamo-me Pedro de
Albuquerque. Isto decerto nada lhe diz porque estes grandes appellidos
andam em todas as caras cá no nosso paiz...
—«Ah! V. Ex.ᵃ é portuguez?
—«Não e sim. Sou realmente portuguez de origem, e brasileiro de adopção.
Mas como qualquer dos dois paizes me agrada menos do que Paris, foi lá
que fixei residencia. E foi lá tambem que conheci ha alguns mezes uma
pessoa, um homem que... por certo ainda deve interessar vivamente a amiga
de V. Ex.ᵃ
—«Não me parece que exista hoje algum homem em Paris que disperte
interesse a minha prima—respondeu ella friamente.
—«Um homem que foi, que é ainda, porque no nosso bello paiz não ha a lei
redemptora do divorcio, o seu proprio marido—continuou sem deixar o tom
de ironia que lhe era habitual.
—«A minha amiga dispensa bem a liberdade conferida pela lei, sentindo-se
moralmente divorciada desse homem.
—«E no emtanto, veja V. Ex.ᵃ o que são as coisas! Eu venho exactamente
trazer esse homem moribundo e pedir para elle a piedade da
esposa—respondeu imperturbavel.
Bella levantou-se firme, crescida de orgulho e indignação.
—«Nunca lha pedirá, senhor.
—«Pelo amor de Deus, não me obrigue a ser indelicado, insistindo...
—Não! É um abuso, uma violencia. Ha um homem que atraiçôa vilmente
sua mulher, que a despreza, sendo-lhe inferior, que a sujeita a todas
as vergonhas e que por fim lhe atira com o nome á lama das ruas com o
descaramento de um bandido que deixa no cofre, donde roubou os valores, o
seu cartão de visita...
—«Minha senhora, mas esse homem está hoje morto e o desgraçado que lhe
trago não tem de familia mais ninguem, alem da esposa. É justo que junto
a ella se acôlha...
—«Justo porquê? Esse homem deixou de ter familia desde que foi o proprio
a despreza-la; com que direito a procura agora?!
—«V Ex.ᵃ não me deixou explicar, não é elle que pede, somos nós, os seus
amigos, ou antes os seus companheiros—emendou a um gesto de Bella—que
resolvemos tira-lo de Paris onde não poderia viver entregue a criados...
—«Ha muitas casas de saude onde vantajosamente o poderiam internar.
—«Oh, mas seria escandaloso, um homem com o nome d’elle, tendo familia,
patria, fortuna...
—«Oh o rico sentimentalismo masculino! Tudo o que elle fez, então, não
destruiu aos olhos de V. Ex.ᵃˢ essas raizes que prendem um caracter leal
e honesto?...—gargalhou com nervosa ironia.
—«Não seria bem feito, mas é tão vulgar...
—«Será, mas na minha opinião familia já a não tem porque a despresou
e insultou. Patria já não a merece. Fortuna gastou-a com as suas
leviandades. Portanto, nenhum direito assiste aos seus amigos de vir
exigir da esposa um novo e doloroso sacrificio.
—«Mas, tenha V. Ex.ᵃ embora razão, moralmente fallando, o que é certo é
que tambem se pode chamar uma crueldade o morrer no abandono o marido
tendo a esposa fortuna...
—«Não sei o que a minha amiga faria se fosse chamada aqui, creio que
seria bastante generosa para se sacrificar mais uma vez. Sou eu,
comprehende V. Ex.ᵃ, eu que não quero, que não consinto que ella saiba
esta traição que lhe querem fazer á sua generosidade, á nobreza do seu
caracter—respondeu com violencia.
—«Perdão, minha senhora, mas sou eu que não desisto. Não sahirei d’aqui
sem obter a resposta da propria dona da casa. Não posso reconhecer em V.
Ex.ᵃ o direito de me expulsar—replicou, já alterado tambem, sentindo no
embate de vontades crescer-lhe as violencias de um caracter energico.
