IX

Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de energias, mais fraco de

vontade, à medida que se gastava nos delírios da paixão carnal, nos

desvairamentos duma existência que nem sequer procurava já equilibrar,

porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse. À sua excitação

física, de dia para dia mais intensa, correspondia um desfalecimento

moral que constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter,

secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. Convencido da sua

própria impotência, trazendo no peito um coração árido, invadido por uma

dolorosa melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas letais

de luxúria, conseguiam dissipar por momentos, levava uma existência

desregrada de prazeres de tôda a sorte, em que a luz da sua própria

inteligência, tam lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo,

conservava-se no seu sentimento alguma coisa que não queria morrer, que

era vivaz, persistente, que se obstinava em persegui-lo, empurrando-o

violentamente para as maiores loucuras:--o seu amor por Júlia. Era uma

obcecação, uma ideia fixa que o aguilhoava sem repouso, por mais que

pretendesse esquecê-la. Temendo que o isolamento, a solitude,

exacerbassem essa adoração perversa e abominável, que o enxovalhava

sempre que espreitava, espavorido, a própria consciência, freqùentava os

teatros e o jôgo assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta

indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava a comesainas

tumultuosas com os amigos e ía depois, exaltado pelo alcool, passar a

noite com Branca, que definitivamente se apossara dêle e que Frederico

considerava como um mal necessário ao apaziguamento da sua tortura, como

uma ilusão mentirosa de que derivava, para a sua inquietação permanente,

um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos careciam daquela

mulher, como certos doentes carecem de venenos para adormecer uma dor

fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso reconhecimento em

vez de ódio. A casa em que a tinha instalado, com riqueza e luxo, era

para êle, nas horas de maior atribulação, o logar que uma graça

consoladora habitava. Nestes momentos devastadores, submisso como um

crente, pousava sôbre a fronte doce e pálida de Branca um beijo quáse

religioso, que ela lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.

Em certos instantes mais calmos, porêm, quando podia observar-se com

lucidez, julgava-se serenamente, acusava-se de se estar aviltando e

praticando uma infâmia, procurando apagar com a febre duma lascívia

brutal a recordação dum amor puríssimo. Alarmado, cheio de remorsos,

entregava-se a longas cogitações, tentando encontrar uma explicação para

aquela anormalidade. Que natureza vulgar ou grosseira era a sua que, em

vez de ter uma origem de inspirações divinas na paixão amorosa mais

elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela, afinal, só um estímulo

que o impelia para as abjecções deprimentes? Como é que o amor por Júlia

não iluminava a cegueira da sua alma, o não sublimava de tôdas as

imperfeições terrestres? E seria, na verdade, amor o que por ela sentia

ou apenas um desejo bestial:--o desejo do seu corpo tam perfeito, da sua

carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava da sua

sinceridade, e sofria mais amargamente por esta dúvida.

O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem pelo estrangeiro nêle

despertara, em breve arrefeceu. Não manifestava curiosidade por nada: a

alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava, com terror, na

perspectiva de sair de sua casa, do seu país, para meter-se, com um

monte de malas, em combóios que rolassem monótonamente por terras

desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, entre multidões

indiferentes e egoístas. Que enorme alteração tudo isto representaria

para os seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu cansaço e

que tédio juntaria ao seu aborrecimento! E, afinal, para quê? Que lucro

positivo tiraria êle duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas

por povos diversos do seu? Não lucraria nada! De resto, só se deve

viajar em absoluta serenidade espiritual, em pleno contentamento de

alma: e Frederico não possuia nem essa serenidade nem êsse contentamento

essencial. Não! Não abandonaria o Pôrto. Neste burgo se iria definhando,

consumindo, aniquilando!...

Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o, com carícias em que se não

escondia o frio, a secura, o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que

Frederico lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto de ir a

Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E, para o convencer, apontava-lhe

exemplos de rapazes com dinheiro que tinham ido com as amantes, numa

jovial jornada, por essa Europa fóra.

--O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.

--O Gusmão?--inquiria Frederico. Quem é êsse Gusmão?

--Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes bigodes, que tem um

lindo automóvel e que vive aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos

êle pôs a Adriana por conta! É como se fôssem casados. Aquela sim. Está

de grande!...--terminava Branca, fazendo beicinho.

--Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega. Mas mais tarde... Por

enquanto, não posso. Preciso primeiro de deixar umas coisas em

ordem--afirmava êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe um braço à

volta de pescoço.

--Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...

--Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha bem de frente. Dize lá. Eu

tenho cara de quem mente?...

--Não quero dizer que mentes...

--Então, que queres dizer?...

Ela não respondia, fazia-se mais amável entre os seus braços,

pousava-lhe a cabeça no ombro, muito terna, muito quebrada, com geitos

estudados e pieguices; e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente,

exclamando:

--De resto, para sermos felizes, não precisamos de sair daqui...

Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira, onde fôra ver uma revista

deplorável, sem vivacidade, sem espírito, sem arte, maculada por ditos e

situações lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, muito

embuçado, rente às paredes.

--Pára aí, criatura--bradou Frederico. Há quanto tempo te não vejo!...

--Oh! menino! Pois és tu?--respondeu Paiva.

Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto de mão.

--Para onde diabo vais, a esta hora e com tanto mistério, Paiva

magnífico?

--Vou para o namôro.

--Para o namôro?...

--Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação irresistivel, com diálogos

de janela, noite alta--porque o pai é austero--com estrêlas que se

contemplam tristemente, com suspiros. Coisa muito séria.

--Oh! Paiva! Tambêm tu?

--É verdade, grande Frederico. Tambêm eu! Que queres? Assim acabam todos

os românticos. E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou tarde. A

pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer dia, para conversarmos.

Depois te direi tudo.

--Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças sofrer com a tua ausência os

corações ingénuos.

Partiram cada um para o seu lado, em sentido oposto; mas, apenas

Frederico tinha dado alguns passos, Paiva, voltando-se de repente,

chamou-o aproximando-se novamente dêle:

--Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo... Tu sabes quem está no

Pôrto, chegado há seis ou sete dias?

--Não sei. No Pôrto está tanta gente!

--Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.

--O quê?--bradou Frederico, sobressaltado. Nuno? Não pode ser.

--E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer que está! Vi-o esta

manhã na Praça da Batalha. Vinha do correio... Parámos um momento a

palestrar. Até êle me perguntou por ti.

--Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer nada!

--Como não te disse nada? Tu é que lhe foges, ao que parece. Já te

procurou em casa e não te encontrou. Deixou-te uma carta urgente e não

lhe respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um pouco

ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E adeus!

Com efeito, havia uma semana que Frederico não ia a casa. Branca

retinha-o, no seu leito de amante, uma parte da noite e uma parte do

dia, porque só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia à porta, de

regresso das estúrdias ou das bancas de tavolagem com a roupa em

desalinho, o olhar vago e ardendo dum brilho especial, numa secreta e

áspera revolta contra si próprio. Ficava tôda a manhã deitado, dormindo

com as mãos fechadas junto da cara, a pele humedecida por uma

transpiração álgida, agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já

muito alto, entrando no quarto em feixes de raios difusos e rutilantes e

inundando móveis, cortinados e tapêtes com a sua dourada cabelugem que

faíscava, lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o com

fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a roupa da cama, entre

gargalhadas. Frederico espreguiçava-se, bocejava. Ela, de

_robe-de-chambre_ de sêda, cabelos soltos e despenteados caindo-lhe

pelas costas, um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável

mácula na sua meiguice mas que a tornava mais picante, aninhava-se nas

tapeçarias que alcatifavam o soalho, rolava a cabeça na beira do leito

com lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico,

fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado. Sempre que despertava

dos seus desvairos sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela miséria

moral em que ia resvalando rápidamente, sem coragem para romper com

torpezas o reentrar numa existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe

que êle já a não amava, que estava morto por desfazer-se dela, falava em

morrer.

--Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o

francamente!--acrescentava.

Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava do leito, tomava

banho, vestia-se, reconciliando-se com Branca; e, então, volvidas horas

de repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para folhear

revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam muito juntos na pequenina

sala de jantar que as jarras de flores aromatizavam, o papel claro das

paredes alegrava e a que os mobiliários caros davam confôrto, elegância

e beleza ornamental. Pelos aparadores scintilavam pratas e reluziam

porcelanas; de grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se arômas

aperitivos; os cristais irisavam-se à luz; e Frederico achava então um

certo enlêvo naquela vida comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma

companheira solícita, que possuia no mundo uma alma para quem a sua

personalidade não era estranha. Muitas vezes, jantava mesmo com Branca,

saindo à noite para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas

mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, sem que êle se

lembrasse, sequer, de ir a sua casa. E por isso Nuno o não encontrara,

por isso não tivera, mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo

ao Pôrto--regresso de que só por acaso havia sido informado...

Enquanto caminhava pelas ruas já desertas e cheias de sombra, perdia-se

em suposições. Nuno dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando

se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse propósito. Que

facto, grave certamente, o teria feito mudar de tenções? Aborrecimento

da monotonia rural, da solidão rústica? Saudades da animação, da

sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era mundano, abominava as

exibições, os convívios banais. Taciturno, misantropo, já na sua

mocidade só estava bem com uma ou duas amizades mais íntimas à sua roda.

Depois que se casara, meteu-se dentro da sua vivenda e da sua

felicidade, sequestrou-se de todo, gostosamente, às curiosidades

indiscretas da rua e das salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o

teriam, pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o a

refugiar-se no Pôrto?

--E se Júlia adoeceu?--monologou Frederico, invadido por um sobressalto

repentino.

Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o seu ser; sentia um fundo

mal-estar interior, uma angústia que o atordoava, que lhe apertava o

coração, que o constrangia. Com efeito, aí estava a explicação da volta

de Nuno ao Pôrto. Não podia ser outra! Naquele momento, a mulher que êle

amava com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre, ir-se-ia

fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do seu encanto supremo,

enquanto Nuno, apreensivo, assistindo transido a uma dor que não podia

sarar, nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse, que lhe

desse esperança.

--Com certeza que Júlia está doente!--pensava Frederico.

Um relógio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe impossível correr a casa

de Nuno, bater-lhe à porta, alarmar tôda a vivenda, para saber o que

havia; mas êle tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta,

contava-lhe tudo. Então, dominou-o, espicaçou-o o desejo de chegar

de-pressa à sua habitação, que ficava ainda distante. Acelerou o passo.

Ao dobrar duma esquina, um vulto de mulher sumido dentro do chaile

cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra, disse-lhe em voz baixa

e ofegante qualquer coisa que não entendeu. Tirou do bôlso uma moeda de

prata e meteu-a numa lívida e magra mão que para êle se estendia com um

gesto rapace de garra. Mais adiante, um polícia embuçado no seu capote

fumava encostado a um candeeiro. Sôbre as casarias pairava uma ligeira

névoa. A cidade dormia profundamente...

Uma tipóia surgiu, rolando lentamente na calçada. Frederico fez um sinal

ao cocheiro, que esticou as rédeas e se endireitou na boleia,

exclamando:

--Pronto, meu patrão!...

Os cavalos, extenuados e de cabeças pendentes, estacaram. Frederico

abriu a portinhola, entrou de salto.

--Para onde quere que o leve?--perguntou ainda o cocheiro.

Indicou o bairro e o número do prédio em que residia e o carro partiu

logo, mais velozmente, ao estalar sêco do chicote. As ferraduras dos

cavalos, batendo violentamente nas pedras, levantavam faúlhas de lume

que scintilavam um momento para em seguida se apagarem. Devorado de

impaciência, Frederico, de quando em quando, espreitava através das

vidraças e apenas via ruas esgueirando-se na sombra, fileiras monótonas

de casas, algumas ainda com luzes agonizando por detrás de _stores_

descidos nas janelas dos segundos andares.

