Certa manhã, ao entrar em casa depois de tôda uma noite passada com
Branca--já instalada numa luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para
ela escolhera numa rua solitária da Foz e onde reùnira tudo quanto
pudesse oferecer bem estar ao seu egoísmo e encanto aos seus olhos
saudosos de beleza artística--encontrou uma longa carta de Nuno que o
correio trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sôbre a larga mesa
do seu gabinete de trabalho, num sítio bem visível. Durante muito tempo
conservou-a, hesitante, nas mãos, sem ter a coragem de rasgar o
envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os dedos nervosos,
estudava a letra miúda e firme do amigo, como se quisesse perscrutar nas
particularidades exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das
revelações gratas ou dolorosas que iria fazer à sua inquietação de
espírito cada vez mais violenta e que os delírios da sensualidade carnal
não apaziguavam, ao seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente,
roendo-o com a lentidão com que um acido corrosivo rói certos metais.
Era a primeira vez que Nuno lhe escrevia, desde que Frederico deixara a
quinta rural, afastando-se duma atmosfera mórbida que fazia mal aos seus
nervos, que lhe desgastava a energia, que lhe amolecia a vontade,
fugindo à permanente adoração de Júlia--uma adoração criminosa que
inutilmente se esforçava por abafar dentro do coração e que subtilmente
crescia sempre, invadindo-o todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como
uma planta daninha que se quere destruir e que constantemente surge, com
teimosia, à superficie da terra. Que iria Nuno dizer-lhe?
Inconscientemente, na ignorância do seu amor impuro, o amigo trabalhava
contra si próprio, avivando coisas que Frederico pretendia, em vão,
esquecer para que mais de-pressa curasse os seus nervos doentes, a sua
alma enfêrma!...
Passeando agitadamente, com a carta apertada na mão trémula, Frederico
notava que, por uma singularidade inexplicável, tôda a gente, mesmo as
pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a sua paz, contra a sua
ventura. Nuno, por exemplo, havia de falar-lhe da sua felicidade
conjugal, da ternura de Júlia, da sua perfeição como mulher e como
espôsa, o que o atormentaria, agravaria excepcionalmente o padecimento
que trazia consigo. Os beijos de Branca, a graça, a formosura esplêndida
do seu corpo nú vibrando dos desejos voluptuosos que êle acendia, só lhe
avivavam na imaginação ardente o fogo da paixão alucinante pela outra,
por Júlia--uma complexa paixão em que havia conjuntamente delicadezas,
mimos, aspirações, purezas quáse místicas e as impulsividades grosseiras
duma luxúria que maculava as emotividades mais castas. Vivia, por isso
mesmo, numa perpétua ansiedade, sobressaltado de temores contínuos
diante dos insignificantes factos que pudessem recordar-lhe a mulher que
a todo o transe deveria olvidar para seu sossêgo, por imposições da sua
dignidade ainda não totalmente amolecida. Estava reduzido à necessidade
de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias sensuais com
Branca, nas noitadas com os conhecidos pelos teatros e pelas mesas dos
restaurantes, em que bebia até perder a lucidez da consciência, ou a
fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento da sua fria casa de
solteirão, onde não encontrava nada daquilo que o sentimento
imperiosamente lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o seu
pior inimigo, que era êle próprio. Estas rudes emoções, de que lhe era
impossível emancipar-se, iam-lhe aviltando o carácter, extenuavam-no
físicamente. A fôrça, a resistência, a saúde, escapavam-se-lhe do corpo
como a tranqùilidade se lhe havia escapado da alma. Durante horas
seguidas, nada mais sentia do que o pêso esmagador do infortúnio que
teimava em acabrunhá-lo; e, se tentava reagir era para se crivar de
sarcasmos, de ironias cruéis e fulgurantes, súbitamente avassalado pelo
prazer secreto de destruir-se, de se afundar mais nas torpezas que
dilaceram e matam, de acabar, com um golpe feroz e rápido, aquela
contínua tortura de todas as horas, fermentando nas impurezas
emocionais, de que era feito o seu abjecto sêr de homem. Em Frederico,
exauriam-se as fontes psíquicas de que brotam as seivas criadoras que
engrandecem e nobilitam as criaturas. O seu aniquilamento tinha
começado: mas, por cobardia moral ou por orgulho, evitava tudo quanto
pudesse sobressaltá-lo neste vagaroso trabalho de desagregação, e lhe
perturbasse a alegria feroz com que assistia à sua devastação
desordenada...
Ao cabo de demoradas cogitações, aproximou-se duma janela e olhou para
fóra. A manhã corria serenamente, iluminada por um fulvo sol de inverno
que caía do alto sôbre a cidade como o pólen duma imensa flor de ouro.
