O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde Nuno e Júlia ainda
permaneciam, sem pressa de regressarem à confusão e ao alarido da
cidade, de que se esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de
recolhimento e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior da sua ventura.
Como viviam únicamente um para o outro, sentiam-se bem naquele
isolamento de que nenhum sobressalto exterior quebrava o ritmo.
Parecia-lhes que os seus pensamentos e as suas emoções ganhavam, na
solitude, maior nitidez e mais intensidade e que um amor, de instante
para instante mais forte, os aproximava tanto pela beleza moral como
pela beleza física, enriquecendo os matizes afectivos da sua intimidade
espiritual.
A hostilidade do tempo retinha-os quáse sempre dentro de casa. Grossas
cordas de água fustigavam com violência as janelas, escorregando
lentamente nos vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lúgubre a
paìsagem que se divizava ao longe, através duma cortina de névoa
cinzenta e triste. Dos montes próximos, onde densos pinheirais ondulavam
e ramalhavam à ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo
entre cachões de espuma até ao vale. Por vezes, dos telhados dos
casebres, que donde a onde branquejavam na desolação campestre, subiam,
colunas de fumo que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na
atmosfera baça. Grandes nuvens negras corriam no ar, do sul para o
norte, impelidas pela rajada dos furacões. No cume das serranias havia
uma claridade mais límpida do que nas encostas e nas colinas onde um
espêsso vapor se acumulava. As árvores sem fôlhas do parque rangiam,
gemiam ao vento. De noite, especialmente, o barulho que faziam era
sinistro e assustava Júlia. De quando em quando, um pedaço de céu azul
rasgava-se no alto, muito puro e translúcido, e uma pálida claridade de
sol derramava-se docemente, como uma bênção divina, por tôda a aldeia,
dourando a verdura das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra
negra. Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma alma de bondade e
meiguice a comunicar-lhe o encanto supremo duma poesia indizível, e duma
infinita piedade pelos desgraçados. Mas em breve o ambiente de novo se
toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.
Em certas manhãs, Nuno, com o charuto na bôca, as mãos nos bolsos das
calças onde tilintavam chaves, bem agasalhado pelas roupas quentes,
assomava à varanda envidraçada, espreitando através dos vidros
embaciados, e logo se refugiava junto de Júlia, murmurando:
--Que invernia brava hoje vamos ter!...
Ela olhava-o demoradamente, com êsse olhar em que se reflectia tôda a
pureza e tôda a ternura do seu coração e que tanto o comovia, dizendo:
--Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar aqui. Devíamos ter partido
nos fins do verão... Mas essas obras que nunca terminaram...
--Partir para quê?--inquiria Nuno, parando diante dela. O inverno é tam
fastidioso na aldeia como na cidade. E nota! É mesmo curioso ver cair a
chuva entre estas árvores, pelos flancos destas montanhas. Ao menos,
temos horizontes largos, desafogados, respira-se. Estamos a assistir a
um espectáculo inteiramente novo para nós...
--Mas, na cidade...--contrariou Júlia, com timidez.
--Eu sei. Na cidade, há os cafés, os cinematógrafos, os teatros, outras
diversões. Mas ela apenas se torna indispensável para os que não teem
família ou para os que não fazem vida familiar. Para mim, que passo as
noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como num centro
imensamente populoso...
Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce devoção, aquela constância
de afecto que nunca afrouxava, e experimentava um calor de ventura que a
penetrava tôda, que amaciava à sua roda as asperezas da vida. A
confiança de ambos no futuro aumentava constantemente. Tinham olvidado
tudo o que se passava para alêm da história lírica da sua paixão--que
havia começado anos antes e que ainda não terminara; nem um nem outro se
lembravam de ter padecido algum dia. As recordações dos seus tempos
antigos diluiam--se, apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma
nova fôrça, uma energia prodigiosa, pulsava nos seus sêres, renovando-os
a cada momento. Dentro de casa, nas alvoradas hostis ou nas tardes
tempestuosas, ocupavam-se na infinidade de coisas gratas que os cuidados
da habitação oferecem. Júlia, com o saco de costura no regaço, bordava,
cosia, enquanto Nuno lia as suas revistas e os seus jornais ou cortava
as páginas dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe
mandava. No abandôno íntimo dêstes saborosos instantes, se se
contemplavam, subiam-lhes da alma à memória as longínquas recordações da
sua adoração revivida, com extraordinária lucidez. Encontravam, então,
um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que mais de perto com essa
adoração se prendia:--os logares idílicos em que ela tinha nascido,
certos objectos e certos episódios que lhe imprimiam relêvo. A
elaboração interior destas lembranças emmudecia-os longamente,
abismava-os numa espécie de silêncio que temiam interromper e que
voluntáriamente prolongavam, para que o seu gôzo espiritual fôsse mais
duradouro.
