—«Meu pae?!—perguntára Bella n’um grito que participava da angustia,
da surpreza e da alegria. Um grito que dizia claramente o complicado
drama psychologico que era n’ella a lembrança d’esse homem, muito amado
no silencio do seu coração, que a sociedade lhe mandava despresar como
criminoso e que a sua razão conseguira desculpar, ou mais, definir como
um symbolo d’essa mesma sociedade.
Passado o primeiro instante de indecisão, e emquanto a Viscondessa, pouco
attenta a esta scena, sahira a ordenar á instalação do doente e o seu
cuidadoso transporte da carroagem, venceu em Bella o amor enthusiastico
que em tempo lhe inspirára aquelle pae galante e pouco escrupuloso, e
correndo para elle apertou-lhe calorosamente as mãos e offereceu aos seus
beijos as faces molhadas de lagrimas.
—«Querida Bella, és ainda a minha filha, a mesma alma generosa, a
caprichosa e louca phantasista que me adorava, o unico amôr da minha
vida!...—Chorava em soluços de criança, o que lhe dava um aspecto de
velhinho dôce.
—«Ainda bem que te encontro, papásinho, ainda bem!...
—«Estimas? Oh! mas então, talvez te não dissessem, naturalmente não
sabes, o motivo porque te deixei?!...—inquiriu como criminoso obrigado a
confessar as culpas com a certeza de ser condemnado.
—«Disseram, sei tudo... Nesse particular não me têm poupado... respondeu
com amargura.
—«Pobre filha! E não me despresas, não me tens amaldiçoado mil vezes?
—«Não; antes muitas vezes te tenho lamentado.
—«E tinhas razão, que eu não fui o que quizeram dizer. Verdade seja
que tambem nunca fui dos mais infelizes.—Agora que tinha a certeza da
benevolencia, voltava ao riso e á ironia, de que fizera habito.—O que
me magoava era estar longe de ti e saber que te arrancariam da alma o
affecto que me tinhas.
—«Isso não; em casa nunca se fallou de tal.
—«O tio Burns fez de conta que eu tinha morrido...
—«Pouco mais ou menos.
—«E tu não me esqueceste, nem deixaste de me querer?!
—«E porque é que me não escreveste, papá? Porque não quizeste saber mais
de mim?
—«Primeiro, não poude... Quando sahi de Lisboa levava pouco dinheiro
e pouca esperança... Tambem, tinha-me prevenido, se não encontrasse
no Brazil as amizades com que contava para me tirarem de embaraços e
ajudarem a recomeçar a vida, tinha o meu revolver com cinco tiros para
o momento em que me sahisse da carteira a ultima nota de cinco mil réis.
Sempre considerei essa somma a minima para dinheiro de algibeira. Depois,
fui feliz, ganhei dinheiro, mudei de nome como quem muda a flôr que
murchou na botoeira, e _fui feliz_—accentuou com sarcasmo.
—«É nunca mais pensaste em mim, não é verdade?
—«Pelo contrario, pensei sempre em ti, mas não sabia as tuas ideias
e conhecia demasiadamente as do tio; tive medo de te alienar a sua
protecção mais proveitosa em todos os sentidos do que a minha.
—«Como podeste estar tanto tempo sem saber de mim, sem me veres?!...
—«E no entanto tens sido tu o meu unico affecto verdadeiro no mundo.
Mas, que queres, nasce-se affectivo como se nasce poeta. Os cuidados
sentimentaes são a poesia do coração, e eu, minha queridinha, nunca
passei de vil prosador. Este mesmo amôr que te consagro e é sentido
como não tive outro na vida, creio bem que é ainda uma forma do meu
egoismo. A vaidade do artista que se vê creador de uma obra perfeita,
porque estás perfeita, sabes? Não te reconheceria, não! Cresceste pouco,
vamos. Promettias tanto! quando te deixei eras uma mulherzinha. E estás
gorda, forte—fallava nervosamente, passando com volubilidade da ternura
quasi ingenua de um velho pae affectuoso, ao riso futil de um homem do
mundo, dizendo banaes comprimentos a uma senhora, outrora conhecida
criança.—Mas que casa tão escura! Não te vejo bem, vem aqui á janella.
A filha deixava-se conduzir docilmente, encantada tambem de rehaver esse
pae que tanto amara e admirara na infancia e que tanto a fizera soffrer.
Caminharam para o largo vão da janella onde tres cadeiras cabiam a par
e levantando o antigo reposteiro deixaram penetrar na sala o reflexo
doirado do ultimo raio de sol poente, que foi movimentar as graciosas
pastorinhas que n’um grupo de velho Saxe ensaiavam um alegre baile
campestre.
