Chegára finalmente a noite do baile que trazia alvoraçadas as cabeças em
toda a villa e arredores.
Poucos havia que se não estivessem preparando para a festa, porque os
viscondes que em Lisboa se prodigalisavam pouco, tinham na provincia
relações com todos, e a todos convidavam para o baile que costumavam dar
depois da romaria, nos annos da Viscondessa.
Aquella boa gente que durante o anno pouco se mostrava, como que
armazenando energia e dinheiro para gozar por atacado durante os dois
ou tres mezes em que os forasteiros lhe animavam a terra; não fallava
n’outra coisa, não pensava senão no baile e nos arranjos para se
apresentarem á altura de quem os convidava...
Não seria possivel calcular as horas angustiosas que tal divertimento
fizera já passar ás meninas da terra. Esta, porque uma impingem maldita
lhe nascera na face; outra, porque o teimoso papá lhe não déra a certeza
de a levar, e só á ultima hora diria que sim, quando fosse impossivel
arranjar o vestido, e a ter que levar um fato já visto todas preferiam
não ir.
Desde manhã que as meninas Souzas, em saias de baixo e papelotes,
mascaradas de _cold cream_ para amaciar a pelle, o collete apertado
para adelgaçar a cinta, se afadigavam nos ultimos preparativos, fazendo
uma préga mais funda, cosendo _plissés_, lustrando os sapatos e lavando
as luvas, mandando a criada percorrer as lojas, pondo emfim a casa
n’uma dobadoira para que os seus vestidos fizessem morder de inveja
as amigas Cunhas e as delambidas das Costas mais as do recebedor e as
do escrivão... Umas e outras não pensavam n’outra coisa e contavam as
horas com a solicitude de quem vae contando os momentos que os separa da
suprema felicidade.
A Viscondessa, innocente causa de tantos cuidados e despezas, desde as
oito horas que entrara na sala e conversava com os convidados que já a
esperavam perfilados em trajes de gala.
Mal terminara o jantar subira a mudar de vestido e descera logo por saber
o costume da velha-guarda, as Rebellas com as suas saias embaloadas de
sedinha antiga, a irmã do velho abbade, o Domingos e outros, que ainda
pertenciam aos bons tempos honestos em que os saraus terminavam com
escandalo depois da meia noite.
Isabella, desejosa de ajudar a amiga e tambem porque a espicaçasse a
curiosidade de ver o primeiro desfilar solemne de toda aquella gente que
já conhecia, apressou-se a descer á sala de recepção.
O seu rosto delicado de pequena loira estava como nunca de um encanto
espiritual, que enlevava. A sombra de melancolia que lhe enodoava a alma
desde aquelle passeio á romaria, realçava-lhe a formosura, tornando-a
mais feminil e humana.
Os olhos tinham menos vivacidade maliciosa, o sorriso franzia-se n’um
quasi preguear de quem quer com elle encobrir lagrimas, os gestos eram
mais lentos e as faces empallidecidas já não semelhavam um rosicler de
dia álacre.
Ao lado da Viscondessa, toda de preto, o decote a envolver-lhe o busto
em soberbas rendas hespanholas, afogada e coroada de brilhantes, a cauda
a faze-la mais alta; Bella, simplesmente de branco, um ligeiro vestido
de crepe da China, transparente e leve como a espuma, com a saia redonda
cahindo naturalmente, sem enfeites que a arrebicassem, sobre o pé calçado
de meias de seda preta e sapato sem salto, sem mais joias alem de um
collar de perolas que o tio lhe escolhera uma a uma com meticulosidade de
conhecedor e capricho de milionario; ellas harmonisavam-se bem, apezar
do contraste, como duas flores criadas com luxuoso esmero na mesma
atmosphera de elegancia e riqueza.
Uma entrava apenas na vida, sentia-lhe o primeiro golpe e curvava a
cabeça com resignação apezar do seu espirito naturalmente revoltado,
porque a sua dôr era d’aquellas que amachucam almas delicadas e
quebrantam a vontade dos caracteres impollutos. A outra, levantava-a
já com orgulho, como se os desgostos fossem cadinho onde a alma se lhe
purificasse e enrijasse para supportar a existencia.
Iam chegando os convidados e eram já tantos que o salão de entrada, uma
linda miniatura da sala dos espelhos de Queluz, tornava-se pequeno para
tanta gente.
—«Vae-se tornando impossivel respirar aqui—disse a Viscondessa á
amiga.—Vae lá para dentro, minha filha, bem basta que soffra eu, já que
não tenho outro remedio.
—«Não, estou melhor junto de ti.
