XIV

Tinha passado o tempo das festas com os primeiros rebates de um inverno

que vinha rudemente soprado pelas ventanias da serra, a afugentar os

veraneadores.

Primeiro sahiram os Maximianos, seguidos pelo Emygdio, que, fiado em

tão bôa escóra, resolvera a sua ida immediata para a capital. Estava

_lançado_, como por ahi se diz n’um francesismo de mau gosto, o que

ao dr. Pinto fazia commentar: só um estomago de avestrus como o do

conselheiro teria bojo para expellir tão grande maroto!

Os viscondes seguiram-os tambem, depois de assistirem ao casamento da

Candida, a quem Maria Helena serviu de madrinha, visto Josephina não

sahir de casa nem assistir a festas, lamentosa como continuava ainda pela

morte da Pillar.

A Bella, que primeiro partira com o tio, fôra em breve reunir-se o João,

para juntos combinarem todos os preparativos para a sua vida commum, que

elles queriam bem harmonicamente organisada como em harmonia estavam

sempre os seus gostos e maneira de vêr e sentir.

Retomára, pois, a villa o seu ar de pacatês provinciana; e se não fossem

os odios e luctas politicas ateados pela proximidade das eleições,

ninguem diria senão que aquillo era burgo medievo esquecido pela

civilisação, cujos habitantes o tempo tinha mumificado.

Nem carruagens de luxo nem garboso trotar de cavallos de raça pelas

calçadas desiguaes faziam assomar ás janellas entreabertas as cabeças,

entre curiosas e receosas, das meninas da terra. Cahiam no marasmo que

ataca as provincianinhas ambiciosas por movimento e vida, que se resignam

a só mostrar os vestidos de luxo aos domingos, á missa das onze, e a

passear funebremente, quando a musica toca na praça, as suas anemias

sentimentaes de quem não tem um nobre e util destino a preencher, de quem

lhes falta, para sacudir os nervos e hygienisar a alma, uma educação de

trabalho remunerador que as liberte da escravatura feminina, que tem por

carta d’alforria... só a porta da igreja que dá para o casamento.

As _partidas_ arrastavam-se somnolentas pelo anno fóra, sem despertarem

o enthusiasmo e o interesse das reuniões de verão. Emquanto as mesas do

sólo e da manilha se armavam para os velhos junto da brazeira, os outros

rodeavam a mesa do centro para o jogo ou para a conversa, e era então

o momento escolhido para se rememorarem os acontecimentos da passada

estação e darem-lhes a fórma anedoctica que depois se transmitte de

geração em geração, como as receitas dos dôces e os lençoes de linho

caseiro.

E não fôra, na verdade, das menos ferteis em acontecimentos sensacionaes,

essa que originára o casamento do melhor herdeiro das redondesas com

uma _estrangeira_: o que fazia, apesar das poucas esperanças que João

déra sempre ás meninas casadeiras da terra, com que todas se julgassem

offendidas.

Depois, o casamento, mais que imprevisto, do velho Braga com a formosa

sobrinha de Antonio de Mello—que era o caso escandaloso por excellencia.

Commentava-se o insolito luxo que o homem botára, elle que fôra sempre

considerado o maior dos avarentos, o que enraivecia as raparigas e fazia

dizer aos paes—«que bem o tinham previsto: o Braga seria o ideal dos

maridos, babadinho pela mulher...» Ellas gritavam repugnancias que não

sentiam, e os velhotes encolhiam os hombros:—«tolices de raparigas!

Sabem lá o que custa a vida e o que uma mulher perde quando despresa um

casamento rico!... Depois é que torcem a orelha. A Candida, sim, essa

é que tivera juizo. Não ha como as mosquinhas mortas para se saberem

governar.

Fallando com a segurança de quem não tivera o Braga como genro porque as

meninas o não tinham querido, não pensando, na sua illusoria vaidade,

que só uma invencivel e tresloucada paixão transformaria em prodigo

amante o homem que, na sua já larga vida, não tivera mais desejos que não

fosse os de accumular oiro, mais orgulho que o de juntar propriedade á

propriedade, ambição que não fosse a da riquesa pelo prazer avaro de a

possuir.

