Não podendo viver tranqùilamente perto de Júlia, com o seu segrêdo
sempre oculto, nem longe dela, com a angústia interior que o devorava,
Frederico procurou aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse,
que o consumisse lentamente e em que corrompesse a parte pura do
espírito, excitando a sua avidez de prazer nos delírios das paixões
voluptuosas. Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe atribulava a
existência. A fatalidade retinha-o entre o amor e os deveres da lealdade
para com um homem que era, mais do que o seu amigo, a única pessoa a
quem consagrava um afecto profundo. Se, numa alucinação, obedecesse aos
impulsos desordenados e abomináveis do instinto carnal, mancharia a
limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar na possibilidade
dum arrebatamento que o levasse a confessar a Júlia a sua adoração
pecaminosa--que ela, de-certo, repeliria indignadamente, porque era
pura, honesta e refractária às tentações criminosas--uma dor muito funda
agravava a sua exaltação física e o seu desequilíbrio emocional...
Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, a audácia e o cinismo
de praticar uma acção vil, não seria o padecimento de Júlia que mais
vivamente o pungiria, causando-lhe mágoa e comiseração. A sua piedade ia
tôda para Nuno, tam leal, tam comovido de bondade, dotado dum carácter
do melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por vezes, que todo o mal
estava feito, que a situação criada pela sua loucura amorosa era já
irremediável:--e concentrava-se, transido, para melhor reconstituir a
figura de Nuno, no instante em que conhecesse o duplo ultraje à sua
dignidade de marido e à sua honra de homem, errando alucinado pela casa
erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido na sua alma e na
sua confiança, devastado, com a morte no coração e o calor da vergonha
nas faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva do que à espôsa,
procurando-o por tôda a parte para lavar com sangue a afronta e a
humilhação que o tinham maculado e coberto de escárnio. Então, diante
dêste sofrimento, Frederico, espavorido, passava a mão trémula pelos
cabelos, agitava-se violentamente para entrar na realidade das coisas,
murmurava:
--É horrível, horrível!...
Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava como o seu crime
seria monstruoso e sem perdão se êle não soubesse reagir vitoriosamente
contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o transe, muito
emhora a reacção o fizesse sofrer, afirmava Frederico a si próprio:--e
parecia-lhe que a sinceridade com que se defendia de desfalecimentos de
energia atenuava a imensidade da sua falta.
Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas vezes provocadas pela
desordem da sua conduta, que Frederico decidiu fugir da inquietação e do
remorso, mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte impura dos
vícios lhe oferecia como consolação lógica e única da sua singular
doença. Ainda a princípio pensou que entregando-se, com delírio, à
deliqùescència de todos os abusos, se tornaria indigno da amizade de
Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu romantismo, sentia um júbilo
íntimo em degradar-se por ela, em descer aos pântanos das misérias
morais, erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher intensamente
amada através de tudo, como os ergueria para uma claridade purificadora
e divina.
Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir até ao fim, embora o
caminho fosse errado e nêle se transviasse--porque era incapaz de
conceber abnegações por si próprio.
Perturbado e cheio de confusão por esta ideia fixa, Frederico, que
durante muitas semanas viveu completamente isolado, começou a aparecer
de repente em tôda a parte, a freqùentar os cafés e os Clubes. Era novo,
era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na roda dos seus conhecimentos
houve espanto.
A ressurreição foi saùdada com ruidosa alegria, e logo alguns rapazes
resolveram solenizar o acontecimento extraordinário com uma ceia em que
o _champagne_ festivamente estalasse e a _verve_ corresse com uma
scintilação dourada sob a brancura da luz eléctrica. Alberto de
Sequeira, que trazia no dedo um grande anel brazonado e se vangloriava
de pertencer às raças finas, desejava um banquete sério e decente, em
que os convivas fôssem de casaca, correctos e irrepreensíveis, como para
uma mesa em que estivessem duquesas.
--Vejam que devemos isto a Frederico e a nós, à nossa classe social, à
nobreza das nossas estirpes--comentou êle.
O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, porêm, muito
desdenhoso de fidalguias e pragmáticas, bradando:
--Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa pagã, para comemorar a
volta à estúrdia e à pândega dum companheiro. Temos, portanto, de
meter-lhe paganismo:--a rabona igualitária, a ninfa de gordos braços,
lânguidos olhos e saborosos beijos. Olha agora a casaca! Não querem ver?
Palavra de honra, é escandaloso!...
--Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! A casaca é fúnebre, e nós
vamos para uma calorosa manifestação de regosijo!--concordou o Taveira,
filho dum capitalista enriquecido na Argentina.
--Pois não é assim?--interrogou o Paiva.
--Mas...--atalhou Alberto.
--Não, filho! Não há mas nem meio mas. Venha o belo pagode, a bela
bacante agitando no ar o seu tirso e saracoteando um _maxixe_
desbragado...