Nuno conservava tam nítidamente na memória êsses acontecimentos, que
podia reconstituí-los com facilidade, sempre que quisesse. Não lhe
esquecera ainda, o mínimo detalhe do seu primeiro encontro com Júlia,
que chegara certa manhã a um hotel de Vizela, com o pai, a mãe e o
irmão, o excelente Roberto, que fôra educado em Londres, que tinha nas
maneiras, na franqueza, na correcção do porte e no córte do vestuário,
acentuados traços britânicos e que partira para a America do Norte, como
empregado superior duma casa bancária, dois meses depois do casàmento de
Júlia. Viram-se a primeira vez no parque, por uma tarde de luz e de
alegria. Ela trazia um vestido de fustão branco muito justo que lhe
desenhava claramente as formas plásticas, ondulantes e de linhas puras.
O seu busto era perfeito de curvas e de contornos: a sua mocidade tinha
a graça subtil duma flor plenamente desabrochada. O seu chapéu de palha
côr de ouro com duas rosas vermelhas presas por uma laçada de gaze de
sêda branca, fazia-lhe uma discreta sombra sôbre a testa, suavizava-lhe
mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto dum oval delicado,
imprimia-lhe maior destaque à pele das faces e do colo, que parecia
alumiada por uma claridade interior e que não tinha um vinco, uma ruga.
Nas suas mãos, que eram magras, pequeninas e de dedos delgados, fulgiam
pedras de aneis.
Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples olhar e foi como se ficassem
compreendendo-se para sempre--porque o amor casto dá aos olhos uma
inteligência especial, um admirável poder de entendimento e de
expressão. Daí em diante, nunca mais Nuno deixou de a seguir dócilmente
para tôda a parte, indo aos chás a que Júlia se associava, às excursões,
em grandes ranchos, às serras próximas, para a contemplação dos
panoramas que se vislumbram dos píncaros mais altos:--a ondulação
ininterrupta e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um
colosso fulminado, tocado a espaços por manchas de folhagem verde,
alteando e deprimindo a sua ossatura monstruosa na base, elevando-se
bruscamente em saltos e galgões de terreno. Em baixo, ao fim da escarpa
abrupta dos montes, a natureza rebentava numa torrencial explosão de
arvoredos, de milharais, de pomares, de videiras de compridos braços,
enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras, como as serpentes no
coração do Lacoonte, subindo até às copas e vergando de cachos.
Uma frescura e uma abundância de écloga latina, que Vergilio cantaria,
em estrofes immortais, corriam alacremente nos fundos vales que se
almofadavam de ervaçais e sombras; e em tôda a extensão panorâmica, as
serranias sucediam-se umas às outras constantemente, como um mar de
enormes vagas terrosas que a tormenta açoutasse. As senhoras, assustadas
com a grandeza do espectáculo, sentiam deslumbramentos e davam gritinhos
de susto; os homens riam. E Júlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos
palradores, teciam as horas de sêda e ouro do seu amor que começava e
que, não sendo já segrêdo para ninguêm, provocava risinhos maliciosos,
ditos picantes ou de despeito.
Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel para jantar, nos olhos de
Júlia havia uma extraordinária fascinação e, Nuno trazia uma alvorada na
alma. Depois, à noite, no salão, organizavam danças, enquanto os homens
de idade se reùniam às mesas dos jogos improvisados, para as suas
fastidiosas partidas de _bridge_, e as damas, sentadas pelo salão, se
emaranhavam em banais conversações sem fim:--e Júlia era sempre o par de
Nuno, nas valsas...