Por fim, até o Vilhegas, que, depois da morte da Pillar ainda fôra

uma esperança de marido rasoavel, até esse era levado pela filha do

Maximiniano Carneiro!...

Estes e outros factos contados e completados pela bisbilhotice da

criadagem, davam alimento para as conversas em todas as infindaveis

noites de inverno.

O rico enxoval da Candida, mandado fazer pelo tio nas melhores casas

de Lisboa, com duzias de duzias de cada peça, rendas finas, sedas

e bretanhas, as joias de preço com que o noivo a brindára, os mais

presentes que tivera, tudo se commentava trazendo á baila a pobreza da

rapariga, o que seria ella n’esse momento sem a generosidade dos tios,

na mediania quasi pobreza em que vivia a mãe e os irmãos... Depois, a

cerimonia do casamento, a que tinham assistido por convite do Braga,

chegado ao delirio da paixão, todos querendo associar á sua alegria. O

orgulho da Candida, a arrastar a cauda do seu branco vestido de noiva;

o véo de verdadeiro _tule_ de seda e as flores de larangeira a coroá-la

n’uma alvinitencia de castidade; a cara do noivo e a sua figura ridicula,

que ainda mais os fazia morrer de riso; a partida para Lisboa e a

permanencia lá durante o inverno... nada ficava por dizer e commentar.

Quando este acontecimento já ia aborrecendo por demais refervido,

como o chá de Tolentino, começaram alguns jornaes da capital a trazer

umas noticiasinhas sorrateiras, que interessavam a todos. Tratava-se

do Vilhegas, fallado em pequenas mas insistentes locaes, no corpo

do jornal, que lhe apregoavam o talento formoso, a sua delicadesa e

habilidade profissionaes, o casamento ajustado, para a primavera, com a

gentil filha do illustre estadista...

Na botica velha o dr. Pinto ria sem respeito das _maximianices_, como

costumava chamar ás espertesas do habil conselheiro, e affirmára ás

gargalhadas, quando viera no _carnet mondain_ de um jornal elegante que o

enxoval da noiva fôra encommendado em Paris, que o vira a fazer em casa

das meninas _Sebastianas_, as pobres costureiras e bordadeiras de roupa

branca, que um escrivão de fazenda chamado Sebastião alli deixára na

miseria.

Chamava o Neves e fazia-o fallar, elogiando-lhe o primo, fingindo-se de

boa fé. O outro, coitado, ia dizendo, no seu grande fanatismo de parente

pobre que julga engrandecer-se com a grandesa dos seus:

—«O rapaz vae a ministro, não tarda, o sr. doutor verá! Não, que uma

cabeça como aquella... ha poucas!

O _finorio_, cofiando as barbas brancas, em que punha vaidade, ria

sorrateiramente, achando que era realmente esperto, que se soubera

arranjar, que casava bem...

—«Mas que bem!—dizia o outro tomando a deixa.—Casamento de trús! O sogro

entende-se bem com elle; ha de leva-lo a tudo!...—Voltando á sua idéa

fixa:—Não tarda que seja ministro, o sr. doutor verá!

—«Sim, sim, é natural. D’aquella massa é que elles se fazem por cá.

O sogro, em demasia conhecido, dá homem por si, sim senhor, é bôa

tactica!—Despedia gargalhadas jubilosas, batendo fortes palmadas nos

joelhos.—É um patusco, aquelle Maximiano! E comem-na, vocês verão!...

Voltava-se para a roda dos frequentadores da botica velha, que iam

rareando á proporção que a _nova_ crescia em créditos e fama, o que

trazia o Domingos estomagado.

O caso do Manuel Duarte responder n’um processo correccional em que o

juiz lhe déra por pena o tempo decorrido na cadeia, antes do julgamento,

isto fundado no exame e na autopsia feitos pelo Vilhegas, com patente

desconsideração ao Ramalho, suscitára contendas varias nos partidarios de

um e de outro campo, e rompimento de hostilidades.

Da parte da velha fallava-se com indignação e sem rebuço no procedimento

do juiz, peitado pelo conselheiro, e de todos os mais que haviam

entrado no conluio. O delegado, um pobre rapaz sem vontade, especie de

serventuario do juiz, torcia-se, mas não fazia nada que fosse contra as

suas indicações.

