Os azedumes e as rivalidades accentuaram-se depois do baile, onde,
parece, se tinham querido reunir n’uma ultima revista de forças os dois
campos que a politica, com todo o seu cortejo de baixas vinganças e
mesquinhas ambições, conseguira levantar na pequena e socegada villa
sertaneja.
Em tal lucta ia de vencida o grupo do visconde porque elle, apesar do
seu elegante cynismo e da obliteração quasi completa do senso moral no
sentido rigoroso da palavra, que lhe fizera o habito de viver no mundo
e n’uma sociedade que a custo se sugeita ao direito commum, julgando-se
crédora de isempções e privilegios, era todavia incapaz de uma vileza ou
de uma flagrante injustiça para alcançar os seus fins. Tanto mais que
não fazendo da politica modo de vida, não disputava com desesperos de
esfomeado o direito de trepar.
Depois, a seu lado, usando ainda assim de processos que á viscondessa não
pareciam bons no seu grande e puro ideal da reformadora, mas n’esses
mesmos processos conservando uma certa dignidade e limpesa, agrupavam-se
os mais honestos, os mais sinceros, os que menos culpas tinham a
exprobar-se.
O exame directo imparcialmente feito pelo dr. Ramalho no Cabral, de S.
Mamede, ferido na romaria da Senhora do Monte pelo Manuel Duarte, da
Povoa, em desforço de rixa velha em questões d’aguas, diziam algumas
testemunhas, levantára descontentamentos entre os partidarios e alguns
já diziam pelas tavernas—que se passariam para o Maximiano nas primeiras
eleições, visto o dr. Ramalho não ter coragem de salvar um amigo da
cadeia lá porque n’uma romaria bebêra uma pinga e dera umas pancadas.
É certo que o Cabral morrera, mas o Vilhegas affirmava a todos,
confidencialmente, que a morte não resultára da pancada mas da
deficiencia do tratamento que deixára sobrevir uma meningite.
Debalde o medico se esforçava por conservar o sangue frio e explicar a
sua attitude, não como acusador nem desejoso de ver um homem condemnado,
n’uma iniqua lei de Tallião que a sociedade arbitrariamente se arrogou,
soffrendo porque fez soffrer, mas porque acima de tudo estava a verdade
e o seu dever de perito era dize la completa e inteira sobre o caso que
sujeitavam ao seu julgamento. O juiz que fizesse o que entendesse, mas
que por um interesse politico não fossem condemnar ou absolver, fiados
n’uma mentira.
Mas feriam-no aquellas luctas traiçoeiras, magoavam-no muito mais do que
as floreadas correspondencias do Telles para um jornal de Lisboa, em
que tinha phrases de sapiencia e de effeito como aquella de citar Diogo
Arias—o celebre valido de D. João de Castella que no mundo só desejava
ter um prego com o qual podesse pregar a roda da fortuna—isto para
insinuar que o Dr. era um malvado que não acudira ao Cabral para fazer
mal á infeliz victima da politica, o Manuel Duarte, curtindo na enxovia a
sua innocencia...
O Ramalho contava a Bella, que muito se indignava com tal meada de
embustes, que o Manuel Duarte era o primeiro a rir-se d’elles porque
dizia a quem o queria ouvir—que bem se ralava de que o mandassem para a
Penitenciaria, pois já lá estivera dois annos e como tinha empenhos sahia
á cidade e até trouxera dinheiro ganho a vender chapéos de sol. Que para
tudo se queria sorte e o sr. Conselheiro o protegeria, porque eram o pae
e os dois cunhados marchantes todos por elle na eleição dos quarenta.
—«Já vê, minha senhora—dizia-lhe n’uma tarde de quinta feira nos ultimos
dias de setembro, na varanda do palacio dos viscondes—que não vale a pena
explicar. Descobrem-se bem os grosseiros manejos do padre cura. Primeiro
quiz requerer novo exame para que o Vilhegas dissesse que o caso não era
perigoso; mas como o homem morreu, fui eu que o matei...
—«Oh, mas é indecente, uma lucta assim feita de mentiras!
—«Pois é; mas que fazer? A não se querer usar dos mesmos processos, mais
vale não lhes ligar importancia.
—«O dr. hade confessar—dizia lhe o João indignadissimo—que tanta
porcaria, tal esterquilinio d’almas desperta o desejo de caminharmos para
o futuro varrendo todo esse lixo sem dó nem piedade...