As talhas de porcelana China de um brilhante vidrado côr de chocolate
e phantastica floração, resaltaram do fundo pallido da parede donde se
dependurava, em magnifico quadro, o corpo sangrento de homem, virando
para o céo um olhos de angustiada esperança, emquanto o sangue corria
rubro das feridas feitas pelas frechas que se dependuravam, ou espetavam
ao acaso no corpo magro de martyr.
Em baixo, os criados com infinitas precauções arrancavam de entre as
mantas de viagem e traziam em braços um corpo tão emagrecido e um rosto
de tão mortal pallidez, que Bella recuou suffocando uma exclamação.
—«É o Visconde—respondeu o pae á sua muda pergunta.
—«Está morto?
—«Pouco lhe falta... Um cancro no estomago. Mataram no os ultimos dois
mezes de Paris, gosados com o desespero de quem se vê arruinado e...
abandonado.
—«E a Candida?!
—«Dize a _senhora viscondessa_, como por lá a apresentava.
—«E trouxeste-o á mulher, pae!—censurou gravemente.
—«Foi uma fortuna, para te encontrar...—gracejou com leviandade.
—«Porque o deixou ella, sabes?
—«Naturalmente porque o saberia arruinado physica e monetariamente.
Suppomos, porque, orgulhoso como era, não se queixou a ninguem quando
chegou de Luchon d’onde ella tinha partido com um principe russo, com
tantos rublos e servos como cabellos brancos.
—«Que desgosto e que desillusão para a sua grande vaidade!...
—«Não os manifestou senão lançando-se em Paris á mais extenuante vida de
deboche.
—«O que não posso é attingir o motivo porque, moribundo, o tiraram de lá.
—«Resolvemos isso, os amigos e compatriotas, para honra de todos nós.
Foi uma fuga aos _reporters_. Querias que á sua morte tudo se dissesse e
publicasse n’esses jornaes ávidos de escandalos, para a gargalhada d’esse
Paris que tanto se diverte da vida como da morte? Demasiadas occasiões
temos lá fóra para sermos fallados... malevolamente.
—«Levassem-no para Lisboa.
—«Não chegava lá. Aqui ficamos a meio caminho, alem de querermos evitar
escandalos.
—«N’esta casa, aquelle homem!...
—«Por pouco tempo, descança.
Calaram-se, subjugados pelo espectro da morte que passava na sala de
fóra representada pelo visconde, crescido pela extrema magreza, os braços
deitados ao pescoço de dois criados, quasi suspenso, parando a cada passo
apunhalado pelas dôres.
—«Acompanha-o. Eu vou a casa chamar o João e dar leite ao pequeno.
—«O João, o pequeno?!...
—«Sim, eu casei com um primo da viscondessa e temos um filho, um neto
teu, é verdade...
—«Ah, mas então!? Elle tambem sabe o que fui; quererá que me falles?
—«Sabe, o João sabe tudo, nem eu casaria sem isso. É o melhor caracter
que existe. Vou busca-lo.
—«Espera Bella e... e... teu tio?
—«Vive cá tambem.
—«Então?! Não me deixará estar comtigo... Deve despresar-me muito—tornou
outra vez angustiado pela duvida.
—«Não sei, nunca fallámos em tal já te disse. Logo se combina tudo com o
João.
A Viscondessa estava na ante-camara do quarto que rapidamente mandára
preparar para o marido e era o unico que havia no rez-do-chão, o quarto
da rainha, chamado assim porque uma alli dormira outrora, de passagem
pela villa.
Ao fundo uma larga alcova quasi cheia pelo leito baixo de cabeceira
preciosamente arrendada, encimado pelo docél doirado de que se
desprendiam as cortinas em pallida seda a que o tempo amortecêra
o colorido. Fóra, era a sala; forrada em seda Pompadour, decorada
luxuosamente no mais puro e authentico Luiz XV, o mobiliario mais do
gosto do Visconde, como se as preciosidades da fórma e o florido do
desenho fallassem ao seu espirito ligeiro, ainda que brilhante, falho
d’aquella sobriedade e rectidão proprias a quem encara a vida a sério.
