Como se previa, e apesar da lucta desesperada do partido maximianista a
que se tinham aggregado todos os _trunfos_ da terra, ainda n’essa lucta
eleitoral fôra o visconde o vencedor. Mas não desanimava nem afrouxava
o enthusiasmo dos vencidos, porque o governo, após as eleições e apesar
da maioria nas camaras, cahira vergonhosamente com a publicidade de uns
casos de empenhos e empregos por demais escandalosos.
Dissolvidas as camaras pelo novo gabinete, esperava-se que o governo em
dictadura marcasse data para eleições, e para ellas trabalhavam já com
affan.
Os partidarios do visconde pleiteavam, mais por honra da firma do que
pelo interesse que verdadeiramente a lucta já lhes despertava, visto que
o chefe a pouco e pouco, tambem, se tinha desinteressado da politica, não
faltando mesmo já quem affirmasse que era combinação com o Maximiano,
senão pouca vontade de gastar dinheiro... Affirmações estas tão gratuitas
quanto mostravam o desconhecimento completo do caracter do visconde, tão
incapaz de se prestar a uma traição assim grosseira como era incapaz de
vestir uma camisa manchada ou uma casaca fóra da moda; tão incapaz de
antepor o dinheiro aos seus compromissos como era incapaz de faltar a
um dever de cortezia ou de acrescentar as suas colleções com um objecto
de que não podesse authenticar a procedencia. Não obstante, era certo e
bem certo que o enthusiasmo da politica lhe passára como até alli lhe
tinham já passado muitos outros. Voluvel, apaixonado e enthusiasta, era
um d’estes caracteres que não se dão a meio e com a violencia passional
com que se entregam a um desejo ou capricho, com o mesmo arrebatamento o
abandonam sem piedade nem recordação.
Ficára, pois, deputado, como ficaria sempre emquanto o recenseamento
não fosse falsificado ou se desse um caso que não previam, pela forca
numerica dos caseiros das tres casas grandes da comarca e pela vontade
espontanea do povo da villa que mais lhe queria, apezar de todos os seus
defeitos, do que ao Maximiano, que não tinha pretensões nem desejos
ambiciosos a realisar-lhes. A noticia de ter vencido recebeu-a com a
mesma risonha indifferença com que receberia a da derrota.
Outro era agora o seu empenho, outra a sua ambição e cuidado.
Como o inverno se passára assim na villa decorria o verão, que esse anno
não chegou a ter o bulicio e o animado convivio dos precedentes.
Ao conselheiro, agora no partido governamental, não convinha affastar-se
muito das altas regiões onde se jogam os interesses politicos; era
occasião de acceitar o pretexto que a mulher francamente lhe fornecia
com o seu odio confessado á provincia em geral e muito particularmente á
terra do marido.
O Vilhegas, casado de fresco, viera apenas com a senhora, no principio
da estação, visitar os paes e irmãos de quem se fizera protector e
respeitoso amigo, seguindo a maxima do sogro: de que os parentes pobres
não se despresam—empregam-se.
E era o que ia fazendo, tendo já á sua conta uma não pequena parte de
responsabilidade pelo dinheiro esbanjado criminosamente n’este paiz.
Mandára ainda pedir licença aos Mellos para os visitarem, querendo
seguir á risca os preceitos do conselheiro que não gostava de levantar
atritos, principalmente com gente rica; mas tanto Josephina como o marido
pretextaram doença para os não receber. A maneira porque se apressára
em arranjar casamento que lhe servisse os planos ambiciosos davam-lhes
a prova de quanto eram justificadas as desconfianças de João e quasi
a certeza de que a morte da filha a causára elle mostrando d’alguma
maneira, que ainda não conheciam, que era a fortuna que elle visava
quando mostrava um tão ardente amôr.