--Como é triste uma grande cidade erma a horas avançadas da noite! E

essa tristeza envelhece a gente!--meditava.

E o maldito carro sem chegar ao fim daquela corrida que o estava

atormentando! Batia nos vidros da frente, com os nós dos dedos para que

o cocheiro fizesse galopar os cavalos mais apressadamente. Parecia-lhe

que já há muito tempo rolava, aos solavancos, dentro daquela caixa

fechada e sem ar, através do burgo solitário, e isto excitava-lhe os

nervos... Por fim, o carro deteve-se de repente. Frederico, olhando para

fóra, reconheceu o seu retiro, a sua vivenda; saltou para o passeio, deu

uma gorda gorgeta ao cocheiro que tirou o chapéu agradecendo, sacou do

bôlso um mólho de chaves niqueladas, abriu a porta e sumiu-se na treva.

Depois, raspando um fósforo, subiu ligeiramente a escada, procurando não

fazer barulho para não despertar o criado que dormia, entrou no seu

escritório, acendeu o gás que ardeu num leque de luz dentro da tulipa de

cristal, sibilando em surdina, e olhou para cima da larga mesa de pau

preto em que escrevia. Lá estava a carta de Nuno, efectivamente. Logo a

reconheceu pela letra que negrejava no _enveloppe_--uma letra de traços

finos e firmes em que se denunciava alguma coisa do carácter do amigo--a

sua franqueza, a sua energia, a sua vontade sem hesitações. Rasgou o

sobrescrito com frenesi, como se êle representasse um forte obstáculo

com o poder de lhe demorar ainda durante muito tempo o conhecimento duma

verdade que queria saber imediatamente e logo encetou a leitura. Nuno,

como pensara, dizia-lhe o motivo do seu regresso à cidade, informava-o,

com pormenores, da doença do filho, já curado, do susto que tiveram, êle

e Júlia, na aldeia, quando julgaram a criança atacada de difteria e da

sua viagem por um hostil, bravio dia de chuva açoutando em bátegas o

automóvel. Terminava, pedindo-lhe que o fôsse ver, que lhe désse ao

menos notícias suas.

«--O Porto--escrevia Nuno irónicamente--é uma terra tam pequena que tôda

a gente se conhece uma à outra. Pois bem; há três dias que te procuro

por praças e cafés, logares onde se dá à língua, no boletim mundano dos

jornais, e--parece impossível!--ainda te não encontrei, como se tu

fôsses _la Belle au bois_ da lenda e se tornasse necessário penetrar

numa vasta floresta encantada para chegar junto de ti! Aparece. Tanto eu

como Júlia, que está mais nutrida, que lucrou imenso com a sua

permanência na aldeia, gostaríamos de ver-te por esta casa que é tua.»

Acabando de ler a carta, Frederico respirou. Júlia não estava doente,

não ocorrera na existência, tam calma, tam feliz, tam igual do marido,

nenhuma fatalidade irremediável, nenhum perigo ameaçava criaturas a quem

a sua alma era dedicada. Fez-se a paz no seu sobressalto emotivo. Dobrou

a larga fôlha de papel que Nuno para êle escrevera e atirou-a para cima

da mesa, sentando-se numa poltrona estofada em que o seu corpo molemente

se enterrou; e por muito tempo entregou-se a um longo scismar. Branca,

que naquele momento o estaria esperando com um chaile de lã pelas

costas, estirada num fôfo divan da sala em que passava os seus serões,

lendo romances sentimentais ou conversando com Amélia, sua criada de

quarto e sua confidente, esqueceu-lhe completamente. A sua recordação

estava cheia da imagem de Júlia, da sua beleza, da sua bondade, da sua

maravilhosa graça de mulher, que queria adorar com uma emoção purificada

de desejos inferiores, venerar como um crente, no ardor do seu

misticismo, venera as coisas de Deus e que afinal amava, para seu

tormento e sua angústia, com um amor lúbrico que lhe acendia a febre no

sangue, que lhe toldava a lucidez do espírito, que maculava de crápula

os puros lirismos da sua paixão a princípio casta e que depois, pelas

solicitações carnais que não pudera conter, se transformou em criminosa.

Como era que essa mulher, em vez de o tocar com o alvor da sua

santidade, de tudo o que nela havia de superior, de elíseo, de

admirável, de astral, só lhe comunicava uma estranha volúpia que o

alucinava?

--A culpa não é dela, com certeza, mas da impureza da minha

organização!--monologava.

E ali estava ela no Pôrto, perto dêle, chamando-o para junto de si com

uma voz de amizade que Frederico, no seu delírio voluptuoso, julgava

carregada do fluido magnético da atracção voluptuosa. Um espírito oculto

e maléfico impelia-o para Júlia, incitava-o a loucuras, a infâmias.

Aterrado com a própria consciência--em que germinava a flor vermelha dum

impulso mau--fugiu-lhe, afastou-se dela, para a esquecer. Em vão. O

destino enigmático aproximava-os novamente, e desta vez com a

particularidade de se conhecerem de perto, de não serem estranhos a um

afecto que em Júlia era digno e enternecido e que nêle degenerara em

sensualidade animal; de haverem vivido sob o mesmo teto, de se terem

confessado as suas simpatias e as suas predilecções, de se fazerem

mútuas confidências em que notavam, rindo, um gôsto idêntico, uma

inteligência que tinha pontos de contacto, modos de ver em que havia

semelhança. Iria a casa de Nuno? Não iria? Flutuava entre estas duas

hipóteses, sem se decidir. Tinha mêdo...

--Deve ser já muito tarde!--pensou.

Viu as horas. Eram quatro. De fóra não vinha o menor rumor. Tôda a vida

parecia suspensa, perdida no silêncio e na treva nocturna. Então,

novamente se lembrou de Branca, mas esta lembrança súbita inspirou-lhe

uma repugnância secreta. A lubricidade excitante que essa mulher

acordara nas profundidades do seu ser, apagava-se repentinamente como

uma brasa sob a água e dela nada ficava--nem memória afável nem doce

recordação. Júlia apoderava-se outra vez dêle, com o mesmo império, com

a mesma intensidade, impregnava-se da sua substância nervosa, do seu

sangue, da sua carne, dominava-o. Não tinha pensamento, nem desejo, nem

aspirações que não fôssem para ela: e a exaltação que o sacudia era por

tal forma enérgica e absorvente que Nuno ou lhe esquecia e lhe aparecia

inteiramente desligado da espôsa, como se fôssem duas personalidades sem

nada de comum, inteiramente separadas moral e corpóreamente uma da

outra. Era-lhe necessário empregar um grande esfôrço para os associar de

novo, para entrar na realidade das coisas, para compreender com nitidez

que Nuno era o seu amigo, o seu sincero camarada e que, em vez de

traí-lo, lhe devia comovidos respeitos, lealdades fervorosas.

Êste fenómeno psíquico decidiu-o. Não! Não iria mais a sua casa,

enquanto não pudesse estar diante de Júlia com a serenidade com que

estaria diante duma irmã. Desculpar-se-ia, inventaria uma piedosa

mentira com que pudesse justificar-se, cometeria mesmo grosserias,

contanto que a sua dignidade de homem consciente ficasse intacta--ainda

que para isso tivesse de romper abertamente com Nuno. Saíria do Pôrto

sem delongas, para Lisboa, para o estrangeiro, para tôda a parte onde se

soubesse longe de Júlia, embora a tivesse sempre presente na sua saùdade

e na infinita sêde de amor do seu coração. De Branca fugiria tambêm com

a alegria com que se quebram cadeias tirânicas e se recupera uma

liberdade durante muito tempo perdida. O seu sentimento, agora

divinizado pela sagrada lembrança da mulher mais que tudo amada,

tornava-lhe insuportável a presença da impura, que apenas lhe apagava as

ardentes solicitações da animalidade carnal e que lhe não apaziguava as

inquietações da alma, que acelerava a vibração da sua febre voluptuosa

sem lhe fazer ascender no espírito uma pura, ideal aspiração.

Oh! de-certo que ela choraria, que o ameaçaria com suicidar-se, com

provocar clamorosos escândalos: mas enxugar-lhe-ia as lágrimas com um

farto punhado de ouro que a tranqùilizasse no seu desespêro artificial.

De resto, nada lhe devia, a não ser a ternura de algumas horas, uma

ternura que ela costumava vender a todos os homens e que Frederico

tambêm comprara, pagando-a por excessivo preço. Tinha-a encontrado numa

ceia com amigos, simpatizara com ela--porque a sua beleza e a sua

desdita o impressionaram e o comoveram--levara-a para casa, pedira-lhe

não inspirações mas luxúrias que o atordoassem. Reconhecido pela

relativa tranqùilidade que Branca comunicara à sua dôr, indemnizou-a

generosamente. Não podia ir mais longe. Bem sabia que ela empregava

todos os recursos e toda a sciência da sua _coquetterie_ para lhe

agradar com mais intensidade, para se tornar mais desejada--não movida

por impulsos amorosos mas por cálculos. Era amável; mostrava, mesmo, nas

suas relações com Frederico, delicadezas que eram meramente

superficiais. Por debaixo delas traía-se sempre a indiferença ou a

secura, o automatismo, a inconsciência. A castidade das emoções que

iluminariam a sua paixão primitiva não podia mais renovar-se em Branca.

Nos seus carinhos balbuciados havia qualquer coisa de convencional, de

estudado; nos seus beijos havia frio. Era apenas um corpo sem alma--um

lindo corpo, certamente,--que se entregava por dinheiro. E, nos

primeiros tempos, a posse dêsse corpo chegou a interessá-lo por

determinadas afinidades físicas.

Mas agora, Júlia ressurgia; os cuidados de que era alimentada a adoração

que lhe consagrava reclamavam todo o seu ser; uma luz nova o alumiava,

invadia-o a tortura dum amor sem finalidade, que lhe era amargo mas em

que tambêm os seus sentidos encontravam uma particular doçura. Sentia-se

renascer, não para uma vida nobre de esperanças, de júbilos futuros, de

graças aurorizantes, mas para preocupações e para comoções que lhe eram,

conjuntamente, deleitosas e aflitivas. A sua excitação sensual

arrefecia, extinguia-se--e por isso Branca desaparecia das suas

impulsividades orgânicas. Na sua intimidade moral e afectiva

resplandecia apenas a imagem aliciante do único amor sério da sua

existência de homem apaixonado e consciente: e Júlia assumia aos seus

olhos o esplendor de certas figuras maravilhosas e místicas, que andam

nas lendas sagradas com um fulgor de ouro à volta da fronte. Queria

entregar-se inteiramente à veneração silenciosa e oculta dessa mulher,

devotar-se-lhe--mas de longe, procurando evitar que esta devoção, êste

culto, se transformassem em crime. Era a fatalidade! Estava, portanto,

decidido. Iria a casa de Branca, pela última vez, trocaria com ela o

derradeiro beijo, deixar-lhe-ia, delicadamente, sôbre o leito, um

_enveloppe_ fechado. Depois, escreveria a Nuno uma longa carta e

seguidamente partiria ainda não sabia para onde. Esta ideia calmou-o um

pouco: mas em breve, tudo o que na sua natureza havia de tímido, de

indeciso, de incaracterístico, imprimiu-lhe um rumo diferente aos

pensamentos. Não! Não romperia com Branca asim de repente. Dir-lhe-ia

que era forçado a sair do Pôrto por alguns meses, por causa de negócios

que se prendiam com a administração da sua fortuna, mas que voltaria

logo que isso lhe fôsse possível e que então, como dois noivos,

realizariam essa prometida viagem à Europa. Só de longe lhe comunicaria

a resolução duma ruptura inevitável, poupando-se por esta forma ao

espectáculo, doloroso para a sua sensibilidade doentia, de prantos, de

soluços sufocados, de recriminações sem fim.