Uma vez por outra, a colónia da estância balnear levava mais longe as
suas digressões, ia até Guimarães, visitando as vélhas igrejas que
resplandeciam das talhas douradas, até às Taipas, até Braga, seguindo em
automóveis através de estradas cortando campos onde crescia o milheiral
e os feijões se cobriam de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde
um murmúrio de aragem passava nas messes já maduras, procurando as tiras
de sombra veludosa e mole caindo das árvores que, duma banda e doutra,
orlavam o macadame. Era uma festa para a vista e para o sentimento dos
excursionistas tôda essa larga e incomparável paìsagem do Minho, túmida
de seivas, de fôrça, de vigor e duma tam rara e prodigiosa vegetação. A
cada instante se detinham à beira duma fonte que gorgolejava no jôrro
cristalino das suas linfas, oferecendo fresquidão e consôlo pelos dias
tórridos, perto duma levada de água de rega vinda de longe, rolando
pedrinhas alvas, grossos saibros reluzentes, cantando misteriosamente
nas espessuras discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo uma
gloriosa vitalidade às raízes. Incessantemente topavam, trotando no
cascalho da calçada, as características diligências que rangiam aos
solavancos, levando nas imperiais abades rubicundos com guarda-sóis de
paninho vermelho entre as pernas e dentro tôda uma população em trajos
domingueiros. No meio do estrépito das ferragens, o cocheiro praguejava,
fazendo estalar o chicote sôbre o lombo dos cavalos cansados. Os melros
assustavam-se pelas balsas floridas, voando para longe; erguiam-se
nuvens sufocantes duma poeira cáustica e mordente. Às portas dos casais
que davam para as estradas, sob ramadas onde as uvas amadurciam, iam
acudindo, ao ruído dos automôveis que fugiam no fio da aragem, mulheres
com grosseiras mãos escondidas debaixo dos aventais de riscado, crianças
em camisa, com ventres enormes e a palidez de doença na cara suja. Cães
ladravam, ameaçadoramente, por debaixo dos portões vermelhos das
quintas: e a ranchada jovial dos excursionistas continuava a sua marcha,
rindo, palrando distraídamente. Nuno lembrava-se de que--numa destas
escapadas encantadoras, por um meio-dia de soalheira abrasadora em que
foram ver o castelo de Guimarães, com a sua tôrre de menagem, os seus
fossos cheios de ervas parasitárias, as suas seteiras, os seus
travejamentos carcomidos--Júlia, ao passar por um quintal onde um alto
damasqueiro, esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava os seus
frutos dourados e penugentos, teve de repente um desejo guloso de comer
damascos; e logo êle, mandando parar o carro, bateu à porta da granja,
pedindo que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de mulher veio de
dentro, convidando-o a entrar, a escolher, a fartar-se, porque aquela
fruta não se vendia:--dava-se.
--Não quero isso, não quero. Venda-ma...
--Oh! meu senhor, graças a Deus não precisamos. Olha agora levar
dinheiro por uma miséria assim!...--teimou a aldeã, que era linda e
ainda nova, acudindo ao limiar. Entre, entre...
E reparando em Júlia, que tinha ficado com o irmão no autómóvel, a
mulher acrescentou:
--E a menina e outro senhor tambêm!... Com tôda a franqueza!
Por fim, entraram alegremente e merendaram, com delícia, sob o
damasqueiro acolhedor, enquanto a aldeã, sorridente e com uns dentes
brancos brilhando no seu esmalte entre uns lábios muito vermelhos, os
incitava a comerem mais.
--E podem levar, se quiserem!--oferecia ela.
Chamava-se Maria da Luz, era casada havia seis anos com um lavrador
abastado e já três criancinhas, de olhos muito espantados, belas como a
mãe, se lhe agarravam às saias. Nuno, enlevado, deu uma moeda de prata a
cada uma, para comprarem doces.
--Não! Isso é que não!--acudiu a aldeã, tôda còrada. Ficava-lhe por bom
preço a fruta, meu senhor!
--Ora essa!--atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos, que são tam
simpáticos. Deixe, deixe...
As crianças estenderam a palma das mãos côr de rosa, apertaram, muito
contentes, as moedas, enquanto a mãe lhes gritava:
--Então, como se diz?!... Como se diz?!... Êstes mafarricos que me
consomem, não aprendem a bôa educação nem à mão de Deus Padre!...
Todos êstes inefáveis episódios duma época distante e bem feliz se
tinham gravado fundamente no cérebro de Nuno; e diante de Júlia, que era
sua espôsa, que era mãe do seu filho, sentia um prazer infinitamente
doce em reavivá-los. O casamento fôra combinado ainda em Vizela, ao fim
dum curto namôro, com grande desespêro de Frederico que tambêm estava
nessas termas, que ia espairecendo os seus tédios entregando-se a um
meigo _flírt_ sempre novo em cada dia e que julgava severamente a
imprevista evasão, do amigo, da vida despreocupada de solteiro...