--Muito bem!--acrescentou ainda o Paiva. A bacante e o _maxixe_,
primeiro... O resto, é silêncio, como Hamlet dizia a Horácio.
Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável, depois do teatro,
durou até à madrugada do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste
de desvio moral na existência de Frederico. Aí conheceu êle a mulher, a
intrusa, que havia de exercer uma influência nefasta na sua vida e no
seu sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, resplandecia duma
beleza capitosa que o fogo dos ósculos impuros ia queimando lentamente,
era alta, loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie de
virgindade que certas criaturas femininas nunca perdem por mais baixo
que desçam nos charcos da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou,
exclamando irónicamente:
--Aqui tens tu um regaço de sêda onde os príncipes gostariam de dormir
as suas séstas de amor. Infelizmente, pertence a um desgraçado país que
nem amar sabe e onde não há príncipes... Tem de contentar-se com os
filhos da nossa virtuosa burguesia! Mal empregada! Como o poeta célebre,
esta Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo muito vélho, caro
amigo!...
Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo da apresentação.
--Na Grécia antiga--continuou Paiva--os filósofos da linhagem nobre e
genial de Platão repousariam e meditariam sob a luz doce dos seus olhos
com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon. Branca seria a
inspiradora, a deusa. Até talvez se lhe levantasse um templo, como à
vaca Ísis, no Egito!...
--Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...--exclamou ela, amuada.
--Agora, o que Branca desconhece, meu filho, é a linguagem sonora e
harmoniosa em que falavam os Imortais... «O cavalheiro está a chuchar
comigo!» Vê tu que abominação. Se Péricles ouvisse esta Xantipa,
morreria com uma síncope cardíaca ou correria a embriagar-se com o vinho
das doces colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...
--E que não sou Péricles!--atalhou Frederico.
A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas do «festim pagão»,
como havia anunciado Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero.
Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente o acariciava
com a suavidade do seu olhar cheio de promessas, que lhe floriu a
botoeira com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma
melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua graça dorida. Alberto
de Sequeira, toldado pelo alcool, com as faces escarlates, agarrado a
uma companheira de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas _garçonnières_
da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe os seus pergaminhos
com a mão de marido. Ela, rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que
não tinha vocação para espôsa.
--Vai para um convento, vai para um convento!--intimou Paiva, de pé, ao
lado da mesa, erguendo o braço e apontando com o dedo.
--Sim! Talvez para um convento!--concordava Eugénia, enroscando os
braços à volta do pescoço de Alberto. E então?...
A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia impressionou Frederico.
Perguntou-lhe:
--Que tem?
--Nada! Estou hoje assim!... São dias.
--Tem «telha», é o que tem--afirmou uma outra, Luísa, a quem Paiva fazia
ardentes confissões, prometendo-lhe um scetro, uma realeza.
--Ou um scetro ou um poema. Escolhe--gaguejava êle. E pode ser que, para
a imortalidade, te convenha mais o poema. Ainda não morreram Beatriz,
Laura, Virgínia. Ainda nem sequer morreram aquelas loiras germânicas
cantadas por Goëthe.
--Quem são essas damas?--inquiriu Luísa.
--São umas senhoras das minhas relações... Não é verdade, Frederico?
--Beatriz, Laura... Certamente! E damas muito finas!--asseverou
Frederico.
Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe na mão, mirando-a nos
olhos, interrogando:
--E foi sempre assim triste?...
--Para que quere saber?
--Porque me interesso por si... Aí está!
--Acredito eu lá nesse interêsse!
Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos de vinhos e licores
que pareciam pedras preciosas líquidas, desfolhavam-se as flores. O
dourado fulgor da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado
das porcelanas. Os criados entravam o saíam, cambaleantes de sono,
coçando a cabeça, com os guardanapos sôbre o ombro. O ambiente aquecido
pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraça que dava para fóra,
sentido-se reanimar por uma lufada de ar frio. Sôbre a cidade,
arqueava-se um céu picado de estrêlas, que já empalideciam no cerraceiro
da treva que devorava tôda a vida. Por um momento, Frederico, encostado
ao peitoril da janela, julgou-se aviltado. Experimentava a sensação
desgostante de ter caído numa imundície que o sujava, que o invadia dum
nojo profundo; e mentalmente comparava a frescura de impressões de que
um amor oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade, a ventura
risonha entrevista em exaltações de imaginação, o sôpro de alegria
eterna que respirou junto de Júlia, com aquela torpeza, em que se
afundava. A solidão da rua que, em baixo, se escoava na sombra, a
frialdade do vento, tudo o que para êle havia de novo, de desconhecido,
naquela noitada iniciadora, excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava
as alturas celestes que, no esplendor das constelações scintilantes lhe
sugeriam arabescos de luz, uma estranha feeria que ardesse, rutilasse na
escuridão. Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se,
aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao braço, dizendo numa voz de
mimo e de fraqueza:
--Estou tam fatigada!