Na rua, curvada sôbre a carga do seu gigo cheio de hortaliças frescas,
passava uma mulher lançando nos ares um pregão vibrante, com a saia rôta
embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou de repente, perguntando a
Frederico se tinha visto a carta que o homem do correio trouxera.
--Vi. Tenho-a aqui. Vou lê-la--respondeu.
E, quando o criado saíu, fechando a porta, Frederico, vencendo, por uma
decisão súbita, tôdas as irresoluções que o alanceavam, rasgou com
desespêro o envelope, desdobrou a larga fôlha de papel ennegrecida de
tinta e encetou a leitura. Logo às primeiras palavras se lhe desenrugou
a face que envelhecia e se abaixou a curva das suas sobrancelhas
contraídas. Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava na
quinta, sob as soalheiras de verão, que lhe tisnavam a pele, sob as
chuvadas de outono, que lhe enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais
elasticidade. As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro, estavam
quáse terminadas. Instalara o vélho Mateus e a família num «palácio», só
para que perto dêle não houvesse o espectáculo dissolvente da miséria
humana; rompêra mais minas que, de muito longe, da encosta dos montes
próximos, traziam em levadas uma água muito clara e cantante que, pelos
estios calcinadores, regariam as terras, levando o alento e o vigor às
culturas benéficas: transformara tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os
seus projectos futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de
abandonar para sempre a cidade, que só visitaria de fugida, para tomar
um banho de civilização, regressando logo à simplicidade do campo, à
placidez rústica. Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava, não
viesse a esfriar, teria, mais tarde, em estábulos bem cuidados, manadas
de vacas que lhe dariam o bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a
indústria, tam atrasada entre nós, dos lacticínios, concorrendo para a
riqueza do país com uma parte da sua fértil actividade...
Frederico interrompeu a leitura da carta, para murmurar
humorísticamente, como se conversasse com o amigo:
--E nas horas vagas, como Vergílio, podes fazer versos, escrever as
_Geórgicas_ ou as _Bucólicas_!...
Sorrindo com a sua observação, reencetou a longa epístola de Nuno que ia
desenrolando outras empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido
completamente de que Júlia lêra aquelas linhas que lhe eram dirigidas,
que os seus olhos pensativos haviam pousado em cada palavra, que ela
fôra mesmo composta a seu lado, num daqueles demorados e pacíficos
serões que constituiam um dos maiores encantos da vida familiar do
amigo. Nuno falava agora, sempre com o mesmo júbilo, em granjas,
espigueiros, eirados, tulhas e celeiros para os cereais que colheria,
adegas para o vinho, apetrechos de lavoura.
«Quero--dizia êle--trabalhar para aumentar assim a fortuna do meu
filho--que está um figurão, um grande senhor de olhos espantados e cara
rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que as misérias da
existência ainda não comunicaram o seu veneno e a sua dôr--de outros
filhos que venham, porque me não satisfaço com ter únicamente por
descendente e representante um sêr pequenino e frágil que a menor doença
pode arrebatar ao meu afecto. Júlia é da minha opinião...»
Esta última frase transtornou Frederico como um insulto à pureza do seu
amor, como uma maldição que tornasse estéril o seu sentimento.
Parecia-lhe que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe a esperança
que alimentava de Júlia lhe dar mais filhos--filhos que seriam seus,
gerados no calor genesíaco dum beijo profundo em que duas bôcas, que se
queriam, se transformavam numa só bôca, em que dois corpos, latejantes e
convulsionados pela febre da fecundidade, se fundiam num só corpo! Uma
cólera absurda subiu do seu coração por essa mulher que se lhe apoderara
da alma e que ao marido entregava tudo e ao amante ignorado nada
oferecia que o tranqùilizasse. Para Nuno, para a sua satisfação, para a
sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida jorraria
ininterruptamente do flanco de Júlia, o seu ventre geraria os sêres
quáse divinos pela graça e pela inocência--sêres admiráveis em que
ambos, através do tempo, se prolongassem, se perpetuassem. Para êle, que
tanto a amava, e que, por isso tanto sofria, não havia mais do que uma
amizade certamente sincera, mas que não bastava à sua ansiedade dolorida
e que repelia com amargura! Irritado por êstes raciocínios, Frederico
nada mais via em Júlia do que o facto brutal que derivava da sua ligação
legítima, com Nuno--facto que manchava a purificação do amor impossível
que lhe consagrava, sem que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu
drama passional se transmudava em comédia. Sentia-se ridículo e
exagerava o que na sua situação havia de grotesco, para conseguir
desdenhá-la, já que a não podia olvidar. Estava, certamente, fóra da
equidade, da razão, da justiça, mas achava que a sua revolta era
natural... Por fim, reagindo sôbre si próprio, reentrou na realidade das
coisas, monologando, revoltado:
--Já não haverá então limites para a minha miséria?