Nas longas horas que agora passavam sós, dentro de casa, Nuno e Júlia
gostosamente evocavam o seu passado, que era de dois anos--porque apenas
começaram a viver uma existência séria desde que se conheceram e se
ligaram por laços que nenhuma dor ou nenhuma fatalidade romperiam--e que
lhes pareciam do dia anterior, tam rápidamente o tempo lhes fugia sem
que êles o percebessem e sem que na sua emoção deixasse resíduos de
amargura e de tristeza.
--Tu lembras-te?--perguntava êle, fechando o livro que tinha nas mãos,
enquanto Júlia esquecia sôbre o regaço a agulha do bordado.
--Lembro!--afirmava ela com um sorriso que a espiritualizava e
transmitia maior encanto à sua beleza. Lembro-me, como se tudo isso
fôsse de ontem...
--Frederico não queria que eu casasse, dizia-me horrores da vida
conjugal, procurava afastar-me de ti por todos os processos, teimava em
que eu o acompanhasse numa viagem que tencionava fazer. Creio mesmo que
chegou a ser teu inimigo, o pobre rapaz...
--Meu inimigo?... Que ideia! E porquê?
--É claro, não te tinha ódio, não te queria mal, mas não perdoava à
mulher que lhe arrebatava o amigo de sempre, o camarada, o
companheiro... Era só por isto!
Ah! êsse bom Frederico! Ambos pensavam um pouco nêle--Nuno com saùdade e
com uma secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligência e pelo
carácter, que se esterilizava, que era improdutiva, como um pragal
áspero em que nunca, por acaso ao menos, caísse uma semente fértil;
Júlia, com o encanto, com a afeição que lhe merecia o homem tam idêntico
ao marido pelo coração, e de tanta grandeza de alma, de tanta finura de
espírito...
--O que fará êle por êsse Pôrto, neste desabrido inverno?--interrogava
ela.
--Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades caseiras,
fazem, naturalmente. Êle não quis estar connosco, havia coisa que o
chamasse, que o seduzisse... Mas, ouve! Não sei que singularidade
descobri em Frederico nos últimos dias. Parecia-me mais desalentado,
mais triste do que o costume, amava a solidão, quáse que me fugia...
Apenas despertava da sua melancolia quando tocavas, no piano, essas
páginas de Schubert que sempre admirou.
--Êle não tinha, para estar alegre, as mesmas razões que nós temos, bem
sabes. É só, não ama, não é amado, anda á procura dum destino que ainda
não encontrou...
--E que não encontrará jàmais. Aparentemente enérgico, é um fraco de
vontade, sofre de preguiça de sentimento, tem os defeitos da raça a que
pertence...
--Oh! Nuno! Que severidade!
--Não! Que amizade! Porque eu estimo profundamente Frederico. Não há
alma tam leal como a dêle, dedicação mais capaz, de sacrifícios pelas
pessoas a quem se devotar! Mas, minha filha, é incompleto como eu, como
todos nós...
--Como tu?
--Como eu, não digo bem... Frederico foi mais infeliz...
As horas deslizavam apressadamente, nestas conversas em que ambos se
entretinham e em que melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos
o mesmo romance, o mesmo poema, ou então Júlia ia para o piano e Nuno,
de pé proximo dela, ia-lhe voltando as fôlhas do caderno de música. Nos
momentos de repouso, enquanto a chuva caía, monótona e aborrecida,
chamavam a ama, que acudia com a criança ao colo e um grosso grilhão de
ouro ao pescoço. Júlia pegava no filho, com ternura e delicadeza,
beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o ao marido, que o embalava
nos braços. O pequenino sorria, com a face cheia de covas, agitando as
mãos, galrando, espalhando por tôda a casa uma grulhada infantil.
Depois, Nuno beijava-o tambêm longamente, picando-lhe a carinha tenra
das faces com a barba crespa, o que o fazia chorar.
--Dá-o cá! Coitadinho!... Tem mêdo dos teus bigodes de turco--dizia
Júlia, sorrindo.
--Não! É que é já mais teu amigo do que meu, o ingrato...