—«Fazes-me mais favor indo ver o que se passa pelas outras salas,
insistiu para a convencer.
—«Encarrega-se d’isso a Laura, respondeu indicando a Viscondessa de
Pereira que só n’esse instante appareceu pelo braço do marido, bem posta
no seu vestido lilaz, que lhe ia a matar á côr branca de leite.
—«Não é a mesma coisa, bem sabes que faço cerimonia com ella.
—«Pois então deixa primeiro entrar as meninas Souzas.
—«Quando virão ellas!?
—«Não se demoram, ouvi guinchos, vejo a pera militaresca do tio, e o
nariz achatado do pae alem á porta da entrada, já os garotos furam por
todos os lados... não devem tardar, verás... Olha que isto de levar
crianças a festas d’estas é espantoso! Eu se fosse a ti prohibia.
—«Posso lá fazer isso! Quem dá prova de falta de educação e de senso é
quem os leva; os donos de casa tem que se aguentar...
—«Se alguem fizesse isto em Inglaterra era logo accusado a uma sociedade
protectora da infancia como autor de infanticidios...
A Viscondessa teve apenas tempo de disfarçar o riso para receber as
quatro irmãs, direitas como fakires que engulissem espadas, o cabello em
carapinha sobre os olhos, o pó de arroz empastado sobre a pelle de um
trigueiro requeimado, quasi amarello sépia. As duas primeiras de azul e
verde, sem sombra de gase que tentasse velar o largo decote que exhibia o
peito forte; as mais novas escondendo a indecisão dos bustos de anemicas,
a sahir da infancia, com exagerados folhos de _crêpe-lisse_ amarella.
Atraz a mãe, gorda e ofegante, mostrava a physionomia lorpa e
materialmente inexpressiva que as filhas terão aos sessenta annos, depois
de uma mocidade consumida a procurar marido, logo inferiorisadas após o
casamento, tornando-se criadas dos filhos e as servas do homem que as
sustenta e veste.
As raparigas fitaram Bella com o sobrecenho desdenhoso de quem tem visto
muito nos clubs das praias onde o tio as levava, de annos a annos, á
pesca de marido.
—«Oh Maria Helena, não me deixas continuar aqui?—perguntou ella
disfarçando o riso com o lenço.
—«De modo nenhum, além de ser um incommodo, parece-me que és capaz de me
comprometter... Olha o João, que vem mesmo a proposito para te offerecer
o braço.
—«Da melhor vontade—disse este adeantando-se—tanto mais que andava já
procurando V. Ex.ᵃ para ser meu par na primeira quadrilha e na primeira
valsa. Não é isso o que diz o seu _carnet_?
—«Exactamente.
Isabella tomou-lhe o braço com uma perturbação inexplicavel e, como na
romaria, iam em silencio atravessando a multidão buliçosa.
—«Oh, miss Bella—cumprimentou o Telles, que encontraram vindo da sala
onde os homens rodeavam o visconde—hoje como nunca a abreviatura do nome
de V. Ex.ᵃ é a expressão da verdade.
—«É realmente mais bonita a abreviatura do que o nome, não importa que
não corresponda á pessoa.
—«Oh se corresponde! E plenamente, como um delicioso nome de princeza
encantada que é.
—«Sim, recordo-me de que me contavam a historia de uma princeza, Bella,
que foi amada por uma féra...
—«E que por fim se commoveu e chegou a amar o pobre monstro que a
adorava!...
—«Porque afinal não era mais do que um principe encantado. N’estes tempos
banaes em que os encantamentos não existem, as _bellas_ já deixaram de
amar as _féras_ que as perseguem...
Deixou o Telles desapontado, a morder o raro bigode nervosamente, e
seguiu pelo braço do João.
—«Foi de uma crueldade para o desgraçado!...—disse-lhe este quasi a
mostrar no riso a alegria que lhe déra.
—«O que quer!? Tenho dias em que me sinto sem paciencia nenhuma para
aturar parvos. Se as minhas palavras fôssem veneno, matava-os a todos.
—«Que barbaridade!
—«Era uma limpeza que a hygiene aconselharia...
—«A bondade acolhedôra com que ás vezes os attende é que os convence de
que pódem dispensar-lhe os seus galanteios.
—«É simplesmente para conversar, mas nunca lhes dei motivo para se
julgarem auctorisados a dirigirem-me galanteios. Se é que taes baboseiras
o são.
—«Com esta gente quanto menos conversas melhor...
—«Despresa os então muito?
—«Em geral não despreso ninguem, mas aborrecem-me os seus ridiculos.