Êle voltou-se bruscamente, irritado contra aquela interrupção importuna
que vinha quebrar-lhe o fio das lucubrações e fazê-lo reentrar de
repente na realidade das coisas, mas logo se conteve diante da desdita
duma mocidade e duma beleza que tôdas as brutalidades da luxúria iam
contagiando e maculando; e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoção
compassiva para tanta fragilidade e tanto infortúnio. A delicadeza de
alma de Frederico tornava-o incapaz de ser grosseiro e violento com uma
mulher, fôsse ela quem fôsse: e Branca, alêm de débil, tinha a graça
romântica duma formosura a suavizar-lhe o rosto, o aspecto doentio, uma
meiguice que parecia nascer da humildade dolorosa da sua vida e da
escravidão do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de Frederico, apiedou-o.
Pegando-lhe na mão que ela abandonou, disse:
--Cansada, hein?
--Oh! Muito cansada e morta por me ver longe dêste logar,
acredite!--respondeu Branca.
--Então, não gostou, não se divertiu?
--Eu?!... Estou para aqui!...
Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expressão em que havia ternura
e sofrimento. Frederico pensou que aquela sensibilidade numa mulher
costumada a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse uma dor que não
sentia para o comover, para obter certas complacências que lhe
agradavam, por cálculo ou por outra circunstância qualquer: mas,
fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender nos olhos um
sorriso que tremia e nos lábios pálidos uma súplica que não ousava
denunciar-se claramente, com mêdo de ser repelida, e que no seu silêncio
queria dizer:
--Leva-me contigo!... Sou uma companheira ainda desejável para algumas
horas. Porque não experimentas? Farei tudo quanto me fôr possível para
te distrair, para ser amável!...
Esta suposição comunicou-lhe aos nervos uma languidez sensual: e,
avançando para Branca, que se havia afastado alguns passos e que
aconchegava uma pele de repôsa à volta do colo friorento, exclamou:
--Pois partamos. Eu acompanho-a...
Nesse momento, Sequeira, com o charuto meio queimado na bôca, dormia com
os braços apertados na cinta de Eugénia; Luísa bebia café com Paiva,
pela mesma chávena; outros convivas da ceia jovial, espalhados pela
sala, palravam, pesados e sonolentos. Já através das vidraças se
filtrava uma claridade matinal indecisa e o ar era mais penetrante e
vivo. Frederico anunciou que se retirava e que levava Branca. Foi um
alarido.
--O quê? Antes do nascer do sol?--interrogou com estranheza o Andrade
estrábico.
--Certamente--afirmou Frederico. Não nos encontramos num estado de alma
suficientemente puro para compreendermos e sentirmos a poesia da aurora.
--É uma perfídia!--gritaram muitas vozes.
--É sono! E eu tambêm me saio e levo Luísa!--acudiu Paiva.
--Mas, é o rapto das sabinas!...--exclamou o Andrade.
--Oh! senhores, que chiste êste diabo tem!--aplaudiu Paiva, enquanto os
outros riam saborosamente.
Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o braço a Branca, que o
esperava arrepiada e frioenta.
--Que Eros vos seja propício!--disse ainda o Andrade, que nessa noite
estava em veia.
Frederico, que descia, já o não ouviu. Ajudou Branca a subir para o
automóvel que o tinha trazido, acordou o _chauffeur_ que dormitava,
encostado ao volante, e partiu velozmente, envolvido na carícia tónica
da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia às seivas de que se
impregnava, adejando por quintais e jardins. Quando entrou em casa, com
Branca, o sol elevava-se numa explosão de ouro, e uma leve poeira de luz
errava, ardia sôbre os telhados, incendiava as vidraçarias, que
relampejavam, irradiavam súbitos clarões...
* * * * *
Às duas horas da tarde, ao despertar do seu profundo sono,
espreguiçou-se, bocejou. Prostrava-o uma grande lassidão, desgostava-o
interiormente um tédio como nunca havia experimentado, tinha mau gôsto
na bôca, sentia-se embrutecido. Branca dormia a seu lado, fazendo um
pequenino volume sob a roupa. Olhou-a atentamente. Estava ainda mais
pálida do que na véspera; à volta dos seus olhos havia um grande círculo
arroxeado, a mão que tinha fóra da roupa era exangue e tam magra que se
lhe adivinhavam todos os ossos. A pele da face e do colo, porêm, era
duma brancura, duma transparência que mostrava nítidamente a rêde
azulada dos vasos sanguineos; e no seu perfil havia uma regularidade,
uma pureza, uma correcção de traços incomparáveis. Frederico esteve a
considerá-la durante algum tempo, com uma piedade que a narração da sua
vida atormentada e dolorosa--que Branca lhe fizera com os olhos rasos de
lágrimas--mais aumentava. A essa piedade mesclava-se conjuntamente um
desgôsto muito profundo e que êle não sabia explicar, uma vergonha
íntima, uma humilhante sensação de vèxame. Arrependia-se já de ter
compartilhado o seu leito com uma criatura de acaso, que se alugava às
noites, que nunca tinha visto, por quem mal sentira um minuto de
interêsse. Fôra aquela a primeira vez! Resistira sempre a trazer para
casa as mulheres que na rua se ofereciam passivamente aos seus beijos,
por pudor, por dignidade, por altivez de carácter. Que alucinação o
afastara da honesta linha que traçara à sua existência de homem? Que
desvario lhe conturbara a lucidez da razão, não lhe deixando ver o que
no seu procedimento havia de sórdido, de inferior?... Outra vez envolveu
Branca num olhar vagaroso. Ela continuava dormindo e arfando de leve no
ritmo da respiração. Frederico novamente se enterneceu. Teria ela,
porventura, culpa de andar de mão em mão como uma rosa a que se aspira
todo o perfume e que depois se abandona? Certamente que não. Era uma
vítima do egoísmo dos homens que lhe apeteciam, por momentos, a beleza e
a frescura da juventude e que em seguida, enfastiados, saciados, a
repeliam. Cumpria o seu destino triste...
