Querida Isabella

Como se passaram quinze dias desde que me deixaste, não sei!...

Sei apenas que te escrevo hoje num destes momentos de profundo

quietismo que a vida nos traz após as maiores desgraças.

Desgraças?!... que eu não posso bem chamar assim ao facto

succedido hoje, com a mais _elegante_ simplicidade, e que, ao

receberes esta, já não será novidade para vocês porque todos os

jornaes fallam n’elle,—a fuga da Candida e do Duarte.

Qual o motivo que os levou a este escandalo, não sei, posso

apenas dizer-te que ainda hontem estivemos em S. Carlos, que

ella me beijou affectuosamente á despedida e que o Duarte me

acompanhou a casa. Depois... partiram no expresso para Paris,

ao que dizem.

Sinto-me enojada de tanta baixesa de caracter e de tanta

hypocrisia! Enojada, e vexada tambem, um pouco, pelo papel

ridiculo que me obrigaram a desempenhar em toda essa vergonhosa

intriga. Nunca o Duarte tinha descido a impôr-me as suas

amantes para amigas intimas—faltava-me essa vulgar consagração

mundana!... É de morrer a rir, e a chorar.

Agora comprehendo tudo, os sorrisos que acolhiam os meus

elogios á Candida, as phrases com dois sentidos da baroneza, as

palavras trocadas a meia voz, até a tua má vontade para ella e

a raiva do João, o vosso aborrecimento súbito e que tão poucos

dias os conservou aqui, tudo eu comprehendo e tudo eu vejo

agora!...

Tu sabes melhor do que ninguem o que tem sido a minha vida;

conheces-me, pois tens a minha alma, palpitante de soffrimento,

agasalhada no teu coração de verdadeira e unica amiga. É

portanto escusado vir com rodeios. Demais isto é um facto

consumado, uma coisa indiscutivel:—meu marido fugiu para França

com _umadas minhas amigas intimas_. Eis a singela e fatal

verdade.

E eu não encontro, Isabella, no fundo da minha alma, nada,

absolutamente nada, que me faca soffrer d’este abandono.

Orgulho, parece que já o não tenho! Offensa da mulher, que

veio a minha casa, que me beijou, que era a primeira a dizer

mal d’elle—quando eu nada me importava de procurar saber

a sua vida intima—confesso-te, querida, que não chego a

recebê-la. Despreso-a e lamento-a; desculpa-la-hia talvez, se

fosse sincera no seu affecto; mas não é, não! Uma _coquette_

vulgar que vae seguindo o seu capricho ou—o que é peor—a sua

ambição. Não me offendeu, porque eu vivo como estranha n’esta

sociedade convencional. Conheço demasiadamente _este mundo_

para que me prenda nas suas redes de hypocrisias. Vim do

conchêgo dulcissimo da minha familia patriarchal para este meio

desmanchado e futil, que só me deu amarguras em paga do que

lhe trouxe—o meu coração virginal, a minha alma ingenuamente

enthusiasta, a minha mocidade ingenua.

Ninguem sentira como eu a vida assim vasia, assim desconsolada,

assim inutil! Viver não é nenhum bem para mim, a morte tambem

nada me diz... Que posso encontrar na cóva?—A eterna paz do não

ser, o somno do esquecimento dos outros e de mim mesma...—Isso

encontrei na vida. Nada me interessa, senão apparentemente, e

a ninguem interesso senão a ti, oh minha dôce amiga, e á pobre

velhinha que é minha mãe! Olha, o que eu não tenho podido

soffrer com este escandalo, em que o meu nome será murmurado

entre sorrisos escarninhos e lamentos falsos, como falso é tudo

isto, tem ella soffrido, a desgraçadinha! Adoeceu de mágua e de

surprehendida, porque não sabia as relações em que eu estava

com o Duarte. Tu só, querida Bella, foste a minha confidente

das horas amarguradas de lucta e revolta, tu só presenciaste

e ungiste com o balsamo consolador da amizade as feridas

sangrentas do meu coração; por isso, minha filha, só a ti sei

confiar a minha alma em farrapos. Se eu podia ter dito á minha

pobre mãe o inferno de soffrimentos em que vivi?!... Para ella

soffrer mais ainda:—que o coração das mães soffre duplamente as

amarguras dos filhos!