E fôra um acaso, filho da commodidade, que fizera com que a Viscondessa
escolhesse para o rodear na morte que se annunciava banal de soffrimento
atroz, todo o brincado futil desse estylo, a desymetria na apparencia
tão symetrica, a sobreposição de ornatos heterogeneos no detalhe e tão
harmonicos e bellos no conjuncto, copia fiel de uma epoca e uma sociedade
assombrosamente grande pelo luxo, e pelo espirito, vista a distancia,
e tão pequena, tão mesquinha de preoccupações e sombria de crimes, tão
estranhamente formada de caracteres frisando entre si o mais absurdo
contraste. Era exactamente n’essa moldura de luxo e requintada elegancia,
entre raridades que tem o seu quê de libertino pela sensualidade das suas
linhas, como pelas historias galantes que suggerem, que morreria o bello
homem que fôra o Visconde, fazendo da vida apenas um jogo, egoista e
ambicioso, tudo e todos sacrificando ao capricho de um momento, symbolo
de uma outra sociedade, menos bella e mais banal por certo, mas como
a outra eivada de erros, preconceitos e crimes, como a outra vivendo
atordoada pelas proprias gargalhadas e festas, sem attender á multidão
que rola na sombra como vasa de esgoto, torva de dôr e de miseria, a
clamar vingança.
Longe estava a Viscondessa de taes pensamentos ao escolher esses quartos
só porque eram na extremidade da casa, affastados dos aposentos de D.
Genoveva que assim ficaria perfeitamente livre de saber o drama que
tragicamente se epilogava alli.
Uma certa repugnancia a conservava affastada do marido que os creados
deitavam e faziam gemer doloridamente a cada abalo, apesar de todas as
precauções.
Bernardo, o mais antigo serviçal da casa, soluçava sustentando-lhe a
cabeça esvaída; conhecera o desde criança, tão alegre, tão enthusiasta e
generoso, e no fim de tantos desgostos dados aos seus, via-o assim voltar
feito cadaver, apenas vivo para soffrer. Na angustia dos olhos sahidos
das orbitas, espantados e envidraçados pela dôr, fitos com dureza nos que
o rodeavam, podia ler-se com horror toda a immensa saudade da vida que
nunca lhe fôra amarga.
Na apparencia serena e digna, a Viscondessa sentia no travôr da bocca
o horror do momento que via approximado e que sinceramente nunca lhe
desejara.
Com a previdencia das pessoas habituadas a doenças, nada lhe esqueceu,
nenhum detalhe faltou á installação rapidamente feita: a lamparina para
a noite, o fogão acceso para tornar habitavel essas casas longo tempo
abandonadas, até não esquecera mandar chamar o velho abbade e o dr.
Ramalho, como amigos fieis, sempre promptos a acompanha-la na tristeza
como na alegria. E tudo ordenára com rapidez, sem precipitação e sem
barulho, como ella sabia fazer as coisas.
Pedro d’Avellar, depois de ter visto a filha atravessar ligeiramente
o pateo, dirigiu-se ao quarto do doente e alli se instalou, pedindo a
Viscondessa que se retirasse.
Doía-lhe o aspecto d’aquella mágua, que inutilmente viera acrescentar
á somma não pequena das que a vida dera já a essa mulher, que tinha
como toda a gente direito a ser feliz e que da sua superioridade apenas
conseguira tirar motivos para agudo padecer.
Se o egoismo fallava e o absolvia da crueldade, mostrando lhe que só
assim poderia ter encontrado a filha, a mesma felicidade que d’esse
encontro lhe advinha e que lhe fazia mergulhar o espirito n’um calentoso
banho de ternura, adoçava-lhe o coração e fazia-o soffrer do soffrer
alheio, o que n’outro qualquer momento da vida lhe não aconteceria.
O seu temperamento amolgado pelas necessidades da vida fizera-o um
sceptico. Muito novo ainda, tivera que defrontar-se com as miserias e
mentiras sociaes, n’uma lucta de interesses e ambições em que todos os
desejos de justiça e lealdade lhe foram fenecendo, tornados ridiculos
como utopias de poeta—o mais sangrento e offensivo epitheto que descobriu
a soberana mediocridade para lançar em rosto a um homem intelligente
que deseja acompanhar o trabalho com a iniciativa propria.—Torcendo-se
sobre si mesmo como planta trepadeira que não encontra apoio, procurára
no egoismo e na satyra, no orgulho e no despreso pelos outros, vasar
todo o rancor e nojo que lhe inspirava essa sociedade triumphante pela
hypocrisia, pela banalidade, pela ausencia de ideal e pelo roubo
legalmente feito.
Encontrando a filha encontrara mais do que um affecto, encontrara a
propria consciencia obliterada por tantos annos vividos n’um meio que se
habituara a julgar com despreso longe da patria e da familia, trabalhando
pelo prazer de ter dinheiro para gastar, aspirando pela fortuna para o
goso material e egoistico.
Pensando, revivia todo o passado aventuroso cortado de dissabores e
luctas que para outros teriam sido a morte e que para elle não tinham
passado de meros accidentes e episodios de uma historia que lhe era quasi
indifferente recordar.