Depois, são maldizentes e invejosos. A não ser com o dr. Ramalho, com o
abbade e uns cinco ou seis rapazes que fôram meus companheiros na escola
do Padre-Mestre, e que são hoje uns honestos trabalhadores, vivendo dos
seus officios, poucas relações tenho na villa. Como sabe, ha uns poucos
d’annos que vivo mais tempo fóra do que aqui.
—«Sim, os seus provincianos tem defeitos, mas olhe que os lisboetas não
lhes são superiores. Ora repare no modo impertinente, pela sobranceria
e insistencia com que a Viscondessa de Pereira fita o _lorgnon_ em todo
o mundo. É, impossivel aquella Laura! Vê? Ahi está, é boa rapariga, e
intelligente, mas tem a mania das relações de nome; tudo quanto não seja
_fazer_ a Avenida, como lá dizem, ir a S. Carlos, vender prendas nos
bazares de caridade ou frequentar celebridades, é fóra do _tom_ e faz
perder a _linha_. E que infinidade de pessoas pensam como ella em Lisboa!
—«Nem V. Ex.ᵃ imagina o que por lá existe! Que miserias a fingir
opulencia, quantas dôres que só a vaidade causa, que tristeza nessa vida
postiça e sem elevação moral!
—«Conhece bem a vida de Lisboa?
—«Muito bem, tenho vivido lá bastante e sei perfeitamente o que tem de
falsa. De quantas familias sei eu que passam o verão calafetadas em casa
para dizerem que _villegiaturam_ pelas praias elegantes!
—«O que quer dizer que tinha eu razão quando lhe dizia que é peor ainda a
pretenção dos lisboetas...—retrucou Bella sorrindo.
—«Não sei... O que quer dizer é que, julgando-se differentes, não são
mais do que eguaes productos de uma sociedade sem elevação, pobretona,
sem amôr ao trabalho e sem modestia, uma sociedade em que todos são
fidalgos e tem vergonha de serem o que realmente são.
—«Resumindo...
—«Póde viver-se apenas com raros que se isentam d’este vicio geral. E é o
que eu faço aqui e em toda a parte.
—«Eu tambem—volveu Bella—tenho um horror intimo, instinctivo, quasi
louco, ao contacto com a multidão...
—«Haja vista a noite da romaria em que cuidei que ficaria doente.
—«É certo, mas não foi n’aquella festa por ser popular. Pelo
contrario, eu estimo o povo e desejava poder-me identificar com as
suas festas, que têm de superior a sinceridade na alegria, a animação
sem convencionalismos; hoje, a impressão não é de assombro como foi no
arraial, é de tristeza, de profundo desgosto; toda esta gente grave
imaginando que se diverte dá-me a impressão de uma mascarada n’um
enterro...
—«A mim tambem esta festa me afflige muito, mas eu tenho outras razões....
—«Não se podem dizer?
—«Podem. Faz um anno que a Pillar aqui estava, e tão cheia de vida, tão
alegre!... Dançou toda a noite com aquelle estupido que já hoje a esquece
pela Carneiro!... Não imagina como isto me faz soffrer!
—«_Les morts vont vite_, meu amigo.
—«Quando não eram verdadeiramente queridos. Eu sinto hoje como no
primeiro dia a dôr violentissima que a morte de minha irmã me causou.
Não pode comprehender a repugnancia que o Vilhegas me inspira! Ás vezes
como que uma onda de sangue me sobe á cabeça e penso que me seria
agradavel despedaça-lo com as unhas, ferozmente, como um animal bravio.
Um estremecimento nervoso lhe percorreu o corpo.
—«E ella amava-o?!...
—«Muitissimo, desde criança. E pensar em que se vivesse seria hoje a
mulher de tal homem!... Antes morta, está mais descançada.
—«Não diga isso! Eu queria tanto que a Pillar vivesse! Seriamos duas
irmãs, porque os nossos espiritos se irmanavam, tenho a certeza, pelo que
d’ella me têm contado.
Insensivelmente tinham-se affastado para a ultima sala, ainda deserta, e
sentado no vão de uma janella.
—«Tem rasão. Foi um horror a sua morte. Não faça caso. A minha cabeça
fraqueja sempre que fallo n’isto. Mudemos de assumpto, que miss Bella
não tem culpa das minhas dôres para com ellas entristecer o seu espirito
despreoccupado...
—«Imagina que eu não tenho tambem lagrimas a recordar e a verter ainda?...
—«V. Ex.ᵃ?!
—«Eu, sim! Sob esta apparencia de alegria e despreoccupação, sabe lá que
amarguras posso recordar! Poderá sequer comprehender as vergonhas e as
dôres de que a minha infancia se teceu?