A obscuridade do quarto era cortada, de quando em quando, por claridades
inesperadas que se filtravam através das frinchas das janelas. Frederico
ouvia o ruído que vinha do exterior, do ar livre, da rua--murmúrios de
conversas, de risos, de disputas, rolar de carros que passavam
arrastando-se nas pedras da calçada.
--Deve ser muito tarde...--pensou.
Espreguiçou-se com lentidão. Tinha na cabeça uma desordenada multidão de
ideas que não chegavam a clarificar-se, a definir-se límpidamente. Ia
reconstituindo a scena da noite anterior, a alegria da ceia com
mulheres--um espectáculo inteiramente banal para êle--os ditos
humorísticos e picantes do Paiva... Acudiam-lhe à memória os mais
apagados pormenores dessa festa de rapazes.
--E como hei de desfazer-me desta criatura, que tenho em casa, sem
provocar curiosidades escandalosas no bairro?--monologou de repente.
Aí estava, na realidade, uma coisa bem dificil! Morava num sítio muito
povoado e muito indiscreto, havia mesmo, em frente à sua habitação, uma
outra com vizinhas bisbilhoteiras que passavam os dias por detrás dos
cortinados, espreitando, investigando, devassando. Uma delas, bem
galante no esplendor dos seus vinte e quatro anos, direita como uma
estátua, com uns olhos negros e perturbantes e uns seios que se
arredondavam sob a macieza, dos tecidos da blusa como os das patrícias
romanas sob o _peplum_, sorria-se com afabilidade sempre que o via
assomar à janela saùdando-a cerimoniosamente... Durante muito tempo,
Frederico contemplou-a com encanto, como se quisesse surpreender-lhe no
rosto a revelação dum sonho de amor que, no seu coração virginal, se ia
formando e desabrochando com a inocência e a beleza duma flor. Depois,
cansou-se e esqueceu-a... Se ela visse Branca sair da sua vivenda, em
pleno dia, alarmaria a rua, daria, da sua varanda, uma vasta publicidade
àquela irreflectida aventura de Frederico:--e, quando mais tarde
passasse, tudo seriam risinhos abafados e irónicos nas suas costas,
segui-lo-iam todos os olhares escarnecedores, durante uma semana inteira
a sua reputação constituiria o tema obrigatório e fundamental da
eloqùência da vizinhança!... Era um solteirão, era independente, tinha
um desdêm absoluto pelos juízos e pelas opiniões que os outros
formulassem a seu respeito:--no entanto, a perspectiva de andar durante
horas hilariantes exposto ao ridículo público e cheio de grotesco,
vèxava-o. Precisava de ser prudente, de acautelar-se, não por Branca,
que nada perderia, mas por si. E decidiu conservá-la em casa, até à
noite, comer, mesmo, em sua companhia, um almôço que o Bernardo, seu
criado de confiança, iria buscar ao restaurante que freqùentava e, assim
que as sombras nocturnas descessem, despedir-se dela com um beijo--e
algumas notas de Banco. Aborrecia-o, porêm, o facto de ter de ficar uma
tarde inteira fechado, diante duma pobre rapariga que fôra o seu
capricho dum instante o que o não prendia nem pelas graças do espírito,
nem pelos dons da inteligência e da cultura, nem sequer por uma beleza
que começava a fanar-se, queimada pelo fogo da luxúria.
--Olha que estopada eu arranjei por minhas próprias mãos!...--murmurava,
desconsolado.
A inexprimível sensação de desalento e de desgôsto que o minava desde
que despertou intensificava-se na sua alma. Experimentava alguma coisa
de inconcebível; a sua vida interior acelerava-se e fazia-o sofrer
amargamente. Julgava-se com severidade:--ia caindo de baixeza em
baixeza. Até onde chegaria?...