Na meia luz em que estava o quarto e no relativo socego em que o
doente cahira, cançado pela viagem, todo esse passado revivia, toda a
inutilidade da sua existencia avultava como um remorso aos proprios
olhos. Fôra uma força perdida na natureza, um criminoso moral, porque
não utilisara a intelligencia e a energia luctando contra o erro, mas
sujeitando-se a elle, transigindo embora lhe negasse a superioridade e
com o riso causticante lhe quizesse fugir á cumplicidade.
Preoccupava-o o julgamento do genro, aterrorisava-o quasi o despreso do
velho inglez. O que tinha elle então, que voz era que lhe fallava de tão
differente maneira?
Tão absorvido estava que não reparou que os criados tinham sido
substituidos pelo velho abbade e que o medico observava o doente, que de
quando em quando gemia, desesperado, não reconhecendo ninguem, fallando
indistinctamente nos amigos de Paris.
Só quando Bella o veio buscar para a sala, onde João e a Viscondessa os
esperavam, é que voltou a si de um sonhar que lhe cavára rugas na fronte.
—«Então?—perguntou um tanto contrafeito pela duvida.
—«Vamos, o João quer ver-te.
—«O que diz?
Pegando-lhe na mão, levou-o sem responder.
João caminhou para elle, mal a mulher franziu o reposteiro e se affastou
para o deixar passar. Maria Helena levantou-se.
—«Papá—disse Bella com vivacidade—este é que é o João, que te ama tanto
como eu, abraça-o.
—«Se me dá licença, com que prazer o farei, João!
Foi com verdadeira ternura que os dois se abraçaram, como se o amôr de
Isabella os tivesse ligado pelos mesmos laços affectuosos.
É que João tinha realisado com ella o ideal do casamento, que precisa,
para dar a felicidade ansiosamente procurada pelo homem e pela mulher,
que o acaso de uma sympathia physica ou de um calculo grosseiro
passageiramente ligou, que os dois se completem sem se absorverem, que as
almas se transmittam mutuamente o seu sentir e o seu querer, sem que o
espirito e a iniciativa propria sejam absorvidas, para que o fraco se não
torne o martyr da vontade do mais forte.
Pouco depois, na sala de jantar de uso intimo onde a Viscondessa mandara
servir, já senhora de si, n’aquelle bem estar e quasi alegria que se
apodera logicamente dos que, cançados de ver soffrer, saem por momentos
de junto dos doentes, conversava, contava coisas, procurava mesmo mostrar
a sua graça um pouco mordente.
—«Ganhei muito dinheiro no Brazil—dizia—mas emquanto a fortuna me enchia
os cofres de dinheiro suado por milhares de desgraçados, que existem para
o unico prazer dos felizes, eu não philosophava sobre estas pequenas
bagatellas sociaes, claro! Sonhava, como todo o brazileiro que se presa
de civilisado, em voltar á Europa, em habitar Paris. Paris, minha
Bellasinha—dizia descascando com subtil delicadeza uma laranja doirada,
que lhe pôs galantemente no prato—é a segunda patria de todo o brazileiro
que se honra. Portugal é a terra de gallegos, embora seja o dos nossos
paes, embora seja a mais bella, embora seja o paiz que mais nos ama como
irmãos, embora o Brazil seja ainda para o portuguez a velha terra amada,
refugio de Portugal, onde se vive e fica como se nossa fosse, não a
defraudando como colonisadores vulgares que, fortunas feitas, ala para
suas casas! com a riqueza das terras que lhes deram asylo.
—«Ó papá, mas tu devias escrever isso, que é realmente justo, talvez se
podesse fazer alguma coisa...—respondeu Bella sempre sincera, sempre
misturando o idealismo com a prática.
—«Escrever para quê?! Cuidas que se convencem povos com livros?...
demais, que auctoridade têm os portuguezes para protestar contra a
franco-mania brazileira, se é mal que de cá lhes foi no sangue?!...
—«Pois sim, mas deve-se mostrar o mau caminho para que se emendem, cá e
lá. Amar a França, comprehende-se, porque tem virtudes e superioridadas
para isso, mas pô la acima de nós mesmos não deve ser, até por decôro
proprio.
—«Pois sim, filha, mas vae-lhes lá dizer! Ninguem te lerá, minha
encantadora ingenua! Manda-lhes romances francezes, falla-lhes de
Paris, dize-lhes coisas em nome do _cerebro do mundo civilisado_,
como ridiculamente alcunharam aquella deslumbrante cidade que mais
não tem que fazer senão pensar a sério em alguma coisa!... Falla-lhes
d’esse Paris que se diverte e que todos por lá adoramos, e que não é o
verdadeiro Paris, não é o que trabalha e pensa, não é a capital da França
intellectual e superior, mas o Paris galante que se prostitue como mulher
facil, o Paris que nos dá nos seus livros o requinte da desmoralisação
elegante, o Paris emfim que adoram os estrangeiros, como eu, que lá vivi
annos inconfessaveis de prazer illegal.