D’ahi descomponendas nos jornaes por uma parte e por outra, mas

principalmente pelo lado do Maximiano, feitas pelo Telles em redundancias

de estylo a que o Dr. Pinto respondia em chalaça. Nessa tarde caturrava

elle com o Neves, que não queria estar mal com uns nem com outros—«_por

causa da engrenagem dos governos_», dizia.

—«Você desculpe, eu não quero dizer mal do seu primo, mas esta de

certificar que um homem que leva com um marmeleiro na cabeça e morre em

seguida de uma meningite, não é em resultado de pancadas, é de cabo de

esquadra.

—«O sr. dr. bem vê, elle depende do sogro...

—«Deixe lá, ha coisas que se fazem só de vontade. Elle é seu primo, é

verdade, mas isto brada aos céos...

—«Pois decerto, ora essa!... á vontade, sr. doutor; entre amigos não ha

cerimonias, que eu, aqui para nós, o que quero é que o meu primo Emygdio

vá a ministro. Depois é só eu lá chegar...

—«Com certeza... Pelo menos director da instrucção!—ria entre dentes.

—«Eu cá não quero muitas grandezas. Tamanha é a náu tamanha é a tormenta.

Para mim basta-me um logarsito que me dê tanto como o do Manuel Vilhegas,

uns dois mil reisitos por dia... e mais esse mal sabe assignar o seu nome.

—«Não é muito, é até rasoavel,—respondeu com sarcastica seriedade o

doutor—mas diga-me, oh Neves, porque razão se assignavam os seus primos

Viegas e agora são Vilhegas?! Olhe que isto dá-me que pensar...

—«O Emygdio começou a assignar-se assim lá nos estudos, depois os outros

fizeram o mesmo.

—«Diga-me d’essas; é o que se chama uma _nobresa de repuxo_... Elles têm

razão, o nome fica mais bem soante; isto de Viegas lembra pobreza, gente

sem representação...

—«Pois é por isso; elle como está mettido na politica!

—«Não tem outro remedio.

Não se fartava de troçar o pobre homem, com applauso de toda a roda.

* * * * *

Na botica nova não era menor a azafama de parlatorio e coscovilhices

azedas.

Quasi sempre era o Telles, como senhor da casa e mais versado em

litteraturas e oratoria facil, quem tomava a palavra para declamar contra

os adversarios.

Achava elle, no ultimo artigo de arromba,—que ninguem de bôa fé deixaria

de seguir essa gloria da terra, esse homem que, nos pinaculos do

fastigio politico, não desdenhava a patria que o vira nascer e para

a qual projectava tantos melhoramentos que fastidioso se tornaria

enumera-los. Melhor seria que o povo abrisse os olhos para vêr, e então

desfolhariam aos seus pés, como homenagem de corações sinceros, as flores

do agradecimento... Bem se sabia o que até ahi tinham feito os magnates

da aristocracia, exhibindo escandalosos feitos de protecção descarada

aos seus adeptos, que de ha muito servem de muletas ao _illustre côxo da

medicina_...

Este era o Ramalho...

Enumerava as phantasmagorias com que o conselheiro trazia embaidos os

papalvos:—telephone para todas as aldeias, estradas em todos os sentidos,

luz electrica, um lyceu, e até um americano a vapor, vários parques

e jardins, e a exploração de umas aguas medicinaes que se esperava

apparecessem na Senhora do Monte...

De jornal em punho o Telles lia ao seu auditorio attento e approvador,

de que era principal figura o Padre Mathias, que dizia com um certo ar de

compunção que ultimamente adoptára:

—«Está bem, sôr Telles, mas veja lá se o povo percebe... Seria melhor

dizer ahi que _esse côxo da medicina_, o tal materialista que não conhece

Deus nem o Diabo, não frequenta os sacramentos e para encobrir a sua

irreverencia se finge philantropo á moda nova, tratando sómente do corpo

e deixando a alma perder-se e cahir nas profundas do inferno!...

—«Isso não; olhe que o povo gosta d’elle e deve-lhe muito. E, escorado

pelo abbade, ninguem poderá chama-lo hereje por não ser um frequentador

assiduo da igreja.

