Tinha passado o tempo das festas com os primeiros rebates de um inverno
que vinha rudemente soprado pelas ventanias da serra, a afugentar os
veraneadores.
Primeiro sahiram os Maximianos, seguidos pelo Emygdio, que, fiado em
tão bôa escóra, resolvera a sua ida immediata para a capital. Estava
_lançado_, como por ahi se diz n’um francesismo de mau gosto, o que
ao dr. Pinto fazia commentar: só um estomago de avestrus como o do
conselheiro teria bojo para expellir tão grande maroto!
Os viscondes seguiram-os tambem, depois de assistirem ao casamento da
Candida, a quem Maria Helena serviu de madrinha, visto Josephina não
sahir de casa nem assistir a festas, lamentosa como continuava ainda pela
morte da Pillar.
A Bella, que primeiro partira com o tio, fôra em breve reunir-se o João,
para juntos combinarem todos os preparativos para a sua vida commum, que
elles queriam bem harmonicamente organisada como em harmonia estavam
sempre os seus gostos e maneira de vêr e sentir.
Retomára, pois, a villa o seu ar de pacatês provinciana; e se não fossem
os odios e luctas politicas ateados pela proximidade das eleições,
ninguem diria senão que aquillo era burgo medievo esquecido pela
civilisação, cujos habitantes o tempo tinha mumificado.
Nem carruagens de luxo nem garboso trotar de cavallos de raça pelas
calçadas desiguaes faziam assomar ás janellas entreabertas as cabeças,
entre curiosas e receosas, das meninas da terra. Cahiam no marasmo que
ataca as provincianinhas ambiciosas por movimento e vida, que se resignam
a só mostrar os vestidos de luxo aos domingos, á missa das onze, e a
passear funebremente, quando a musica toca na praça, as suas anemias
sentimentaes de quem não tem um nobre e util destino a preencher, de quem
lhes falta, para sacudir os nervos e hygienisar a alma, uma educação de
trabalho remunerador que as liberte da escravatura feminina, que tem por
carta d’alforria... só a porta da igreja que dá para o casamento.
As _partidas_ arrastavam-se somnolentas pelo anno fóra, sem despertarem
o enthusiasmo e o interesse das reuniões de verão. Emquanto as mesas do
sólo e da manilha se armavam para os velhos junto da brazeira, os outros
rodeavam a mesa do centro para o jogo ou para a conversa, e era então
o momento escolhido para se rememorarem os acontecimentos da passada
estação e darem-lhes a fórma anedoctica que depois se transmitte de
geração em geração, como as receitas dos dôces e os lençoes de linho
caseiro.
E não fôra, na verdade, das menos ferteis em acontecimentos sensacionaes,
essa que originára o casamento do melhor herdeiro das redondesas com
uma _estrangeira_: o que fazia, apesar das poucas esperanças que João
déra sempre ás meninas casadeiras da terra, com que todas se julgassem
offendidas.
Depois, o casamento, mais que imprevisto, do velho Braga com a formosa
sobrinha de Antonio de Mello—que era o caso escandaloso por excellencia.
Commentava-se o insolito luxo que o homem botára, elle que fôra sempre
considerado o maior dos avarentos, o que enraivecia as raparigas e fazia
dizer aos paes—«que bem o tinham previsto: o Braga seria o ideal dos
maridos, babadinho pela mulher...» Ellas gritavam repugnancias que não
sentiam, e os velhotes encolhiam os hombros:—«tolices de raparigas!
Sabem lá o que custa a vida e o que uma mulher perde quando despresa um
casamento rico!... Depois é que torcem a orelha. A Candida, sim, essa
é que tivera juizo. Não ha como as mosquinhas mortas para se saberem
governar.
Fallando com a segurança de quem não tivera o Braga como genro porque as
meninas o não tinham querido, não pensando, na sua illusoria vaidade,
que só uma invencivel e tresloucada paixão transformaria em prodigo
amante o homem que, na sua já larga vida, não tivera mais desejos que não
fosse os de accumular oiro, mais orgulho que o de juntar propriedade á
propriedade, ambição que não fosse a da riquesa pelo prazer avaro de a
possuir.