—«João, João, cautella, não te mettas a regenerar o mundo, olha que
se estes são o que vês, a _canalha_ sem eira nem beira ainda se lhes
avantaja em atrevimento...—respondia o visconde sybariticamente deitado
n’uma cadeira de baloiço, soprando para o azul hilariante do céo o fumo
leve do charuto.
—«Mas suppondo mesmo que a _canalha_, como o primo diz, seja mais
exigente nas suas reclamações, tem direito a faze-las tendo arrastado
seculos de captiveiro, tendo a vingar rios de sangue e de lagrimas...
—«Deixa lá, João,—acudiu a viscondessa para terminar uma discussão que
sempre a irritava entre o egoismo do visconde e o ardente enthusiasmo do
primo, que trouxera da Belgica, a par de uma grande instrucção, uma fé
sem limites n’um melhor futuro para os despresados de hoje—O dr. soffre o
castigo de ser honesto e ter entrado em politiquices de campanario.
—«Queres então dizer que eu não sou honesto, não é verdade?—sorriu com
indifferença o visconde.
—«Não é isso, mas tu como chefe tens tido sempre melhor posição e menos
responsabilidades locaes...
A conversa terminou, felizmente, pela entrada da Candida que vinha
convidar a viscondessa para madrinha do casamento.
Apesar da indiferença que aparentava, o dr. Ramalho soffria com tal
campanha; demasiado honesto para usar de processos identicos e pagar
diffamação com diffamação, sentia-se adoentar n’uma crise de desânimo que
o deixava impotente para a lucta.
Só o dr. Pinto sustentava a retirada desembestando ironias a torto e a
direito e conseguindo ridicularisar o Maximiano e a sua malta a ponto
de obstar a que todo o partido do visconde, por um resto de pudor, se
passasse com armas e bagagens para o campo inimigo.
Mas, contra esta influencia, mais paralysadora do que militante,
alevantava-se a do padre Mathias carreando descontentes e ambiciosos
que pediam empregos e ganhos, que não se regateavam no partido aos bons
serviços politicos.
A sua bilis de atrabiliario extravasava em doestos e arremetidas que
visavam todos os contrarios e em particular o abbade a quem odiava e
invejava.
O velho padre, que era um bom e um humilde, sem sombra de maldade nem
ambições gananciosas, fechava os olhos e desattendia-se para evitar
questões, que se lhe afiguravam pouco em harmonia com os deveres da
posição de ambos.
Bastas vezes fingira não saber dos desregramentos do cura, que a pretexto
de ter sido feito padre pela violencia da vontade paterna não olhava a
conveniencias que o mais simples homem livre tem o dever de attender.
Mas porque o bom abbade não podera calar um dia a murmuração do povo
pela escandalosa vida do novo cura e o admoestou em palavras mansas de
caritativo pastor, o outro embezerrou e d’alli lhe veio odio terrivel,
d’estes odios sem mercê que crescem na fria sombra das sacristias e se
erguem como floração insalubre a ligar e a prender os movimentos até á
suffocação dos miseros que n’elles pozeram um pé em falso.
Com um desejo de vingança e uma ambição a satisfazer, entrara para o
serviço do Maximiano, tornando-se em breve o principal agente e o seu
mais util auxiliar.
A conselheira é que, mal se annunciara o outomno, fixara a sua partida,
para ainda poder gosar uns dias de praia elegante, em Cascaes ou Estoril.
Era sempre contrariada que vinha para a villa e só se mostrava alegre e
amavel no dia em que marcava o regresso ao mundo civilisado, segundo a
sua expressão.
Irritava-a alli a preponderancia e real superioridade da viscondessa
que era estimada pelo povo miseravel, que a ella recorria como a fonte
inexgotavel de soccorros.
Eram noivas a quem dava dotes e enxoval, casas que deixava habitar de
graça pelos mais pobres, crianças e velhos que era preciso vestir e
metter em asylos e hospitaes a não ser que a familia recebesse alguma
coisa para os tratar... Ella satisfazia todos os pedidos, feliz por se
tornar util, não pensando sequer na gratidão, que afinal lhe tributavam
todos.
Ora estas e outras superioridades de riqueza e de espirito eram um
continuo manancial de sensaborias para o orgulho da conselheira que
recebia n’essa noite, pela ultima vez antes de partir, os frequentadores
das suas quintas feiras.