Foi isto unicamente o que hoje me affligiu. Se elle me tivesse

dito que me queria deixar para ir com a minha _amiga_ eu, crê,

ter-lhe-hia dito:

—«Vae! Que me importa isso? Com essa ou com outra é-me

indifferente, mas despede-te de minha mãe, da pobre senhora

tão velhinha e doente que morrerá d’um primeiro desgosto. Tem

dó d’ella—ao menos tem esse sentimento bom—ajuda-me na mentira

santa em que a tenho deixado viver socegada.»

Oh! se elle tivesse feito isto, de joelhos lhe beijaria as

mãos, agradecida o cobriria de bençãos. Mas não, nenhuma

delicadeza, nenhuma bondade, n’aquella alma egoista.

Avalia o que eu soffri com a scena que hoje se passou!

Á hora do almoço o Duarte não appareceu, mas isso era tão

vulgar que eu nem perguntei por elle ao criado respondendo á

minha mãe: «Teve que fazer e sahiu mais cedo naturalmente»...

Mas o Bernardo adiantando-se:—«Se V. Ex.ᵃ me dá licença

direi que o Sr. Visconde mandou o José arranjar as malas

e encarregou-me de dizer a V.ᵃˢ Ex.ᵃˢ que partia para o

estrangeiro.»

Imaginas bem como eu fiquei pelo sobresalto em que vi a minha

mãe! Ante o meu olhar de censura o pobre Bernardo, coitado,

daria tudo por não ter dito tal coisa, mas era muito tarde!

Tentei ainda convencê-la de que sabia d’aquella viagem, que

tinha sido combinada commigo, mas quê?! Os jornaes deram logo

a noticia tão transparentemente velada que tudo foi inutil.

Coitadinha! Se a ouvisses dizer-me:

—«Eras então infeliz e nada dizias, filhinha?!...

Foi uma censura e um agradecimento, que ella bem percebeu a

minha delicada intenção. Não poude mais!—As lagrimas que ha

tantos annos lhe escondia vieram todas juntas cahir-lhe no

coração de mãe amantissima.

O que foram esses momentos não tentarei descrever-te.

Sente-os tu com o teu coração de mulher—que o sentimento tão

amoravelmente maternisa. Depois d’isto, compôz a phisionomia

para apparecer _com dignidade_ ás _amigas_ presurosas

que vieram, sob variados e engenhosos pretextos, buscar

assumpto para entreter a sociedade... Estive quasi tentada

a dizer que não recebia, que me deixassem para sempre; mas

a mamã aconselhou, pediu-me quasi, para que respeitasse as

conveniencias. _Oh, as conveniencias!_... Como as despreso e me

importam pouco, e como tenho sido escrava d’ellas!

Logo á noite consegui fazer recolher á cama a minha adorada

mãesinha, que o seu organismo abalado por tantos desgostos e

doenças já não podia mais.

Achei-lhe febre e mandei chamar o medico. Sahiu agora mesmo

depois de lhe dar um calmante, que a adormeceu no mais infantil

dos somnos. Que delicia dormir assim! Como o seu pobre rosto

serenado sorri santamente! E hei-de vê-la acordar amanhã, para

soffrer?... Oh Isabella, Isabella, que não sei o que deseje!...

A minha pobre cabeça perde-se de todo n’este inferno de

dúvidas e sobresaltos. E como não posso dormir, venho repartir

comtigo as minhas lagrimas, que a tua amizade tomaria como

indigno egoismo, se as guardasse todas para mim, não é

verdade? No silencio da casa adormecida sinto-me mais só,

mais abandonada que nunca, e por isso encontro ainda algum

consolo em conversar com o unico espirito meu irmão. Recordo

com infinita ternura as horas de paz que a tua amizade me

tem dado. Lembras-te da primeira vez que nos encontrámos?