A certa altura das suas divagações, lembrou-se, subitamente, de Júlia: e
esta lembrança tam pura era como uma acusação muda, pela torpeza moral
em que principiava a debater-se. Se ela soubesse!... Se ela adivinhasse
algum dia, por uma extraordinária intuição amorosa, vulgar nas mulheres
de sensibilidade mais fina e de razão mais lúcida, que Frederico a amava
e que, quando êsse amor era uma alvorada de poesia na sua alma, longe de
o elevar, de o sublimar, de lhe inspirar as grandes bondades e as
grandes abnegações, o impelia para os braços de criaturas que pertencem
a todos e lhe fazia apetecer os beijos voluptuosos de bôcas femininas
que osculam os homens que lhes pagam!... Se Júlia pudesse assistir em
espírito ao espectáculo do seu coração devastado diante da imagem
luminosa dela e duma cortesã, que tôdas as noites dormia em leitos
sempre diferentes! Absolvê-lo-ia dessa miséria? Não se sentiria ela
salpicada tambêm pela lama em que Frederico se atolava?... Mas Júlia
viveria na perpétua ignorância dos sentimentos impuros que acordavam no
seu organismo doente e, mesmo que viesse a conhecer tantos desvarios,
não se consideraria traída porque não queria dêle mais do que uma estima
fraternal... Por entre a névoa das emoções opostas que o faziam vibrar,
Frederico raciocinava ainda com certa clareza. A crise por que estava
passando sugeria-lhe palavras que um dia tinha lido em Taine.
Compreendia naquele momento que a vida humana--a do corpo ou a da
alma--era infinita e de uma imensa multiplicidade: mas que apenas certas
das suas porções, certos dos seus instantes, mereciam subsistir, como
expressões conscientes superiores. Êsses instantes, essas porções, a que
aludia o filósofo excelso, eram marcados pelas atitudes morais que
nobilitam o ser pensante. Fóra disso, nenhuma grandeza existia!...
Levantou-se vagarosamente, para não despertar Branca no seu sono. Ha
quanto tempo--pensava Frederico--ela não teria uma hora tam sossegada,
tam calma como aquela! Nem sempre encontraria amantes condescendentes
como êle!... Uma caridade igual e tranqùila iluminava o quarto. Sôbre
uma cadeira, amontoado e amachucado, estava o vestido da pobre flor de
todos, tendo por cima o espartilho de setim côr de rosa que êle lhe
havia ajudado a despir, na pressa violenta de aspirar o perfume de amor
que a sua carne exalava. Sôbre uma outra cadeira, pousava uma pele de
raposa preta do Japão e um chapéu de palha de Itália dum tom de ouro
fôsco picado pelo colorido suave de dois ramos de lilases. Deu alguns
passos, com os pés nus, no tapête de Bruxelas, que espalhava uma nota de
confôrto e de elegância no compartimento; e, hesitante, voltou-se ainda
para olhar Branca. Sôbre a alvura do travesseiro, destacava docemente a
mancha fulva duns cabelos louros desmanchados, emmoldurando um rosto
sereno e branco, de linhas muito finas. Uma colcha de sêda escarlate
bordada a matiz desenhava nítidamente as formas correctas do gentil
corpo adormecido. Como Branca era linda e digna de piedade! E o que a
vida, com as suas impurezas e as suas terríveis degradações, fizera duma
alma outrora virginal que poderia ter sido a graça divina dum lar, uma
adorável espôsa, uma admirável mãe capaz de todos os sacrifícios e de
tôdas as exaltações da ternura!...
Passou ao quarto de banho, que ficava próximo, mergulhou ávidamente na
canôa de ferro esmaltado que Bernardo enchera, duma água fria que o
tonificou, enxugou-se a um lençol felpudo e começou a vestir-se
lentamente. Mais desanuviado, com a pele cheirando ao perfume do sabão
com que se lavara, Frederico contemplou novamente Branca e observou que
uma série de sensações antagónicas se sucediam umas às outras na sua
emotividade. A verdade apresentou-se diante dos seus olhos. Afinal,
Branca não era mais do que uma criatura trivial que se entregava a todos
os que a desejassem. O seu ventre estéril era conhecido de muitos olhos
lúbricos; a sua bôca havia sido esmagada por milhares de bôcas
masculinas, em beijos bestiais. Odiosas imagens fisicas intermináveis
desfilavam diante dêle. Que interêsse poderia aquela mulher, profanada e
ultrajada, despertar-lhe? Como se arrependia de a ter trazido para a sua
habitação, para o seu leito! O contacto com ela manchara-o. E manchara
igualmente a limpidez do seu sonho, do seu ideal, deformara a
resplandecência duma beleza vislumbrada que nunca atingiria, de que não
queria mesmo aproximar-se, mas que, a-pesar disso, mesmo de longe o
iluminava e lhe causava orgulho! Esperava agora ansiosamente a hora em
que lhe fôsse possivel desembaraçar-se de Branca, para se dar com prazer
à recordação de Júlia. Parecia-lhe que essa recordação o purificaria,
como uma água lustral...