Com Nuno, usaria do mesmo processo, servir-se-ia de igual subterfúgio.

Havia de dizer-lhe que apenas em Lisboa, em Madrid, em Paris, recebera a

sua carta--que lhe fôra mandada por Bernardo--e que por isso não pudera

correr, como a sua alma desejava, a dar-lhe um abraço. Anunciar-lhe-ia

até um breve regresso, para que êle se tranqùilizasse e não procurasse

saber da sua vida e das suas aventuras. Dêste modo, sofreria menos!...

Já pelas frinchas da janelas se filtrava uma fresca e pura claridade

matutina, quando uma quebreira o invadiu, serenando as suas violentas

agitações. As pálpebras, pesadas de sonolência, cerravam-se-lhe; uma

doce lassidão prostrava-o. Levantou-se na ponta das botas, foi buscar ao

quarto um _couvre-pieds_ e deitou-se, mesmo vestido, sôbre a

_chaise-longue_ que estava na sala, no ângulo formado por duas paredes,

para repousar por algumas horas. Lentamente adormeceu, perdendo a noção

das coisas que o rodeavam, da sua própria situação equívoca. Só acordou

quando Bernardo, entrando no escritório com o sol já alto, abriu uma

persiana, por onde a luz festiva e clara entrou a jôrros. Frederico

sentou-se indolentemente, esfregando os olhos, bocejando com fôrça,

chamando a atenção do criado, que se voltou espavorido no receio de que

um desconhecido tivesse entrado em casa, para roubar.

--Sim, sou eu, homem! Que diabo de espanto é êsse!--exclamou êle para

Bernardo que o contemplava, intrigado.

--Crédo, patrão! Que mêdo me meteu! Até pensei que eram ladrões. Estava

tam longe de o saber por ca!... E não admira! Não o senti entrar.

--Vim tarde, com efeito... Olha, desce à cozinha e diz à criada que me

faça o almôço para o meio-dia. Por agora, quero uma chávena de café...

Mas bem forte.

--Então, o senhor hoje almoça?

--Pois é claro que almoço--atalhou, rabujento...

--Está bem!

Enquanto Bernardo cumpria as ordens, Frederico ergueu-se, entrou no

quarto de vestir para mudar a roupa, que estava amachucada e cheia de

vincos, para lavar-se... Que desordem, a da sua existência! Como é que

êle se emmaranhara em tanto tumulto, enxovalhando-se, perdendo a noção

da decência, do alinho exterior, da rectidão moral, de tudo quanto pode

nobilitar o ser consciente! Ai! dêle que não conseguira encontrar uma

actividade útil e um ideal dignificador, derivava todo o

mal--considerava Frederico, enquanto banhava, regalado, a fronte em água

fria. Não acusava ninguêm. O culpado era êle, exclusivamente êle e da

sua culpa amargamente se arrependia. Estaria ainda a tempo de recomeçar

uma experiência, de regenerar-se? Não haveria na sua alma, no seu

sentimento, estragos irremediáveis? Consultava-se, analizava-se

minuciosamente e notava em si uma ausência de coragem, uma falta de

incentivos renovadores, que o apavoravam. Com a face branca da espuma do

sabonete, que exalava um leve arôma de narcisos em flor, levantou um

instante a cabeça diante do espêlho e teve a noção lúgubre de que estava

vélho e morto para todos os actos elevados. E como tudo, igualmente,

envelhecia e morria à sua roda, sem um lampejo de beleza, numa desolação

que mais ennegrecia o seu desconsôlo... Remergulhou, furiosamente, na

água: e, depois, enxugando as mãos e a cara a uma toalha felpuda bem

sêca, maldizia-se por não ter sabido construir uma outra vida nobre e

fecunda, por se haver deixado arrastar sem reacções, ao sabor das

correntes do acaso ou do destino... Mas agora, implacávelmente,

reagiria, limpar-se-ia de impurezas, tentaria ganhar o tempo perdido,

trabalhando sem repouso para rejuvenescer-se, para ressuscitar, para se

emancipar duma apatia amolecedora. A resolução anterior fortalecia-lhe o

coração. Apegava-se a ela com desespêro. Mais algumas horas, que lhe

eram necessárias para pôr em ordem vários papeis, para dar algumas

instruções aos criados, para escrever a Branca, para arranjar as malas,

e uma outra existência se iniciaria para êle... A esta ideia,

avivou-se-lhe o sofrimento interior. Ia afastar-se, talvez para sempre,

de Júlia, que era a sua saùdade, a sua doçura e a sua dor. Idealizava-a

mais uma vez. Ela tinha o encanto altivo unido a uma simplicidade

encantadora. A palidez espiritual das suas faces e a meiguice dos seus

olhos boiando numa luz que brilhava, tocavam-lhe a alma. A sua bôca

apaixonada, que a mentira nunca maculara, tinha a dupla sedução do

silêncio e da palavra--como as mulheres cantadas em sonetos de ouro por

Dante Rossetti. E deixava-a, porque no coração de Júlia, transbordante

dum outro amor, não cabia o seu, que era um intruso...

Mas Frederico, que ainda momentos antes se julgava com tanta energia

para a separação, começava a vacilar. Como poderia viver sem ela e longe

dela? Que novas formas de tortura atingiria o seu padecimento? A

tristeza e o desespêro, que já o pungiam, davam-lhe a medida exacta da

paixão que por Júlia sentia.

Acabou de vestir-se mais deprimido, mais acabrunhado, e voltou ao

escritório, murmurando entre dentes:

--Embora! Não retrocederei!...

Bernardo bateu à porta, perguntando se poderia entrar.

--Entra!--ordenou Frederico.

O criado entrou, trazendo uma chávena de café, quente e aromático, numa

bandeja de prata, que pousou em cima da mesa, informando:

--Está lá em baixo uma senhora ainda nova.

--Uma senhora?

--Sim, patrão. Uma senhora, que chegou de automóvel. Diz que lhe quere

falar sem demora. É um caso urgente.

--E porque lhe não afirmaste que eu não estava?--gritou Frederico,

irritado, na suspeita de que Branca o procurasse.

--Pois eu afirmei, meu senhor...

--E então?

--Então, ela duvidou das minhas palavras, asseverou que bem sabia que o

senhor estava, que era escusado eu negar. E falava alto, parecia

agastada... Diz que é um momento...

--Olha que estopada!--bradou Frederico. Bem! Passa-me o café, e manda-a

entrar para a sala de visitas... Lá irei ter daqui a pouco.

Que audácia! Não faltava mais nada senão essa criatura--flor do vício--a

agarrar-se com ansiedade aos seus braços, a colar-se ao seu corpo, a

manchá-lo com uma nódoa, a fazer scenas públicas da sua paixão, como se

Frederico lhe devesse reparações, como se de si tivesse partido o lôgro

que a despenhou para sempre no lôdo e na desgraça! Com que direito vinha

ela procurá-lo a casa, denunciá-lo à criadagem como seu amante, sair dum

automóvel à sua porta, em pleno dia, diante de tôda a vizinhança rindo

sarcásticamente? E que lhe quereria? Talvez pretendesse queixar-se pelo

abandôno duma noite, lamentar-se, mostrar as suas lágrimas e os seus

ciúmes. Ah! não! Isso, não lho permitiria...

Tomou à pressa o resto do café que esfriava na chávena de porcelana

fina, acendeu um cigarro, soprou algumas baforadas de fumo e

encaminhou-se para a sala de visitas. Logo de entrada reconheceu Branca,

que se sentara numa cadeira sem mesmo erguer o espêsso véu preto que lhe

cobria o rosto. Com as mãos esquecidas no regaço, estava pensativa. O

seio arfava-lhe apressadamente.

--Então, que loucura é esta? Para que vieste aqui?--interrogou

Frederico, de mau humor.

--Ah! és tu!...--respondeu ela.

Ergueu nervosamente o véu, dirígiu-se para êle de braços abertos. Tinha

os olhos vermelhos de chorar.

--Pensei que te não tornava a ver, que me tinhas fugido, que estavas

fatigado de mim. Porque não apareceste ontem, como de

costume?--interrogou ela.

Falava sacudidamente, muito excitada. O seu rosto pálido rosava-se duma

ponta de sangue mais vivo.

--Não apareci porque não pude.

--E porque não pudeste? Dize! Tiveste outros amores, outras mulheres?

Não sou já nada para ti, então?... Responde!... Mas responde!...

Frederico deteve-se um momento a considerá-la com um olhar mau, de rosto

sombrio e contraído. Branca teve mêdo e acudiu logo, para se desculpar

da sua impertinência:

--Não repares nas minhas palavras, que eu não sei o que digo. Não dormi

nada em tôda a noite. Só chorei! Se conhecesses os meus tormentos, até

tinhas pena... Mas, porque não apareceste, Frederico?

Outra vez a impertinência! Aquele inquérito exaltava-o, enchia-o de

cólera. Tinha vontade de conclui-lo repentinamente, pondo Branca fóra de

sua casa, com imprecações duras e empurrões brutais. E, azedado por uma

súbita fúria, atalhou:

--Se tu me vens com êsses ares de que eu sou uma coisa que te pertence e

de que tenho de dar-te conta dos meus menores actos, não te respondo...

Que tal está a petulância? Não apareci porque não quis. E olha! Nunca

mais apareço... Acabou tudo entre nós! Tudo, entendes?

Atirou violentamente a metade do cigarro que ainda ardia entre os seus

dedos para um cinzeiro, e começou a pessear excitado, desvairado pela

irritação sempre crescente. Branca abateu-se sôbre o sofá, vencida,

ofendida, soluçante, abafando o chôro no seu lenço de rendas.

--Agora temos prantos!... É escusado. Não me comoves!

Mas olhou-a novamente, viu-a enrodilhada, ennovelada, destroçada sôbre o

sofá, emmudecida na sua dôr, teve dó daquele pobre corpo frágil, daquele

coração que todos calcavam, comoveu-se. Aproximou-se dela,

impressionado, chamou-a carinhosamente:

--Branca!

Ela fitou-o na humildade dum olhar que implorava e que as lágrimas

tomavam mais brilhante, murmurando:

--Eu vim aqui porque me parecias diferente dos outros, porque me

trataste com alguma bondade, porque julguei que tinhas piedade de mim.

Bem sei que nada me deves, que não tenho direito de ser exigente e de

meter-me nos segredos da tua vida... Mas que queres? Costumaste-me mal.

Pensei que não me empurrasses com violência... Desculpa-me!... Eu vou já

embora. Deixa-me sossegar um instante...

--E quem é que te empurra?--exclamou êle, comovido. Escuta... Eu é que

te peço perdão da minha brutalidade... Mas, minha filha tu ignoras as

minhas crises íntimas, os desgostos que me enfurecem. Fui arrebatado, é

certo. Mas, se soubesses a razão do meu arrebatamento, absolvias-me.

Branca enxugou os olhos, levantou-se vagarosamente do sofá, foi para êle

com um sorriso dolorido e risonho, já esperançada.

--O quê? Pois não me repeles? Queres então um pouco a uma mulher como

eu, que se devota como os cães e que todos enxotam, queres? Então, que

Deus te pague!... Mas que tens? Que desgostos são êsses em que falas?

Oh! se não podes dizê-los, guarda-os para ti só, que eu não fico

ressentida...

--Pois é o diabo, filha... Maçadas...

Gaguejava, sem saber o que havia de dizer, muito confuso, temendo que

ela descobrisse as suas mentiras, incapaz duma atitude resoluta.

--Até estava agora para ir a tua casa, dizer-te tudo, explicar-te

tudo...