Hortencia, durante a sua estada na villa, aborrecia-se francamente, agora
que já casada não encontrava na conversa com o marido os attrativos
picantes do galanteio, e para uma sã e honesta intimidade espiritual nem
um nem outro tinham alma nem educação. Affirmava cathegoricamente ao
Móttasinho e ao Telles e mais ás Souzas e ás Cunhas, que lhe formavam a
limitada côrte,—que se o Emygdio quizesse podia ficar; emquanto a ella,
_pas possible_... A mamã esperava-a para irem juntas para Cascaes e não
podia trocar por nenhuma a companhia da mamã, que demais a mais escolhera
a praia _chic_, onde se reune a côrte e com ella toda a _haute-gomme_...
_Cela va sans dire_...
A Candida tambem conseguira que o Braga a não obrigasse a vir alli passar
o verão, tendo demais a mais o _chalet_ em obras, que lhe não podia dar
o conforto a que estava habituada. E o visconde, a pretexto de que o ar
das montanhas não é aconselhado aos cardiacos, convenceu a viscondessa
em procurar para a mãe uma estancia onde passasse socegada os grandes
calores de julho a outubro, mais perto da casa e das commodidades da
capital.
Apenas João e Isabella se estabeleceram alli, depois de uma visita larga
a Inglaterra e d’alguns doces dias de inverno italiano passados a reverem
juntos o que ambos já conheciam e admiravam.
Mas nem um nem outro animavam a terra: «dois bichos—no dizer espevitado
das Souzas—que nem sabiam para que lhes servia o dinheiro e a educação...
Indifferentes a taes opiniões, um e outro começavam a pôr em prática
o sonho de altruismo que juntos tinham architectado. No meio da sua
grande felicidade um como pugir de remorsos lhes amargurava o espirito,
achando injusta a vida que a uns colloca tão alto, bafejados pela fortuna
em calentoso ninho, e a outros faz rastejar tão baixo pela estrada
poeirenta da miseria e da dôr.
Ha muitos, ricos como elles, que sentem no silencio das suas almas
piedosas o agrôr da comparação, e gosando do desafogo da propria vivença
não podem fechar os olhos inteiramente á pávida realidade. Mas, incapazes
de juntar a acção ao pensamento, traduzem essa piedade que os devia
tornar uteis obreiros na grandiosa obra que o futuro reclama, dando
esmolas, protegendo um ou outro, associando se á caridade farfalhuda e
acomodaticia, fazendo o que se convencionou chamar o _bem philantropico_,
e não passa de fórmula egoista para assocegar aturvados ânimos em
sobresaltos...
João e Bella intentavam pôr em prática o seu ideal humanitário, não dando
esmolas para entreter o vicio da pobreza mas educando individuos que,
conscientes do seu valor e dos seus direitos e deveres, se acerquem da
meza lauta que a natureza e a industria reservam aos que juntarem ao
esforço material de obreiros a intelligencia e a educação.
Ajudada pelo dr. Ramalho e pelo velho abbade, já Isabella tinha
organisado um rasoavel serviço de inspecção á miseria, que nas populações
ruraes é tanto ou mais desoladora do que é nas cidades. Visitados pela
doença e pela morte amiudadas vezes, curtindo fomes e frios sem alimento
nem abrigo, quasi inconscientes e irresponsaveis pela ignorancia profunda
em que se abysmam, mais do que a entes humanos se podem comparar a bravos
animaes do monte...
Adaptando provisoriamente para hospital e para escolas duas velhas
casas pertenças da familia, esperava em breve completar esses beneficios
criando officinas, instituindo a créche, juntando ao asylo-escola para
crianças, um asylo para velhos, mas governado de maneira a não fazer dos
desditosos que se obstinam em viver uma especie de revoltados contra a
propria beneficencia que os força á prisão.
Entretanto ia João pondo em execução o seu plano de um bairro operario,
com casas simples mas não desprovidas do encanto que só a arte pode dar,
bem saneadas e arejadas, com janellas e portas bem largas e com seu
jardinsinho á frente e pateo interior onde se faziam as construcções
proprias para acomodação dos animaes, que em toda a população rural fazem
parte integrante e importantissima da familia.