—«E durante esses annos era uma vez uma filha, não pensaste mais em
mim!... Que terrivel corruptora é na verdade essa Paris!...
—«Não te riás, querida. Eu pensava em ti, pensava até muito... Confesso
que não era sempre, vá lá... mas julguei-te por muito tempo em
Inglaterra, feita uma bôa e forte miss tratada a bifes em sangue, serena,
alegre sem enthusiasmo, flirtando como quem desempenha um sacerdocio;
tal qual como as innumeras _misses_ que na minha vida tenho encontrado
pelo mundo, jogando o _tennys_ ou subindo montanhas, dançando ou lendo
ingenuas novellas, montando a cavallo ou trabalhando, com o mesmo
chapelinho _cannotier_ ou boina de exploradoras, o mesmo cinto, os mesmos
_yesses_. Confesso-te que pensando em ti talqualmente, um certo frio de
_douche_ aplacava os meus enthusiasmos paternaes.
—«Repara que me insultas, papá, nos meus fóros de inglêsa, que
exactamente tem usado todos esses horrores—reprehendeu fingindo-se
indignada.
João ria francamente da descripção caricatural, e a propria Viscondessa
franzira os labios n’um meio sorriso.
Vendo-se applaudido, Pedro d’Avellar excedia-se a si mesmo em graça
esfusiante, tendo, como muita gente de espirito, a inferioridade de o
querer ter sempre, fazendo d’isso a sua obrigação social.
—«Ora tu não passas de uma inglêsa falsificada. Soubeste tirar da tua
ascendencia britannica todas as vantagens e despresaste os ridiculos...
—«Obrigada pelo comprimento, papásinho!
—«Não tinha reparado que o era, e não quero que por isso te enchas de
vaidade, aliás teria que me haver com a indignação de teu marido...
—«Oh! ella é incapaz de ter mais...—troçou João.
—«Então não me desacredita este homem!... deixa estar que te heide
castigar!
—«Vê lá! não sejas rigorosa, que vaes contrariar as tuas theorias...
—«Ó Maria Helena tu não me defendes deste bloqueio de ironias?
—«O melhor é bater em retirada perante a força numerica.
—«É prudente o conselho. Continúa então a tua historia, papá, julgando me
_inglêsa vulgaris de Lynneu_; não me procuraste mais...
—«Enganas-te. Um dia resolutamente embarquei para Inglaterra a procurar
o tio Burns, que é como quem diz procurar-te a ti, salvo as differenças.
E o que imaginas tu que me disseram por lá os importantes _gentlemen_
inquiridos, estendendo os beiços em prolongados oh, oh!? que o tio
viajava comtigo por paizes exoticos e constava até residir agora na
Africa. Á volta de tão desconsoladora viagem julguei-te perdida para
sempre, porque vá lá um homem imaginar em que parte do mundo, em que
paiz de barbaros vive um inglês que procura commoções que lhe afugentem
o _spleen_, e regiões ineditas para uma joven _miss_ que conhece o globo
como qualquer conhece a sua terra? Foi então que encontrei em Paris o
Visconde. Não me conheceu sob a encadernação nova de _brazileiro_ a
valer, e acreditou nas minhas antigas e frequentes viagens a Portugal
onde conhecia tudo. Mas como fugia de fallar na patria, poude apenas
apurar que era este o paiz exotico onde o tio Burns te tinhas vindo
esconder.
—«Pobre tio William, elle que nunca teve desejo de me contrariar em coisa
alguma!... És injusto para elle, papá, tão bom, tão honrado!
—«Injusto?! Não sou, tenho por elle a maior consideração. E, no entanto,
foi a sua feroz honradez que me precipitou no abysmo em que te perdi,
Bella—respondeu com amargura.
—«Elle que te perdeu!? Não creio, é incapaz de fazer mal a ninguem.
—«Se me tivesse respondido com o auxilio a uma carta supplicante que
lhe escrevi antes de irremediavelmente perdido, tinha-me salvo. Tenho
um medo atroz aos homens ricos e intransigentemente honrados porque não
comprehendem as necessidades alheias e chegam a ser crueis, como elle foi.
—«Quem sabe se não acreditou na extremidade em que lhe escreveste, papá?!
Não o julgues pelas apparencias...
—«Emfim, aconteceu o que tinha de acontecer e não lhe quero mal, basta
ter feito de ti o que és.
—«Talvez nem recebesse a tua carta.