A um movimento mais brusco de Frederico, devorado por impaciências que o
agitavam, Branca acordou, abriu os olhos inchados de sono, sorriu-se
para êle, com um sorriso em que havia gratidão, lassitude,
contentamento.
--Já a pé?... É curioso. E eu que não o senti levantar!...--murmurou
ela, quebrada por uma fadiga feliz.
--Pudera! Se dormias profundamente!...--respondeu Frederico.
--Quantas horas são?
--Duas e meia!...
--Ih! meu Deus!... Que preguiçosa!--exclamou, sentando-se no leito.
As longas tranças do cabelo envolveram-na tôda até à cintura. Através da
ténue nuvem de ouro que formavam, alvejavam brancuras da camisa de
bretanha fina, de rendas vaporosas. O bafo morno que se emanava dos
lançóis amolecia-a. Tinha as faces còradas pela circulação mais
apressada do sangue, e os seus olhos azúis iam-se enchendo duma luz que
mais os azulava, quáse os espiritualizava. Frederico aproximou-se da
beira do leito, acariciou-a levemente, passando-lhe os dedos pela face.
Admirava-lhe a formosura, qualquer coisa de virgíneo, de inocente que
ainda existia nela. Uma comoção estranha perturbava-o. Ah! Aquela linda
rapariga--uma primavera em flor--erguendo-se do seu leito que sempre
fôra casto, que nunca agasalhara corpos alheios, comunícava-lhe a
impressão singular dum noivado:--e esta ideia subtilizava-o, tinha para
o seu sentimento uma venturosa novidade, fazia-o esquecer de que Branca
era a noiva de quem a queria.
--Ainda nem sequer me deu um beijo!--queixava-se ela, prendendo as mãos
nas mãos de Frederico... Bons dias!
Êle beijou-a, sorrindo tristemente, e notou a delicadeza de Branca, que
não ousara tratá-lo por tu. Abraçando-o, suspirava.
--Estás triste?--inquiriu Frederico.
--Estou. E, no entanto, nunca nenhum outro homem me tratou com tanta
bondade...
--Então, como se explica essa tristeza?
Branca, repelindo-o brandamente, quis levantar-se.
--Responde!...
--Eu não sei responder... Queria ficar sempre aqui, perto do senhor... É
talvez por isto, por ter de ir-me embora... Naturalmente, nunca mais nos
tornaremos a encontrar...
--Porque não?
--Eu sei lá!... É sempre assim. Os amantes duma noite nunca mais se
encontram...
--Mas, eu não sou como os outros--afirmou Frederico, fixando-a
demoradamente.
--Ora! Tantas vezes tenho ouvido isso!...
Nas palavras de Branca havia uma frieza misturada de desalento que fazia
mal a Frederico. Enquanto ela se penteava, sorrindo-lhe sempre--num
sorriso cansado e automático--êle considerava-a mudamente, sendo
invadido, de repente, por uma aversão instintiva, por uma repugnância
inexplicável. E sob a influência de impressões opostas, observava a
incoerência das suas sensações que umas vezes lhe tornavam apetecida
aquela beleza que ia morrendo como uma rosa cortada e outras o forçavam
a uma grande violência sôbre si próprio, para a não repelir brutalmente,
aos empurrões, causar-lhe sofrimento, obrigá-la a chorar. De que razão
psicológica oculta derivaria tudo o que nos seus sentimentos havia de
ilógico, de inconseqùente? Com mêdo de soffrer mais, Frederico nem
sequer ousava interrogar-se, procurando definir a laboração tumultuária
da sua vida íntima.
Branca, acabando de vestir-se, sentou-se, extenuada, numa cadeira.
Frederico, acendendo um charuto, passeava no quarto, a largos passos,
enquanto ela o seguia com o olhar inquieto. Esperava... O quê?
Naturalmente que êle a mandasse embora, pagando-lhe o amor duma noite.
Na sua atitude, na expressão do rosto macerado, em que punham fundas
manchas escuras as olheiras de bistre, havia resignação e melancolia.
Frederico parou junto dela, encarando-a.
--Estás pronta, hein?...--perguntou.
--Estou pronta--repetiu Branca.
--Queres ir-te embora?... Mas, é que não pode ser já! Tens de demorar-te
até à noite...
--Não tenho que fazer...
--Ainda bem! Almoças comigo, se isso te não desgosta. Irás depois...
Um clarão de alegria, que Frederico surpreendeu, faíscou nos olhos de
Branca. Suspirou, fundamente, murmurou como se falasse para a sua
consciência:
--Tenho sido tam desgraçada!...