Como de costume, a maior animação era em volta das mezas de jogo.
Só a baroneza da Amieira se affastara com o D. Manuel Pereira—porque,
dizia ella, era o jogo o unico vicio que nunca lhe dera prazer. Se
perdesse, não se encommodaria, porque o dinheiro pouco valor tinha aos
olhos da viuva que aos deseseis annos comprara, com o inestimavel preço
do seu corpo juvenil e bello, uma fortuna quasi ingastavel. Se ganhasse,
de que lhe serviria o dinheiro, que aos outros fazia tanta falta?!...
Não seriam positivamente essas considerações altruistas a causa da sua
abstenção, mas como era divertimento de que não gostava, sabia com
ellas tornar se sympathica. Chegava mesmo a sê-lo, apezar de todas as
loucuras que os annos não tinham ainda interrompido. Intelligente, de
uma saúde vigorosa, activa e com muito espirito, ousára fazer sempre o
que a vontade e o capricho lhe aconselhavam sem sombra de respeito pela
sociedade que conhecia cheia de tolerancias para as que, como ella, se
escudam na fortuna, e tão austera soe sêr para as pobres que prevaricam.
No intimo da sua alma leviana havia um fundo de instinctiva justiça que
a fazia prodiga com os miseraveis e sem maledicencia que ennodoasse as
outras, como quem se quer desculpar com o exemplo alheio.
Se não era honesta e não dava grande valor a essa virtude que só lhe
parecia bôa para pobres usarem, tambem não era hypocrita; e chegava a ser
ingenua á força de impudencia na phylosophia adquirida no longo convivio
de pessôas que se habituara a julgar o typo commum.
Pelo braço do D. Manuel Pereira affastara-se para a sala de bilhar onde,
a um canto, a Hortensia languidamente recostada n’uma commoda mas feia
cadeira inglesa, conversava com o Vilhegas, em requebros, retorcimentos
de pescoço e gritinhos de cãosito de regaço. Ao fundo da sala, a meia
voz, o conselheiro conferenciava com o juiz.
—«Então o que lhe dizia eu, D. Manuel? Onde menos gente houvesse é que
era mais certo encontrar os noivos—dizia a baroneza alegremente.
—«Procuravam-nos?—perguntou M.ᵉˡˡᵉ Hortense voltando meio corpo, como
manequim de uma só peça.
—«Não, precisamente, mas procuravamos alguem que não estando a jogar
podesse dizer alguma coisa que distrahisse.
—«Viemos bater a má porta; estes senhores estavam tão absorvidos na sua
felicidade que chega a ser um crime distrahi-los.
—«Pelo contrario, D. Manuel, dão-nos muito prazer. Estavamos fazendo _un
petit bout de causerie intime_, mas temos para isso tanto tempo!
—«Faço ideia! Vão-lhes parecer seculos estes mêses. Quando casam?
—«Lá para o fim da primavera, para se sahir para Cintra ou para
o Bussaco. A mamã queria que fôsse já, mas eu prefiro noivar
durante o inverno, é mais chic e não corro perigo de me privar dos
bailes...—sublinhou com impudor.—Já mandamos fazer participações de
_fiançailles, qui est du dernier chic_.
A baroneza riu francamente e respondeu a meia voz qualquer coisa a que
outra replicou n’um esgare de enjoada:
—«Tem suas conveniencias _le rôle de madame_ mas é d’uma falta de chic
_assomante_ ser mamã. _Oh! les petites bêtes!_ uff!...
D’ahi a conversa foi derivando entre risos e anedoctas em que a rapariga
representava o primeiro papel, com um despreso soberbo de todas essas
velharias a que se chama pudor e ingenuidade. O Vilhegas, um pouco
compromettido porque aquillo bulia-lhe ainda com todos os preconceitos
provincianos, de que tentava limpar o espirito, contava tambem as suas
graçolas, dizia historias de Coimbra.
—«Olhe, doutor—disse por fim a baroneza, sempre procurando novas
distracções—parece-me que entrou agora o seu amigo Telles e esse é que
nos vae entreter recitando alguma coisa. Chame-o e peça-lhe.
—«Da melhor vontade, mas se fôsse V. Ex.ᵃ a pedir teria muito mais valor.
—«Olha, parece-me que se anima a _soirée_. Lá entraram as Souzas e as
Cunhas. Onde estaria toda esta gente mettida?