—«Está bem, não fallemos mais n’isso; precisamos fallar do presente,
deixemos o passado ao passado—e continuou no tom ligeiro do
costume.—Quando soube pelo Visconde que tu vivias em Portugal, pensei
em voltar a Lisboa, fazer barulho de honradez, pagar as dividas e
rehabilitar-me legalmente. Isto para te poder rehaver e contar com o teu
affecto, que a rehabilitação aos olhos da sociedade é-me completamente
indifferente. As dividas que me pesavam na consciencia eram as que tinha
a bôa gente honesta que me entregára o seu dinheiro confiando-me a sua
fortuna por confiarem em mim. A esses, que não eram muitos, nem dos mais
altamente collocados, já mandei entregar os seus créditos acrescentados
com os juros. Os outros que me entregaram os seus capitaes na crença de
que a minha habilidade lhes traria lucros fabulosos, não me preoccupam.
Foi a sua cumplicidade que me atirou para essa vida de desperdicios e
loucuras em que tudo é justo se trouxer dinheiro; foi a sua ambição
que tentou a minha e foram elles os que depois de me verem atrapalhado
me saltaram em cima para que me afogasse mais depressa, foram os que,
maledicentes e vis, publicaram a minha infamia, não vendo que publicavam
a propria—porque homens como eu só podem existir quando existem creaturas
como elles. Por isso, não me preoccupei nunca com taes crédores, nem
sinto remorso absolutamente nenhum pelas suas perdas... No entanto,
far-se-ha o que teu tio exigir para que eu possa viver junto de vós.
Um silencio pesado, apenas interrompido pelo serviço leve do criado que
trazia o café e os licores, succedeu a esta conversa.
Bruscamente a porta abriu-se e Rosalina, a cria da deconfiança da
Viscondessa, entrou, pallida e assustada, dizendo que o visconde morrera.
—«Com certeza tinha morrido—explicava atabalhoadamente—porque se
levantára da cama, atirara fora as travesseiras e puzera-se em pé no meio
do quarto. Depois, sósinho, affastando os que o queriam ajudar, fôra
metter se na cama e deitara-se de costas, muito direito, como até ahi não
podera ainda fazer. Parecia já morto...
Levantaram-se e correram ao quarto, mas tudo tinha já voltado ao
relativo socego de uma camara de moribundo, onde, se pode dizer, os
minutos estão contados pelos gemidos.
A noite passou, e com ella os dias, porque a doença caminhava lentamente,
o estomago desfazia se em veneno, n’aquelle vomito negro e sanguineo que
momentaneamente allivia os padecentes; mas não tinha chegado ainda o fim.
O Ramalho provocava-lhe esse allivio momentaneo lavando-lhe o estomago
com infinita delicadeza, na sua grande piedade pela dôr, soffrendo da
impotencia a sciencia perante certos males que torturam a humanidade,
levando-a fatalmente á morte, e contra os quaes esbarram e sabe Deus se
deixarão algum dia de esbarrar, todo o saber e bôa vontade do medico.
Bella e João tinham fallado ao tio em Pedro d’Avellar, e, apesar de todo
o seu passado de impolluta honradez, do seu puritanismo quasi cruel,
tanta era a confiança no julgamento dos dois, que o velho inglez delegou
nas suas mãos a solução do caso.
Quem sabe quantas vezes não teria o honrado velho lamentado o rigorismo
que julga os outros pelo proprio caracter e não admitte as attenuantes
das circumstancias, da educação, da hereditariedade, e as proprias
differenças ethnographicas do meio em que nasceu e viveu o delinquente?
Psycologo profundo, habituára-se a desculpar o pae observando em Bella,
melhorados é certo pela educação e pela alta concepção do bem que herdara
da mãe, os mesmos caracteres differenciaes que os tinham affastado
primeiro, depois feito despresar o sobrinho.
O que n’um individuo lhe parecera defeitos imperdoaveis podera vê-los
reviver no outro tornados virtudes.
Bella, feita arbitra da questão que mais de perto a tocava, foi de
opinião que o pae se não rehabilitasse. «Para quê—dizia ella—se não é
o respeito pessoal pela sociedade que o leva a isso e tão sómente o
egoismo? Para que entregar esse dinheiro, ganho por um trabalho que nada
lhes devia, e que iria ser esbanjado, como dinheiro de jogo, inutil ou
criminosamente?
Respondendo á Viscondessa, que se inclinava pela rehabilitação, Bella
opinava ainda:
—«É um preconceito, Maria Helena, e é preciso revoltarmo-nos contra
elles. Não sou eu hoje exactamente o que seria amanhã se meu pae fosse
proclamado a mais illibada das creaturas? O facto deu-se e a nossos
olhos, de todos os que tenham consciencia, tem a sua desculpa logica. O
que poderá ganhar a humanidade, com o dinheiro entregue a quem d’elle só
tirará motivo de inutil goso, em existencias perfeitamente parasitarias,
aos cumplices de todo o mal que o victimou?...