Parece que te estou a vêr: muito fina, d’uma elegancia um

pouco infantil, um sorriso de bondade divina na tua bocca

graciosa. Convalescias d’uma perigosa doença e eu arrastava

os desesperos da minha felicidade _manquée_. Só uma doente de

corpo e uma doente d’alma iriam procurar a solidão religiosa

da natureza, por aquelle principio de primavera, no Bussaco,

quasi inverno ainda! Talhadas uma para a outra, as nossas

almas reconheceram-se logo. Os mesmos passeios, as mesmas

predilecções pelos largos horizontes, os mesmos embevecimentos

pantheistas deante da natureza. Já nos tinhamos encontrado

tanta vez na Cruz-alta, procurando o mar no poente longinquo

e querendo vê-lo na rosea claridade do céo... no Calvario, na

Memoria, recordando tempos passados, admirando a gravidade

pachorrenta da sentinella, divagando pelas ruas cheias de

sombra por todo esse cantinho paradisiaco, mais bello ainda

na solidão de thebaida em que o encontravamos. A nossa

conversa primeira tida alli na Fonte-fria, ao compasso da agua

murmurante, sob a cópa das arvores seculares, foi intima e

confiada como se nos conhecessemos desde o berço. Sob a reserva

das minhas maneiras, que fundo de ingenuidade encontraste! Na

infantilidade dos teus risos, que bom senso e conhecimento da

vida tu já tinhas! Bem se podia prever a equilibrada e corajosa

mulhersinha que soube fazer da sua casa um verdadeiro refugio

d’almas, que da fortuna que tão felizmente lhe cahiu nas mãos

fez uma salutar obra de progresso, de combate pela justiça.

Querida, querida Isabella, recordar as lagrimas que me viste

chorar durante aquella consoladora convivencia de mezes, é

quasi um prazer. Então ainda eu soffria, então ainda vivia.

Hoje... é isto que vês.

Lembro-me agora, com uma nitidez desesperante, das tuas

palavras sensatas quando se fallava em divorcio:—Para quê?...

Em Portugal não ha divorcio; apenas temos o desquite, que é

a prisão maior para as mulheres. Não vale a pena ir contra a

opinião geral que condemna a mulher separada do marido, para

tão pequeno resultado.

Como a opinião dos indifferentes me importava pouco, lembravas

me então a minha familia, a minha mãe. A minha mãe!... Por

ella consenti em ficar amarrada de pés e mãos a esta situação

quasi infame para mim. E queres saber? N’esse tempo ainda ella

poderia supportar o golpe, agora... não sei o que se dará.

Tremo pela sua vida tão abalada!

Não me queixo de ti, minha joia, podias porventura imaginar

que seria _elle_ o primeiro a despedaçar escandalosamente as

cadeias, que só foram pesadas para mim?

Que estupido destino o meu! Aos desesete annos, cheia de

enthusiasmos e de infantis curiosidades, deixo-me convencer que

era amôr o que sentia por meu primo. Amôr egual ao que elle me

confessava em phrases, que eu então imaginava só ditas para

mim, santas como o seu affecto.

Um bello casamento o nosso—fortunas eguaes, familias eguaes,

paixão, alegrias, festas, nada faltou!

Mas que profunda differença entre esse rapaz vaidoso, futil,

sempre morto por se divertir, com um fundo de egoismo e de

hypocrisia atroz; e a rapariga cheia de sonhos, amante e

infantilmente crédula que eu então era! E tudo lhe perdoava,

tudo n’elle me parecia toleravel, porque o amava e o julguei

sincero. Enganou-me como se pode enganar uma criança de seis

annos, até que o acaso se encarregou de me abrir os olhos á

verdade brutalissima da vida. Em tantos annos de casada não

houve um só dia em que eu desconfiasse da lealdade do seu

caracter, e não houve um só dia em que elle me não enganasse

vergonhosamente. Depois de saber isto estava mulher, uma

passiva ter-se-hia resignado, algumas fariam o mesmo que elle,

outras ainda encontrariam nas vaidades mundanas a phylosophia

cinica a que usam chamar _savoir vivre_. Eu, era uma selvagem,

não me resignei, e fugi como um animal ferido para a solidão

magnifica da natureza, resolvida a tudo acabar pela separação.

Encontrei a tua amizade santa e ella me obrigou a comprehender

a vida e a resignar-me na apparencia. Os teus poucos annos

de rapariga educada no mundo e para viver no mundo souberam

aconselhar a mulher que apenas tinha vivido pela alma.