—«Tambem soffre? Oh, desculpe o egoismo, mas quasi o estimo porque sômos
assim mais irmãos, pela amargura...
—«Sim, irmãos, e como tal o estimo, João!
—«Só como irmão?...
—«Sim...—vendo que queria protestar accrescentou:—não perturbemos o
encanto d’este affecto, sejamos apenas irmãos...
Estendeu-lhe a mão, n’um d’aquelles seus antigos gestos de rapariga
educada sem biôcos, e na preoccupação evocativa em que o seu espirito se
alheava não reparou que toda estremecia ao contacto d’essa mão que queria
considerar fraterna.
—«Se o João soubesse o que foi a minha infancia!—proseguiu.
—«Não viveu sempre com seu tio?
Abanou a cabeça negativamente, e, passados momentos:
—«Já tinha dez annos quando fui para a sua companhia.
—«Até ahi?!...
—«Vivia com... em casa de meu pae. Não se póde dizer que vivesse com
elle, porque só raramente o via. Ah! como isto me faz mal, fico nervosa,
sabe?!
—«Faz-lhe mal, sim. Está n’uma tremura e tem as mãos geladas... mudemos
de assumpto. Tudo quanto lhe diz respeito me interessa, mas não a quero
vêr triste—disse-lhe com doçura.
—«Não,—respondeu sacudida, querendo fugir á commoção que a tomava e
a fazia estremecer, deliciada, por encontrar uma tão grande ternura
a diluir-se em palavras tão simples, mas tão repassadas de affecto
e respeito, ditas n’aquella voz um pouco velada, de amoroso.—Quero
contar-lhe o que foi a minha primeira infancia. Não lhe disséram ainda de
quem sou filha?!...
—«Tentaram dizer-mo, recusei saber tudo aquillo que não viesse da sua
bôcca.
—«Como esse procedimento é nobremente orgulhoso! Admiro o pelo
caracter, mas, mais me obriga ainda a dizer-lhe o que me entristece e
envergonha.—Como o João ia responder, atalhou—não me responda! Deixe-me
dizer-lhe tudo de uma vez só, sem respirar, como quem se resolve a
beber um remedio custoso. Toda a demora me faria perder a coragem. Meu
pae chamava-se Pedro Avellar; nunca ouviu fallar de um banqueiro com
este nome que foi accusado de falsificar lettras e quebra fraudulenta e
que n’essa quebra arrastou muita gente que lhe tinha confiado as suas
fortunas e tinha negocios com elle? Antes do escandalo final desappareceu
e ninguem mais soube onde pára. Esse era o meu pae. Um desgraçado, uma
victima mais do que um malfeitor. A sociedade tinha-lhe permittido todos
os desregramentos porque era rico e para o exilio pouco ou nada terá
levado d’aquillo que dizem ter subtrahido; as mulheres e o jogo tinham-no
arruinado primeiro. A minha mãe é que era inglesa, sobrinha unica do tio
Burns que a tinha educado e criado com os mesmos cuidados e mimos com
que depois me tratou a mim. Mas a minha mãe era melhor do que eu, de uma
doçura, uma passividade angelical. Nunca abriu os labios para um gemido
de queixa. Os escandalos que meu pae deu, logo após o casamento, eram
taes e tantos que o tio queria que ella requeresse separação. Como não
quiz, sahiu elle de Portugal, onde então vivia tambem uma grande parte
do anno. Nunca mais se viram. Quando eu tinha dois annos morreu minha
mãe—de desgosto, de saudade!? Sei lá comprehender em que rios de lagrimas
se affogou aquelle pobre coração! As horas que eu tenho passado a querer
evocar a dolorosa physionomia da sua ultima hora, quando concentrasse
em mim todas as suas forças vivas, n’um ultimo olhar de angustia!...—Um
soluço nervoso sacudiu-lhe todo o corpo doridamente. João, com os olhos
avermelhados de lagrimas que reprimia, quiz interrompê-la com alguma
palavra consoladora, mas suspendeu o com um gesto e continuou:
—«Não diga nada, que a piedade da sua attenção vale bem mais do que todas
as palavras.
Cahiu n’um fundo meditar; depois continuou n’uma voz quebrada, vinda do
sonho da sua recordação infantil, como a recitar sem interesse phrases
que lhe sahiam dos labios já feitas, a contar essa historia milhões e
milhões de vezes pensada e nunca repetida, que se lhe tinha fixado na
memoria como melodia sempre egual de um instrumento mechanico.