Por fim, até o Vilhegas, que, depois da morte da Pillar ainda fôra
uma esperança de marido rasoavel, até esse era levado pela filha do
Maximiniano Carneiro!...
Estes e outros factos contados e completados pela bisbilhotice da
criadagem, davam alimento para as conversas em todas as infindaveis
noites de inverno.
O rico enxoval da Candida, mandado fazer pelo tio nas melhores casas
de Lisboa, com duzias de duzias de cada peça, rendas finas, sedas
e bretanhas, as joias de preço com que o noivo a brindára, os mais
presentes que tivera, tudo se commentava trazendo á baila a pobreza da
rapariga, o que seria ella n’esse momento sem a generosidade dos tios,
na mediania quasi pobreza em que vivia a mãe e os irmãos... Depois, a
cerimonia do casamento, a que tinham assistido por convite do Braga,
chegado ao delirio da paixão, todos querendo associar á sua alegria. O
orgulho da Candida, a arrastar a cauda do seu branco vestido de noiva;
o véo de verdadeiro _tule_ de seda e as flores de larangeira a coroá-la
n’uma alvinitencia de castidade; a cara do noivo e a sua figura ridicula,
que ainda mais os fazia morrer de riso; a partida para Lisboa e a
permanencia lá durante o inverno... nada ficava por dizer e commentar.
Quando este acontecimento já ia aborrecendo por demais refervido,
como o chá de Tolentino, começaram alguns jornaes da capital a trazer
umas noticiasinhas sorrateiras, que interessavam a todos. Tratava-se
do Vilhegas, fallado em pequenas mas insistentes locaes, no corpo
do jornal, que lhe apregoavam o talento formoso, a sua delicadesa e
habilidade profissionaes, o casamento ajustado, para a primavera, com a
gentil filha do illustre estadista...
Na botica velha o dr. Pinto ria sem respeito das _maximianices_, como
costumava chamar ás espertesas do habil conselheiro, e affirmára ás
gargalhadas, quando viera no _carnet mondain_ de um jornal elegante que o
enxoval da noiva fôra encommendado em Paris, que o vira a fazer em casa
das meninas _Sebastianas_, as pobres costureiras e bordadeiras de roupa
branca, que um escrivão de fazenda chamado Sebastião alli deixára na
miseria.
Chamava o Neves e fazia-o fallar, elogiando-lhe o primo, fingindo-se de
boa fé. O outro, coitado, ia dizendo, no seu grande fanatismo de parente
pobre que julga engrandecer-se com a grandesa dos seus:
—«O rapaz vae a ministro, não tarda, o sr. doutor verá! Não, que uma
cabeça como aquella... ha poucas!
O _finorio_, cofiando as barbas brancas, em que punha vaidade, ria
sorrateiramente, achando que era realmente esperto, que se soubera
arranjar, que casava bem...
—«Mas que bem!—dizia o outro tomando a deixa.—Casamento de trús! O sogro
entende-se bem com elle; ha de leva-lo a tudo!...—Voltando á sua idéa
fixa:—Não tarda que seja ministro, o sr. doutor verá!
—«Sim, sim, é natural. D’aquella massa é que elles se fazem por cá.
O sogro, em demasia conhecido, dá homem por si, sim senhor, é bôa
tactica!—Despedia gargalhadas jubilosas, batendo fortes palmadas nos
joelhos.—É um patusco, aquelle Maximiano! E comem-na, vocês verão!...
Voltava-se para a roda dos frequentadores da botica velha, que iam
rareando á proporção que a _nova_ crescia em créditos e fama, o que
trazia o Domingos estomagado.
O caso do Manuel Duarte responder n’um processo correccional em que o
juiz lhe déra por pena o tempo decorrido na cadeia, antes do julgamento,
isto fundado no exame e na autopsia feitos pelo Vilhegas, com patente
desconsideração ao Ramalho, suscitára contendas varias nos partidarios de
um e de outro campo, e rompimento de hostilidades.
Da parte da velha fallava-se com indignação e sem rebuço no procedimento
do juiz, peitado pelo conselheiro, e de todos os mais que haviam
entrado no conluio. O delegado, um pobre rapaz sem vontade, especie de
serventuario do juiz, torcia-se, mas não fazia nada que fosse contra as
suas indicações.