Disseste-me que fingisse—fingi! Que ninguem devia vêr as minhas

lagrimas—e ninguem as viu senão tu. Mas que friesa tumular

foi a nossa vida desde então! O capricho que lhe inspirei

esvaira-se, como fumo, n’aquella alma inconstante. O sincero

affecto que eu lhe dedicara tinha morrido sem que eu soubesse

como. O que então mais soffria em mim era o que já não tenho

hoje—o orgulho, a vaidade de mulher nova e bonita.

Que vida a minha! Se eu tivesse um filho—a suprema aspiração da

minha alma—então teria ainda esperança de ser feliz, assim!...

Mas se o tivesse, que dôr eu sentiria vendo-o despresar seu

pae, porque o despresaria decerto, e nada se pareceria com

elle. Desgraçado, não lhe tenho nenhum odio. Odio só tenho á

sociedade que me liga eternamente a um homem que me despreza

e a quem egualmente despreso. Só isso me faz ainda vibrar os

nervos n’uma revolta! Has-de perguntar para que queria eu a

liberdade dada pela lei, visto que já nada espero do mundo?...

Não sei. Era livre, ao menos, não tinha o meu nome ligado ao

d’elle—já era alguma coisa!

Olha, Isabella, quando criança sonhei uma vez que ia por uma

estrada cheia de sol e poeira. Caminhava, caminhava n’um

desconsolo de cansaço e solidão. Muita gente passava por

mim e corria para a frente empurrando-me e deixando-me cada

vez mais desconsolada. Os campos em volta eram d’uma aridez

desolante—nem um pedaço de paisagem verde, nem uma sombra onde

podesse descançar os olhos mortificados. No fim de tanto andar,

que os pés em sangue já se recusavam a continuar a marcha,

encontrei a sombra rachitica d’uma arvore, cahi extenuada e

alli fiquei sem pensar em mais nada. Das pessôas que tinha

visto, muitas voltavam abatidas e tristes, outras corriam ainda

para a frente, lindas de esperança e alegria.

Vendo-me tão abandonada, os conhecidos chamavam-me, os outros

olhavam-me lamentosos, e eu, indifferente a uns e a outros,

não me levantava, cançada para sempre d’esse caminho árido.

Levantar-me, para quê?

A traz sabia eu que nada havia bom, para a frente não tinha

coragem de procurar saber.

A minha vida é isto, Bella: fecho os olhos e deixo-me adormecer

na desgraça—que me falta a coragem para procurar existencia

melhor.

Não sei se comprehenderás esta carta, que não tenho coragem de

reler. Vae n’ella toda a minha alma ansiante acolher-se ao teu

coração honesto. Dize-me que vivo, que eu já não sei o que isso

é!

Adeus. Lembra-te sempre da tua:

_Maria Helena_.

_P. S._—Esta carta escripta hontem vae tal qual a senti e a

penna a traçou; não a rasgarei para te dar mais uma prova de

quanto confio no teu affecto. A mamã está mais socegada e

com a sua saude volta-me a coragem e o sangue frio para ver

claramente a situação que meu marido me deixou.

Vou aproveitar definitivamente a liberdade que me dá. É quasi

um allivio, depois de tantos annos de servidão. O dr. Ramalho

acaba de sahir d’aqui e affiançou-me que em tres dias a mamã

poderá acompanhar-me. Sahiremos então desta casa que é d’elles

e que devo deixar sem a mais leve saudade... Sem saudades?...

Não sei que têm estas coisas inanimadas que nos rodeiam para

assim nos custar a separação, mesmo quando apenas foram

testemunhas de maguas... Do que é seu fará o que entender;

o que nós temos chega para a nossa sustentação mais do que

modesta. Sinto-me tão serena que já me parece que sou feliz. O

que me aconselhas que faça? Espero a tua resposta para sahir

d’aqui.

Abraça o João e recebe muitos beijos da tua do coração:

_Maria_

A entrada sobresaltada de João, com os jornaes onde lêra o escandalo da

_alta roda_ bem claramente expresso por iniciaes e certas indicações,

arrancou Isabella ao absorto meditar em que a carta a fizera cahir.