—«Imagine o que seria a vida d’uma criança passada entre criados que,
a não ser a _bonne_, uma pobre velha inglesa que criára a mamã, eram
d’esses que a fortuna traz e leva, como lama de enxurrada. Raras vezes
via meu pae, mas quando o via eram tantas as festas e os presentes que
me dava que eu tinha por elle uma verdadeira adoração. Não houve decerto
criança que mais faustosamente fosse passeada pelas ruas de Lisboa, nem
que mais rica fôsse em brinquedos e mimos. A criadagem, sabendo que tudo
lhes era desculpado se me tratassem com carinho, não havia capricho que
me não satisfizessem. Podia dizer-se que era feliz, se não houvesse não
sei que saudades ou presentimentos infantis, que por vezes me punham em
crises de lagrimas. Um dia, já então tinha oito annos, sahi a passear
com a _bonne_, e vi n’uma montra o brinquedo mais interessante que até
então tinha visto. Maravilha chegada de Paris e que o negociante não
imaginava, por certo, vender tão depressa. Imagine uma linda bonequinha
vestida como uma marquesa do seculo desoito, com alta cabelleira empoada
e vestido no rigor da moda de _Versailles_, n’um palacio verdadeiramente
principesco. Tinha tudo aquella feliz imagem de outras bonecas vivas, que
egualmente envelhecem e morrem na ociosidade e no luxo em que a minha
pobre boneca se fanou. Cadeirinha para passear, criados empoados, pequena
sala de receber no mais rigoroso _rocaille_, salão, casa de jantar,
alcova com seu leito baixo de grande cabeceira entalhada e doirada...
emfim era uma verdadeira marquesa do grande seculo á qual não faltava a
_soubrette_ theatral, o abbade poeta, nem o fidalgo galante. Parece que
estou a vêr todo este encanto da mais louca phantasia infantil,—terminou
sorrindo á ingenua recordação, que dava um pouco de frescura e mimo ao
sombrio evocar de uma infancia de orphã, criada no fausto, e tão pobre de
alegrias simples e de affectos desinteressados.
João sorria tambem de tanta ingenuidade á mistura com o estranho vibrar
de uma alma de mulher já feita pela dôr e pelo pensamento.
Bella continuou:
—«Quando vi aquella maravilha estaquei defronte da loja, ao cimo do
Chiado, e custou muito á _bonne_ arrancar-me d’alli. Devia ser coisa bem
cara para que a pobre mulher apertasse as mãos na cabeça quando fallei
em pedir a meu pae que ma comprasse. Mas que valor póde dar ao dinheiro
a pessôa que não lhe sentiu nunca a falta? No entanto, com os discursos
da velha inglesa, sempre me acanhei de pedir a realisação d’esse desejo.
Tão pouco habituada estava a uma contrariedade que, de noite, não dormi
com o socego de costume, e quando de manhã fui fallar a meu pae, que por
acaso não tinha dormido fóra, elle estranhou-me o parecer. Inquirida com
interesse, não tive forças de negar e, n’um mar de lagrimas, confiei a
minha dôr pelo desejo não realisado. Elle sorriu-se, acarinhou-me com a
delicadeza de uma affectuosa mãe e, passado duas horas de ter sahido de
casa, appareceu me um gallego á porta com o meu thesoiro. A alegria, que
tive ao vêr desempacotar, peça por peça, o que constituia o meu sonho
realisado, não se descreve. Já elle então luctava com difficuldades, mas
não recuou em arcar com mais essa despesa para satisfazer o capricho de
uma criança mimosa! No entanto, pouco se importava com a minha educação
moral; que para a outra tinha professoras que pagava generosamente para
me aturarem com paciencia... E costumava dizer, quando lhe censuravam
a maneira como me educava, ou... me deixava por educar, que é mais
proprio:—O unico fim da existencia na sociedade em que vivemos é a
felicidade, e a pequena assim é feliz!... E era o como poucas crianças o
tem sido, n’uma inconsciencia, n’uma innocencia, que a maldade passava
por mim sem me macular o espirito, porque a não comprehendia. D’este
sonho fui despertada um dia brutalissimamente por uns agentes da justiça,
que nos sellavam as portas e poriam na rua se a _bonne_ não conseguisse
que eu habitasse no meu quarto até que o tio Burns respondesse ao seu
telegramma. Eu fiquei como que assombrada, cahida d’um mundo desconhecido
onde me collocara, com a minha marquesinha, sem chegar bem á comprehensão
nitida do que me succedia... Foi desde então que me chamaram Isabella
Burns, e nunca mais me fallaram de meu pae—como coisa vergonhosa...