D’ahi descomponendas nos jornaes por uma parte e por outra, mas
principalmente pelo lado do Maximiano, feitas pelo Telles em redundancias
de estylo a que o Dr. Pinto respondia em chalaça. Nessa tarde caturrava
elle com o Neves, que não queria estar mal com uns nem com outros—«_por
causa da engrenagem dos governos_», dizia.
—«Você desculpe, eu não quero dizer mal do seu primo, mas esta de
certificar que um homem que leva com um marmeleiro na cabeça e morre em
seguida de uma meningite, não é em resultado de pancadas, é de cabo de
esquadra.
—«O sr. dr. bem vê, elle depende do sogro...
—«Deixe lá, ha coisas que se fazem só de vontade. Elle é seu primo, é
verdade, mas isto brada aos céos...
—«Pois decerto, ora essa!... á vontade, sr. doutor; entre amigos não ha
cerimonias, que eu, aqui para nós, o que quero é que o meu primo Emygdio
vá a ministro. Depois é só eu lá chegar...
—«Com certeza... Pelo menos director da instrucção!—ria entre dentes.
—«Eu cá não quero muitas grandezas. Tamanha é a náu tamanha é a tormenta.
Para mim basta-me um logarsito que me dê tanto como o do Manuel Vilhegas,
uns dois mil reisitos por dia... e mais esse mal sabe assignar o seu nome.
—«Não é muito, é até rasoavel,—respondeu com sarcastica seriedade o
doutor—mas diga-me, oh Neves, porque razão se assignavam os seus primos
Viegas e agora são Vilhegas?! Olhe que isto dá-me que pensar...
—«O Emygdio começou a assignar-se assim lá nos estudos, depois os outros
fizeram o mesmo.
—«Diga-me d’essas; é o que se chama uma _nobresa de repuxo_... Elles têm
razão, o nome fica mais bem soante; isto de Viegas lembra pobreza, gente
sem representação...
—«Pois é por isso; elle como está mettido na politica!
—«Não tem outro remedio.
Não se fartava de troçar o pobre homem, com applauso de toda a roda.
* * * * *
Na botica nova não era menor a azafama de parlatorio e coscovilhices
azedas.
Quasi sempre era o Telles, como senhor da casa e mais versado em
litteraturas e oratoria facil, quem tomava a palavra para declamar contra
os adversarios.
Achava elle, no ultimo artigo de arromba,—que ninguem de bôa fé deixaria
de seguir essa gloria da terra, esse homem que, nos pinaculos do
fastigio politico, não desdenhava a patria que o vira nascer e para
a qual projectava tantos melhoramentos que fastidioso se tornaria
enumera-los. Melhor seria que o povo abrisse os olhos para vêr, e então
desfolhariam aos seus pés, como homenagem de corações sinceros, as flores
do agradecimento... Bem se sabia o que até ahi tinham feito os magnates
da aristocracia, exhibindo escandalosos feitos de protecção descarada
aos seus adeptos, que de ha muito servem de muletas ao _illustre côxo da
medicina_...
Este era o Ramalho...
Enumerava as phantasmagorias com que o conselheiro trazia embaidos os
papalvos:—telephone para todas as aldeias, estradas em todos os sentidos,
luz electrica, um lyceu, e até um americano a vapor, vários parques
e jardins, e a exploração de umas aguas medicinaes que se esperava
apparecessem na Senhora do Monte...
De jornal em punho o Telles lia ao seu auditorio attento e approvador,
de que era principal figura o Padre Mathias, que dizia com um certo ar de
compunção que ultimamente adoptára:
—«Está bem, sôr Telles, mas veja lá se o povo percebe... Seria melhor
dizer ahi que _esse côxo da medicina_, o tal materialista que não conhece
Deus nem o Diabo, não frequenta os sacramentos e para encobrir a sua
irreverencia se finge philantropo á moda nova, tratando sómente do corpo
e deixando a alma perder-se e cahir nas profundas do inferno!...
—«Isso não; olhe que o povo gosta d’elle e deve-lhe muito. E, escorado
pelo abbade, ninguem poderá chama-lo hereje por não ser um frequentador
assiduo da igreja.