E de repente, o subterfúgio que procurava iluminou-se-lhe na

inteligência. Concluiu, perturbado e contente:

--Tenho de sair do Porto, hoje, infalivelmente.

--E demoras-te?

--Algumas semanas. Imagina! Ontem à noite, inesperadamente, recebi um

telegrama de Lisboa chamando-me a tôda a pressa para junto duma tia

minha que está a morrer!...

--Ah! então!...

--Pensa na minha angústia! Esta tia, é a única pessoa que me resta duma

família que se extingue... E nem sequer posso levar-te comigo... Bem

vês! É caso de gravidade... Mas volto. Volto logo que seja possível,

para a continuação do nosso amor.

--Se eu pudesse acompanhar-te, Frederico!--exclamou ela resignada.

--Mas não podes. Como queres tu?...

--Não! Estou doida, efectivamente... Mas não me deixas?... Não estás

zangado comigo?

--Zangado, eu? Que ideia... Espera um momento.

Foi dentro, ao escritório, abriu o cofre, tirou um maço de notas,

felicitando-se pelo ardil encontrado, satisfeito na sua covardia por

cortar com Branca mais suavemente do que pensava; e, reentrando na sala

meteu-lhe o dinheiro na saquinha de mão, murmurando:

--Leva! Podes ter precisão dêle, enquanto eu não regresso...

--Mas!...

--Nada de recusas. Ordeno eu. E agora vai, e sê-me fiel. Mandar-te hei

noticias minhas. Dá-me um beijo e adeus!

Quando Branca desceu a escada e entrou apressadamente no automóvel, que

largou numa corrida vertiginosa, Frederico soltou um suspiro de

alívio...

X

Dois, três vagarosos meses decorreram com uma lentidão cruel para

Frederico, que sentia por vezes a impressão do tempo se ter imobilizado,

de tudo cair à sua volta numa inêrcia que o apavorava, inspirando-lhe um

terror mais forte pela vida, exaurindo-o totalmente de vontade. Saíra do

Pôrto na intenção de partir para o estrangeiro, de se demorar por lá, em

cidades ruidosas ou sossegados logarejos onde encontrasse algum repouso,

até que o seu amor impuro se lhe apagasse no coração como se apaga uma

luz que muito tempo espalhou claridade; mas, desde que chegara a Lisboa,

encontrou-se mais só, mais desalentado e mais inquieto, arrependendo-se

amargamente de haver deixado a rua em que vivia, a casa em que nascera,

perseguido por um mêdo absurdo e quáse infantil, por uma cobardia

deplorável, e por uma fraqueza de alma que o envergonhava...

As sensações sucediam-se-lhe com rapidez assombrosa no sentimento. Na

capital, parecia-lhe que entrara numa região de imensa solitude--uma

solitude que o oprimia, que lhe constrangia, apertava o coração. Como se

tinha enganado! Imaginava que a distracção das viagens lhe curaria ou,

pelo menos, atenuaria o extraordinário mal que tanto o fazia sofrer:--e

agora nítidamente via que, quanto mais se afastasse de Júlia, mais êsse

mal se agravaria. A doença estava inteiramente dentro de si:--na sua

imaginação, nos seus nervos, na sua sensibilidade, no seu sangue! A dor

que o atormentava nada mais era do que um dos variados aspectos do

padecimento humano, a eterna miséria dos sêres conscientes. Provinha das

tiranias implacáveis da carne, da animalidade, da tristeza infinita dos

destinos, das fatalidades a que ninguêm pode eximir-se! Fugir para onde?

Esconder-se em que sítio? A sua tortura permanente havia de acompanhá-lo

para tôda a parte, como certas enfermidades que não perdoam e que sem

descanso, noite e dia, devoram o organismo de que se apoderam...

Pensando constantemente em Júlia, formara no espírito uma imagem dessa

doce mulher muito mais viva do que a personalidade real. Dêste fenómeno

derivava a sua excitação, o seu frenesi. Era essa imagem, precisamente,

que nêle activava a luta entre a dignidade, a elevação moral e o desejo

lúbrico, entre a noção do dever e o cego instinto. Considerando como

absolutamente inútil para a sua paz--a paz de que tanto carecia--a

vagabundagem pela Europa em que durante dias pensara, decidiu ficar em

Portugal, conservar-se em Lisboa, envelhecer a um canto do seu país,

respirando o mesmo ar que vivificava Júlia, alumiar-se com a luz do sol

que tambêm a iluminava a ela. Para a infinita melancolia do seu amor,

havia um grande encanto nestas pequeninas coisas. Aquela adoração sem

esperança comunícava, em todo o caso, a radiação da sua beleza

intangível a tudo o que o cercava, penetrava-o de suavidade, tinha o

condão misterioso de lhe ressuscitar na memória figuras queridas em que

lhe era grato meditar. O vulto de Júlia andava íntimamente ligado, na

sua recordação, às paìsagens rústicas que ambos tinham contemplado num

mudo êxtase, a certas páginas de música que Frederico lhe ouvira tocar

ao piano, aos plácidos serões na casa de campo onde vivera dias

inefáveis, antes da tempestade emotiva em que agora se debatia.

Lembrar-se dela era lembrar-se tambêm dos episódios ocorridos durante as

horas iniciais duma paixão que começara, insidiosamente, por admirações

comovidas de virtudes e de bondades que a ennobreciam e que, depois, sem

saber por que secretas elaborações de sentimento, se transformara em

delírio, em loucura. Fôsse para onde fôsse, havia de aguilhoá-lo a

agitação que lhe não dava um minuto de tréguas, continuaria a queimá-lo

a febre em que se gastava, se consumia, como os troncos secos se

consomem numa fogueira. Afastar-se ainda mais para quê? Separava-o já de

Júlia uma grande distância e nem por isso a sua angústia afrouxava. Não

dispunha de coragem para atravessar a fronteira, correr nacionalidades

estranhas, observar outros povos, outros costumes, outras civilizações.

No seu presente estado de alma, nada veria, nada compreenderia. Em

Lisboa, estava entre a sua gente, tinha relações, poderia conviver,

procurando o esquecimento. Foi-se deixando ficar, num dissolvente

abatimento, sem formar projectos de vida futura, incapaz de resoluções,

de actos enérgicos em que a sua vaga individualidade se afirmasse.

Fechava-se dias inteiros no quarto do hotel em que se instalara,

ruminando o seu tédio, folheando livros que se arrastavam

indefinidamente por cima das mesas e das cadeiras, fumando. À noite, ia

aos teatros, encontrando uma vez por outra algum conhecido com quem se

entretinha em palestras sem interêsse. O seu gôsto era estar só, para

relembrar, no silêncio, coisas que lhe eram inefáveis. Reentrar na sua

paz antiga, sentir de novo a alegria de viver, seria a libertação: mas,

para isso tinha de esquecer, e o esquecimento era-lhe impossível.

Bastava o facto mais insignificante para lhe despertar na emotividade as

sensações da sua primitiva ternura, para lhe dilatar amorosamente o

coração. A depressão constante e progressiva da vontade que em si

desfalecia levava-o a acusar-se duma fraqueza que o aviltava: mas não

empregava esforços para reagir. Deixava-se governar dócilmente por uma

atracção misteriosa.

Em certos momentos, julgava-se pueril. Com efeito, porque sofria êle

tanto? Que crime havia praticado? Que falta grave era a sua, para que

assim se entregasse passivamente a um desespêro que o devastava? Não

poderia êle amar Júlia, a espôsa do seu maior amigo, sem se manchar de

ignomínia, sem se envilecer? Talvez. Mas, se o corpo, a grosseira

matéria de que era constituido, o empurravam para êsse amor, a sua alma,

que era a essência, que representava a porção de divindade que cada

homem digno traz dentro de si, opunha-se tenazmente. Êste antagonismo

entre a carne e o espírito que dentro dêle se fazia não era uma nítida

prova da sua nobreza moral? Pecava pelos sentidos mas purificava-se pela

razão. E o seu pecado todos o absolveriam. Experimentava alguma doçura

em relembrar Júlia, porque não podia viver sem a recordação saùdosa dum

amor de que só êle sabia e que representava o facto dominante da sua

existência. Ninguêm conseguirá, fácilmente, desabituar-se da

felicidade--e amando Júlia em segredo, considerava-se relativamente

feliz. Na desolação duma existência sem outro ideal, essa adoração tinha

a graça duma flor e mergulhava-o na beatitude dum quimérico sonho que

lhe dava a ilusão da ventura. Mas não iria mais alêm, não ultrapassaria

os limites estreitos em que a sua desgraçada paixão se confinara. Para

que havia de atormentar-se com tam sombrio ardor?

* * * * *

A primavera veio, outra vez, cobrir os arvoredos de folhagens tenras e

verdes, reflorir os jardins, tocar as paìsagens de maravilhosas tintas.

A luz era já mais límpida e vibrante; o sol trespassava o azul da

atmosfera como uma enorme flecha de ouro. Uma vida mais jovial renascia.

Nuno, que contínuamente escrevia a Frederico, na ignorância das mentiras

por êle inventadas para se afastar e do conflito moral e sentimental em

que se debatia, anunciou-lhe, numa longa carta, o propósito em que

estava de regressar à quinta novamente, ficando por lá a fortalecer e a

renovar-se, entre a beleza rural e as coisas simples, até que o filho

crescesse e o obrigasse a residir na cidade, para lhe vigiar de perto a

educação. Preparava tudo para uma longa ausência do Pôrto, onde só

voltaria, em rápidas visitas, de fugida, quando negócios urgentes a isso

o forçassem. E pedia-lhe que se não demorasse mais, que não prolongasse

um afastamento inexplicável que justificava com pretextos sempre fúteis

e que o intrigava.

--«Com efeito--acrescentava Nuno--eu e Júlia temos pensado muitas vezes

que existe na tua vida um segrêdo. Qual? Não o sei nem quero sabê-lo,

pois se na verdade me não iludo e tu o escondes, é porque me não julgas

digno de o conhecer. Mas, seja como fôr, vem daí assistir, na aldeia, à

ressurreição das flores e à aleluia da graça!...»

Esta carta despertou violentamente tôdas as ideias e reminiscências que

existiam no seu cérebro. Outra vez viu iluminar-se-lhe diante dos olhos

deslumbrados aquela tarde em que a beleza de Júlia pela primeira vez o

impressionou vivamente, quando ela, debaixo da mosqueteira que vergava

de corolas, se cobria das florações que caíam de alto como uma chuva

loura e lhe evocavam docemente a lenda pagã de Júpiter, descendo num

orvalho dourado sôbre o corpo branco de Danae. Outra vez recordava a

angústia--que nunca mais deixou de pungi-lo--com que fizera a descoberta

dum amor que devia morrer, porque era impuro; a noite de perturbação e

de terror que se seguiu a esta revelação singular; a ansiedade com que,

logo ao raiar da alvorada, fugiu para o Pôrto à procura duma serenidade,

duma pacificação que nunca mais encontrou--recriminando-se pelo facto de

haver-se abrigado sob um teto, que afectuosamente o acolhera, para

manchar uma honra, para trair uma amizade, para roubar uma ventura que a

outro legítimamente pertencia, para violar no seu próprio santuário

emoções castas, para cometer, na alucinação da sua luxúria, um

sacrilégio. A intensidade da veneração consagrada a Júlia tornava-o

excessivo na fúria com que se acusava: e as evocações eram por tal forma

nítidas que o seu padecimento agravava-se, excitando-lhe a cobardia,

aumentando-lhe o temor de voltar a aproximar-se duma mulher que, por

muito respeitar, não queria tornar a ver. Sofria duplamente pela certeza

evidente da sua paixão e pelo enfraquecimento duma dignidade que sentia

escapar-se-lhe, deixando-o à mercê de impulsivos desatinos. A própria

alma se lhe dissipava a esta recordação. Perdia a confiança em si mesmo.