—«E aos que mais severamente me julgaram e abocanharam o meu nome,
dize...—respondeu o pae.
—«E o que vale a honra que se compra a dinheiro, querida?
—«A Bella tem razão, prima—terminou João.—É preciso que se faça d’esse
sentimento que nobilita o homem uma ideia mais alta. E é para uma nova
maneira, mais humana, mais justa, e menos monetaria, de a comprehender,
que é preciso dirigir a humanidade.
—«A fortuna que o papá arranjou e com a qual poderia comprar a immaculada
honradez, sujeitando-se a uma romantica rehabilitação, melhor poderia ser
utilisada na obra de regeneração que nós intentamos.
—«Ah! Já sei, vocês querem fazer de mim uma edição barata do _Lucas_, do
_Trabalho_?
—«Não te rias, papá; então não te interessas pela obra que visitaste com
tanto gosto, dando conselhos e propondo modificações tão justas, e para a
qual offereceste já todo o teu appoio?!...
—«Não te zangues, Bellasinha, é que ainda me não me habituei a ser um
homem sério, um _representativo_ util á humanidade.
—«Tu dizes isso, mas eu bem sei que és bom, muito bom mesmo, e que a
tua alma habituada ao riso escarninho tambem conhece as lagrimas... Não
é verdade que hoje choravas com o nosso Pedrito ao colo quando elle
disse—pela primeira vez para ti: _abô_?!...—E apertou-lhe a cabeça entre
as mãos dando-lhe um beijo na testa, emquanto elle sorrindo de satisfação
intima respondia:
—«Não me desacredites fazendo-me passar por sentimental choramingas.
—«Não, só o que quero é que sejas sincero e que não queiras passar por
peor do que és. Soffres do vicio da sociedade que se compõe de tantos
Tartufos do bem como do mal... O teu luxo de espirito é mostrar-te peor
do que és, confessa.
—«Tens razão. Á força de viver comvosco heide modificar-me e tenho
esperança de que terei ainda no futuro a mesma crença que os anima, de
que a humanidade é bôa e de que é possivel agrupar-se em sociedade, dando
a todos egual quinhão de alegria e bem-estar, tendo a mentira como um
crime e despresando a hypocrisia por inutil... O vosso amôr me fará um
crente, fazendo-me comparticipante d’uma felicidade, que nunca tive.
N’essa noite o Visconde peorou. Já pouco fallava; era com os olhos
e levantando um dedo de cima das almofadas a que se agarrava com o
desespero de naufrago que se sente submergir, que manifestava o desejo de
qualquer coisa.
Indifferente, desde o principio, a tudo que o rodeava, parecia não ter
reconhecido a Viscondessa ou se a reconheceu o seu espirito já andava
muito longe para poder ligar factos que a doença lhe tinha feito recuar
até ás brumas do passado esquecido.
O que n’elle vivia ainda era a materia que se decompunha, a materia
triturada pela dôr e para o goso da qual tinha vivido a existencia
inteira.
Na alcova, João e o Ramalho procuravam socega-lo; junto da chaminé
conversavam em voz sumida Pedro d’Avellar e o Abbade; ao pé da meza onde
tinham collocado a lamparina, Isabella e a Viscondessa trocavam a meia
voz algumas palavras. De quando em quando, o doente, que já não tolerava
a posição horizontal, passava pelo somno com a fronte apoiada á rima
de travesseiras que lhe aguentavam o corpo; então calavam-se todos,
obedecendo ao gesto de Bernardo que, fielmente, como animal inferior que
não julga o dôno, se conservava aos pés da cama attento ao menor gesto,
ao mais leve volver d’olhos angustiados.
—«Por vezes, contrastando com esse silencio como uma gargalhada n’um
enterro, vinha d’uma sala proxima o retinir alegre do relogio doirado em
que um velho _Tempo_ marcava horas e quartos, batendo com um martelinho
de oiro no timbre de prata, e mais triste se fazia esse velar sem
esperança á cabeceira de um moribundo, que se vê soffrer na impotencia de
lhe dar allivio, a não ser na morte, no irremediavel da morte, contraste
da vida e sua logica successão e ao qual o espirito orgulhoso do homem
procurou sempre fugir, senão materialmente porque a materia não admitte
illusões, ao menos pela revolta do espirito creando a immortalidade para
elle.
Uma dôr mais intoleravel acordava o Visconde d’essa rapida somnolencia, e
com o soffrimento voltava um pouco de vida ao quarto em sombra.
—«Como elle soffre!—murmurou a Viscondessa.