—«Pois ahi é que está o ponto. Os que não são por nós são contra nós.

Acabaram-se os tempos da transigencia culposa. Que o povo saiba que tem

um abbade sem fé!...

—«Homem, não diga isso; eu sou um crente, mas olhe que uma das paginas

mais negras da humanidade é sem duvida a da Inquisição e de todas as

perseguições feitas em nome da religião...

—«Pois sim, sim, você tambem... é um poeta. O que se quer é força, é

energia; se viesse a Inquisição, não se perderiam senão as que cahissem

no chão, como o outro que diz...

—«Isso é retrogradar, padre. Muito ensino, muita luz, é do que carece o

povo.

—«Você parece que me está a sahir jacobino!...

—«Deixe ser, antes isso do que retrogrado...—respondeu o Telles, com uma

importancia impertigada de chefe, vendo-se assim considerado na terra

pela intima amizade que o ligava ao Emygdio.

E, no entanto, nem elle nem o padre Mathias conseguiam manter o

equilibrio de opiniões e ideias que o Maximiano conservára sempre, sem

levantar attritos.

O primeiro não liberto ainda do ideal de progresso que o fizera em

Coimbra o redactor de um jornal republicano em que toda a mocidade

intellectual e livre exposera as suas opiniões progressivas; o outro,

mudado nos ultimos meses, transformado não se sabia bem porque

influencias estranhas...

Havia um certo tempo, desde umas visitas amiúdadas que fizera á capital

do districto e de umas conferencias que tivera, dizia-se á bocca pequena,

com o chefe da sua diocese, considerado o protector do reaccionarismo

regional, que o cura mudára tão completamente que se dizia que o tinham

voltado do avesso.

Seguira o conselho do Maximiano, que, em ar de chalaça, como dizia tudo,

o avisára um dia:—Olhe que isto de _padres liberaes_ é uma asneira. Já

ninguem os quer. Deixe para os tolos dizerem o que pensam... Falle com o

bispo se quer ser o nosso abbade... As coisas mudaram muito nos ultimos

dez annos... Nós só referendâmos o que os bispos querem.

O padre meditára; e n’aquella sua maneira impulsiva e violenta de atacar

as situações, marchára para a cidade, confessára as suas culpas n’uma

confissão geral, e desfizera-se em arrependimentos, que a benção do

bispo santificaram.

Do antigo e expansivo cura de aldeia, gritando aos quatro ventos a

sua revolta ao dogma, a contrariedade da vida que forçado adoptára, o

despreso com que calcava as mais comesinhas noções da honestidade vulgar

e consagrada, pouco ou nada restava, apparentemente.

Sempre sério, olhos no chão, viver regrado e quasi ascetico, toda a

violencia d’aquelle temperamento de camponio mal desbastado se voltava

agora, como arma de dois gumes, tornando-o um fanatico perigoso, que aos

proprios amigos incommodava ouvir.

Entre as beatas já era tido por santo, e não faltava pobre velha senil

que não affirmasse que aquella reviravolta miraculosa tinha sido visão

que tivera na missa, entre o calice e a hostia.

Aproveitando a occasião e para se tornar effectivo e mais assiduo na

convivencia do grupo com o qual contava subir até ao logar ambicionado,

lembrou-se o padre Mathias de implantar n’aquelle meio, até ahi

refractario a beaterios, graças ao bom do abbade, a devoção ao _Coração

de Jesus_.

Fallou com o seu chefe, que lhe louvou particularmente o seu zelo e o

aconselhou a interessar em tão meritoria obra o parocho da freguezia,

porque era da melhor disciplina christã não relegar os superiores.

O cura sorriu: conhecia o bondoso velho que seguia a lettra do evangelho

cuidando cumprir o seu dever de padre, não reparando, na sua simplicidade

de primitivo, quanto se distanciava do catholicismo triumphante...

Tinha a certeza de que o abbade não annuiria ao seu intento, e isso

convinha-lhe para a intriga em que o queria illaquear.