A sua situação surgia-lhe perante a consciência como um abismo--cheio de

idêntica sombra, de idêntico mistério, de igual silêncio enigmático.

Outrora, pensava que todos os homens podiam dominar-se, mesmo no confuso

turbilhão das emoções desencadeadas, porque para isso dispunham da fôrça

que deriva do raciocínio e da sua superioridade de conscientes; e agora,

pretendendo exercer sobre si próprio êsse domínio, não o conseguia, por

mais que o tentasse. E porquê? Porque a sua vontade não era íntegra e

suficientemente enérgica? Porque as paixões eram mais fortes do que o

carácter, tendo o poder de comunicar à razão, à inteligência, aos

sentimento elevados, o seu fogo criminoso? Parecia-lhe que sim. E tambêm

lhe parecia que apenas os homens que saíssem vencedores das lutas em que

êle impotentemente sucumbia, deviam ser considerados os verdadeiros

heróis...

Sucedesse, porêm, o que sucedesse, estava decidido -----File:

245.png---\\\\\\------------a nunca mais entrar em casa de Nuno. Ao cabo

de pacientes e dolorosas análises, pressentia que, em face de Júlia, não

se conteria, deixaria transparecer o seu drama oculto, se denunciaria. A

fuga era a salvação! Mas regressaria ao Pôrto, certamente, agora que

Nuno o informava da sua mudança para a aldeia onde ia instalar-se

durante anos. Lisboa enfastiava-o já até à fadiga. Julgava-se

estrangeiro dentro dessa cidade, entre uma população tam diversa da do

norte, pela índole, pela origem, por diferenciações de casta. Tinha-se

libertado definitivamente das complicações que a episódica e transitória

ligação com Branca trouxera à sua atribulada existência. Rompera para

sempre com ela, embora se separassem como amigos que, juntos, correram

atrás duma ilusão irrealizável e de cujo encontro ficaria alguma coisa

de doce. Como era um fraco de temperamento, um indeciso, pensou em

prolongar com ela uma triste mentira que seria cómoda para o seu egoísmo

e para a sua indecisão. Temeu, porêm, as futuras consequências dessa

mentira e sentiu a necessidade do mostrar-se sincero. O mais leal, o

mais concordante com uma bondade que o nobilitava era desenganá-la com

uma franqueza resoluta:--e assim procedeu, penalizado com a lembrança

das lágrimas que a sua deliberação provocaria. Mas era preciso! Branca

aparecia-lhe como uma atroz mancha na sagrada brancura do seu único e

verdadeiro amor. Não podia mais aceitar-lhe os beijos sem repugnância

instintiva, sorrir às suas carícias sem um desejo muito fundo de

repeli-la com rancor, com ódio. Perguntava mesmo como esta

incompatibilidade carnal entre êle e a sua amante dalguns meses só agora

se definia claramente, sem encontrar uma explicação para êsse

fenómeno...

Escreveu-lhe, de Lisboa, anunciando-lhe o fim duma aventura que tinha de

acabar, pedindo-lhe que lhe não quisesse mal, que dêle conservasse uma

lembrança afável:--e quando, perturbado, inquieto, imaginava que Branca

não aceitaria a ruptura sem clamorosos escândalos, soube que ela se

resignara inteiramente, procurando e encontrando logo outras ligações.

Esta certeza desanuviou-o.

Um domingo, por acaso, passeando tristemente na Avenida da Liberdade,

onde já floriam as olaias sob a doçura e o afago da luz primaveril,

deparou, inesperadamente, o jovial Paiva, que descia o passeio em

sentido oposto, fitando com enternecimento as belezas femininas que

passavam na festa esplêndida do sol. Foi para êle cheio de

contentamento, apertando-lhe efusivamente a mão, interrogando-o com

afabilidade:

--Oh! scelerado!... Tu por aqui?

--Oh! admirável Frederico! Que feliz encontro!... É verdade, por aqui,

nesta doce e morena Lisboa.

--E êsse Pôrto, êsse namôro?...

--O Pôrto, creio que está no mesmo sítio, com a sua monotonia, a sua

tristeza de burgo histórico inamovível. Quanto ao idílio, findou como

tudo finda:--Roma, Bizâncio, Cartago!...

E pousando a mão magra, em que fulgia a pedra fina dum anel, no ombro de

Frederico, acrescentou, sorrindo:

--_Tout casse, tout lasse et tout passe!_ Os franceses teem razão.

Deram uma larga volta, conversando, recordando episódios esquecidos,

espairecendo. Paiva achava que as mulheres de Lisboa eram lindas e

perturbantes, com uma graça, uma distinção, um ar encantador:

--Vê a elegância com que elas pisam, menino! E que corpos, que harmonia

de formas, que ritmo! Sobretudo, que ritmo!...

--Tu vens obsceno do Pôrto, homem--comentou Frederico.

--Pois como diabo querias tu que eu viesse? Sim! Como querias?!...

Voltaram ao Rocio, entraram no Martinho, sentaram-se a uma mesa, pedindo

cerveja; e então, Paiva informou Frederico do desfêcho grotesco do seu

curto romance com Branca. Estava agora com um capitalista--o Luís

Tavares--que há muito cobiçava a sua formusora, o seu encanto decadente.

--Um capitalista, hein?--perguntava Frederico, bebendo o seu _bock_.

--De-certo. Um capitalista... O Tavares... Tu conheces. Ora! Não

conheces tu outra coisa.

--Com franqueza, não me ocorre... Mas estimo! Coitada da pequena. Tam

bôa rapariga!... Um anjo.

--É gentil, da tua parte, esse desejo de fazê-la entrar nos córos

celestes. Mas não vás mais longe, não a metas entre as Onze Mil

Virgens...

Paiva, acendendo um charuto, deu mais esclarecimentos:

--É babadinho por Branca, o Tavares. Oferece-lhe quanto ela quere.

--Estás óptimamente informado!

--Foi Luísa que me contou tudo.

--É verdade:--ainda dura essa paixoneta?

--Não, caramba! Eu gosto da variedade. A igualdade assusta-me... Luísa

tambêm se colocou--e entre a magistratura. Está por conta dum

desembargador que, no seu doce regaço, esquece as leis, os códigos,

pousa a severa espada da justiça e humaniza-se. Mas, é claro,

encontrâmo-nos de vez em quando. Às vezes, por fantasia, por

capricho--ela é caprichosa--sobe à minha trapeira romântica de boémio,

como uma Musa... E narra-me, entre beijos, a crónica mundana dos amores

envergonhados.

--Que progresso, o dessas damas! Uma com o capital, outra com a

jurisprudência, ambas influindo, talvez, na vida nacional, governando-a

como Aspásia governava Atenas!

--Meu rico! Ambas nos devem muito. Fomos nós que as ensinamos a ter

linha. Praticamos uma acção meritória--acrescentava Paiva, cínicamente.

Frederico bateu as palmas, pagou a despesa. Levantaram-se, saíram.

--Queres tu hoje jantar comigo, ó Paiva magnífico? Ando tam só, tam

desalentado!...

--Não posso. Muito que lidar, uma tia rica e vélha de quem sou o melhor

dos sobrinhos e o mais necessitado dos herdeiros, outros casos de

consciência. Jantar contigo era uma bela ideia. Mas não posso... Não sei

mesmo quando poderei. Acho que tenho de seguir com minha adorável tia

para o Alentejo, onde vamos visitar uns domínios territoriais que virão

talvez a pertencer-me!...

Separaram-se. Paiva enfiou pela rua do Ouro, soberbo de petulância,

fitando insistentemente as mulheres que passavam, e Frederico, mais

aborrecido e mais triste, reentrou no hotel, fechando-se no seu quarto e

estirando-se num sofá, farto até à saciedade de Lisboa, onde nada o

prendia, e ansioso pelo regresso ao Pôrto, donde tantas recordações o

chamavam. O seu terror, a sua inquietação moral desvaneciam-se, pois que

Nuno e Júlia iam partir--talvez mesmo já tivessem partido--para a

aldeia. Fumando uns cigarros atrás dos outros, entregava-se com mais

subtileza crítica à observação do caso singular que o trazia em alvorôço

permanente, que de-certo derivava da exaltação nervosa, duma violenta

paixão--mais lasciva do que espiritual--insatisfeita, das ásperas

solicitações da carne bruta, da infinita miséria física do amor, de tudo

o que faz do homem um animal vivendo pelo instinto grosseiro e não pelas

finuras, pelas delicadezas da alma. A sua análise escolhia de

preferência os sentimentos da intimidade moral, porque as imagens da

vida exterior exasperavam-no. Começava a achar ridícula aquela

desvairada fuga diante da mulher para quem um ardente desejo e uma

invencível simpatia o impeliam e de quem a razão e a dignidade o

afastavam, intimidando-o como se êle fosse uma criança, um

irresponsável, e não dispusesse duma inteligência. Reconheceu, no

entanto, que perdera a confiança em si mesmo, que era mais um autómato,

dirigido por fôrças ocultas, do que um ser moral, governado por ideias e

emoções próprias...

Levantou-se, caminhou para uma janela aberta, curvando-se um momento

sôbre o peitoril. A população atulhava as ruas que o sol dourava; os

carros eléctricos desfilavam uns atrás dos outros, abarrotados de gente;

pelos passeios erravam janotas ociosos, e oficiais do exército

arrastavam espadas nas pedras. Era a scenografia de todos os dias, que

já o fatigava; surpreendeu-se a apetecer, mais do que nunca, o

isolamento da sua casa do Pôrto, longe de tôdas as curiosidades, como um

cenobita, entre livros e entre recordações suaves. Com que prazer

começou a fazer as malas, para abalar no dia seguinte, sem mesmo

prevenir os criados da sua volta! E como foi consoladora para a sua

saùdade a hora em que reentrou na vivenda pacífica e cheia de lembranças

familiares que o enterneciam! Tinha a ilusão de que em tudo o que o

rodeava havia uma parte da sua personalidade, alguma coisa do seu

coração, uma beleza indecifrável que para êle se iluminava. Bernardo,

que o recebeu com um riso satisfeito e que o achava mais magro, mais

mirrado, pareceu-lhe um amigo venerável. As árvores do jardim, cobertas

de fôlhas que o sol tocava de luz, ramalhavam alegremente à aragem,

saùdando-o.

--Venho arrasado, Bernardo, arrasado!--disse êle para o criado.

--Pois assim, sempre nessas idas e vindas, nem pode medrar, meu senhor.

--Tens razão. Tu é que tens razão. Não posso medrar, dizes bem. Oh! mas

agora, vais ver. Vou repousar, recuperar o perdido. Engordarei, não

saírei de casa, como os gatos.

--Santo nome de Maria, com que o patrão se compara!...

--E então? Haverá porventura nada mais caseiro, mais apegado ao

borralho, do que um gato?

Nos primeiros tempos, com efeito, Frederico, todo ocupado no arrumo das

suas coisas, passava os dias encerrado na habitação, saíndo apenas de

noite, depois do jantar, quando a cidade começava a ficar deserta e êle

não corria o perigo de encontros importunos. Dava longos passeios, como

se pretendesse extenuar-se, acalmar a agitação permanente do seu

espírito. Foi precisamente numa destas caminhadas nocturnas que uma vez,

insensivelmente, se surpreendeu defronte da morada de Nuno, mergulhada

em sombra e mudez. Parou a olhá-la como se quisesse lobrigar nas

vidraças reflexos de luz interior que denunciasse a presença de sêres

vivos. Não viu nada e êste facto comunicou-lhe alegria e tranqùilidade.

Depois, como uma polícia se aproximasse a passos lentos, mirando-o com

desconfiança, reencetou a marcha, murmurando:

--Bem! Já cá não está!