—«E o Móttasinho tambem, esse póde dizer charadas, dizem que tem geito.
—«É melhor chama-los todos para aqui, se os deixam ir para o jogo, então
acabou se!... Faz falta o visconde d’Alvora,—commentou a baroneza.
—«Ah, esse agora é todo viscondes—começou o Telles que se adeantára a
saudar.
—«Desde a noite do baile que lá está e nem ao menos uma visita!... _C’est
incroyable!_
—«Ha muitos annos que é amigo intimo de sir William Burns e deve-lhe
mesmo grandes favores—defendeu o D. Manuel.
—«É muito louvavel o seu procedimento, descendo á liça por um amigo
ausente, sim senhor! Bem se vê que é descendente de Nun’alvares, o
cavalleiro sem macula. Mas olhe que o visconde não merece defesa porque é
um transfuga—riu a baroneza.
—«Elle quer chegar á sobrinha pendurando-se no braço do tio—retorquiu o
Telles com azedume.
—«Vae mal por esse caminho, porque sei, e agora já não ha inconfidencia
porque toda a gente o sabe, que Bella está pedida por seu primo, creio
que é seu primo o João de Mello, não é, sr. Vilhegas?—respondeu e
perguntou a um tempo a baroneza.
—«É meu primo affastado...
—«O quê, Isabella Burns vae casar com o Mello?
—«Parece que se admira, Hortensia?! Pois não é para isso; é até casamento
bem igual. Ambos novos e bonitos, educados e ricos, é um verdadeiro
casamento d’amôr, coisa rara n’estes tempos de brutal utilitarismo.
—«Ora adeus! O João de Mello é um sensaborão—_une vrai bête fauve_.
—«Por não ter o seu espirito perfeitamente gaulez, não se segue que não
seja muito interesante. Ha pessoas intelligentes, que não gostam de
conversar. Eu não o conheço a fundo, mas parece-me sympathico e muito
instruido.
—«A sr.ᵃ baroneza está sempre disposta a defender.
—«É para me vingar dos que me accusam, meu caro dr.—respondeu para o
Vilhegas.
—«Além d’isso, a Bella é galantinha, mas a baroneza sabe o que foi o
pae...—tornou Hortense com gesto desdenhoso.
—«Não pense em tal, minha querida; bem sabe que para a sociedade essas
coisas dos paes só lembram quando não ha tios ricos. E, aqui para nós,
com toda a imparcialidade, quem não tiver um parente cujo procedimento o
faça corar, que lhe atire a primeira pedra.
—«Oh, mas o pae deu um escandalo medonho!... Foi um verdadeiro ladrão!...
—«A Hortensia é muito nova para julgar, um facto que tem a sua
explicação, como tudo no mundo. O pae de Bella era um perfeito homem da
sociedade, fez o que outros têm feito impunemente, foi infeliz...
—«A baroneza conheceu-o?
—«Conheci-o admiravelmente, era das minhas intimas relações. Tinha
deffeitos que mais ou menos todos nós temos, mas, a par d’elles, quanta
bôa qualidade tambem!...
—«Pois sim, mas se não fôsse o tio rico talvez o João de Mello, que
sempre passou por tão serio e esquisito, não achasse muito merecimento
n’uma menina que vae para uma romaria só com um rapaz...—insinuou a mais
velha das Souzas que tinha vindo com as outras juntar-se ao grupo sem
interromper a conversa.
Já percebera que a assiduidade do Telles a devia ao despeito que lhe
causava a indifferença de Bella e isso enraivecia-a, não poupando doéstos
á _inglesa_, como por escarneo a tratavam.
—«Decerto que um homem honesto não poderia já acceita-la para
esposa—frisou ainda o pharmaceutico.
—«É que o sr. Telles não sabe, talvez, que Isabella Burns foi educada em
Inglaterra. O que n’uma terra pequena de provincia portuguesa lhes parece
escandaloso é perfeitamente natural e correcto em todos os paizes onde as
mulheres são mais respeitadas. O senhor, que é homem, sabe perfeitamente
que só é deshonesto quem o quer ser...
—«Sim, nós sabemos que a educação e os costumes ingleses são outros,
mas temos obrigação de respeitar os costumes da sociedade em que
vivemos—acudiu o Vilhegas em defeza do amigo.