Terminou n’um murmurio, curvando a cabeça para esconder as lagrimas que
lhe corriam silenciosamente pelas faces.
—«Pobre criança!—disse João apertando-lhe a mão com respeito.
—«O quê?! Pois não me quer mal por ter aquelle pae, que a sociedade me
manda despresar, depois de o ter pervertido, e que eu, apesar de tudo,
recordo com a affectuosa saudade?...
—«Como poude pensar tal, Bella? Ao contrario, parece que a estimo mais,
muito mais ainda, porque sabe o que é soffrer.
Levantou os olhos, ainda humidos de pranto, e ia responder-lhe, mas foi
interrompida pela Viscondessa que entrava pelo braço do Dr. Ramalho.
—«Então vocês vêm se esconder a um canto despresando a valsa?! Sim
senhores, dão um grande apreço á minha festa, vejam o que tenho a
agradecer-lhes!...
—«É verdade que sim! Tinhamo-nos esquecido de que estavamos n’um baile...
—«Cabecinhas de vento! Ora vão recuperar o perdido, andem, a valsa
convida.
—«E tu não vens tambem dar uma volta?—perguntou-lhe a amiga levantando-se
e beijando a com uma nervosa affectuosidade que deu logo a perceber á
Viscondessa que alguma coisa se passára de estranhamente grave entre os
dois.
—«Eu? Já estou velha para valsas, quando muito o passeio da contradança
cerimoniosa. E mesmo isso, querem crêr que já me fatiga?! Estou
positivamente velha.
—«A prima deu agora na galanteria de se querer fazer uma _avósinha_...
—«Infelizmente sem netos. Já me vão tardando os que tu me has de dar,
sabes?!...
João sorriu e não protestou. Isabella tomou-lhe o braço e disse, como
quem quer terminar a conversa:
—«Vamos então á nossa valsa?
—«Miss Burns, encontro-a finalmente—entrou dizendo o visconde d’Alvora,
retorcendo o bigode e empertigando-se para disfarçar a rotundidade do seu
corpo abbacial.
—«Que empenho era esse, visconde? Julgava-me perdida e queria merecer
alviçaras?
—«Oh não! O simples empenho que tem todo o cavalheiro em offerecer o
braço á sua dama.—E offerecia-lho na verdade, sempre retorcendo o bigode
e olhando João com altivez desprezadora.
—«Peço perdão, sr. Visconde, mas eu prometti a primeira valsa ao sr. João
de Mello.
—«Mas, minha senhora, nós já estamos na segunda.
—«Não posso considera-la assim, visto que não assisti á primeira. Espero
que me desculpará, meu caro visconde.
—«Eu não devo prescindir da honra concedida...
—«Mas prescinde porque eu desejo, e porque é de justiça. E vou já passar
procuração ao tio William, que vem atravessando a multidão dos valsistas
com a mesma impassibilidade com que atravessaria uma avenida deserta,
para ser arbitro n’este importante pleito.
Na verdade Mr. William Burns vira de longe a sobrinha e sem mais
cerimonias resolveu atravessar o enorme salão onde os pares dançavam ou
esperavam a sua vez, fazendo roda, apertando-se e confundindo-se.
Olhava-os com interesse de observador, fitando todos com a viva
curiosidade de uns olhos azues que lhe illuminavam a fronte de propheta e
attenuavam o geito da bocca d’uma ironia mordente.
Alto e robusto, hombros largos, voz, olhar, gestos e o proprio andar,
demonstrando a placida serenidade do homem saudavel e forte, bem
equilibrado na vida; e que, apezar dos longos annos de existencia
laboriosa, ainda se sente com musculos superiores aos dos rapazes a quem
uma infancia atrophiada preparou uma mocidade rachitica.
Olhou o Telles a calçar as luvas e apressurando-se em amabilidades
para a mais velha das Souzas, arrogante na pretenção de valsista
incansavel e elegancia sem rival. Ouviu de passagem que ella respondia
aos enthusiasmos litterarios do rapaz por Loti e Huysmans com a sua
predilecção por Paul Féval e Montepin, que conhecia dos folhetins.
—«Garrett—dizia estendendo o beiço carnudo—não conheço. É francês? De
Herculano já ouvi dizer que tinha um romance bonitinho, empresta-mo?!...
O inglês sorriu e cumprimentou a baroneza que estava de pé, pelo braço do
D. Manoel Pereira, que lhe ficara fiel, e disse lhe com amavel bonhomia:
—«Sempre gentil, minha cara baroneza: dir-se-hia que descobriu a receita
da bella Diane de Poitiers...