À noite, em seguida ao jantar, quando a treva temerosamente afogava
todos os aspectos na mesma confusa massa negra e o sossêgo envolvia a
vivenda com as vidraças douradas pela luz, o criado, o Manuel, soltava
os cães de fila durante o dia amarrados a fortes cadeados de ferro; as
portas do rés-do-chão fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma vélha
cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava em baixo, que era revestida
de azulejos e que se iluminava com a fulguração dos metais e dos
esmaltes faíscando, relampejando sob o clarão da fogueira. Os molossos,
de afiados colmilhos saíndo-lhes da bôca babujada como pontas de
punhais, latiam, uivavam no jardim e no parque, à ventania que sacudia
vertiginosamente as árvores; outros latidos ouviam-se ao longe, vindos
das granjas e das herdades; o pequenino adormecia ao peito farto da ama,
ainda com o bico rosado do seio que o amamentava na bôca sem dentes, e
era levado com mimos e cautelas para o berço, aquecido antecipadamente
com botijas de água a ferver: e Nuno e Júlia continuavam ainda os seus
serões, conversando, lembrando-se piedosamente dos pobres que não teriam
roupa nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno, e
experimentando uma ternura doce e secreta no isolamento rural em que se
confinavam com a sua felicidade--almas satisfeitas e contentes que nada
mais queriam da vida...
Uma vez por outra, o céu desanuviava-se, as manhãs raiavam límpidas como
uma imensa e pura flor azul que desabrochasse iluminada por um sol muito
louro que dourava os outeiros, os cimos dos montes, tocava as altas
ramarias dos arvoredos dum fulgor vivo que parecia arder, scintilar no
esplendor da atmosfera. Então, a alegria ressuscitava na paìsagem
soturna como uma ave que, pela primavera, é de repente surpreendida pela
alvorada gloriosa entre os ramos floridos e começa a cantar sob o
mistério celeste de que vitoriosamente desce a luz. Envolvidas pelo
banho fulvo da claridade, as próprias coisas inertes pareciam
impregnar-se de alma, davam a ilusão de serem dotadas de movimento.
Errava no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na nitidez do
ambiente, prolongavam-se indefinidamente, cheias de poesia e de vago. A
vivenda, elevando-se no meio do jardim, com as suas grossas paredes, as
suas varandas, os seus telhados de largo beiral onde as pombas
arrulhavam em certos instantes, as suas escadas de pedra com grades de
ferro pintadas de verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam,
animava-se tambêm com o júbilo triunfal daquela festa da natureza. Mais
satisfeitos e expansivos, os criados palravam na cozinha, à volta da
mesa do almôço.
Uma temperatura morna que fazia inchar os gomos das árvores e das
madre-silvas dos valados--que em maio se cobriam de florações e
ofereciam embalo e perfume aos ninhos inocentes--convidava aos lentos,
agradáveis passeios. Nuno, sentindo o coração desopresso e ligeiro,
corria a levar a Júlia a bôa nova, em palavras comovidas e risonhas,
interrompendo-a no seu trabalho.
--Que linda manhã, meu amor!--exclamava êle. Vem daí! Faremos uma
pequena digressão pela quinta... Até nos abrirá o apetite e nos renovará
a saúde. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas emperradas por tôda
uma semana de cativeiro.
--Pois vamos!--concordava ela com júbilos e ingenuìdades quáse infantis.
Gosto tanto de passear matinalmente!
Animada e sorridente, Júlia vestia a tôda a pressa um casaco de
agasalho, calçava as galochas sôbre os pequeninos sapatos de verniz,
punha na cabeça um gorro de lã branca, feito por ela nos seus serões, e
saíam ambos, de braço dado, aspirando o cheiro acre da terra molhada,
internando-so pelas sombrias e ermas alamedas do parque onde as mimosas
começavam a florir na pompa dos cachos de ouro pálido, tremendo
brandamente à aragem e a que o sol imprimia mais brilho e côr, desciam,
por caminhos empedrados, às terras de cultivo já verdejantes de pastos
para o gado, dos trêvos, torneavam as extensas vinhas que enchiam
tonéis, em setembro, dum vinho aromático e leve, passavam pelos vergeis
bem tratados onde, em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras
vergavam de florescências multicôres que lembravam irisados enxames de
borboletas levantando vôo, e paravam, enfim, diante da habitação
destinada ao caseiro e que era o orgulho de Nuno.
--Vês tu o que se fez, hein? E a planta foi minha. Para alguma coisa
havia de servir-me o curso de engenheiro. O vélho Mateus está aqui
óptimamente instalado com a sua gente--dizia êle. Não parece?