—Decerto, os que vivem d’ella e para ella. Mas Isabella é bastante
independente para despresar commentarios malevolos de quem em tudo lhe é
inferior. Terminou seccamente, quasi agressiva e n’aquelle tom que não
admittia replicas, porque Isabella era uma das suas grandes sympathias,
e a baroneza, quando gostava d’alguem, não queria mesmo averiguar se era
retribuida a sua affeição para francamente se pôr em campo pelos que lhe
agradavam.
O Vilhegas porêm não desistiu e com o gesto largo e o tom emphatico de
quem sonha bancadas parlamentares ainda accrescentou:
—«Oh senhora baroneza, mas isso é negar toda a virtude e condemnar sem
remissão uma sociedade de que V. Ex.ᵃ faz parte.
—«É por isso que fallo com conhecimento de causa, o que se requer
é hypocrisia e dinheiro, bem sei, sentimentos intimos e nobres são
frioleiras... Pois se ha pessoa que esteja acima de todos os egoismos e
mentiras é Isabella, pode crêr! Se casa com João é porque decerto muito o
ama.
—«Oh, dizem que sim,—atreveu-se a dizer a Aurora Cunha, que havia algum
tempo estava morta por fallar, retrahindo-se logo com acanhamento—um amôr
assim nunca se viu. Andam ambos tão felizes, tão contentes, que até dá
gosto vê-los.
—«A menina vae lá?—perguntou a baroneza com interesse.
—«Eu era amiga da Pillar, que me tratava com muito agrado. Agora vou
lá menos, mas a Engracia, que é muito amiga da minha avó, foi hontem
fazer-lhe uma visita e contou isto. Lá em casa gostam tanto da noiva, que
até ella, que d’antes só fallava na sua Pillarsinha, agora já diz que
esta é um anjo do céo que Deus lhes mandou para pagar o roubo que lhes
fez...
O Vilhegas torcia-se nervoso desde que a conversa tomara aquelle rumo,
e Hortensia desviava a cabeça com enjôo, contando, por disfarce, os
berloques que trazia no cordão de oiro ao pescoço. O Telles quiz desviar
a conversa, mas a baroneza perguntou ainda com interesse.
—«A menina sabe quando elles casam?
—«Á Engracia disse que era depois de janeiro, porque faz um anno que
morreu a Pillar. A Candida é que casa primeiro.
Novo estremecer do Vilhegas trocando olhares de intelligencia com o
Telles.
—«Sim? Com quem casa essa? É uma formosura, não é, D. Manuel? Olhe que em
Lisboa, convenientemente emoldurada em luxo, e n’uma frisa de S. Carlos,
era d’um soberbo effeito—disse com a convicção de quem se não julga
prejudicada pela mocidade nem pela belleza, forte no seu reducto de oiro.
—«É realmente perfeita! Faz pena ver escondida entre serras uma tão rara
planta—respondeu o Pereira, que ás vezes se mettia em floreados de phrase
recordando tempos de Coimbra.
—«Em casando já ella vae para Lisboa viver—tornou a menina Aurora, que
estava tendo um verdadeiro successo com tanto saber de vidas alheias.
—«Quem é esse marido ideal?
—«É o Braga, v. ex.ᵃ não conhece? Cá chamam-lhe o Braga usurario,
porque empresta dinheiro a noventa por cento. É muito rico. No baile da
viscondessa estava sempre ao pé d’ella, não viram?—voltou-se a pedir
confirmação ao dito, ás irmãs e ás meninas Souzas, que abanaram a cabeça
affirmativamente e começaram todas a fallar ao mesmo tempo, querendo ser
interessantes com o saber muito d’esse casamento, que era o escandalo da
terra.
—«Dizem que o velho está doido pela Candida.
—«Até já fallou aos pedreiros para deitarem abaixo a casa do Bernabé,
que o visconde sempre fez com que a camara expropriasse por utilidade
publica...
—«É um verdadeiro escandalo, uma arbitrariedade sem nome, uma d’estas
coisas que só se fazem n’uma terra de cafres como esta!...—apostrophava o
Telles pensando já na correspondencia para o jornal de Lisboa.
E uma das meninas ainda elucidava:
—«Dizem que para o anno já hade ter um _chalet_ como nunca se viu outro
cá!...
—«O tio comprou-lhe um enxoval que nem que fosse para uma rainha—disse
ainda outra com inveja.
—«Diz se que casam já para o mez que vem...
—«Ora ahi está _un vrai mariage d’amour_!...—casquinou a Hortencia.