João, todo radical e violento, como o avô materno que não transigira
nunca com opiniões e preconceitos alheios, queria dispensar o concurso
de toda essa gente da villa, que de sobra conhecia, e entender-se só com
aquelles que devia melhorar. Mas n’isso não concordavam Isabella nem
o abbade e o próprio Ramalho, antes mais habil lhes parecia utilisar
elementos existentes para a organisação immediata de uma escola onde
rapazes e raparigas aprendessem officios e misteres que os habilitassem
a ganhar a vida no futuro. Para isso foram convidadas as pobres
_Sebastianas_, que serviriam como professoras de bordados e roupa branca,
o que fez com que a Aurora Costa, invocando a amisade da Pillar, viesse
pedir tambem um emprego—pois o pae ganhava pouco e a familia era muita.
Sabia talhar alguma coisa, se bem que nunca tivesse sido ensinada, e
fazia flores e bordados muito especiaes em cascas e aparas...
Isabella teve um sorriso de amargurada censura a tão pouco prática
educação e disse-lhe—que sim, que a utilisaria como ajudante de uma
professora de córte que mandára procurar em Lisboa, e que, mais tarde,
se essa senhora não quizesse ficar ou ensinasse outra qualquer coisa, a
Aurora, em sabendo bem, tomaria o seu logar.
—Mas—lembrava-lhe ainda—precisava d’uma senhora que a auxiliasse no
trabalho de escripturação e contas que taes emprehendimentos necessitam,
um trabalho material que não requer grandes conhecimentos e sim
escrupulosa meticulosidade e uma lettra rasoavel. Se quizesse, podia
ficar já n’esse logar.
A Aurora córou e confessou, vexada, que escrevia muito mal e que de
contas sabia pouco; piano é que tocava alguma coisinha, se fosse preciso
ensinar...
—Não,—respondeu-lhe a outra tambem vexada porque, naturalmente bondosa,
nunca fazia sentir a ninguem a sua inferioridade—piano não precisava,
porque pretendiam educar para o trabalho e para a vida, e o piano, como
qualquer outro instrumento ou arte, só se queria cultivado em pessoas de
rarissima vocação e ensinado por professores bem habilitados, aliás era
uma inutilidade. Mas experimentasse ella estudar um pouco de contas e
português e depois com a prática faria o resto.
O abbade andava radiante: aquillo sim, aquillo é que era a verdadeira
religião, que fervorosamente praticava. Mal de manhã dizia a missa
conventual, abalava para os campos a farejar desgraça, que podessem
minorar. E doente que encontrasse ou criancita a mandar para a escola,
ou mulher a reclamar cuidados de sabia hygiene, era logo apontado na
carteira, com o alvoroço de quem aponta rendoso negocio a aproveitar e
que não deve esquecer.
Práticas que fazia aos domingos todas versavam sobre a conveniencia de se
instruirem e trabalharem, que era assim que Deus queria o seu povo.—«Casa
onde não ha pão todos ralham e ninguem tem razão—dizia na sua phrase chã,
simples como a sua alma e facil de comprehender por todos os humildes
que lhe frequentavam a igreja—ora vocês trabalhando e tendo saude têm
que comer. Aos domingos, se se entretiverem a estudar um pouco, a lerem
bons livros para não ficarem uns brutos como os animaes que os servem, se
cultivarem as suas flores no quinxoso ou nos vasos da janella, que isso
não é peccado nenhum, desamparam as tabernas e não se mettem em rixas e
bulhas que não dão bom pão. Olhem vocês que o que Deus quer é a alegria e
a felicidade de nós todos; deixai dizer quem préga o contrario...
Na sua santa inconsciencia, que bem preoccupava as irmãs, deixava que
o cura se assenhoreasse a pouco e pouco das obrigações da parochia que
traziam bem estar e lucro, que as outras as ia desempenhando sempre o
velho. Era agora elle, o padre Mathias, quem dizia a missa das onze
e esperava na sachristia a passagem das senhoras que se habituavam
a encontra-lo alli para tratarem dos negocios espirituaes em que as
entretinha. Era elle que as confessava e lhes insuflára o gosto pela
devoção do mez de Maria, tão habilmente escolhida para esse dulcido
mez de maio em que as rosas desabrocham perfumando a atmosphera, e os
corações moços deliquiescem em ansias de consoladora ternura... Era quem
lhes fazia as novenas e lhes levava as filhas á primeira communhão, em
procissional theoria; era o indispensavel em tudo.