Júlia aprovava, com um gesto afável da cabeça, enquanto Nuno
minuciosamente lhe ia fornecendo mais indicações:
--Aqui--explicava êle--é a casa de moradia; alêm, ficam os estábulos
para os bois, os currais para os porcos, os alpendres para a guarda dos
apetrechos de lavoura... Dêste lado, mandei construir as adegas, a eira,
o espigueiro e os celeiros. Que me dizes a tudo isto? Olha que foi obra
minha!
Na graça luzente da manhã, as paredes caiadas de branco alvejavam sob o
tom vermelho dos telhados. Ao fundo, para lá dos terrenos agricultados,
rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromáticos que o rosmaninho,
no estio, pintalgava de manchas rôxas. Júlia, enlevada, contemplava o
marido com ternura, afagava-o com o olhar.
--E agora--continuava Nuno, depois de terem avançado mais alguns
passos--aqui está o grande tanque que me deu que entender e em que tanto
te falei, durante todo o verão findo, não sei se te recordas.
--Recordo!--afirmava ela.
--Servirá de reservatório das águas de rega que fui buscar longe, por
meio dum cano, à encosta daquele monte de pinheiros. Oh! é uma água
maravilhosa, muito pura, filtrada por camadas sobrepostas de rocha, e
saibro grosso. Quando, nos dias quentes, a colhia para beber, o copo
ficava logo nevado. É saborosa e frigidíssima. Porque não mandas a
Francisca buscá-la à bôca da mina para o nosso chá? Ando há tanto tempo
para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...
--Está bem, mandarei--prometia Júlia.
--Pois, essa água corre para êste tanque. Quando se quiser regar, é só
soltar a levada e ei-la por êsses campos, fluindo, fecundando, dando
alento às plantações e às sementeiras!
--O que tu sabes já das lidas agrícolas, Nuno!--exclamava ela com
admiração.
--Minha filha, tem-se estudado um pouco o pelo processo prático, que é
ainda o melhor--respondia êle, jovialmente. O meu verão, êste ano, foi
útil!
O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha logo para êles, de
chapéu na mão, com o seu rosto enrugado que o bom riso sadio, vindo da
alma, espiritualizava de bondade, cumprimentando-os respeitosamente.
Nuno correspondia ao cumprimento, murmurando:
--Olá! É você, Mateus? Então, como vão os trabalhos, homem?
--Crédo, meu senhor! Com êste inverno de desgraça e de castigo, nada se
pode fazer. Tudo parado. As terras estão encharcadas, são lama...
--Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom
tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces,
orações, lágrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade sempre
insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve ver-se e desejar-se com
pedidos tam contraditórios, não é verdade, tio Mateus?--perguntava Nuno
alegremente.
--Deus é sábio, é justo, sabe o que faz, meu senhor--replicava o
caseiro, rindo. Mas tudo se quere em conta. Nem muito ao mar nem muito à
terra. Assim é que é...
--E a doente está melhorzinha?--inquiria Júlia.
--Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As melhoras dela só na cova. E
tanto tem sofrido!...
--Não fale dêsse modo, tenha esperança...
--Pois esperança tenho eu. Esperança e paciência, que ela tudo
merece--concluía êle, com voz enternecida e trémula.
Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o rumo da conversa, que o
fazia sofrer, acudia:
--Então, hoje a passear?
-Com êste bom sol, não podíamos ficar fechados--dizia Nuno.
--Está de rosas, meu senhor, de rosas!...
Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns instantes e depois;
vagarosamente, regressavam a casa, na imensa paz que envolvia a natureza
e que baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas, como uma bênção.
Voltavam joviais, traziam a alma dilatada de encanto. Como o inverno era
lindo na aldeia! Na cidade, os grandes espectáculos naturais
passavam-lhes despercebidos na agitação das atormentadas aglomerações
humanas, nas atmosferas toldadas de fumo.
--Aquele Frederico, aquele doido!--bradava Nuno. Podia ter ficado aqui
connosco, a fazer um severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era
uma companhia e purificava o sentimento que agora talvez traga pelos
boeiros citadinos!...
--Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!--repreendia Júlia.
--Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim mesmo. Hei de dizer-lho
com esta ferocidade, numa carta terrível... Enquanto que aqui era a luz,
era a pureza...
Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões, conservavam-se à mesa por
muito tempo, conversando. E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando
pousios, congostas entre sebes, visitando a aldeia próxima, com um
interêsse, uma curiosidade que nunca findava...
* * * * *
Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi tôda aflita bater à porta do
quarto, chamando Júlia.
--Que quere?--perguntou, ela, de dentro.
--Era para contar à senhora uma coisa a respeito do menino, que não está
bom.
--Que diz você, mulher?...--gritou Júlia, com voz angustiada. Tu ouves
isto, Nuno?...
Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as chinelinhas de setim côr de
rosa, bordadas a branco e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu
logo, assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se levantava
tambêm, vestindo-se atarantadamente.
--Que tem o menino?--perguntou Júlia, abrindo a porta da alcôva. Onde
está êle, onde o deixou você?
--Deitado no berço... Está um pouco desassossegado...
Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao lado do seu, entrou
desvairadamente, fóra de si, sacudindo, com irritação nervosa, as
madeixas do cabelo solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto do
berço da criança que ergueu carinhosamente nos braços. Encostou-lhe a
cabecinha inocente e desfalecida à sua face, amimou-a, passando-lhe
levemente as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando com
indizível ternura:
-- Está doentinho, o meu amor?... Está?!...
Afastava-o de si, amparando-o com as mãos amorosas, para melhor, mais
demoradamente o observar, espreitando, comovida, os seus olhos
amortecidos com um círculo arroxeado à volta, e achava-o, na verdade,
mais pálido, mais abatido.
--Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que será? Como notou você a doença
do meu filho, ama?
--É que, durante a noite, tossiu algumas vezes, minha senhora.
--Tossiu?--perguntou Júlia, aflita. E a tosse era rouca?
--Pois era!...
--E porque nâo foi logo avisar-me?
--Pensei que não seria nada!...
Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se sôbre o ombro de Júlia,
envolveu o filho num olhar de inquietação e de meiguice, inquirindo:
--Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...
--De-pressa, Nuno! Manda já um criado a Guimarães, a procurar um
automóvel fechado. Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos de
partir imediatamente para o Pôrto.
--Um automóvel?... Partir imediatamente para o Pôrto?--interrogava Nuno,
maquinalmente, Mas espera!... Dize...
-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda de tempo... O nosso filho
tem uma tosse rouca. Sabes o que é?... Não sabes? É a difteria, é talvez
a morte...
Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, desceu a quatro e
quatro os degraus da escada, gritou:
--Manuel! Manuel!... Onde estás tu?
--Aqui, patrão!--respondeu o servo, saindo dum canto e trazendo nas mãos
um pedaço de camurça com que estava limpando e polindo metais.
--Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai a Guimarães, onde
procurarás um automóvel fechado, por todo o preço. Que venha a tôda a
velocidade. É um caso urgente.
--Sim, meu senhor.
--Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de mesuras, que diabo! Se te estou
a dizer que é urgente!...
O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, ficou na cozinha,
passeando agitadamente, a largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus!
A difteria! O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir,
impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao lento agonizar dum
corpinho sem culpa em cujas veias corria o seu sangue, em cuja alma
inocente se fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar, com o
rosto congestionado, os olhos saltando fóra das órbitas, sacudido por
convulsões horríveis e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível! Do
seu coração de pai subia urna grande, avassaladora cólera, contra tudo e
contra todos. Que mal faria aquele pobre sêr de castidade e de luz que
nem sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer dos seus
males inevitáveis para que fôsse submetido a uma tal tortura?...
Esquecia-se de Júlia que em cima soluçava, andava dum lado para o outro,
mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.
--Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?--perguntou a cozinheira,
que o contemplava, assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.
--Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. O menino está muito
doente.
--Santo Deus!--exclamou ela.
--E temos de ir já para o Pôrto, a senhora, o doente, a ama, eu e tu. O
Manuel e as outras criadas ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão
mais tarde. Arranja as coisas, despacha-te.
Subiu, novamente, a escada como um autómato, governado mais pelo
instinto do que pela inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha
perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada numa
cadeira de braços, com a criança aconchegada ao peito, Júlia chorava
silenciosamente. As lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto dela,
a ama repetia sem descanso:
--Uma destas, uma destas!...
Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com as mãos chaves que tinha no
bôlso, entalado, sem poder articular as palavras, sem saber como havia
de consolar aquela dor inconsolável.