—«Não se ria, minha querida,—respondeu a baroneza, que tinha o gosto
particular de contrariar a filha do Maximiano—elle gosta sinceramente, e
n’este genero de negocios um quasi sempre é enganado, quando não são os
dois!...—sorriu com finura.
—«Oh Vilhegas—chamou do fundo da sala o conselheiro.
O Emygdio correu com interesse de subordinado humilde a perguntar o que
lhe queria o patrão.
—«Venha cá, meu amigo. O sr. juiz pode ter algumas duvidas e quero que
lhe diga com a mão na consciencia se o Cabral morreu assassinado pela
pancada ou em resultado da doença que lhe deixaram sobrevir.
—«Não tenho duvida nenhuma em affirmar que foi da doença...
—«Deixem-me dizer-lhes—continuou o esperto politico—que o meu interesse
pelo Manuel Duarte é apenas filho da revolta que toda a injustiça me
causa, notem que nem é meu partidario... Mas o dr. Vilhegas, que em breve
será meu filho, faça o mesmo que eu, feche os olhos a resentimentos e
diga sempre o que a sua probidade mandar.
—«Sr. Conselheiro—começou o medico, dando um passo atraz e pondo a mão no
peito n’um gesto de comediante sentimental—eu respeito v. ex.ᵃ mais do
que ao meu próprio pae—e n’isto era sincero porque não fazia grande caso
do barbeiro d’aldeia que lhe dera o ser...—mas acima dos affectos humanos
está a justiça e a consciencia. Eu farei sempre o que uma e outra me
ordenarem; se v. ex.ᵃ me pedisse o contrario teria muita e sincera magua,
mas não cederia...
Isto é que já soava como bilha rachada, mas o conselheiro bateu-lhe no
hombro e disse com enthusiasmo:
—«Bravo, meu rapaz! Assim é que eu aprecio o caracter d’um homem! É
com toda a confiança que lhe porei nas mãos os meus negocios e sei que
não usará da minha influencia senão para o bem d’este desgraçado paiz
que caminha para o abysmo!... Dê cá um abraço, homem!—abraçaram-se com
gravidade.
—«O sr. dr. Vilhegas—começou o juiz, arrastando a phrase como arrastava
a perna gottosa—é um rapaz a entrar na vida com nobre caracter e agúda
intelligencia. Abre-se aos seus passos um largo caminho que não hade
querer manchar com uma injustiça inspirada pela má paixão da politica,
como usam alguns seus collegas; fico pois com a minha consciencia
tranquilla.
—«Agradeço o conceito que v. ex.ᵃ forma do meu caracter e tenho a vaidade
de o julgar justo.
—«Mas não o prendâmos por mais tempo, aliás a Hortencia ficará
zangada...—disse o conselheiro empurrando-o com amavel sombra.
Depois continuou n’aquelle ar de indifferença bem calculada que
todos os politicos conhecem para despertar a curiosidade que desejam
espicaçar:—Sabe que é definitiva a aposentação do dr. Saavedra? Escrevi
ao ministro para não dispor do logar sem me ouvir...
—«O que respondeu?!...—perguntou o outro arregalando os pequenos olhos de
porco, n’um esfusear de curiosidade.
Interrompeu-os o padre Mathias, fulo com o Neves que se lhe fôra pôr ao
lado e o fizera perder todos os cobres,—porque _engallinhava_ com aquelle
typo... dizia, bufando.
—«Ora—respondia-lhe o conselheiro sorrindo—vocês não sabem jogar, perdem
logo a cabeça! Vae-se tenteando emquanto se perde com pouco dinheiro;
depois, quando a sorte vem, é só uma cartada bastante para a desforra.
—«Isso era bom se todos soubessem e tivessem a felicidade de v. ex.ᵃ
—«Então hoje está o caso muito feio; hein? Vamos lá ver.
Dirigiram-se para a outra sala emquanto o juiz rodeava, arrastando a
perna e trauteando o estribilho favorito, até ao grupo das senhoras
ás quaes costumava dirigir grosserias que imaginava deviam tomar por
amabilidades.
—«Oh sr. Telles—dizia a baroneza, para terminar a conversa das vidas
alheias que já a enfadava—eu tinha pedido aqui ao seu amigo para
interceder por nós junto de v. ex.ᵃ.
—«Que valor tenho para merecer um pedido de v. ex.ᵃˢ?!...