Este grito sincero duma alma que espontâneamente se confessava chocou
Frederico, que se sentou junto dela, tomando-lhe a mão que Branca
abandonou o que êle efusivamente apertou entre as suas, pensando nas
criaturas que incessantemente corriam atrás da ilusão duma felicidade
sem nunca a alcançarem. Tambêm êle era desgraçado! Tambêm êle aspirava a
uma irrealizável ventura que só um amor impossível poderia oferecer-lhe.
Um destino malfadado irmanava-os na tristeza e no infortúnio:--e, talvez
por isso, a sua piedade transbordou.
--Branca, queres ser a minha amante?--exclamou de repente, aturdido.
--Quero!--acudiu ela prontamente e tôda alvoraçada.
--Medita!... Se aceitas, serás só para mim... Na tua situação, isto não
é fácil. Mas, eu é que não me conformarei com partilhas. Ouve bem!...
Não terei rivais.
--Aceito--afirmou ela, novamente, com firmeza na voz.
E, como Frederico a envolvesse num olhar perscrutador, que se demorava a
investigá-la, Branca, levantando-se, foi para êle, abraçou-o
esteitamente, dizendo:
--Oh! meu filho, como eu te agradeço esta hora de paz e de consolação
que me vem da tua oferta... Olha para mim... Assim, não!... Nos olhos...
Isso mesmo! Agora, repara... Juro-te que serei só tua e que te não
traírei, enquanto tu me quiseres!...
Enternecido, Frederico beijou-a longamente, como se o seu beijo fôsse o
princípio duma doce e jubilosa festa amorosa que principiava. Almoçaram
e, durante a refeição, Branca, que a intimidade que se ia estabelecendo,
tornava audaz, contou-lhe os seus infortúnios e as suas amarguras,
còrando muitas vezes por ter de ferir o secreto pudor da sua alma. A sua
história era inteiramente igual à história de tôdas as mulheres
perdidas. Uma paixão absorvente e cega em que se confia e a que tudo se
sacrifica, a queda, o abandôno, a miséria final duma existência passando
de mão em mão, enquanto vicejam a florescência e a beleza da mocidade.
Ouvindo-a, Frederico compadecia-se, prometia-lhe daí para o futuro uma
vida serena e uma emoção pura que a aurorizasse.
--Não me enganes!--suplicava Branca. Se depois de tudo isso hás de
deixar-me, então, o melhor é separarmo-nos de vez...
--Não crês na minha sinceridade?... Não tens fé em mim?--interrogava
Frederico.
--As desilusões teem sido tantas!...--respondia ela, duvidosa.
E baixando os olhos, na voz humilde e baixa de quem revela uma vida de
vergonhas, foi dizendo tudo o que deixara pelo mundo fóra:
--Em minha casa, quando eu de lá saí, havia criancinhas pequeninas, que
eram minhas irmãs e que eram puras. Nunca mais as tornei a ver...
Ao baixar da noite, desdobrou-se sôbre a cidade um denso lençol de
sombra. Branca saíu contente, com a esperança de que Frederico se
encontraria com ela, volvido pouco tempo, para a continuação dum
capricho sentimental que ainda lhe parecia absurdo, tanto a havia
surpreendido a resolução inesperada do seu amante dalgumas horas; e êle,
ficando só no imenso casarão de treva e de silêncio, experimentou uma
sensação de tédio mais fundo. Tôda a vida lhe parecia deserta,
especialmente a vida emotiva; e, recolhendo-se, a si mesmo perguntava se
valeria a pena vivê-la, sem encontrar nas almas e no mundo exterior
alegrias puras e interêsses morais. Sentado numa cadeira de braços,
junto duma mesa de pau preto sustentando jarras com flores que Bernardo
tôdas as manhãs substituía, ia sofrendo o seu permanente suplicio.
Verificava que, em certos momentos, ideias claras, fáceis, luminosas, o
obrigavam a obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas ideias
eram sombrias, indecisas, indecifráveis, e o assustavam. Encontrava-se,
precisamente, num dêstes últimos instantes em que as inquietações
interiores o consumiam, como as brasas se consomem no fogo intenso.
Justos céus! Como o seu desamparo era grande! E cada vez a solidão mais
pesava à sua volta e mais insuportável lhe tornava a carga que trazia
sôbre os ombros. Naquela vivenda em que a conhecer, o da mãe, que morreu
na sua infância, o duma irmã, Maria das Dores, que era afilhada de Nossa
Senhora, com quem brincara na meninice e que tambêm se sumira nos negros
boqueirões da morte. Da sua casta, que se extinguia, era êle o
derradeiro representante directo: e entrava no outono da existência sem
ter a coragem e a abnegação de criar uma família. Porque não procuraria
uma doce mulher que fôsse capaz de fazer um luar de ventura à sua roda,
de oferecer-lhe o peito para êle repousar a cabeça nas horas de
angústia, em vez de levar para o leito criaturas que transformam o
divino sentimento do amor numa mercadoria e numa torpeza? Ah! como Nuno
lhe era superior! Êsse sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos
vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que êle se afastara--de
que se afastava ainda mais, de dia para dia!...