--Que desventura a nossa, que desventura!...--gaguejava Júlia.
--Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que a doença não valha nada,
que te enganes--acudiu êle, por fim.
--Tenho um pressentimento funesto! E olha que as mães nunca se enganam.
E voltando-se para a ama:
--Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me arranjar. E veste-te
tambêm, Nuno, para estares pronto.
-Sim, menina!...
Uma hora depois, um automóvel parava, em baixo, junto do portão do
jardim. Nuno chamou as criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a
Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem para a casa do
Pôrto e entrou no carro com Júlia--que conduzia o filho ao colo, muito
embrulhado, agasalhado em lãs quentes--com a ama e com a cozinheira,
dizendo ao _chauffeur_ que, até Guimarães, largasse com a maior
velocidade.
Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando chuva. Pelos altos montes,
por vales tristes e planícies monótonas, a paìsagem azulava-se no ar
baço. Um vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e Júlia nem
sequer olhavam para fóra, através das portas de vidro do automóvel,
concentrados como iam no seu sofrimento.
Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um médico, que logo os
tranqùilizou, com um sorriso, acabando de observar o pequenino enfêrmo.
Não era caso para sustos--afirmou.
--Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...--interrompeu Nuno, avançando
para êle e apertando--lhe efusivamente a mão.
--Mas não é a difteria?--perguntou Júlia, ainda duvidosa. Êle tem tosse
rouca!
Não! Não era a difteria--asseverou o clínico, já vélho e ageitando os
óculos de aro de ouro sôbre o nariz. Uma simples bronquite sem
complicações que a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo,
num compartimento em que não houvesse oscilações de temperatura, e com a
aplicação de revulsivos externos.
--Vês, Júlia?--disse Nuno. Não é nada de cuidado. Eu bem o dizia.
--O alarme desculpa-se nas mães... É tam natural!--exclamou o médico.
--E até podíamos voltar para trás, continuarmos a nossa estada na
aldeia.
--Não!--replicou Júlia com firmeza. Para trás, não voltaremos. Já que
estamos aqui, seguiremos para o Pôrto. Não ficaria sossegada.
-Pois, como quiseres...
O médico receitou, deu instruções; Nuno pagou a consulta generosamente.
Despediram-se e reentraram, mais calmos, no automóvel, continuando a
viagem--através de estradas, de campos melancólicos, de bosques que
rugiam à ventania--para o Pôrto, onde chegaram de tarde e já com uma
chuva desabrida fustigando as casarias, alagando, encharcando as ruas
negras duma lama viscosa, quáse líquida. Moravam em Costa Cabral, numa
vélha casa apalaçada de dois andares feita no gôsto arquitectural das
antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera fechada. Foi
um reboliço na habitação deserta e cheia de treva. O automóvel largara
velozmente, e, enquanto Júlia, com o filho nos braços, procurava, no
átrio imerso em escuridão, uma cadeira para sentar-se, Nuno, a ama e a
cozinheira, abriam portas e janelas com alarido, para que a luz diurna
entrasse e desse vida e alegria ao casarão ermo.
Outros médicos vieram e receitaram, nesse mesmo dia, serenando temores
sem motivo. A pouco e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e de
Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação inesperada no palacete da
cidade, não saía, lidando activamente, dando ordens, substituindo na
vivenda a espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito da criança.
E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na sua morada citadina, sentia-se
bem, entre mobiliários que conhecia e que considerava como amigos
vélhos, entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente de
quietação em que vivera desde a infância, em que morara, a que tantas
recordações inolvidáveis andavam presas. Novamente a felicidade entrava
na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa e risonha à
convalescença do filho. A nuvem agoureira passara, dissipara-se
inteiramente. Já se encontravam outra vez reconciliados com a vida que,
por momentos, os amargurara.
--É verdade, Júlia--dizia uma noite Nuno. Sabes de quem me lembrei
agora, repentínamente? Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!
--Pois tu não tens saído, nem sequer lhe escreveste! De-certo que ignora
o nosso regresso. Ninguêm o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até
que não esteja no Pôrto...
--Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar... E estou zangado com
êle--concluiu Nuno, risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo devia
adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de ouvi-las bonitas...
Fóra, na rua, os candeeiros de iluminação pública chamejavam ao vento,
sob um céu acarvoado. A patrulha da guarda deslizava como uma sombra,
sem ruído. A aglomeração das casarias ia adormecendo no silêncio
nocturno...