E gabava-se para o Telles:
—«Você verá quem vem para a festa do Sagrado Coração! É uma bomba que ha
de estoirar ahi.
—«Quem é então?
—«Se lho disser fica sabendo mais do que eu...
—«Ora diga lá, ande, bem sabe que sou de confiança. É alguem que eu
conheça?
—«É alguem que nos dá a certeza de nunca mais cá metterem o bico no
concelho...
—«Ah!... É o André de Athayde?...
—«Adivinhou ou alguem lho disse. Apre! Tem custado, mas agora é que é
definitivamente nossa a victoria.
—«O recenseamento já não estava mau...
—«Mas o grande caso ainda não é esse...
—«Então qual é?
—«Não digo; confio em você mas o seguro morreu de velho...
—«Olhe que isso até me offende! Sendo eu de confiança do Emygdio, que até
me fará seu secretario particular logo que seja ministro, nem sei agora
o que pensar dos seus segredos.
—«Vá lá, não se zangue. O caso é que não só vem o André Athayde com o
Padre Sancho como trazem os dois missionarios que têm levantado toda essa
provincia com a sua palavra temerosa!...
—«O que vejo é que você mudou de todo! Ha pouco mais de um anno que era
todo liberalão e até tinha raiva a esse André da Fradosa por causa de ter
causado a morte ao filho, com a beatice. Lembra-se?
—«Agora vejo as coisas melhor... O Pedro era um asno, quem no mandou
fallar antes de tempo? Casasse primeiro que depois de senhor da fortuna
da prima é que podia cantar...
—«Mas você era o primeiro que dizia que elle era uma joia, um caracter
esplendido, e que foi o pae quem o matou com as más ideias reaccionarias.
—«Não se queria sugeitar, pois neste mundo quem quer ser independente de
mais acontece-lhe assim. Diz que foi o pae que o matou, ora! Foram mas
foi as pandegas lá de Paris.
—«Oh homem, já lhe ouvi dizer, e a muita gente mais, que o Pedro era
até um rapaz honesto e sério, como dizem que é o sobrinho, que foi
companheiro e amigo intimo do João de Mello...
—«Pois sim, era até honesto de mais porque chegava a ser parvo com as
taes franquesas. E d’ahi, que mal lhe faziam os padres e as irmãsinhas lá
em casa? Deixasse. Hãode ir para muito longe os taes meninos educados nas
ideias modernas!
—«Oh Sr. Padre Mathias, olhe que parece que o voltaram de pernas para o
ar. Parece até impossivel que um homem como você era se mudasse assim!
Isto até me faz mal, creia. Tomára que o Vilhegas me arranjasse um logar
lá por Lisbôa, porque aqui abafa-se. Hãode tornar esta terra inhabitavel.
Eu, que me preso de ser liberal e tenho confiança que a sciencia e a
instrucção hãode transformar o mundo, sinto-me manietado e impotente, com
os nervos tangidos n’um sobresalto deante do reaccionarismo triumphante.
—«E você cuida que lá por Lisbôa não é o mesmo?... Está enganado,
pergunte ao Vilhegas quem é que lá manda agora.
—«Mas a par d’isso ha muito quem se liberte, ha maneira mesmo de se
reagir sem todavia ser um revoltado.
—«Pois sim, faça você versos, que eu cá trato da vida comforme calha. E
deixa-me ir á prosa, que é como quem diz á vida, que a morte é certa.
Preciso de encontrar sem falta aquelle velho tonto do abbade que sae de
madrugada e só recolhe á noite. Hade ganhar muito em se metter com a
ralé, deixe, assim como o Ramalho e a tal inglesa e o marido que querem
fazer d’estes brutos gente livre!...
—«E porque não?
—«Você é _nephelibata_, oh Telles! Eu cá não o entendo. Pois se approva
aquellas _lindas ideias_,—que lhes hãode dar na cabeça, verão!—vá com
elles.