Com que direito, efectivamente, se insurgia êle contra a ternura de Nuno
pela espôsa? E com que direito tambêm a reclamava para si, como se ela
lhe pertencesse, sem se lembrar do que devia à sua dignidade, á sua
afeição fraternal, ao respeito por um lar sagrado onde entrara como um
amigo e donde saíra enxovalhado, ennodoado por um sentimento criminoso
que fôra impotente para sufocar, à nascença, no coração? Estaria por tal
forma perdido para a vida moral sadia, honesta, elevada, que não
compreendesse a vileza suprema da acção que praticava? Mas a sua
libertinagem--a libertinagem em que esperava consumir-se, matar a
sensibilidade, endurecer, embrutecer--era recente...
Arrependido, pedindo íntimamente perdão a Nuno da sua loucura, pegou
novamente na carta que tinha pousado sôbre o peitoril da janela,
continuando a lê-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno havia chegado,
com as suas intermináveis noites de treva, os seus cinzentos dias de
vento e de chuva. As árvores do parque já não tinham fôlhas, a paìsagem
dos arredores da quinta parecia morta ou embebida num sonho inerte em
que as vidas futuras germinavam, preparando-se para ascender à luz. Nuno
e Júlia levavam agora uma existência mais recolhida e monótona, porque
não podiam sair de casa. A água, descendo em torrentes das serras,
alagava a planície, transformava caminhos, córregos, azinhagas,
barrocais, em rios lamacentos, tornava intransitáveis aquelas estreitas
veredas, entre densos silvados, que pelas primaveras românticas floriam
e se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das roseiras bravas e
onde, nas manhãs de verão, amadureciam as negras amoras silvestres...
«Mas--concluia Nuno--eu tenho os meus livros, que leio e releio para
colhêr alguma humilde parcela da verdade e da beleza que através dos
séculos os cérebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram de
perscrutar; Júlia tem o seu piano, o seu Beethoven, o seu Liszt, o seu
Schubert, o seu Debussy; e ambos temos ainda, para prender a esta casa
solitária um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso filho. E
estamos com uma infinita curiosidade de passar aqui todo o inverno,
assistindo à ressurreição primaveril, à aleluia das fôlhas e das
florações... E tu? Se te aborreceres por aí, com os teus teatros, os
teus romances de coração, mais efémeros do que as rosas de Malherbe, os
teus conhecimentos, os teus tédios, faz as malas e vem. Serás recebido
com a afabilidade e a alegria que, no vasto mundo, apenas nesta cabana
amiga encontrarás...»
As últimas linhas da carta enterneceram-no. Bom, admirável Nuno! Como a
sua afectuosidade perene se recordava dêle e de tam longe o chamava!...
Havia ainda um _post-scriptum_. Frederico, alvoroçado, leu:
--«Júlia, que está aqui ao meu lado, depois de ter adormecido ao colo o
nosso morgado, recomenda-se, manda-te muitas saùdades e pede-te que te
lembres de nós. Anda a estudar, com interêsse, uma sonata de Beethoven,
que será para ti e que, na tua volta à quinta, hás de ouvir...»
Por um momento, estas palavras tam naturais e tam simples,
conturbaram-no, excitaram-lhe a imaginação. Júlia pedia-lhe para se
lembrar dela, estudava pra êle uma das mais belas sonatas de Beethoven,
talvez inspirada ao maior poeta de música por uma profunda,
transfiguradora paixão, tinha consigo delicadezas do que apenas são
capazes as almas que amam em silêncio. Quem sabe se essa doce mulher
fôra tocada pelo fluido invisível do amor que o abrasava, se tambêm o
amaria em segrêdo, escondendo êsse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso
e divino, bem no fundo do coração, para que nem Nuno nem mesmo êle
sequer o pressentissem? Quem poderia adivinhar, decifrar o drama oculto
naquela alma tam requintadamente feminina?... Depois dalguns minutos de
reflexão, porêm, o seu desvairado scismar pareceu-lhe vão e sem sombras
de realidade. Com efeito, se Júlia lhe consagrasse um afecto que, por
sua essência, tivesse de esconder cautelosamente, não pediria a Nuno
para acrescentar à carta que acabava de receber um _post-scriptum_ em
que se denunciaria. O amor obrigado a esconder-se é sempre assustado,
supersticioso, teme mesmo os actos mais inocentes com mêdo de revelar-se
a olhos perspicazes. Não! Que ideia a sua! Júlia era, para êle, apenas
uma bôa, sincera amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude
nobilitava-a para Frederico!...