—«Tem o valor de ser poeta, acha que é pequeno? Nós queriamos ouvir
recitar alguma das suas poesias.
—«Oh, sr.ᵃ baroneza, os meus pobres versos são pedaços d’alma angustiada
que não podem interessar aos felizes da terra!...
—«As obras d’arte, quando sinceras, são comprehendidas por
todos e commovem as almas menos sensiveis, não é verdade, sr.ᵃ
baroneza?!...—disse o Vilhegas querendo que o amigo figurasse.
—«Decerto—respondeu ella.
—«Não se faça rogado, sr. Telles, _j’aime beaucoup vos
poésies_!...—acrescentou Hortencia languidamente cerrando os olhos e
apertando os beiços com denguice.
Um coro de insistentes pedidos rodeou o Telles, que se fazia grave,
mettia os dedos nos cabellos, fechava os olhos, dizia não se lembrar nada
do seu livro _Verde-mar_... Por fim, como que victimado, mas radiante
de vaidade, levantou-se, pôz a mão sobre as costas da cadeira, levou a
outra ao coração, fez ainda um gesto vago de quem se lhe tinha varrido
tudo da memoria, o que impacientava os ouvintes, e começou com voz
sibilando entre sorrisos de superioridade.
—«Dedicatoria: Á Doce e Pura que a minha alma espera para entrar na
_Turris eburnia_ da Perfeição.
Mas a palavra foi-lhe cortada violentamente pela explosiva apparição
da conselheira n’um desmanchamento de modos de quem precisa desabafar
arrelía séria.
Offegante, rubra de indignação, dirigiu se á baroneza como se quizesse
toma-la para testemunha da justiça que lhe assistia.
—«Veja isto, veja isto!—e mostrava-lhe uma grande folha de papel
escarlate por aparar, com uma enorme corôa de visconde ao centro
encimando floreado brazão—aquelle pelintra que já desdenha assistir ás
nossas partidas!... Não ha maior desaforo!
—«Mas o que é afinal?—perguntou a baroneza, que apreciava pouco scenas
tragicas no seu epicurismo de pessoa que quer tirar da vida só o fructo
saboroso e leve.
—«Leiam, vejam isto, desde que veio o inglês para lá está assoldado...
Não se lembra o pobretana que veio para ahi sem roupa; até foi preciso
emprestar-lhe camisas do Maximiano!... Ainda hontem a costureira me
veio mostrar um par de meias d’elle que não tem por onde se lhe dê um
ponto!... Agora, o figurão já não perde tempo a vir aqui...—voltando-se
indistinctamente para quem tinha mais perto e calhou ser o Telles—leia o
senhor o que manda por um lacaio. Só visto!...
O discurso ameaçava não deixar occasião para se ler a carta, porque
a conselheira, vendo-se benevolamente escutada, não tinha mão nos
improperios. Interrompeu-a a baroneza benevolamente:
—«Deixe que o sr. Telles leia a carta, aliás não percebemos nada.
—«Pois que leia, para verem quem é aquella bisca!... Só a chicote!...
O Telles pegou na carta traçada com larga calligraphia inglesa propria de
_sportman_ e de pessôas de poucos dizeres, e leu:
—«Minha ex.ᵐᵃ e querida senhora. Venho humildemente a seus pés depôr
a minha homenagem e pedir desculpa pela falta que hoje darei na sua
_quinta-feira_. Não _poço_.—O sr. Visconde escreveu posso com ç, não sei
se quer dizer o mesmo, commentou o Telles com litteratica ironia.
—«Deixe lá os erros e diga para deante—apressou a baroneza.
—«Não póde deixar a _partida_ de mr. Burns, a quem acompanhará n’uma
caçada á serra ás tres da manhã—resumiu o Vilhegas, que acabou de ler por
cima do hombro do amigo.
—«Ora então, coitado do rapaz, tambem tem alguma razão—desculpou a
baroneza.
A conselheira ia sair-se talvez com nova ladainha de injurias e
improperios, se o Jorge Cabreira a não chamasse da porta, n’um gesto
desesperado. Estava pallido; o bigode, que enrolava furiosamente entre
os dedos, mostrava bem a excitação nervosa que o tomava.
O conselheiro tinha-lhe _limpado_ todo o dinheiro n’um _baccarat_
rijamente sustentado, e elle vinha pedir á mulher que lhe emprestasse
mais para tirar a desforra do marido...