Assim foi. Consultado sobre a urgencia de se abrir uma subscripção

entre os fieis para a compra da imagem do Coração de Jesus, o velho não

acquiesceu a essa opinião e respondeu ao cura:

—«Que bem mais do que de novas imagens precisavam os parochianos de quem

os soccorresse em tanta fome e miseria como havia por esses casebres...

Voltou o padre Mathias a conferenciar com o bispo, aggravando com

unctuosas e velhacas palavras de desculpa o procedimento do parocho—mas

que, graças a Nosso Senhor, as damas fieis se tinham quotisado entre si e

a imagem estava encommendada ao santeiro de mais fama.

Quando chegou á matriz a imagem, reluzente de vermelho e oiro, atarracada

e sem elegancia nem sombra de espiritualidade esthetica, o abbade

mandou-a collocar no altar-mór, visto a recommendação do prelado, sem

reluctancia nem enthusiasmo.

Achava aquillo disparate, com tantos santos que havia na igreja e até na

arrecadação, quando tantas obras de urgencia eram necessarias, desde o

telhado até ao altar do Santissimo.

Passados dias viera o padre Mathias ter com elle para conferenciarem

sobre a festa de inauguração que se devia fazer em breve, com toda

a pompa, e pedir-lhe o seu auxilio moral e bôa vontade para a nova

devoção tão cheia de indulgencias e promessas divinas, pela qual o sr.

Bispo tanto se interessava e n’ella tanto fiava para a regeneração da

humanidade.

O pobre velhote, alma lavada, coração virgem de rancores, respondeu ao

cura:—que interessar-se por essa nova irmandade não podia, pois que

estava velho e cançado. Mas á festa prestaria o seu concurso como a outra

qualquer que particularmente os seus parochianos quizessem fazer. No

entanto, sempre lhe dizia á bôa parte que melhor se lhe antolhava que

protegessem as confrarias existentes e que de tanta utilidade corporal

seriam como por exemplo, a do Santissimo, a da Misericórdia tão digna de

protecção para sustentar o hospital e o asylo, e a da Senhora do Carmo

tão util aos seus associados, e tão antiga, tão portuguesa! Deixasse

aquella, invenção de uma ordem riquissima e poderosissima, que só era bôa

para gente ostentosa e sem obrigações, ou para frades e freiras que pouco

mais têm que fazer que desfiar rezas.

Quando á tarde contou o succedido em casa, a irmã mais velha, que mal se

mexia na cadeira onde a paralysia a tinha presa, levantou do livro que

lia os olhos embaciados de présbyta, e avisára:—que na sua opinião mal

andára usando tanta franqueza com o cura; bem sabia que elle o odiava e

lhe ambicionava o logar!...

—«Cá lhe fica quando eu morrer; deixe a mana estar que o não levo. Não me

dê Deus outros cuidados. Quero mas é descançar, quando a minha vez vier...

—«O mano bem sabe—tornou ella ainda com a sua voz mansa—que o cura é

impaciente. Bem sabe de que gente elle vem, que o pae nunca achou

obstaculos ao seu querer...

—«Ora, mana! Não se faça echo desses boatos!... Dado mesmo que o pae

fôsse, como dizem, companheiro do Braga pae no assalto á casa do Olival,

que culpa tinha o filho?

—«Tinha culpa, tem culpa de ter aquelle sangue—que se fôsse só o roubo da

casa do Olival!...

—«Pois sim, pois sim, não vamos agora esmiuçar a historia dos que Deus

já lá tem e a quem já pediu contas... O rapaz até hoje não tem sido

máu—leviano, doidito, verduras da mocidade... Até bem mudado está elle,

nem já parece o mesmo que era!

—«Pois é o que me espanta, é o que me dá cuidado; a natureza d’uma

pessoa mudar assim d’um dia para o outro, só por grande milagre, mano

Antonio!... E os milagres vão tão raros, que até parece Nosso Senhor já

os não querer fazer!

—«Ora Joanninha, desde que a mana tolhida se pôs só a lêr e a pensar, já

me parece que de todo perdeu a confiança na humanidade; até ás vezes se

me affigura que já descrê mesmo da Providencia divina!?...