—«Fallo-lhe em nome da justiça, senhor! Sei muito bem que os que vivem
n’essa brilhante e desvairada vida de prazeres e divertimentos, conhecem
d’esta palavra só o que dizem os codigos. Mas acima d’elles ha uma ideia
superior, um criterio mais justo a que não creio que o seu espirito se
tenha já fechado completamente. Milhares de homens e mulheres honestas e
trabalhadoras morrem por dia de miseria e de abandono, longe da patria,
escarnecidos pelo destino, abandonados de todos e de tudo. E ninguem
corre ansiado a protegê-los, a leva-los nos braços cuidadosamente para os
ir depôr na sua patria, para lhes ir deitar a cabeça moribunda no seio
das familias. E ha um homem como este, que não teve virtude nenhuma, que
não fez senão mal com o seu egoismo, de quem a propria intelligencia foi
na sociedade um elemento corruptor, que da vida usufriu todos os gosos,
e não ha lagrimas que não repuxem aos olhos, nem lenços de fina seda que
não abafem gemidos! O que o senhor e os seus amigos querem fazer, impondo
á mulher esse marido, que a villipendiou é, no meu criterio, uma infamia.
Oppor-me, é o meu dever.
—«Minha senhora, V. Ex.ᵃ abusa do seu sexo...
—«Pode responder como quizer, porque eu despreso tambem as conveniencias
que obrigam um homem a calar uma resposta altiva a uma mulher e o deixam
babujar insultos sob forma de galanteios á primeira que passa, queira ou
não ouvi-los.
Subjugado, vencido, o brazileiro respondeu conciliador:
—«E, no entanto, elle está lá em baixo moribundo, não contando ser
recebido porque não tem já bem a noção do que se passa, mas em todo o
caso devendo ser attendido.
—«E lá em cima está uma senhora, uma velhinha que era sua tia e foi-lhe
mãe, na orphandade, que é a mãe de sua mulher, e a quem não respeitou os
annos nem a saude. Tambem um abalo moral a poderá matar.
—«Mas n’esse caso?!... O que quer V. Ex.ᵃ que se faça?
—«Que o levem.
—«É impossivel. Para onde o levariamos agora?
—«Em Lisboa ha casas de saude.
—«Não chegaria lá. É uma crueldade!—E alterando-se de novo, n’uma
violencia de quem não esperava ser contrariado, continuou—hei-de fallar
á sr.ᵃ Viscondessa, não sáio sem isso. Elle é ainda o seu marido, o dono
legal d’esta casa.
—«Tem razão, senhor—disse por detraz d’elle a voz maguada de Maria
Helena, a quem tinha chamado a attenção a carroagem estacionada á porta
e Bella altercando na sala com um desconhecido, segundo lhe dissera a
criada de quarto. Descendo em seguida podera ouvir parte da discussão e
comprehender o sacrificio que o destino ainda lhe exigia.
A ultima phrase do brazileiro ferira-a no seu orgulho e fôra elle quem
lhe dictara a interferencia immediata.
Adiantando-se até ao grupo surpreso que os dois formavam, repetiu ao
estrangeiro, frizando com ironia a phrase:
—«Tem razão, senhor. Elle é ainda meu esposo, o dono legitimo d’esta
casa, o senhor da minha vontade... Pode faze-lo entrar, que eu dou ordem
para ser recebido como tal.
—«Ó Maria Helena!!...—gemeu a amiga abraçando-a, com as lagrimas a
assomarem-lhe aos olhos.
—«Minha senhora!—curvou-se elle, tambem vencido pela emoção.
—«Deixa, Isabella, o sacrificio ainda não estava consumado.
—«Isabella?... V. Ex.ᵃ disse?—tornou atraz o brazileiro ferido por esse
nome.
—«Isabella Burns, a minha unica amiga—repetiu a Viscondessa machinalmente.
—«Ó Isabella, como te não reconheci logo?!—rouquejou o desconhecido
estendendo os braços n’uma supplica.
—«O senhor?! Porque?!...
E ante o olhar apavorado do homem que a fitava n’uma agonia, Bella deu um
grito, reconhecendo-o tambem.
—«Meu pae?!...
—»Sim, sim—repetia estupidificado pela surpreza, recuando esverdeado e
tragico, a bocca contorcida pela amargura, o cabello empastado, o bigode
descahido n’uma lamentavel decadencia physica.