Com a imaginação perdida na melancolia destas evocações aflitivas, via
novamente a imagem de Júlia erguer-se, radiante de luz, ante os seus
olhos: e, então, lembrava-se com infinita saudade do lar inefável e
calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia, radiosa como uma
nuvem dourada. Enquanto êle para ali estava curtindo o seu padecimento,
desgarrado de tudo quanto fôsse humano, fecundo, produtivo, sob o ponto
de vista psíquico e material, Nuno, no seu escritório, e depois de um
dia fértil em trabalho útil, em inteligência, repousaria lendo um livro,
perto de Júlia, que a claridade aureolava e que pousaria de momento a
momento a agulha da costura para colhêr um beijo na bôca nobre e risonha
do marido. E não haveria acidez, cólera, impurezas, nos corações dum e
doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idênticas aspirações,
enlevando-se numa confiança ilimitada... Ou talvez que Júlia, ao piano,
no sossêgo nocturno, tocasse uma bela página em que vozes enigmáticas
narrassem, numa linguagem de som e de harmonia, a ascensão dos espíritos
subtis para a purificação e para a graça. Dentro do seu berço, o filho
de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente, lindo como um botão de
rosa, e tôda a casa adormeceria tambêm ao embalo suave da música. Isto
sim! Era viver! Mas êle, que com tanta ansiedade buscava a ternura, não
passava dum esquecido do destino, dum foragido...
Fóra, na rua, começavam a acender-se os candeeiros de iluminação
pública. A chama do gás, torcendo-se à ventania, projectava sôbre as
vidraças sombras oscilantes e fantasmagóricas. O ruído afrouxava.
Bernardo, entrando de súbito na sala, perguntou:
--Para que horas quere V. Ex.^a o jantar?
--Eu não janto hoje, criatura--afirmou Frederico, erguendo-se e
dirigindo-se ao criado.
--Santo nome de Maria! Não janta?
--Ou por outra, janto fóra. Arranjem-se lá vocês, tu e a Rosalina.
--Então, está bem!--disse Bernardo, retirando-se, sem estranhar já as
excentricidades do amo, desde que nessa manhã o vira almoçar com uma
mulher da vida airada, em sua própria casa.
Que fatalidade o perseguia!--pensava Frederico, reatando novamente o fio
das suas meditações. A ambição duma família estava agora para sempre
comprometida, porque êle não poderia ligar-se a uma mulher que não
amasse, que havia de ser-lhe odiosa, sempre que se lembrasse de Júlia,
sua única e infeliz paixão... Nesse instante, Frederico via-a bem real,
duma personalidade bem determinada, diante de si. A sua beleza era
perigosa. Nos seus olhos existia um ardor secreto que denunciava a
amorosa. Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expressões pensativas que
nunca se definem com nitidez e que tanto seduzem, porque denunciam almas
de indizíveis delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe a
adoração perseverante, o culto absoluto, o amor que se bastava a si
próprio e que duraria, veemente, vivaz, enquanto êle tambêm durasse. A
esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito, que maus fados o
tinham levado para casa de Nuno! E que fraqueza lamentável a sua,
apaixonando-se pela espôsa do seu melhor amigo, sem que reagisse
violentamente contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento do
coração!
Júlia insinuara-se--sem querer, porque era honesta--na sua admiração, no
seu desejo, na sua carne, em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura
e tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre, fizera dêle
alguma coisa de vil e de abjecto que entrava num santuário familiar não
para purificar-se ao contacto das grandes virtudes, mas para trair.
Porque já traía Nuno, não por actos irreparáveis, mas pelo
sentimento!...
Sôb a influência mórbida dêste raciocínio, exasperou-se. Sufocava. Os
olhos dardejavam-lhe um brilho especial. Sentia a necessidade de
aturdir-se, de bestializar-se, de apagar tôda a claridade da
consciência. Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora se
afundasse; havia de procurar nos ásperos delírios da sensualidade ou nas
alucinações do alcool o sossêgo indispensável que lhe fugira, com o
desespêro com que Alfredo de Musset procurava nos copos de absinto o
reflexo verde dos olhos da Quimera! O que êle pretendia era esquecer
Júlia, por todo o preço--mesmo à custa da sua dignidade...
Como as noites fôssem já frias, vestiu um sobretudo, pôs o chapéu, pegou
nas luvas e na bengala e saíu, mergulhando no movimento exterior, que o
acalmava. Ao chegar à porta da rua, viu, na casa fronteira, as vizinhas
que, por detrás dos vidros da janela, o espiavam. Irritado, não as
cumprimentou, seguindo em passos nervosos pela calçada. Tinha feito uma
promessa a Branca. Ia cumpri-la, com o coração tranzido e com a certeza
de que se dirigia para o mal e para uma nova dor...