—«Pois ahi é que está o ponto. Os que não são por nós são contra nós.
Acabaram-se os tempos da transigencia culposa. Que o povo saiba que tem
um abbade sem fé!...
—«Homem, não diga isso; eu sou um crente, mas olhe que uma das paginas
mais negras da humanidade é sem duvida a da Inquisição e de todas as
perseguições feitas em nome da religião...
—«Pois sim, sim, você tambem... é um poeta. O que se quer é força, é
energia; se viesse a Inquisição, não se perderiam senão as que cahissem
no chão, como o outro que diz...
—«Isso é retrogradar, padre. Muito ensino, muita luz, é do que carece o
povo.
—«Você parece que me está a sahir jacobino!...
—«Deixe ser, antes isso do que retrogrado...—respondeu o Telles, com uma
importancia impertigada de chefe, vendo-se assim considerado na terra
pela intima amizade que o ligava ao Emygdio.
E, no entanto, nem elle nem o padre Mathias conseguiam manter o
equilibrio de opiniões e ideias que o Maximiano conservára sempre, sem
levantar attritos.
O primeiro não liberto ainda do ideal de progresso que o fizera em
Coimbra o redactor de um jornal republicano em que toda a mocidade
intellectual e livre exposera as suas opiniões progressivas; o outro,
mudado nos ultimos meses, transformado não se sabia bem porque
influencias estranhas...
Havia um certo tempo, desde umas visitas amiúdadas que fizera á capital
do districto e de umas conferencias que tivera, dizia-se á bocca pequena,
com o chefe da sua diocese, considerado o protector do reaccionarismo
regional, que o cura mudára tão completamente que se dizia que o tinham
voltado do avesso.
Seguira o conselho do Maximiano, que, em ar de chalaça, como dizia tudo,
o avisára um dia:—Olhe que isto de _padres liberaes_ é uma asneira. Já
ninguem os quer. Deixe para os tolos dizerem o que pensam... Falle com o
bispo se quer ser o nosso abbade... As coisas mudaram muito nos ultimos
dez annos... Nós só referendâmos o que os bispos querem.
O padre meditára; e n’aquella sua maneira impulsiva e violenta de atacar
as situações, marchára para a cidade, confessára as suas culpas n’uma
confissão geral, e desfizera-se em arrependimentos, que a benção do
bispo santificaram.
Do antigo e expansivo cura de aldeia, gritando aos quatro ventos a
sua revolta ao dogma, a contrariedade da vida que forçado adoptára, o
despreso com que calcava as mais comesinhas noções da honestidade vulgar
e consagrada, pouco ou nada restava, apparentemente.
Sempre sério, olhos no chão, viver regrado e quasi ascetico, toda a
violencia d’aquelle temperamento de camponio mal desbastado se voltava
agora, como arma de dois gumes, tornando-o um fanatico perigoso, que aos
proprios amigos incommodava ouvir.
Entre as beatas já era tido por santo, e não faltava pobre velha senil
que não affirmasse que aquella reviravolta miraculosa tinha sido visão
que tivera na missa, entre o calice e a hostia.
Aproveitando a occasião e para se tornar effectivo e mais assiduo na
convivencia do grupo com o qual contava subir até ao logar ambicionado,
lembrou-se o padre Mathias de implantar n’aquelle meio, até ahi
refractario a beaterios, graças ao bom do abbade, a devoção ao _Coração
de Jesus_.
Fallou com o seu chefe, que lhe louvou particularmente o seu zelo e o
aconselhou a interessar em tão meritoria obra o parocho da freguezia,
porque era da melhor disciplina christã não relegar os superiores.
O cura sorriu: conhecia o bondoso velho que seguia a lettra do evangelho
cuidando cumprir o seu dever de padre, não reparando, na sua simplicidade
de primitivo, quanto se distanciava do catholicismo triumphante...
Tinha a certeza de que o abbade não annuiria ao seu intento, e isso
convinha-lhe para a intriga em que o queria illaquear.