—«Ainda o amas?
—«Não, creio bem que não, mas tenho dó d’elle, não o queria ver soffrer
assim, é horrivel!
—«Vem d’ahi. O que ganhas em estar sob a pressão d’esta longa tortura?
—«Não, parece-me que estando eu aqui não morrerá tão depressa...
—«Que tolice! Para que queres que elle viva?
—«Sei lá!... É uma loucura, mas ainda penso que ha esperança...
—«Ora, Maria Helena, isso não é teu. Não sabes o que é um cancro, não
sabes que o que alli está já pouco é mais do que podridão de cadaver?...
—«Sim, sei isso tudo, mas não posso ter essa visão clara e sem illusões
nem esperanças que tu tens...
Passados instantes, tornou a Viscondessa:
—«O que me esperará ainda depois d’isto, Bella?! minha mãe estava hoje
tão nervosa, parece que d’alguma coisa suspeita.
—«Isso sim, naturalmente é a estranhesa que lhe causa o movimento
desusado cá por baixo, talvez um pouco de sobresalto pelas tuas
frequentes ausencias.
—«Custa-me tanto representar serenidade quando estou com ella! Hontem
perguntou-me se estava alguem de fóra cá em casa.
—«E tu?
—«Disse lhe que não estava ninguem, e não foi mentira, não é verdade?
—«Mentira... não foi.—E pensou comsigo: para ti, elle não deve ser
_ninguem_ e a magua que imaginas sentir não é a da alma ferida no seu
amôr, é a piedade natural por tudo quanto é soffrer...
Uma dôr mais violenta fez o moribundo levantar-se n’uma crispação de
todos os membros e os seus olhos fixaram-se no _fauteuil_ onde já tinha
passado alguns momentos, quando a cama se lhe tornava intoleravel potro
de tortura.
O dr. Ramalho e João levantaram-no em peso e ajudados por Bernardo
assentaram-no na cadeira.
O corpo que a doença devastara e redusira a um pobre esqueleto
contorcido, procurou na mais absurda posição o descanço a que aspirava;
a cabeça descahiu-lhe para traz indo encontrar appoio sobre uma commoda
_Boule_ em que o Bernardo se apressara a collocar uma almofada, o tronco
torcia-se e as pernas ficavam direitas, cobertas _d’edredons_ e mantas.
Então começou o estertor, um rouquejar ansiante que já não era de vida,
a bocca aberta, os olhos fixos, os dedos enclavinhando se em movimentos
nervosos e inconscientes, o rosto macerado onde os beiços se arroxeavam,
de um amarello de palha tão accentuado, que mais parecia mascara de morto
modelada em cera velha. N’aquella hora pacificada já pela inconsciencia
da morte, as linhas do seu perfil alongavam-se doloridamente, tornando-o
a reproducção fiel do quadro que na sala apresentava a ultima agonia de
um santo.
Ao primeiro grito de Bernardo todos se tinham levantado e acercado do
grupo.
—«É escusado fazer-lhe nada,—disse o medico a meia voz—já não ouve nem vê.
—«Apertou-me agora a mão—respondeu o criado soluçante.
—«São contracções musculares independentes da vontade. Felizmente já não
soffre.
O estertor prolongou-se até á madrugada, depois fechou os olhos e cahiu
em modorra só cortada pelo arfar espacejado. Apesar da certeza de que não
via nem ouvia andava-se de vagar no quarto, fallava-se a meia voz como se
o ruido da vida ainda pudesse incommodar aquelle quasi cadaver, tornado
motivo de curiosa piedade para todos.
Maria Helena pensava em toda a sua vida sacrificada por elle, na sua
propria mocidade agonisante, como elle, na pavorosa lucta do coração que
aspira pela vida, fechado n’um corpo que se vê envelhecer... Para ella
tambem já não havia mais nada, dizia-lhe a razão; mas qualquer coisa
muito adentro da sua alma se revoltava e lhe fazia antever a esperança de
que a vida lhe daria ainda a porção de alegrias a que tinha direito, e
das quaes, avaramente, lhe regateara pequenas migalhas...
Quando o sol entrava já pela janella mal fechada, pondo raios d’oiro em
todas as frinchas por onde se escapava, João abriu as portas e o quarto
inundou-se de luz, uma alegria radiosa de manhã de inverno fazendo da
mais leve poeira um luminoso cantico á vida.
E foi na gloria de um sol triumphante, creador, purificador e bom, que a
vida deixou de alimentar esse corpo de homem que tantos odios e paixões
levantára, que tantas ambições servira e que apenas deixava aos corações
que o rodeavam, mais ou menos feridos pelo seu egoismo, a vulgar piedade
que se tem por todo o soffrimento physico.