E sentia contentamento pela sua descoberta--um contentamento quáse

infantil. A ausência de Júlia e de Nuno garantia-lhe uma quietude

relativa. Isto animou-o. Absolutamente certo de que o amigo estava agora

longe, começou a aparecer de dia, a freqùentar os centros de conversa, a

mostrar-se. Reatou convivências durante muito tempo interrompidas, para

se distrair, para atenuar a violência do seu mal, que, no entanto, ia

crescendo com o desalento que o minava. Mas, uma tarde, ao descer os

Clérigos, vago, alheado, viu-se inesperadamente diante dalguêm que

gritava o seu nome, que para êle avançava, de braços estendidos,

berrando:

--Ora ainda bem que te encontro. Que diabo tens tu feito? Por onde tens

andado? Que mal te fiz eu? Dize!...

Era Nuno! Frederico estacou, empalidecendo um pouco, muito comprometido,

gaguejando desculpas, interrogando-o:

--Pois, estás no Pôrto?

--Justamente! Estou no Pôrto. Tive de vir aqui a tôda a pressa, buscar

coisas que nos eram essenciais, a mim e a Júlia, ao nosso brando retiro.

--E ela como está, tua espôsa? E êsse querido herdeiro?--perguntou

Frederico, já mais sereno.

--Magníficos. Gozam duma saúde de ferro.

--Como já te disse em carta, só em Lisboa tive conhecimento da doença de

teu filho e tu tranqùilizavas-me...

Nuno contemplava-o com interêsse. Estava mais abatido, mais gasto, havia

fundos vincos na sua face, cabelos brancos na sua cabeça, tristeza no

seu rosto e era cansado o riso da sua bôca.

--Demoras-te por cá?--inquiriu Frederico.

--Não. Sigo daqui a horas, em automóvel. Ah! Já me esquecia dizer-te...

Tenho agora automóvel na quinta, introduzi no meu viver pacato esta

comodidade. E era preciso. Não estamos livres duma súbita doença, do

imprevisto... E é verdade:--essa visita? Quando te resolves? A não ser

que a nossa companhia te desgoste...

--Oh! Nuno! Pois acreditas?...

--Não afirmei nada. Exprimi apenas uma dúvida. E olha que, na realidade,

tanto eu como Júlia te temos estranhado... Para que hei de esconder-te a

nossa surprêsa?

--Tolices... E podes crer que não falto... Mas mais tarde. Ainda tenho

prisões. Hei de ver...

--Não hás de ver nada. Quero saber o dia, a semana, ou então o motivo

dessas hesitações...

--Bem! Por todo êste mês, contem comigo... Para onde vais?

--A Carlos Alberto, fazer umas encomendas. O meu automóvel deve lá

estar. Acompanhas-me?

--Não posso. Desculpa. Coisas urgentes a resolver... Mas, espera-me em

breves dias.

--Esperarei.

--E recomenda-me lá em casa... Beijos ao morgado.

Despediram-se, seguindo em direcções opostas. Nuno, ágilmente,

Frederico, mais acabrunhado. Santo Deus! O facto que tanto temera

sempre, dera-se, afinal. E agora? Como poderia fugir mais uma vez,

libertar-se, sem levantar suspeições? Como julgaria Nuno uma nova fuga,

que já não poderia justificar honestamente? Era-lhe impossível prolongar

por mais tempo uma tam cómoda mentira, continuar iludindo. A fatalidade

empurrava-o, definitivamente, para o desconhecido e com uma fôrça a que

não conseguiria resistir. O que iria acontecer? Que rudes formas de

tortura adquiriria o seu desespêro? Vacilava, sem encontrar uma evasiva

tam profundamente desejada.

Tudo o que no seu ser existia de tímido, de cobarde, de dúbio,

despertava, exacerbando-lho o terror. Deambulando na rua, a largos

passos, falava sòzinho, em voz alta e numa tal excitação que parava

gente intrigada a observá-lo.

--Com certeza que não vou!--afirmava.

Mas se não fôsse, o que pensaria Nuno? Que desastrada ideia tivera em

deixar Lisboa, em não ter ido para o estrangeiro, para tôda a parte onde

a vida lhe oferecesse um pouco de sossêgo! Para que voltara ao Pôrto?

Recordava-se de haver lido em Dostoiewsky que os criminosos andam à roda

do seu crime--de que não podem afastar-se--como as borboletas à roda da

chama em que se queimam. Era êsse fenómeno psíquico que se dava com êle,

naturalmente...

Cruzou com um carro que fugia na calçada. De dentro, uma graciosa cabeça

de mulher inclinou-se, espreitando e sorrindo irónicamente. Frederico

reconheceu Branca. Até aquela o desdenhava. Que vida, que miséria!

Encontrava-se numa encruzilhada, completamente desnorteado. Que caminho

tomaria? Apressou a marcha, aguilhoado por uma inquietação muito íntima

e muito funda. Passavam-lhe na mente tentações tenebrosas. Únicamente de

si próprio, duma instantânea fulguração de coragem, dependia a quietação

perpétua. A solução pareceu-lhe bôa, por instantes; mas logo,

raciocinando mais detidamente, monologou:

--Era a mesma coisa, a mesma denúncia... E, depois, sou um poltrão...

Nesta dúvida permanente, que tornava mais cruel o seu sofrimento, viveu

Frederico todo o resto do mês, caído numa misantropia que o assustava,

nos raros momentos em que lúcidamente podia reflectir. Tinha-se outra

vez encerrado em casa, fechando a porta a tôdas as curiosidades

importunas, e levava os dias num desespêro que apenas a imagem serena de

Júlia a espaços lúarizava. A sua irresolução era maior, mais tormentosa

a sua angústia. Sentia a necessidade duma fé religiosa que lhe

iluminasse o espírito árido, que o apaziguasse. Assaltava-o o receio de

enlouquecer. Bernardo aterrava-se. com a fixidez do seu olhar em que

brilhava alguma coisa de bizarro e de mau...

* * * * *

Um dia de manhã, o correio trouxe-lhe uma carta--a carta a tôdas as

horas esperada. As mãos tremiam-lbe, quando lhe pegou. Rasgou o

_enveloppe_, abriu-a e leu, com um rubor de vergonha na face, estas

linhas sêcas e curtas de Nuno:

«Na verdade há uma razão secreta que te afasta desta casa, da minha

amizade, da minha confiança. Desconheço-te e a tua atitude inexplicável

preocupa-me. Existe entre nós um equívoco que não deve continuar por

mais tempo e de que tu, francamente, me informarás. O teu procedimento,

que me intriga, parece mais uma provocação do que outra coisa; e o nosso

antigo afecto de tôda uma mocidade dá-me o direito de exigir-te

explicações.»

A carta terminava com mais algumas palavras que a humanizavam, lhe

atenuavam a rispidez. Então, tôdas as indecisões de Frederico se

dissiparam. Efectivamente, reconhecia a sua culpa. Nuno tinha motivos

para estar magoado, para o recriminar. Que homem era êle?--pensava

Frederico, espreitando, espavorido, a consciência. Queria furtar a sua

dignidade de amigo a atracções que a manchariam, e comprometia

únicamente as suas afeições mais puras. E tudo isto porquê? Pelo temor

absurdo de praticar uma acção vil. Mas, não dispunha êle duma

inteligência capaz de compreender os eternos problemas do Bem e do Mal e

duma energia capaz de resistir às alucinações criminosas?

Chamou o criado na electrização duma vontade que o vitalizava, mandou

encher uma grande mala de madeira, recoberta de couro, com roupa e

calçado, ordenou que lhe fôssem buscar um automóvel, e sem pensar, sem

calcular as conseqùências da sua carreira cega e vertiginosa para o amor

e para a vergonha, ou para a libertação e para a morte, partiu. Ainda

confiava numa coisa:--a sua timidez. Nunca teria a audácia de revelar a

Júlia o seu segrêdo. Se ela o perscrutasse e o aceitasse sem cóleras

fulgurantes, talvez a sua natureza imperfeita sucumbisse; mas, pura,

como era, ignorando as torpezas do coração humano, nunca ela o

adivinharia. A sua adoração continuaria, portanto, oculta, fazendo-o

sofrer apenas a êle...

Volvidas horas duma impaciente correria por estradas que cortavam

através de espraiadas veigas, de descampados, de terras de cultivo, de

pinheirais rumorosos, Frederico parava diante do portão da quinta, tam

seu conhecido, ao latir furioso dos cães de guarda. Já pelas grades

pintadas de verde floriam as roseiras de trepar, e tôda a aldeia

reverdecia, como numa festa, sob as aragens perfumadas e o ouro dum sol

criador e maravilhoso de luz, descendo dum céu de esmalte azul. Nuno que

estava à varanda olhando distraídamente as montanhas que ao longe se

esfuminhavam, na vaga névoa, vendo deter-se um automóvel, desceu

apressadamente ao jardim, sem esperar pelo criado e atirando uma

saùdação amigável ao viajante, que sacudia a roupa empoeirada.

Abraçaram--se com efusão. Frederico repreendeu-o:

--Que estúpida carta foi aquela, Nuno?

--Não foi estúpida, foi estimulante. Se me não zangasse sériamente, não

vinhas. E olha que começava a não saber o que pensar... Mas vieste. Tudo

se esclareceu. Esqueçamos êsse desagradável incidente...--explicava êle,

dirigindo-se a casa.

Trémulo, transtornado, esforçando-se por conservar a tranqùilidade

aparente, tôda superficial, Frederico acompanhava Nuno, que cruzava o

jardim a passos largos. Ia tornar a ver Júlia perto de si. Há quanto

tempo a não via! Quáse um ano--uma eternidade para quem ama como êle

amava--tinha decorrido, desde que se separaram. A sua perturbação

aumentava, o coração pulsava-lhe com violência, o sangue circulava-lhe

apressadamente nas veias.

--Júlia, Júlia!--bradou Nuno, ao subir, com Frederico, a larga escadaria

de pedra, sob as glicínias brancas e rôxas, que conduzia ao primeiro

andar.

Ela apareceu logo, à porta de entrada, com o filho ao colo, muito

risonha, muito còrada e afàvel.

--Cá está o pródigo!--zombou Nuno.

--Que volta ao calor das vélhas amizades, arrependido da sua

prodigalidade--concluiu Frederico, apertando a mão que ela lhe estendia,

aberta e leal, e beijando a criança com ternura, quáse com devoção.

--Pensei que nos tinha esquecido...

--Oh! minha senhora... E como pôde supôr...

Ergueu, a cabeça e fitou-a pela primeira vez mais demoradamente, muito

perturbado, tentando sorrir. Ela encarou-o tambêm, satisfeita, com uma

grande alegria no rosto. Os seus olhares cruzaram-se.

--Se lhe parece! Que devíamos pensar, então?... Mas perdoamos-lhe, pelo

muito que o estimamos, não é verdade, Nuno?

Êle fez um gesto de assentimento, muito contente.

--Só por esta vez... Para a outra, não haverá perdões!--ameaçou Júlia.

Enleado, sem saber o que responder, Frederico refugiou-se todo na

inocência do pequerrucho, que sorria enlevado, agitando as mãozinhas côr

de rosa.

--E cá o figurão? Admirável, não é assim?--perguntou êle, tocando-lhe

com a ponta do dedo levemente, afagando-o.

--Está excelente, agora. Mas inspirou-nos um susto!...

--Eu sei, eu sei. Nuno contou-me tudo.

--Oh! menino, deixa as expansões para logo--atalhou Nuno. Teremos muito

tempo de tagarelar, durante esta deliciosa primavera. Porque deliberei

não te deixar evadir daqui tam cedo. Agora és meu prisioneiro... Vai-te

arranjar. O quarto é o mesmo do ano passado... Cá em casa nada mudou.