—«Mr. Burns sempre galanteador e... mordaz. Assim me passa uma certidão
d’idade compromettedora...—ria francamente, porque tinha o bom senso de
não querer ser moça pelos annos, contentando-se em o ser de facto pela
elegancia e pelo espirito.
Mr. Burns que a estimava pelas suas reaes qualidades, escurecendo
defeitos com os quaes nada tinha, respondeu sorrindo e continuando o
caminho:
—«O que quer, minha amiga? diz o ditado português que ha _um sujeito_
velho, que não aprende linguas novas...
No meio da sala esbarrou com o par valsista por excellencia, Mademoiselle
Hortense e o Vilhegas, que no dia seguinte seriam _fiancées_—participava
a todo o mundo.
A mãe não estava menos soberba com o seu vestido _rosa velha_ com
_traine_ de velludo verde e adereço de esmeraldas, tal qual fôra ao paço
quando ministra e merecêra descripção especial no _Illustrado_. Mr. Burns
parou para a cumprimentar, achando-a cada vez mais formosa, parecendo
irmã da filha.
Agradeceu a amabilidade que lhe não era das mais agradaveis, porque
detestava o titulo de _mamã_. Até por muitos annos a filha vivera quasi
sem que as relações da mãe dessem por isso, ou no collegio ou em casa
de parentes ou entre os criados, quando em familia, para que a mãe se
não apresentasse com tal certidão de idade... Só o desejo de a casar
e livrar-se assim de uma companhia importuna por indiscreta, vencera o
receio de se envelhecer com a sua apresentação na sociedade.
Rodeando um pouco para não ser atropelado, mr. Burns encontrou o visconde
que ia tirar a Candida para valsar. Sorridente, recusou, a não ser que
o sr. Braga consentisse, pois o considerava como noivo, faltando-lhe
apenas que o Visconde, em seu nome, fallasse ao tio. O velhote, como que
assoberbado com tanta felicidade n’uma idade e com um physico que não
eram os mais proprios a inspirar amoroso interesse, consentiu em que
dançasse com o illustre amigo.—Ora essa, a menina bem sabia que não tinha
outra vontade que não fosse a sua...
O inglês teve um rapido franzir de sobrancelhas de quem vê um caminho
que lhe não parece o mais direito e ficou um instante parado a seguir a
casaca preta do Visconde, que no giro da valsa se confundia com o vestido
negro com palhetas d’oiro d’essa formosissima mulher sorrindo bondades
e de uma quasi ingenua perfidia á força de inconscientemente sentida e
usada.
Já voltavam e paravam deante do uzurario a quem dizia n’um meigo arrastar
de phrase:—que o visconde a encarregara de lhe dar a boa nova de que
estava emfim resolvido a seu favor o negocio da casa de Bernabé...—e
ainda o velho William alli estava a considera-los attentamente.
Depois encolheu os hombros e foi mais adeante, até onde a mais nova das
Costas conversava com a mais nova das Souzas, ambas insignificantes,
inferiorisadas pelas irmãs, a Costa um pouco mais bonita, clarinha e
gorda, com grandes olhos inexpressivos em que as pestanas demasiado
compridas davam um aspecto de boneca de loiça. Viu-as alongar a vista
pela grande sala de baile—a que os espelhos das portas dobravam, pela
illusão, o tamanho—em procura de par e ouviu-as murmurar:
—«Parece que não ha rapazes!...
—«Elle ainda os ha—commentou a dos olhos tristes—mas parece que viram
lobo!...
Sorriu ainda; e foi com o rosto aberto n’esse sorriso entre caridoso e
ironico que chegou ao pé da sobrinha, o seu enlevo como artista, o seu
amôr como tio, quasi pae.
—«Jesus, que longa e difficil travessia, querido tio! Julguei por
vezes vê-lo sossobrar em tão perigoso mar!—dizia-lhe ella a rir, com
affectuosidade.
—«Ainda por cima a ingratidão de uma troça! Ora eu que emprehendi esta
_jornada_ só para a vêr, porque a minha amiguinha já nem se importa de se
mostrar ao velho tio! Sim senhor, deixa-me á meza com os caturras, não me
procura na sala de jogo onde os velhos se refugiam... estou perfeitamente
posto á margem.
—«Não diga tal, querido tio! Pelo contrario, estava-o esperando para lhe
dar a honra de o fazer juiz n’um pleito que ora aqui se debate. Exponha a
sua queixa, visconde.
—«Oh, miss Burns está brincando, eu cedo sempre á vontade das damas,
embora a justiça lhes faça mingua.