—«Olhe, sr. padre Mathias, a dizer a verdade, a minha sympathia
intellectual têm-na toda. Não vou com elles porque sou amigo do Emygdio
e tenho necessidade de subir, de ser mais alguma coisa do que simples
boticario d’aldeia. Para isso têm cá o Domingos desde que você o passou,
com a tropa toda, para o seu lado...
Torcia o bigode, ironico, emquanto o cura, para não responder, protestava
pressa e ia dizendo entre dentes:
—«Pois sim, rala-te! Tem mais juiso do que tu com as tuas
republicanices...
Foi a correr para apanhar o abade na igreja depois de recolher do enterro
de uma pobre viuva, que deixava quatro filhos sem outro patrimonio mais
do que o dia e a noite. Preferia fallar-lhe alli, de surpreza, antes do
que em casa, onde os olhos de D. Joanna o obrigavam a morder-se n’uma
impotencia de remordimento culposo.
Tão feliz que foi a tempo de o abordar já quando recolhia, tiradas as
vestes cultuaes, e, de passagem, piedosamente, se ajoelhára nos degraus
do altar mór.
Pedia-lhe o seu consentimento e concurso para que nova e mais luzida
festa se fizesse ao Coração de Jesus, coincidindo com a communhão das
meninas, que andava preparando...
—«Que sim,—respondera o velho, farto de ouvir reprimendas da irmã mais
nova e de perceber os sustos em que vivia D. Joanna—que prestaria o seu
concurso de bôa vontade. Como era servir a Deus, de qualquer maneira lhe
agradava...
—«Mas, sr. abbade, é que nós tinhamos ideia de convidar os dois santos
missionarios que têm levantado a sua voz auctorisada até na Sé, deante
do sr. bispo, para virem fazer algumas práticas e preparar as crianças, e
moralisar esse povo tão desenfreado...
Aqui deu um salto o velho abbade e, olhando o cura de alto a baixo,
respondeu-lhe com uma voz vibrante, que o tornava respeitavel, apesar da
sua estatura quasi a dobrar e da sua pobre batina no fio:
—«Mal me parece, sr. cura, que venham a esta terra, onde só ha ovelhas
mansas, esses caçadores de terriveis lobos, para, em vez dos seus
pastores naturaes, as conduzirem a melhor pastio. Se para missionarios
têm vocação, para que preferem estas bôas terras onde todos adoram Nosso
Senhor Jesus Christo e na sua lei vivem, e abandonam tanto infiel á negra
ignorancia e idolatria?!...
—«Nós não temos nada com isso; prouvera a Deus que eguaes meritos me
fizessem a mim tão admirado e estimado como elles.
—«Pois sim, mas esta gente é que não precisa de quem lhe faça práticas,
antes lhe faz mingua quem lhe dê pão...
—«Sr. abbade, sr. abbade,—gritou o cura desvairadamente, vendo-se
contrariado por quem até ahi lhe não tolhêra o passo.
—«O que é?—respondeu o velho com serena grandeza.
—«Veja o que faz, olhe que o sr. bispo approva a nossa ideia e elle
saberá quem nos contraria.
—«O sr. bispo, como meu superior, póde affastar-me da minha igreja, mas
não pode, emquanto eu estiver sentado n’aquella cadeira de parocho,
obrigar-me a receber intrujões que só querem desvirtuar a palavra de
Christo e conduzir o povo ao barbarismo. A isso não me obrigará elle, nem
ninguem!...
—«Previno-o mais uma vez, sr. abbade!... Olhe que lá diz o dictado: «com
teu amo não jogues as peras».
—«Podem tirar-me o pão, mas ninguem me obrigará a falsear a minha
consciencia.
—«Aqui não ha consciencia, ha desobediencia,—gritou fóra de si.
—«Vá, sr. cura; demais sei eu o que o senhor é e o que pretende.
Diga ao sr. bispo que estes braços trémulos de velho, cançados de se
levantarem em supplicas ao Deus piedoso e bom que nos deixou o testamento
do Evangelho, ainda terão forças para pegar na enxada e ganhar o pão
honradamente para mim e para os meus.