Sôbre a sua alma passou, nesse momento, uma nuvem da tristeza que, por
um instante, o deixara para de novo voltar a deprimi-lo; no seu espírito
manifestaram-se alternativamente as crises contraditórias, a desilusão
que o pungia pela secura e as aspirações indefinidas que sossegavam a
intervalos o seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mãos a carta
de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e, concentrado e sombrio,
recomeçou o seu passeio. Voltar à quinta, ser uma testemunha da
felicidade de Júlia e do marido, tam estreitamente unidos por um amor
que incessantemente refloria, que ao fim de dois anos mantinha a mesma
febre, a mesma ansiedade, o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguível
adoração? Não tinha coragem para isso, porque não podia conservar-se
impassível, ao menos, diante do espectáculo duma ventura que
ardentemente desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como
fugiria dum pavoroso crime. O amor de Júlia e de Nuno era sagrado pela
sua pureza; no entanto, tomava-o, no seu egoísmo, como um insulto, como
um sarcasmo de fogo que o queimava, como um escárnio ao seu infortúnio.
Não! Nunca mais! Não queria presenciar a florescência maravilhosa e
suave duma ternura que tam ardentemente apetecia para si e que um outro,
legitímamente, fruía. A sua pessoa não era necessária em casa do amigo
para que êle fôsse feliz: e Frederico, êsse carecia de estar longe de
ambos para ser menos desgraçado... O que existia de paradoxal no seu
caso singular! Sabia que Júlia e Nuno o estimavam fraternamente; que, se
a sua alegria de viver, a sua placidez interior, dêles dependessem,
seria absolutamente ditoso; que não tinha, no tumulto vertiginoso da
existência, mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era justamente
de Nuno e de Júlia que para si vinha a maior dor, a mais intensa
amargura!...
E o que tambêm havia de bizarro, de incompreensível, de insensato, no
seu sentimento! Amando Júlia alucinadamente, querendo-a acima de tôdas
as coisas, não odiava agora Nuno, que a possuía. Pelo contrário, a sua
afeição crescia cada vez mais por êsse belo rapaz que a uma dignidade
inquebrantável aliava os brilhantes dons de carácter, de inteligência,
de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia confuso, baralhado,
incoerente, fóra da realidade humana, obedecendo talvez a leis
psicológicas ainda ignoradas...
Cansado de se debater sem tréguas na mesma agitação árida, nas mesmas
angústias e nas mesmas perplexidades, chegava a desejar que uma
catástrofe se abatesse de repente sôbre êle e o aniquilasse ou
esclarecesse uma situação que não podia sofrer por mais tempo. Tudo o
que viesse imprevistamente, luminoso ou sombrio, irremediável ou ditoso,
suave ou amargo, seria preferível àquela tortura lenta em que o seu ser
de homem se dissolvia aflitivamente. A casa parecia-lhe deserta como
nunca e duma solitude apenas comparável ao ermo do seu coração. O
silêncio constrangia-o. Queria o ruído, as conversas, a animação, o riso
à sua roda; desejava tudo o que o aturdisse, que desviasse o rumo das
suas cogitações, que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relógio
do bôlso, viu as horas. Era ainda muito cedo para o almôço. Daria uma
volta pela cidade, iluminada por um sol pálido de inverno que ardia num
céu claro como se fôsse feito de cristal, almoçaria mesmo em qualquer
restaurante onde houvesse gente, barulho, tinir de louças e de metais,
onde entrassem homens apressados e respirando fortemente, ocupados por
uma actividade que os movimentasse, por um interêsse que os impelisse
para a frente, sem repouso. Nesse logar, estaria melhor do que à sua
mesa, diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de porcelanas, de
esmaltes brilhantes, de pratas scintilando à luz, de toalhas de linho
muito branco, tendo por companhia única o respeitoso Bernardo que o
servia com a solenidade de quem celebrasse um rito e que respondia por
monossílabos às suas perguntas... Pôs de novo o chapéu, pegou nas luvas
e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que guardou na gaveta, e chamou o
criado para dizer-lhe que não almoçava.
--Mas, o almôço está quáse pronto!--informou Bernardo.
--Pois, come-o tu e que te saiba bem!...--atalhou, risonho.
Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o num olhar de surprêsa; e
quando Frederico saíu, descendo as escadas com rapidez, murmurou:
--Umas vezes não almoça, outras não janta, deu agora em ficar fóra de
casa, como um vadio, êle que era tam regular na sua vida... Está
estragado... Enfim, eu nada tenho com isso. Sou servo, êle é patrão, tem
dinheiro, tem saúde... Adeus, minhas encomendas...
Frederico, a quem a carícia do frio ar circulante refrigerava e
desoprimia, encaminhou-se para a Praça da Liberdade, cortando ao acaso
através de ruas ruidosas de multidão, coloridas, cheias de pitoresco,
exibindo uma fisionomia característica. Nos bairros pobres, secava roupa
atada em cordas por varandas e trapeiras. Ranchos de crianças sujas e
rôtas erravam nas calçadas, brincando. Criadas de servir regressavam dos
mercados e dos talhos com grandes cabazes de vêrga enfiados no braço. As
lojas estavam apinhadas de compradores que, aos balcões, regateavam com
os caixeiros. Desfilavam soldados, aos pares e de mãos dadas, com o
_bonet_ de vivos vermelhos sôbre a orelha e um ar obtuso nas frontes
assimétricas e inexpressivas.
Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras, de roupas descompostas e de
gigas à cabeça, jogavam o braço furiosamente e insultavam-se nos termos
mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento de populares que
riam, de bôca escancarada e de face contraída e vincada de rugas. A
tôrre dos Clerigos subia na diafaneidade do espaço, projectando uma
esguia mancha de sombra no ambiente luminoso e sereno.
Era a um sábado, véspera de festa. Para os lados do Bomfim, sôbre os
telhados em que o sol caía a prumo, estralejavam foguetes que subiam,
rechinando, no ar e que ao explodirem deixavam pequenas nuvens dum fumo
branco e denso pairando na limpidez da atmosfera, como novelos de
algodão que se esfiassem ao vento, sob o céu azul e fino.
Frederico marchava apressadamente, absorvido em emoções e cuidados
íntimos, sem reparar na scenográfia exterior. A vida envolvente com as
suas variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos, a sua
particular expressão, passava-lhe inteiramente despercebida, tam fundo
era o recolhimento do seu espírito no drama sentimental de que não
conseguia separar a personalidade psíquica. Sempre aquela obcessão a
persegui-lo, sempre a venenosa flor dum venenoso desejo por Júlia--pela
sua carne, pela sua beleza física, pela sua candura, pela sua graça
fresca e luminosa--renascendo dentro de si, perturbando-o, embriagando-o
como um perfume deletério! A luta--uma luta contínua de tôdas as horas,
de todos os dias--extenuava-o. Já não podia, no desfalecimento de
vontade que o esmagava, conduzir-se com firmeza pela própria razão ou
pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:--era conduzido
pelo instinto sensual, sem dispôr de energia para uma reacção alacre e
vitoriosa que o emancipasse da tortura intensa, que lhe restituisse à
natureza espiritual o divino encanto perdido e a pacificação deleitosa.
Nuno, ignorando a sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando
assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o a uma
traição que Frederico, no seu delírio, julgava já consumada porque lhe
ardia na alma o lume dum amor impuro pela espôsa do amigo de tôda a
vida, do camarada de estudos, do irmão com quem fizera, em plena
concórdia, metade da jornada da existência. Era terrível! A fatalidade
abatia-se inexoravelmente sôbre êle, encarniçava-se contra o seu
infortúnio, exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com subtileza, a
pequenez, a impotência do homem--mesmo quando ele fôr culto e dipuser
duma sensibilidade--para dominar-se, para conter-se em face do mal,
sempre que nesse mal houver a satisfação áspera dum gôzo, dum interêsse
moral ou material. Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o
que no organismo humano, tam imperfeito, se impõe é a revolta da
animalidade grosseira, apagando-se no ser consciente tudo quanto nêle há
de superior!...
Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa animalidade, vencer a sua
impetuosa paixão, conservar-se num estado de alma que o tornasse digno
da afeição fraterna de Nuno, sem que tivesse de còrar de remorsos ou de
vergonha, quando diante de Júlia êle lhe chamasse amigo e o apontasse
como um exemplo de lealdade. Como não tinha confiança em si mesmo, como
suspeitasse de que junto da mulher adorada em silêncio não pudesse
esconder um amor que não devia revelar-se para poupar sofrimentos e
afrontas, como temia que um instante de fraqueza e de desvairamento o
levassem a cometer desatinos que não teriam remédio, caminhando
aceleradamente nas ruas, cada vez se aferrava mais à ideia de não voltar
a casa de Nuno e de esquivar-se a um encontro com Júlia. Longe dela, o
perigo seria menor.
Pensando assim, enquanto à sua roda a multidão indiferente ria e
palestrava, circulando activamente, Frederico chegou à Praça da
Liberdade e entrou numa tabacaria a comprar charutos. À saída,
encontrou-se face a face com alguêm que avançava para êle, de mão
estendida, que o saùdava com uma exclamação jovial.
--Oh! Frederico, oh! ladrão!... Que feliz casualidade!... Há quanto
tempo eu andava por estas acidentadas e sujas ruas portuenses à procura
duma figura conhecida e sem a encontrar!...
--Oh! Duarte!... Duarte de Alarcão e Ataíde, dos Ataídes do Alentejo!
Como diabo vieste tu parar mais uma vez a esta nobre cidade de tráfico e
de negócios?
--Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de Lisboa hoje, no correio da
manhã e aqui me encontro.
Apertaram efusivamente as mãos, contemplaram-se por alguns momentos com
simpatia.
--Estás mais forte e mais moreno, digno Alarcão e Ataíde!
--E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!
--Que queres, amigo?--atalhou Frederico, desalentado. _Ça ne marche
pas!_...