—«Oh, muito obrigada pela generosidade, mas nós as mulheres já temos os
nossos direitos: queremos tambem as nossas responsabilidades. Despresamos
a vossa piedade cavalheiresca, que nos dava a irresponsabilidade... das
crianças.—Respondeu Bella com certo entono comico, que muito divertiu o
tio e fez esboçar um sorriso ao João, a quem a questão não agradava.
—«Vamos, Visconde, não ha remedio: ella reclama justiça, justiça se fará,
mas... talvez de moiro, que é o que ellas querem...
—«Se elle não apresenta a queixa, já vê que é uma prova de que não está
seguro da sua justiça...
—«Menina, isso é um sophisma.
—«Não é tal! O caso é que a valsa acaba e a questão não acaba antes. Eu a
exponho em duas palavras. O sr. João de Mello convidou-me para a primeira
valsa e o Visconde para a segunda. Ora eu estive lá dentro e só agora
venho dançar,—qual é a primeira para mim?
—«Realmente!—Burns deu uma alegre risada—um theologo não defenderia
melhor um dogma arrevezado. Tu tens razão, o teu par é o João e o meu
caro Visconde vae ficar compensado passando pelo _Messias_ desejado de
duas almas em pena que lhe vou mostrar.
E levou o alegremente a uma das pobres raparigas que lamentaram não ter
par que dançasse com ellas uma vez ao menos...
Bella agradeceu-lhe com um sorriso, e, pondo a fina mão desluvada no
hombro de João, deixou que elle a enlaçasse com um respeito quasi de
religioso tocando em preciosidade cultual.
Seguiram na valsa colleante que os levava na corrente de um rythmo de
musica vinda do norte, do paiz dos longos amores sentimentaes e dos
lendarios castellos alcandorados nas montanhas...
Iam, levando-se nos braços um do outro, sem se verem nem ouvirem por
entre aquella confusão divertida, obedecendo quasi mechanicamente ao
espreguiçar inebriante da musica, n’um estonteamento de felicidade
que parecia dar-lhes asas n’uma inconsciencia a roçar pelo sonho, tão
intenso, tão extra-terreno era esse goso.
Só quando os ultimos acordes morreram nos violinos chorosos é que elles
pararam, ambos egualmente atordoados e commovidos, deante de uma das
portas do terraço, onde se ia respirar um pouco d’ar puro embalsamado
pelas rosas trepadeiras.
—«Sabe que está encantadora, miss Bella!?—murmurou João levando-a para a
varanda onde se refugiaram os conversadores.
—«Não diga isso, meu amigo.
—«Porque não, se é a verdade, o que sinto, o que vejo com os meus
proprios olhos?!...
—«É o mesmo que qualquer outro me diria.
—«E que culpa temos nós de que as palavras estejam tão banalisadas que
não haja meio de exprimir com ellas uma coisa nova, delicada, e sentida
como eu a sinto?!
—«Que voz a sua, João! não me falle assim! Atemorisa-me. Eu, que nunca
tive medo de coisa alguma, estou agora tremendo como uma criança—dizia
commovida, encostando-se á balaustrada de pedra e ficando toda na sombra.
—«E porque é que a sua voz treme como a minha, porque é que nos seus
olhos as lagrimas querem rebentar, Bella?!...
—«É verdade, estou a chorar, mas porquê?!...—e tentava sorrir mas não
conseguia dominar a tremura do seu pequenino queixo de uma pureza de
linhas verdadeiramente infantil.
—«Porque me ama, Bella. Para que nega-lo? Porque me ama como eu a amo,
com toda a minha alma, com todo o meu sangue, com a certeza de que o seu
espirito e o meu se identificarão sem se absorverem, que seremos dois
amigos para caminharmos juntos na jornada da vida...
Fallou por muito tempo, muito, tecendo sonhos, bordando phantasias, que
ella ouvia enlevada, encostando a cabeça á mão que lhe deixava livre,
numa passividade deliciada.
Calaram-se ambos, sem nada encontrarem que exprimisse a ternura immensa
que transbordando da alma lhes enchia os olhos de lagrimas de ventura.
Elle, mais forte, conseguiu articular uma palavra que dizia o desejo
ansiante do seu coração na sua mesma simplicidade—«Amo-a!...
Bella estremeceu toda, como se fosse emergindo n’um banho de caricias, e
ciciou n’um halo de sonho:—«tambem eu o amo...
E de mãos enlaçadas, olhos nos olhos, sorriso com sorriso, assim ficaram
completamente alheados do borborinho e esbanjamento de alegrias e
egoismos que se degladiavam na arena do baile com brutalidades de feras
em pleno circo romano...