Amamos as tradições.

Frederico aproveitou a ordem providencial do amigo, que vinha libertá-lo

duma situação de momento a momento mais penosa para êle, exclamando:

--Então, se V. Ex.^a dá licença, minha senhora...

--Pois não, pois não!...--declarou Júlia.

Entrou no quarto para onde os criados tinham já levado a mala, lavou-se

e vestiu-se. O silêncio envolvente apaziguava-o, tranqùilizava a sua

perturbação. Aquela casa, que a luz inundava, era feliz: e a felicidade

foi sempre recolhida e pacífica. Mas, cheio de desconsôlo, invadido por

um desgôsto imenso, Frederico perguntava a si mesmo para que viera,

porque não tinha resistido tenazmente às solicitações de Nuno. Que

leviandade! E como, por irreflexão, havia concorrido para agravar o seu

mal!

* * * * *

Os dias foram passando num desespêro cada vez maior para Frederico. O

seu delírio atingia uma violência terrível de instante a instante.

Surpreendia-se muitas vezes a contemplar Júlia em êxtase, quando à

noite, ela, sentada ao piano, interpretava uma dessas páginas de música

que parecem falar da aspiração irrealizada das almas para a beleza e

para a ventura. A luz do candeeiro, que lembrava um hálito dourado,

derramando-se no ambiente, batia-lhe em cheio na massa dos cabelos

enrolados no alto da cabeça gentil, nos ombros, nos lóbulos das orelhas,

onde fulguravam as pedrarias dos brincos. Frederico, sentado numa

cadeira de braços, absorvia-se na sua graça, no seu encanto,

idealizava-a, considerava como devia ser infinitamente doce o seu amor e

setinosa a sua pele tam branca, opalizando-se na claridade difusa,

enquanto Nuno, fumando um charuto, vagarosamente folheava um livro. No

fundo do seu coração havia agora um inexplicável ressentimento, quáse

ódio por aquele homem que tirânicamente se interpunha entre êle e a

divina mulher da sua ardente paixão, em nome dum afecto a que a

sociedade--e talvez a lealdade do seu carácter!--impunham obediência

passiva. Como a influência desta adoração infindável se tornasse mais

imperiosa e dominadora de hora para hora, Frederico, temendo o

irremediável, evitava tôdas as ocasiões de se encontrar só com Júlia. De

dia, se Nuno descia à quinta, êle acompanhava-o, procurava interessar-se

por coisas que não entendia, demorava por tôdas as formas o regresso à

vivenda. O tempo estava esplêndido e a scenografia era, realmente,

maravilhosa. Todos os arvoredos do parque agitavam no ar, brandamente,

as ramarias cobertas de folhagens novas, que os pássaros vestiam de

asas. As acácias douravam-se duma flor que, trespassada pela luz, dava a

impressão duma espuma de ouro; altos castanheiros da Índia balouçavam

pingentes de florescências brancas e rosadas. As fôlhas densas formavam

um docel duma côr verde e tenra. Por vezes, flechas de sol, filtrando-se

por entre os ramos, mosaicavam a areia fina do chão de manchas

luminosas. Ao lado, o jardim enflorava, exalando-se em perfume. Mais

para alêm do muro que circundava a vasta propriedade, ondulavam em

galgões as dobras de terreno, espraiavam-se os campos cultivados, os

ferregiais, os lameiros em que a erva crescia, branquejavam casais

pequeninos donde aonde, verdejavam os pastos, subiam na atmosfera os

campanários em que, aos domingos, os sinos, convocando os fiéis,

espalhavam por todo o vale a música festiva e mística dos seus claros

sons. E ao fundo, subia a mole colossal das serras, mais fecundas na

base, mais áridas nos cimos, com a sua decoração de matagais cheirosos,

de pinheirais, de rochedos cortados em escarpa.

--Que beleza!--murmurava Frederico, enlevado.

--Não é verdade?--inquiria Nuno. Onde é que tu encontras êstes

espectáculos, esta poesia, na cidade, em que tudo é tam pequenino, tam

mesquinho, tam banal?

Depois, levava-o até ao fim da quinta, para que êle visse os grandes

melhoramentos em que consumira a actividade de todo um estio. Nas terras

de pão, as sementeiras eram prometedoras. Vigorosamente, os milhos

miúdos «viam-se crescer»--como dizia o velho Mateus, agora mais feliz,

bem instalado na sua granja que devia à generosidade do senhor; os

centeios e os trigais, impando de seiva, arrepiavam-se à ligeira aragem

que sôbre êles corria, ágil como um sôpro, fazendo-os encrespar; ramadas

e vinhedos lançavam pâmpanos; todo o vergel se estrelava de floração. E

sobre aquela alegria da leiva fértil, caía a luz pura como uma bênção de

Deus.

--Isto é uma verdadeira maravilha, Nuno!--exclamava Frederico, diante do

caseiro que sorria, agradecido.

--O tio Mateus trata-me a propriedade com amor.

--Faz-se o que se pode... Mas o patrão é um santo!--dizia êle para

Frederico.

--Oh, homem, olhe que só o Vaticano é que pode fazer canonizações.

Santo, eu? Pecador, pecador...

--O que tem feito por mim e pela pobre doente e pelos filhos é mais do

que de santo, pois não é? Ai! devo-lhe muito, devo-lhe muito.

--É verdade, e como está sua mulher?

--Na forma do costume, a infeliz.

--Alguma doença?--perguntava Frederico, condoído.

--Uma paralisia... Coitada!

Muitas vezes, saíam para fóra da quinta, pela porta que servia a parte

alugada ao caseiro, davam grandes passeios através dos prados,

internavam-se nos caminhos sulcados pelas rodas dos pesados carros de

bois, coleando-se entre sebes já floridas, e só recolhiam quando se

aproximavam as horas do jantar.

Era êste o momento mais doloroso para Frederico, que tinha de sofrer,

diante de Júlia, o seu suplício atroz, ouvindo-lhe a voz de ouro,

afagando-lhe com os olhos a beleza a que a maternidade e a certeza dum

amor constante imprimiam mais serenidade e mais graça, desejando-a com

febre e temendo-a, ao mesmo tempo, por êste desejo impuro que ela, sem

querer, comunicava aos seus sentidos, à sua carne, à sua animalidade.

Uma noite, durante o serão, a conversa entre os três animara-se.

Discutia-se a incapacidade dos homens para saberem procurar a sua

felicidade. Os que a encontravam não eram nunca orientados pela

inteligência ou pela finura psicológica, mas pelo acaso, observava

Frederico.

--Sai-lhes a ventura, como lhes poderia sair a sorte grande, num bilhete

de lotaria...

--Essa agora!--atalhou Júlia. É então a inconsciência que preside à vida

consciente?

--E porque não?--afirmava Frederico. A humanidade é ainda tam

imperfeita!...

--Oh! menino, concede ao menos alguma sagacidade ao instinto, que poucas

vezes se engana.

--Engana-se quáse sempre, porque está submetido a influências nefastas.

--É levares muito longe a tua furiosa vontade de negar... Mas, aí tens

tu as mulheres, por exemplo. São duma argúcia!... Sobretudo em questões

de sentimento.

--Pobres delas!--riu Frederico.

--Pobres porquê?--perguntou Júlia, interessada.

--Porque nunca verão claramente as almas. A sua análise não ultrapassa

as exterioridades--insinuou com intenção Frederico, em voz apressada e

viva.

Júlia olhou-o demoradamente, enquanto Nuno comentava:

--São opiniões, pontos de vista.

Sob o olhar penetrante de Júlia, Frederico baixou a cabeça, perturbado e

arrependido de ter ido tam longe, arrebatado por um impulso que não

pudera dominar. A fixidez da vista dessa doce mulher cravada nêle

inquietava-o. Que queria ela dizer, comunicar? Ter-se-ia denunciado?

Adivinharia Júlia, há muito, por uma dessas intuições que certas

criaturas possuem, o segrêdo que êle trazia escondido no coração?

Atarantado, acrescentou, como se quisesse desculpar-se, furtar-se àquela

espécie de interrogatório mudo:

--É claro, há excepções. Falei dum modo genérico...

E sorrindo lívidamente, com os lábios muito brancos, uma imperceptível

tremura nas mãos, disse ainda, voltando-se para Júlia:

--Não pense V. Ex.^a que eu envolvi tôdas as mulheres na minha

afirmativa...

--Eu fui uma das exceptuadas?--interrogou ela alegremente. É uma

amabilidade de amigo.

O incidente esqueceu, a palestra derivou para outros assuntos que iam

surgindo, mas Frederico não pôde recuperar a sua serenidade de espírito.

Estava doido, ia perdendo a noção das conveniências e, se permanecesse

por mais tempo naquela casa, perto de Júlia, vergado à tirania da sua

fascinação, viria a praticar loucuras. Não via, não ouvia, deixava

muitas vezes sem resposta perguntas de Nuno, que tinha de o chamar à

realidade, exclamando:

--Que diabo de abstracção é essa?

E foi, na verdade, um grande alívio para êle o instante em que Júlia se

levantou, sorrindo de fadiga, despedindo-se e dirigindo-se ao seu

quarto. Êle e Nuno ficaram ainda no gabinete, à volta da luz. Havia luar

e uma claridade branca batia em cheio nos vidros da janela. Fóra, tudo

adormecia em sossêgo, na pacificação nocturna. Quebrando a cinza do

charuto no cinzeiro, Nuno sorria enlevado, e o amigo, surpreendendo-lhe

o sorriso, disse:

--Em que coisas alegres pensas?

--Na minha felicidade. Imagina...

Calou-se, como se se arrependesse, de repente, duma revelação que ia

fazer.

--Imagino o quê?

--Não sabes nada? Não vês nada?... Bem dizias tu, há pouco, que os

homens são rombos de compreensão, teem embotada a ponta da subtileza.

Frederico observava-o, intrigado, batendo sôbre a mesa com os nós dos

dedos.

--Tu és um amigo, um irmão. Não és, nesta casa, uma pessoa estranha.

Pertences à família. Pode, portanto, dizer-se-te tudo... Júlia está

outra vez grávida! Assim mo revelou esta manhã... Vou ter outro filho...

Talvez uma filha, para a felicidade ser completa...

Grávida! Júlia estava grávida! Que horror! E como essa certeza brutal o

amachucava, o transtornava. A garganta constrangia-se-lhe. Fazia

esforços para falar, e não conseguia articular as palavras.

--Mas não me dizes nada, não me felicitas, não me abraças por esta

ternura que me envolve e que eu agradeço ao meu doce destino?...

--Ah! de-certo que és bem feliz!...--exclamou Frederico, por fim.

--Não é verdade?--interrogava Nuno, com a face banhada de riso e de

satisfação.

--Um amimado da sorte!...

Retiraram, por fim, da sala. Um criado veio apagar a luz e arrumar os

móveis.

A noite tempestuosa que Frederico passou! Que terror e que desalento

geravam, para a sua alma pávida de espanto, as sombrias larvas do

delírio? E que futuro entrevia, sem um ideal, sem um sentimento mais

puro que lhe enchessem a vida e lhe dessem esperança e coragem! Tôda a

doçura que sonhara findava repentinamente como uma flor que se

desfolhasse ao vento. Compreendia ágora nítidamente que falhara na

existência. Na hora de agonia que atravessava, tôdas as dúvidas se

esclareciam para a sua inteligência conturbada. Nada ousaria tentar para

fugir a uma condenação fatal, para reconquistar uma paz que perdera. A

sua consciência era uma abjecção. Estava endemoninhado dum pensamento

mau, que não podia arrancar dos sentidos como quem arranca o ferro duma

ferida sangrenta e profunda; estava possesso do crime em que se

envilecera e o espicaçava como um remorso. Para viver tranqùilo, seria

necessário redimir-se da fúria cada vez mais ardente duma diabólica

paixão insaciada.