—«Nem uma nem outra. Cada vez creio mais na humanidade, que bem guiada

e educada não pode ser má. A Providencia nos acudirá n’este angustioso

transe, em que tudo parece andar fóra do seu logar, em que os pobres, sem

ninguem que os dirija para o bem, pensam na vingança tremenda que fere ás

cegas bons e maus, culpados e innocentes. Mas tambem me convenci de que

a hypocrisia é o peor inimigo do homem justo!... Lembre-se o mano do que

lá diz Frei Luís de Souza:—«Oh abysmo de toda a verdade!... Quão medonho

monstro é a apparencia!»

Olhava o abbade, estarrecido de espanto, do ar illuminado de pithonissa

que a irmã mais velha tomára desde que, paralytica, não se levantava da

cadeira senão para ser levada em braços para a cama.

Desde criança que se habituára a respeitar essa irmã poucos annos mais

velha do que elle, mas que á morte da mãe tomára a direcção da familia

e fôra quem os criára e educára, tendo sempre grande amôr á leitura

e aos livros que em casa dos antigos viscondes, de quem o pae fôra

zeloso e honrado administrador, encontrára sempre ás ordens. Mas nunca,

como n’aquelle dia, comprehendeu quão fundos eram os pensamentos da

intelligente senhora.

Valeu-lhe para acabar o mal estar de tal conversa, a irmã mais nova, que

da cosinha, onde fazia uns bolos, ouvira do que se tratava e viera tambem

dizer:

—«Queira Deus, queira Deus que o mano se não mettesse em alguma!... Não

sabe que o padre Mathias anda agora mettido com todos os beatos; não sabe

que o sr. Bispo o confessou e absolveu?!... Ora Deus queira!... Este

homem é um _barbeiro abafado_, ora porque não faz o mano como elles?...

—«É verdade, sr. abbade,—acabou por intrometter-se a criada, que no

costume patriarchal das boas casas antigas tinha vindo ao desmamar para

a sua companhia e fallava como da familia—já me disse a mulher do Antonio

da Capellinha que é raro o dia em que elle não vae a casa da viuva do

Marques; que é ella quem protege a irmandade e quer trazer para cá um

collegio de jesuitas e irmãs de caridade para o hospital.

—«Vê o mano?!... Ricos, protegidos do sr. Bispo, e com os jesuitas a

aconselha-los, o que será de nós?!...

—«Hade ser o que Deus quizer, mas hão-de contar commigo—respondeu

o abbade, com uma ruga na fronte. Depois terminou alegremente,

levantando-se da cadeira onde se assentara defronte da irmã—Mas deixem-se

vocês de lamentações e vamos ao nosso jantar. São bem capaz de me terem

deixado esturrar as sôpas, suas falladoras. É aviar, que ainda vou a

Maceira ver um rapaz que lá está com um typho e que aquelles brutos não

querem tratar. Á tardinha heide estar de volta para examinar os pequenos

da doutrina, á noite a lição do filho do José sapateiro que tem o exame

á porta, coitado!... Hoje é um dia cheio e ainda vocês me vêm maçar

com essa historia de beatos e Coração de Jesus!... Nem que Jesus nos

não tivesse já dado o coração no Evangelho; eram lá precisas aquellas

maluqueiras, que até contradizem a palavra do Senhor!...

—«Ai mano, não diga essas coisas, credo! Se o ouvem!...

—«Deixe ouvir, dê-nos a mana os bolos e deixe o resto por minha conta.

Tinha sido um bom dia para o abbade. Quando elle assim o achava e

satisfeito se assentava á meza comendo as suas sopas, é que muita lagrima

podéra enxugar, é que muita dôr, muita miseria, conseguira suavisar.

Era por isso que o povo o estimava como a um pae, e era por elle, por

Josephina, pela viscondessa e pelo dr. Ramalho, todos collaboradores

de uma grande obra de simples beneficencia prática, que a eleição do

Maximiano, apesar de tudo quanto usava gravata lavada, no dizer do

Telles, o seguir, estava muito tremida. Isto, sem contar os caseiros das

tres grandes casas da comarca: a dos Mellos, a dos viscondes e a dos

Athaydes, da Fradosa, ainda seus parentes, que todos á uma, por ordem dos

patrões, levavam votos ao visconde.

Ambições: Romance · 第 16 / 23 题