Duarte havia sido seu condiscípulo, no segundo ano da Academia
Politécnica, onde não concluira o curso de engenharia por ter armazenado
já, segundo confessava, a quantidade do sciência suficiente para viver
saborosamente a vida, com a abundante pecúnia herdada. Era, então,
ruidosamente alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra, que
gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de Vimioso, com que acordava
os corações namorados das trapeiras em noites de luar e de serenata e
que, no seu entender, constituia a página de música mais nacional e
poderosamente expressiva que Portugal havia criado, desde que entrara
nos horizontes maravilhosos da civilização.
--Verdadeiramente--asseverava êle, fazendo a _blague_--a nossa Pátria
possue duas coisas grandes e de génio:--a descoberta do caminho marítimo
para as Índias, que definiu os nossos compatriotas como marinheiros e
perseguidores de aventuras, e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu
em tudo quanto nêles existe de elegíaco, de lírico, de subjectivo.
Estamos diante de duas epopeias, meninos!...
Aquele admirável Duarte! Caía do céu, providencialmente, no meio das
tristezas de Frederico, das suas derrotas, dos seus desconsôlos, para os
dourar com uma réstea de alegria transitória como o sol doura uma
paìsagem, depois da chuva.
--Tens estado sempre em Lisboa, desde que abandonaste o Pôrto?
-Não, criatura! De vez em quando, sempre que o país me satura de enfado,
e, com as suas eternas farças, o seu entremez permanente, me comunica um
fastio de Tibério exausto, faço as malas, viajo, desbestializo-me,
tomando um banho de elegância, de lucidez mental, por essas bemditas
nacionalidades cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que tens feito?
--Nunca saí de Portugal, Duarte! Vou murchando, por patriotismo, no
nosso torrão natal, como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...
--E selvagem!... Tambèm razoávelmente selvagem.... E agora, para onde te
dirigias, a passos largos, encurtando o caminho da sepultura, como
afirma o _Eclesisastes_?...
--Deambulava por aí fóra, à procura dum sítio onde almoçasse sem
escândalo. Porque não vens comigo, Alarcão e Ataíde? Faríamos um
pequenino ágape, celebrando êste acontecimento festivo!
--Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade, com fome. E nem
sequer me lembrava!...
Atravessaram, lentamente, a Praça da Liberdade, em direcção à rua de Sá
da Bandeira, parando a cada instante para relembrarem episódios
passados, incidentes humorísticos da mocidade há muito olvidados. Os
carros eléctricos corriam velozmente sôbre os _rails_, num incessante
retinir de campaínhas de alarme, os automóveis fugiam no fio do vento,
entre nuvens de fumarada, atroando os caminhantes com as suas _sirènes_;
das tílias altas que, nos dias ardentes de verão, espalham sôbre a
calçada nódoas rôxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras
fôlhas. Duarte, enfiando o braço no de Frederico, evocava scenas
hilariantes dos anos extintos.
--Tu ainda te lembras do Martinho, homem terrível da Beira e da batota,
que numa noite de azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostões?
--Perfeitamente!... Foi para a África. Nunca mais se soube dêle.
--Por sinal que o Diabo, cansado de comprar almas inúteis para os seus
fins de regenerar o mundo pelo espectáculo da tortura, não aceitou a
oferta em condições excepcionais de preço, e Martinho, despeitado,
pregou-lhe a maior descompostura que êle tem apanhado, desde Santo
Agostinho!
Riram com satisfação, na beleza gloriosa da manhã que os remoçava.
--Pobre camarada!--continuou Duarte. Ao dr. Fausto, o Diabo deu ainda,
com a juventude, a virgindade e a beleza de Margarida. Ao nosso
companheiro, não deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que êle
dizia, com rancor, que Satanás, depois que Goëthe o descobriu oculto na
consciência, tinha perdido todo o prestígio... E que é feito de Nuno,
êsse encantador conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau
e guitarras?
--Está casado... E já tem um filho.
--Oh! O sórdido burguês!... E talvez feliz, hein?
--Enormemente feliz.
--O animal!... Tu, solteiro.
--Sim, homem! Solteiro...
--Como eu!... Como os heróis de Tyrso de Molina, sempre à caça de rôlas
assustadas. Fazes bem. É assim, justamente, que procedem os homens
decentes.
Tinham chegado à esquina do Café Portuense. Duarte estacou, exclamando:
--No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque. Uma noite, o Andrade,
o de medicina, quis afogar-se nesse tanque, porque acabava de saber que
a costureira que amava o traíra com um oficial de barbeiro. Suicidava-se
não por orgulho ofendido, mas por estética. Tive um trabalhão para
evitar que êle se molhasse... O que foi feito de tôda essa água?
--Secou, desapareceu.
--Como a fé nas almas!... Oh! os tempos modernos são iconoclastas.
Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava de jovialidade como
uma espuma ténue e branca se irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas
inquietações anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, que o
distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos,
tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:--a
carta de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em que se afundava com Branca.
Do fundo do seu coração subia o reconhecimento para aquele bom Duarte em
quem a jovialidade era perene e espontânea...
Em frente do teatro Sá da Bandeira, ainda se detiveram. Frederico,
riscando gestos no ar com a ponta do dedo enluvado, dizia:
--Na parede dêste edificio já havia aquele mesmo buraco, quando eu era
estudante. Caíram tronos depois disso, morreram dois Papas, houve três
guerras fulgurantes, o Império Celeste mudou as suas instituìções
políticas, nasceram-me na cabeça os primeiros cabelos brancos e o buraco
lá está. Só êle não evolucionou porque é um documento histórico e
representa o amor, o carinho, com que o Pôrto defende a sua fisionomia
secular.
--Não zombes, Duarte--atalhou Frederico. Essa tendência conservadora do
Pôrto é uma das suas primaciais virtudes.
--Mas, não zombo! Primeiro que tudo, o amor à tradição. Só êle
engrandece os povos, no sábio e verídico dizer de Fustel de Coulanges...
Foram andando vagarosamente, meteram pelas ruas próximas, dando uma
volta, porque Duarte tinha curiosidade em ver certos logares que lhe
evocavam os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam certos
factos, determinados acontecimentos. A cada instante, chamando a atenção
de Frederico, lhe fazia revelações, dizendo:
--Tive antigamente por aqui um namôro. Ela chamava-se Faustina e eu
considerava-me o seu Marco Aurélio... Bons tempos!
Mas Duarte, nas suas vagas observações, ia verificando que a cidade
envelhecia, que a idade a deformava, lhe comia a côr e o viço, como se
fôsse um rosto feminino em que a beleza da juventude fôsse morrendo.
--Tudo envelhece, afinal--murmurava tristemente--o corpo humano e as
próprias pedras inertes que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos
parasitários. Que formidável poder de destruição, o da morte! Nada é
eterno!...
Voltaram, novamente, à Praça, entrando por fim num restaurante. Duarte,
enquanto Frederico, depois de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na
lista os pratos, coçando a ponta do queixo numa grande, embaraçosa
irresolução, lamentava-se por não ter encontrado mais nenhum dos seus
condiscípulos ou dos seus conhecidos doutrora. A vida era uma
infatigável dispersadora de almas. Mesmo num país tam pequeno como
Portugal, os que uma vez se separam, geralmente não tornam, a falar, a
não ser por acaso.
--Homem, aí tens a lista. Vê se preferes algum cozinhado--exclamou
Frederico.
--Não quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin. Mas, mete no
festim alguma iguaria bem portuguesa, bem portuense, por causa da côr
local, sempre necessária a românticos como eu sou, como tu eras...
Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as facas nos guardanapos,
diante dos copos vazios e das porcelanas que reluziam sôbre a toalha da
mesa, continuaram a conversa.
--Ora, tu pelo Pôrto, Duarte!... Que bela surprêsa!
--É verdade. Por aqui me trazem, durante algumas horas, os meus
pecados...
--Aventuras amorosas, aposto...
--Efectivamente, trata-se duma mulher que amo e que me quere. O marido
teve a triste lembrança de vir ao Norte, nesta ocasião em que Lisboa
está tam bonita, o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.
--Oh! devasso!...
--Que remédio! O coração humano é assim... E nada de lições de moral,
porque não me convertes.
Lições de moral! E com que autoridade?--meditava Frederico. Tambêm êle
amava profundamente a espôsa do seu maior amigo, pensando nela
constantemente como se Júlia fôsse o centro de tôdas as suas
recordações, da sua própria existência. Quem tinha ensinado a essa
mulher o caminho do seu coração? Por êsse amor sofria, por êle se via
condenado a viver num permanente sonho doloroso, na agitação contínua
das lutas indomáveis e estéreis, oscilando entre o desejo, a noção do
dever a cumprir, a agonia e o desespêro.
--Não tens dêstes saborosos casos na tua história lírica,
Frederico?--atalhou Duarte.
--Eu?... Que ideia!--respondeu êle, perturbado.
O criado surgiu, de repente, com uma travessa de peixe frito na palma da
mão. Serviram-se, encetaram o almoço vagarosamente. Tentando desviar o
fio duma conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos amargos,
Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se para Duarte, inquiriu:
--Tens viajado muito, não é assim?
--Bastante. Sou mesmo uma espécie de Judeu Errante muito razoável para
uma nação do tamanho da nossa. De resto, as viagens são os melhores
mestres. Só elas nos ensinam essa fina sciência de sociabilidade tam
útil na nossa época.
--Sabes que estou resolvido a viajar tambêm? Vieste despertar-me o
apetite.
--Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.
A cada momento entravam na sala homens com as golas dos _pardessus_
erguidas até às orelhas roxas de frio, que respiravam com fôrça,
tossiam, se punham à vontade, abancando pelas mesas e comendo com
sofreguidão, por entre o ruído monótono das conversas e o barulho dos
talheres e da louça, entrechocando-se. Êste tumulto irritava Frederico,
já desgostoso com a promiscuidade. Curvado sôbre o mármore côr de rosa
do mostrador, um empregado pachorrento, gordo, vermelho, com uma
calvície enorme e a cara tôda rapada à navalha de barba, que lhe deixara
na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente a rua, através dos
vidros das portas.
--Só viajando, a gente se instrue--afirmava Duarte, devorando o seu
_beef_ com ovos... Diabo, êste vinho é uma peste...
Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a sério, num longo passeio pela
Europa, numa viagem de esquecimento e de purificação em que sarasse o
seu coração enfêrmo e acalmasse a sua imaginação exaltada. As grandes
capitais, com os seus vibrantes espectáculos desconhecidos, as suas
multidões, as suas sumptuosidades, as suas ardentes, imperiosas
solicitações a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqùilidade espiritual
que tanto desejava. Porque não? Veria outros povos, outros costumes,
outras civilizações, misturar-se-ia, contente, à onda duma vida
complicada que faria por analisar e compreender na sua essência e na sua
expressão; encontraria, por alguns meses, uma ocupação que lhe enchesse
a alma, o distraísse, lhe serenasse a febre que o queimava. No
isolamento em que se confinara, o seu amor por Júlia, longe de
dissipar-se, havia de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se,
por influxo da paixão que o devastava e que o esgotava de tôdas as
fôrças vitais, sem deixar-lhe sequer o cuidado pelas banalidades
práticas... Talvez que noutros países, noutras cidades, longe de Nuno,
longe da sua adoração, esta violência sentimental que o pungia
diminuisse, pela multiplicidade de diversões e de interêsse em que se
absorvesse...
Tinham chegado à sobremesa, e Duarte, estranhando o silêncio de
Frederico, perguntou:
--Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?
--No problema de atulhar o estômago. A minha animalidade assim o
reclama.
--Estás na verdade cartesiana. Comes, logo existes...
Sempre que no seu sentimento despertava o amor por Júlia--amor que não
podia adormecer perpétuamente--Frederico verificava que êle lhe
transmitia uma extraordinária abundância de impressões novas e intensas
que terminavam por fatigá-lo, por deprimi-lo até à tristeza e ao
desalento. Precisava subtraír-se a êste trabalho interior em que o seu
ser se abismava. Viajaria, pois, e levaria Branca.
--Está decidido, Alarcão e Ataíde... Dentro em breve, terás um servo
humilde para a Europa.
E voltando-se para o criado, pediu a conta que pagou.
Levantaram-se, acenderam os charutos, calçaram as luvas e saíram para a
rua, aspirando consoladamente o ar vivo.
--Demoras-te por esta óptima cidade, D. Duarte?
--Não, menino. Parto ainda hoje à noite. As doces exigências do coração
cumpriram-se. De novo me afasto.
--Que pena!
--E até peço desculpa, por te abandonar tam cedo, depois do almôço e do
afecto. Enfim, outro poder mais alto se levanta, como disse o nosso
épico.
Pararam um instante na rua, apertando as mãos.
--Quando vires êsse Nuno, dá-lhe um grande abraço, por mim. _Au
revoir!_...
Até à noite, Frederico vagabundeou pela cidade, detendo-se diante das
_vitrines_, seguindo com a vista alguma linda mulher que passava, num
forte e aristocrático rumor de sêdas. A tristeza que de manhã, com a
carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se cada vez mais. Que
suplício!... Por muito que quisesse alhear o pensamento de Júlia,
surpreendia-se constantemente a reconstruí-la na fantasia, a recordar os
seus suaves olhos langorosos e profundos--uns olhos que diziam tudo o
que dentro dela se passava...
A lembrança dessa mulher renovava-lhe incessantemente o sofrimento, mas
era-lhe muito grata.
Cansado da sua interminável vadiagem, meteu-se num carro eléctrico com
destino à Foz, maldizendo a esterilidade do seu dia sem uma emoção de
beleza moral superior, sem um acto nobre.
--Como isto acabrunha! -- monologava, sentado em frente duma inglesa
esgrouviada, alta e sêca, com uns cabelos dum louro sêco e uns óculos de
ouro na ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.
Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico lhe disse:
--Sabes? Ando com vontade de ir até Madrid, até ao inferno.
--E então eu? Deixas-me?--perguntou ela com voz de mimo.
--Não! Levo-te comigo, para nos aborrecermos ambos. O tédio, dividido
por dois, deve ser menos pesado...