Assim foi. Consultado sobre a urgencia de se abrir uma subscripção
entre os fieis para a compra da imagem do Coração de Jesus, o velho não
acquiesceu a essa opinião e respondeu ao cura:
—«Que bem mais do que de novas imagens precisavam os parochianos de quem
os soccorresse em tanta fome e miseria como havia por esses casebres...
Voltou o padre Mathias a conferenciar com o bispo, aggravando com
unctuosas e velhacas palavras de desculpa o procedimento do parocho—mas
que, graças a Nosso Senhor, as damas fieis se tinham quotisado entre si e
a imagem estava encommendada ao santeiro de mais fama.
Quando chegou á matriz a imagem, reluzente de vermelho e oiro, atarracada
e sem elegancia nem sombra de espiritualidade esthetica, o abbade
mandou-a collocar no altar-mór, visto a recommendação do prelado, sem
reluctancia nem enthusiasmo.
Achava aquillo disparate, com tantos santos que havia na igreja e até na
arrecadação, quando tantas obras de urgencia eram necessarias, desde o
telhado até ao altar do Santissimo.
Passados dias viera o padre Mathias ter com elle para conferenciarem
sobre a festa de inauguração que se devia fazer em breve, com toda
a pompa, e pedir-lhe o seu auxilio moral e bôa vontade para a nova
devoção tão cheia de indulgencias e promessas divinas, pela qual o sr.
Bispo tanto se interessava e n’ella tanto fiava para a regeneração da
humanidade.
O pobre velhote, alma lavada, coração virgem de rancores, respondeu ao
cura:—que interessar-se por essa nova irmandade não podia, pois que
estava velho e cançado. Mas á festa prestaria o seu concurso como a outra
qualquer que particularmente os seus parochianos quizessem fazer. No
entanto, sempre lhe dizia á bôa parte que melhor se lhe antolhava que
protegessem as confrarias existentes e que de tanta utilidade corporal
seriam como por exemplo, a do Santissimo, a da Misericórdia tão digna de
protecção para sustentar o hospital e o asylo, e a da Senhora do Carmo
tão util aos seus associados, e tão antiga, tão portuguesa! Deixasse
aquella, invenção de uma ordem riquissima e poderosissima, que só era bôa
para gente ostentosa e sem obrigações, ou para frades e freiras que pouco
mais têm que fazer que desfiar rezas.
Quando á tarde contou o succedido em casa, a irmã mais velha, que mal se
mexia na cadeira onde a paralysia a tinha presa, levantou do livro que
lia os olhos embaciados de présbyta, e avisára:—que na sua opinião mal
andára usando tanta franqueza com o cura; bem sabia que elle o odiava e
lhe ambicionava o logar!...
—«Cá lhe fica quando eu morrer; deixe a mana estar que o não levo. Não me
dê Deus outros cuidados. Quero mas é descançar, quando a minha vez vier...
—«O mano bem sabe—tornou ella ainda com a sua voz mansa—que o cura é
impaciente. Bem sabe de que gente elle vem, que o pae nunca achou
obstaculos ao seu querer...
—«Ora, mana! Não se faça echo desses boatos!... Dado mesmo que o pae
fôsse, como dizem, companheiro do Braga pae no assalto á casa do Olival,
que culpa tinha o filho?
—«Tinha culpa, tem culpa de ter aquelle sangue—que se fôsse só o roubo da
casa do Olival!...
—«Pois sim, pois sim, não vamos agora esmiuçar a historia dos que Deus
já lá tem e a quem já pediu contas... O rapaz até hoje não tem sido
máu—leviano, doidito, verduras da mocidade... Até bem mudado está elle,
nem já parece o mesmo que era!
—«Pois é o que me espanta, é o que me dá cuidado; a natureza d’uma
pessoa mudar assim d’um dia para o outro, só por grande milagre, mano
Antonio!... E os milagres vão tão raros, que até parece Nosso Senhor já
os não querer fazer!
—«Ora Joanninha, desde que a mana tolhida se pôs só a lêr e a pensar, já
me parece que de todo perdeu a confiança na humanidade; até ás vezes se
me affigura que já descrê mesmo da Providencia divina!?...