Não que a surprehendesse ou interessasse a fuga do Visconde e da Candida,

realisadas com a mais moderna e despoetisada simplicidade, á sahida de

um espectaculo, onde a mulher cumprimentára affectuosamente a amante,

entrando para um commodo expresso que os affastava de um meio mesquinho

que mal correspondia aos seus gostos e desejos de goso, para os levar a

uma civilisação requintada, vivendo luxuosamente no vicio de que fez

um sacerdocio, esbanjando dinheiro, actividades e energias vitaes no

desesperado empenho de usufruir a existencia intensamente, como quem não

pode dispôr do incerto dia de amanhã. Era um destes casos do dia que

apenas despertam o interesse pela evidencia os nomes que desempenham os

principaes papeis e que fazem convergir para uma determinada e minima

parte da sociedade a attenção de todos, despertando risos, odios,

despreso ou pena, conforme o temperamento e a orientação de cada um. O

que lhe feria o espirito, o que a entristecia, era essa carta que lhe

ficára aberta nas mãos trémulas, sangrenta de sinceridade, eloquente na

sua acusação, como um grito de victima esmagada sob as rodas triumphaes

do carro doirado donde os preconceitos sociaes dictam as suas leis.

Arrependia-se de ter aconselhado a amiga á inerte resignação, que é uma

transigencia; arrependia-se de a não ter mesmo incitado a despresar toda

a hypocrita consideração mundana e tornar-se sinceramente o que os seus

nervos e o seu lucido criterio lhe diziam que fosse—uma revoltada.

Os annos que Maria Helena levára na paciente resignação de uma voluntaria

sacrificada, pesavam-lhe como um crime proprio; porque Isabella, como

todos os conscientes, caminhava das trevas para a luz com segurança,

despresando hoje o que hontem ainda a amedrontava, vendo a pequenez

das coisas que a maioria respeita, demolindo no seu proprio espirito

os idolos sociaes e criando novos ideaes de justiça, de bondade e de

obrigações para com os outros e para com a propria existencia que não

temos direito de sacrificar á dôr, por conveniencias de egoismo alheio.

—«O que se ha de fazer?—perguntou João, depois de ler a carta, acostumado

a encontrar na mulher o primeiro conselho que orienta e vence o

sobresalto, dispondo-nos á lucta.

—«Acho que devemos mandar um telegramma a prevenir a Maria Helena de que

partimos no primeiro comboio, para a trazermos para a sua casa. É onde

ficará melhor.

—«Mando já o telegramma, mas a prevenir só da minha ida; tu não vaes,

queridinha, tenho medo por ti e pela chegada do nosso pequenino hospede.

—«Estou em cuidado na Maria Helena, que nunca se viu só a tratar dos seus

negocios.

—«Descança em mim, verás que mereço a tua confiança, minha vaidosa.

Ella sorriu ao sorriso d’elle, erguendo a cabeça, que apenas lhe chegava

ao hombro, para receber na bocca o beijo que lhe offerecia amorosamente.

O sol entrava pela porta de vidros que descia para o jardim, onde as

rosas se abriam á primeira caricia da primavera, e nimbava-os de luz

n’uma transfiguração milagrosa de vida.

Fôra alli, n’aquelle mesmo quarto, pela transparencia d’aquella mesma

janella, na impassivel cumplicidade das coisas, que a Pillar assistira,

por uma lucida noite de lua, ao desmoronar de todas as suas illusões.

Fôra d’alli que vira, com seus proprios olhos, a traição d’essa mesma

Candida que continuava, atraiçoando sempre, o seu caminho de viciosa e

ambiciosa perfidia.

Mal poderiam imaginar, olhando o bello sol primaveril que se escoava

pela folhagem das arvores cahindo em chuva d’oiro, buliçoso e alegre,

nas ruas areadas e na relva dos canteiros, que fôra exactamente n’esse

quarto, encostando-se a essa mesma janella, que o Vilhegas se consumira

na dúvida, por uma tragica e revolta noite de inverno que vergastava as

arvores desguarnecidas, sobre a causa da doença e do horror que por elle

e pela cumplice manifestára a noiva moribunda...

Ambições: Romance · 第 21 / 23 题