—«Sr. abbade, não me cance a paciencia—rouquejou o cura, vendo o
sachristão e o sineiro pararem assombrados á porta da sachristia.
—«Paciencia demais tenho eu tido, sr. cura, e já me basta de lhe ouvir
as hypocrisias e fingimentos. Nunca por nunca, fique sabendo, emquanto
eu fôr parocho d’esta terra, hãode ouvir os meus parochianos quem os
desnorteie e afflija.
O padre Mathias sahiu a deitar lume pelos olhos—na expressão ingenua do
sachristão—e n’essa mesma noite partiu aforradamente para Fradosa, a
conferenciar com o fidalgo e com os missionarios seus hospedes.
Tres dias depois teve a resposta á sua justa objurgatoria, na noticia de
que a missa lhe era tirada, ficando suspenso emquanto não respondesse ás
accusações que lhe eram feitas:—de despresar o culto divino, tratar tão
sómente do bem corporal, entravar com seus discursos e opposição toda a
iniciativa dos bons catholicos para uma salutar propaganda religiosa... A
seu tempo seria chamado para se defender.
—«Defender-me eu?—dizia, mal segurando a carta nas pallidas e vacillantes
mãos—defender-me de quê, se de nenhum mal me accusa a consciencia?!...
—«Então que lhe dizia eu, mano?! Se o seu defeito é ser franco!...
—«Pois fui e não estou arrependido; tiram-me a igreja, tiram-me as
obrigações, mas tenho as devoções...
—«E obrigações tambem, querido amigo,—disse Isabella que tinha entrado,
chamada pela criada do abbade que n’um pulo a fôra prevenir d’aquella
grande afflicção.
Abraçou os velhos soluçantes, tentando em vão conter as lagrimas que a
pungitiva scena lhe repuxava aos olhos.
Por fortuna não tardou que João accorresse ao seu chamamento e, para
maior consolo dos velhos, acompanhado pelos paes: Josephina, não querendo
abandonar as amigas n’essa hora de provação; Antonio de Mello, muito
grave, pesando bem as palavras da carta que o abbade lhe entregára.
—«Mas o que é isto—dizia João, animadoramente—ha aqui quem chore e
esmoreça por ser perseguido em nome da hypocrisia e da ambição?!...
Ora vamos, tia Joanna—desde criança que assim chamava a velhinha, que
bem como sobrinho o amára sempre—isso nem me parece seu! O nosso abbade
já o não é da parochia, melhor nos póde servir e ao povo que tanto ama.
Tiram-lhe a igreja, tem a escola; tiram-lhe a missa, tem a communhão
espiritual dos infelizes. Não acompanhará os mortos que vão para a vala,
ajudará a bem morrer os que não tem que deixar em testamento...
—«Vamos, sr. padre Antonio,—ajudou Isabella—mais do que nunca o seu
concurso nos é preciso, mais do que nunca é urgente que se dedique á
nossa obra de redempção.
—«Nada de lagrimas, que felizmente não lhe tiram o pão. Procuravamos um
director para o asylo, têmo-lo felizmente agora, e o melhor que podiamos
esperar.
—«Não é a falta de dinheiro que nos mortifica, Joãosinho, é a
desconsideração...
—«E vêr aquelle marôto tomar o logar do nosso irmão, como se já estivesse
morto!—soluçou a outra irmã.
—«Deixe, mana, que isso não me magôa. Bemventurados os que soffrem
perseguição pela justiça. E vamos mas é tratar de sahir d’esta casa, que
desde hoje deixa de pertencer-me.
—«Ora até que emfim!—disse João, sorrindo—É preciso trabalharmos todos
para hoje mesmo irem para nossa casa e deixarem a residencia para o _sr.
cura_...
—«Não, prefiro que me alugue a primeira casa que se acabou no nosso
bairro. Pois não sou eu agora um operario, um trabalhador, como aquelles
a quem as destinamos?!
—«Concedido e approvado, e será a melhor festa de inauguração que
podiamos sonhar!
—«Chega a ser symbolico—concordou Isabella gravemente—e hade dar-nos
ventura, porque prova a justiça da nossa causa.