Estendido sôbre o leito, arquejante, Frederico, de vez em quando,

insurgia-se contra o curso das suas meditações, contra si próprio; mas a

sua revolta era inútil, não vingava desviar a atenção concentrada

naquela absurda tortura. E que abismo de torpeza era o homem! Odiava

Nuno fulgurantemente, desejava que tôdas as desgraças, todos os

infortúnios, se abatessem sôbre a sua cabeça, que a amargura de tôdas as

misérias o punisse implacavelmente. Com que vitorioso grito de triunfo

êle lhe anunciara a gravidez de Júlia! E com que punhalada varara o seu

coração! Essa nova maternidade sagrada da mulher que amava era uma suja

mácula na santidade da sua adoração--mácula bestial. Nuno, fecundando-a

entre ásperos beijos de luxúria e de fogo, na vibração suprema do seu

organismo físico, poluira o sentimento que na sua alma abrira puro como

uma flor virginal. O filho que viesse, que já fazia estremecer o ventre

de Júlia, enxovalharia a mulher para quem a sua veneração subia como o

incenso subia dum turíbulo, na nave dum templo. E fôra para assistir a

esta vilania que o amigo o convidara para casa, arrancando-o

irónicamente ao seu isolamento. Mas quem o impediria da vingança,

procurando Júlia, revelando-lhe aquele doloroso segrêdo que trazia

dentro de si e que o sufocava?...

A esta ideia, que por um momento lhe pareceu justa, encolheu-se,

espavorido.

--Que canalha! Que canalha eu sou!--murmurava.

Não, que pavor! Júlia devia ignorar tudo. Era em saber guardar o mal que

o atormentava, que residia a beleza real do seu sacrifício. E com que

direito criminava êle aquela doce união conjugal em que tudo era graça,

constância, virtude, pureza? Para que havia de espalhar a lama no

caminho de Júlia e de Nuno, tam dignos um do outro e da ventura, pela

sua bondade, pela sua abnegação, pela sua lealdade? Confessar-lhe um

amor criminoso, que seria repelido sem piedade, era dar a conhecer os

aspectos mais torpes da sua alma, que não hesitava em traír o amigo,

disputando-lhe a espôsa, o tálamo, em ultrajá-lo, ofendê-lo, humilhá-lo

na dignidade do sêr consciente.

De-certo que um dêles era de mais na vida--pensava Frederico. Mas quem?

Nuno, que tam dedicado lhe fôra sempre, que lhe queria como a um irmão,

na ignorância da serpe do desejo que se lhe enroscara no corpo e o

despedaçava, o comprimia até à tortura, que confiadamente lhe abrira as

portas do seu lar--que se fechavam para tôda a gente? Seria aquela a

vítima que o seu egoísmo, a sua loucura sensual, escolheria? Estas

interrogações passavam-lhe no cérebro como a fulguração dum sinistro

relâmpago. Depois, recuperando a lucidez, podendo raciocinar com mais

clareza, Frederico monologou:

--Eu, eu é que sou de mais!...

Ainda não tinha descido tanto no pântano em que se afogava que não

visse, acima da sua perversidade, alguma coisa de sublime, de

luminosamente grande. Que Nuno, continuasse a viver para o amor, para a

felicidade, para o futuro. Que o seu sonho de ventura nunca se

interrompesse! Êle desapareceria, já que lhe era honrosamente impossível

amar Júlia sem incorrer no absoluto desprêzo de si próprio e sem traír

um afecto mais santificado, e já que tambêm não conseguiria viver sem

essa adoração. Morreria!...

Por um instante, na solitude nocturna que o rodeava, pensou em matar-se

ali mesmo, dando um tiro na cabeça. A detonação alarmaria tôda a casa,

Júlia acudiria, aos gritos, pousaria, talvez, o primeiro e último beijo

na sua fronte ainda morna e lívida, levaria para a cova o encanto, a

revelação, o perfume dêsse beijo derradeiro que lhe aurorizaria a morte.

Fechou, porêm, os olhos horrorizados. Êsse suicídio naquele logar, alêm

de ser uma denúncia, depois da scena do serão, macularia com uma nódoa

sangrenta a ternura infinita de Nuno e da espôsa--uma nódoa que nenhuma

água, nenhum esquecimento, nenhum arôma purificaria, como a das mãos de

Macbeth. Não! Viveria mais umas horas, umas horas apenas! Só o tempo de

chegar ao Pôrto...

A luz da manhã veio surpreendê-lo ainda vestido, rolando-se no leito

desmanchado, pálido, os cabelos revoltos. Abriu a janela vagarosamente.

O ar vivo e balsâmico entrou a jorros. Aspirou-o com volúpia. Em baixo,

passava o criado. Pediu-lhe que fôsse a Guimarães buscar um automóvel.

--E não te demores. É um caso de urgência.

Banhou o rosto em água fria, tirou da mala a pistola que meteu no bôlso

das calças, e quando sentiu Nuno a pé, correu para êle em alvorôço. Ao

passar pela porta do quarto de Júlia, fitou-a com um olhar em que ia

todo o seu adeus, todo o seu desgraçado amor, todo o seu perdão.

Dirigindo-se ao jardim, onde Nuno descera, como fazia sempre, para gozar

o encanto idílico das manhãs, bradou de longe:

--Sabes? Tenho de ir já ao Pôrto.

--O quê? Estás doido! Não sais daqui, não te deixo.

--Se eu te digo que tenho de ir! Mandei até o Manuel a Guimarães, buscar

um automóvel... Mas volto hoje mesmo. Nem levo a mala... Preciso de ir

pagar umas letras que se vencem. É uma coisa séria, como vês!... Só esta

noite me lembrei, de repente.

--Oh! Frederico!... Porque não recorreste a mim!... E não tinhas o meu

automóvel?...

--Não me ocorreu... Mas é uma questão rápida.

--Nesse caso, vai...

Uma hora depois, o automóvel chegava e Frederico, impaciente, ao portão,

despediu-se do Nuno, saltou para dentro, dizendo ao _chauffeur_:

--Larga e com velocidade.

Estava com pressa de pôr fim, por uma vez, àquele tormento que fôra a

angústia pavorosa de todo um ano de sofrimento! Fechou os olhos. Não

queria ver nada, para que um súbito arrependimento, um desmaio de

coragem, o não prendessem à vida. Ia como numa embriaguez, concentrado

na sua ideia fixa e fúnebre. O automóvel rolava, fugia no fio do vento.

Era uma carreira para a morte, um paroxismo...

Quando mais tarde entrou em sua casa, pagou generosamente ao

_chauffeur_, subiu a escada rápidamente. Bernardo acudira,

perguntando-lhe se desejava alguma coisa.

--Nada, homem. Podes ir para baixo. Se eu precisar, chamarei.

Encerrou-se no seu escritório, sentou-se á escrivaninha e durante algum

tempo esteve escrevendo. Admirava a sua serenidade em face daquele acto

terrível e necessário que preparava. Seguidamente, fechou a carta e

tocou a campaínha. O criado veio, ligeiro:

--Leva já esta carta ao correio. Mas não te demores.

E, quando ficou só, serenamente, como quem cumpre com honra um dever

contraído, tirou a pistola do bôlso, encostou o cano à cabeça sem que um

músculo da face se lhe enrugasse e desfechou. Um jacto de sangue brotou,

salpicando o papel das paredes; um pedaço de massa encefálica fôra

projectado violentamente contra a porta. Frederico caíu de bôrco no

chão, sem um estremecimento, esvaziando-se de tôda a seiva da vida sobre

o tapête...

* * * * *

Na manhã seguinte, Nuno, que passara a noite inquieto por aquela súbita

fuga do amigo, não sabendo a que atribuí-la, recebia uma carta.

Reconhecendo no _enveloppe_ a letra do Frederico, abriu-a nervosamente.

Que teria acontecido, para êle escrever em vez de voltar, como

prometera? Leu, apavorado, estas palavras sombrias, gravadas numa letra

firme:

--«Nuno:--Vou matar-me, em plena consciência, e foi justamente para isso

que deixei a tua companhia, a tua afeição, a tua nobre e grande alma.

Nem a paz, a consolação imensa do teu lar tam belo, puderam reter-me por

mais tempo num mundo em que sou um intruso. Não posso viver mais. A vida

para mim é um suplício e por isso me liberto dela. O homem dispõe da

força augusta que lhe permite aniquilar a obra de Deus.

Porque me mato? Porque há, realmente, na minha existência um segrêdo

terrível, o segrêdo de que um dia suspeitaste e que te não posso dizer,

porque me não pertence inteiramente. Oh! não faças suposições

inconsideradas! Julga-me com equidade. Não penses por um momento só que

deixei, por um crime atroz e sem perdão, de ser digno do teu afecto.

Morro em beleza espiritual... Mas o meu segredo tortura-me sem repouso e

é-me impossível sofrer mais. Para que prolongar uma dôr incurável? Sou

só, o meu acto, longamente meditado, não terá conseqùências e apenas

fará padecer as poucas criaturas devotadas que me estimaram e que hão de

curvar-se, em lágrimas, sôbre o meu túmulo.

Sê tu feliz, entre os teus, bom amigo! Que sempre à volta da tua vida

tam pura e da tua bondade tam comovida, pousem a graça, o encanto e a

doçura! Pensa em mim com um pouco de carinho e de mágoa. Afinal, amei-te

e desapareço inteiramente merecedor da tua afeição--inteiramente

merecedor dela, ouve bem! Um beijo para teu filho e outro para tua

mulher--um beijo de irmão, o beijo dum cadáver. Adeus!--Frederico!».

Ao concluir a leitura, Nuno ficou petrificado, no jardim, alheado de

tudo, como se a inteligência inesperadamente lhe fugisse e êle se

encontrasse num logar desconhecido. Estava branco, os dedos tremiam-lhe.

Tinha a carta entre as mãos, e os seus olhos, por uma alucinação dos

sentidos, viam nela manchas sangrentas... Depois, fundos soluços

abalaram-no, chorou com desespêro, correndo para casa. Abriu

nervosamente a porta do quarto. Júlia ainda estava no leito, com o filho

que ria e galrava.

--Tu queres saber?--exclamou êle. Uma desgraça horrível, um pavor!

--Que foi, santo nome de Jesus?--exclamou Júlia, sentando-se na cama.

--Pois, foi uma fatalidade, filha! Frederico matou-se, ontem, no Pôrto.

--Matou-se?...--perguntou, num grito.

--Sim, matou! Aqui está a carta dêle, anunciando-me a sua resolução, a

sua loucura. Pobre amigo! Antes de morrer, pensou em mim, pensou em nós!

--Oh! meu Deus!--murmurou ela, levando as mãos fechadas á cabeça. E

porque foi, porque foi?...

--Não o diz... Olha! Lê tu! Eu nem serenidade tenho para nada.

Júlia leu, com os olhos vidrados de pranto, aquela carta para ela

reveladora--só para ela!... Uma dúvida que por muito tempo a

sobressaltou, esclareceu-se-lhe de repente no espírito. Admirou a

grandeza de alma de Frederico--uma grandeza que se denunciava ainda no

beijo supremo e sublimado que o seu cadáver lhe mandava da beira da

sepultura. Mudamente entregou a carta a Nuno, e as lágrimas correram-lhe

em fio dos olhos.

--E então? Que te parece? Que julgas?...

--Era um nobre coração!--exclamou ela, chorando sempre.

Nesse mesmo dia, Nuno partiu para o Pôrto, a assistir ao entêrro do

homem que, diante da traição, optou pela morte, para não deixar de ser

leal aos outros e a si próprio.

Miramar, 9 de novembro de 1916.

A Morte Vence · 第 14 / 15 题