—«Nem uma nem outra. Cada vez creio mais na humanidade, que bem guiada
e educada não pode ser má. A Providencia nos acudirá n’este angustioso
transe, em que tudo parece andar fóra do seu logar, em que os pobres, sem
ninguem que os dirija para o bem, pensam na vingança tremenda que fere ás
cegas bons e maus, culpados e innocentes. Mas tambem me convenci de que
a hypocrisia é o peor inimigo do homem justo!... Lembre-se o mano do que
lá diz Frei Luís de Souza:—«Oh abysmo de toda a verdade!... Quão medonho
monstro é a apparencia!»
Olhava o abbade, estarrecido de espanto, do ar illuminado de pithonissa
que a irmã mais velha tomára desde que, paralytica, não se levantava da
cadeira senão para ser levada em braços para a cama.
Desde criança que se habituára a respeitar essa irmã poucos annos mais
velha do que elle, mas que á morte da mãe tomára a direcção da familia
e fôra quem os criára e educára, tendo sempre grande amôr á leitura
e aos livros que em casa dos antigos viscondes, de quem o pae fôra
zeloso e honrado administrador, encontrára sempre ás ordens. Mas nunca,
como n’aquelle dia, comprehendeu quão fundos eram os pensamentos da
intelligente senhora.
Valeu-lhe para acabar o mal estar de tal conversa, a irmã mais nova, que
da cosinha, onde fazia uns bolos, ouvira do que se tratava e viera tambem
dizer:
—«Queira Deus, queira Deus que o mano se não mettesse em alguma!... Não
sabe que o padre Mathias anda agora mettido com todos os beatos; não sabe
que o sr. Bispo o confessou e absolveu?!... Ora Deus queira!... Este
homem é um _barbeiro abafado_, ora porque não faz o mano como elles?...
—«É verdade, sr. abbade,—acabou por intrometter-se a criada, que no
costume patriarchal das boas casas antigas tinha vindo ao desmamar para
a sua companhia e fallava como da familia—já me disse a mulher do Antonio
da Capellinha que é raro o dia em que elle não vae a casa da viuva do
Marques; que é ella quem protege a irmandade e quer trazer para cá um
collegio de jesuitas e irmãs de caridade para o hospital.
—«Vê o mano?!... Ricos, protegidos do sr. Bispo, e com os jesuitas a
aconselha-los, o que será de nós?!...
—«Hade ser o que Deus quizer, mas hão-de contar commigo—respondeu
o abbade, com uma ruga na fronte. Depois terminou alegremente,
levantando-se da cadeira onde se assentara defronte da irmã—Mas deixem-se
vocês de lamentações e vamos ao nosso jantar. São bem capaz de me terem
deixado esturrar as sôpas, suas falladoras. É aviar, que ainda vou a
Maceira ver um rapaz que lá está com um typho e que aquelles brutos não
querem tratar. Á tardinha heide estar de volta para examinar os pequenos
da doutrina, á noite a lição do filho do José sapateiro que tem o exame
á porta, coitado!... Hoje é um dia cheio e ainda vocês me vêm maçar
com essa historia de beatos e Coração de Jesus!... Nem que Jesus nos
não tivesse já dado o coração no Evangelho; eram lá precisas aquellas
maluqueiras, que até contradizem a palavra do Senhor!...
—«Ai mano, não diga essas coisas, credo! Se o ouvem!...
—«Deixe ouvir, dê-nos a mana os bolos e deixe o resto por minha conta.
Tinha sido um bom dia para o abbade. Quando elle assim o achava e
satisfeito se assentava á meza comendo as suas sopas, é que muita lagrima
podéra enxugar, é que muita dôr, muita miseria, conseguira suavisar.
Era por isso que o povo o estimava como a um pae, e era por elle, por
Josephina, pela viscondessa e pelo dr. Ramalho, todos collaboradores
de uma grande obra de simples beneficencia prática, que a eleição do
Maximiano, apesar de tudo quanto usava gravata lavada, no dizer do
Telles, o seguir, estava muito tremida. Isto, sem contar os caseiros das
tres grandes casas da comarca: a dos Mellos, a dos viscondes e a dos
Athaydes, da Fradosa, ainda seus parentes, que todos á uma, por ordem dos
patrões, levavam votos ao visconde.