IV

As primeiras manhãs de setembro tinham chegado. Emigravam as andorinhas

e as rôlas bravas e no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono

próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando através do espaço

densas nuvens de poeira. Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de

luz, amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda, no

horizonte, reverbarações imensas, eram já um pouco húmidos. Havia, por

vezes, céus brumosos que davam indeterminados longes á paisagem,

tocando-a de lentos nevoeiros.

Durante todo o tempo que Frederico passara na quinta afastado da

variedade e dos tumultos da vida citadina, estabelecera-se entre êle e

Júlia uma estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava as horas

doces que de contínuo fugiam. Nuno andava inteiramente ocupado com as

alterações a que mandara proceder nas dependências habitadas pelo

caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto e mais higiene.

Interessava-o, afinal, o pobre cavador que envelhecera precocemente, nas

dolorosas labutas da terra, vendo crescer à sua volta outras vidas

louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas â escravidão da gleba, e

enchera-o de piedade a miséria da entrevada que no seu leito, escasso de

roupas, tinha um riso de resignação, absolutamente conformada com o

destino. Mesmo enfêrma, enquanto o homem, o bom Mateus, se extenuava de

sol a sol, segurando entre as mãos calejadas e firmes a rabiça do arado

que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la, ou espalhando no húmus

revolvido as fecundas sementes que germinariam nas abundantes searas,

remendava as roupas e dirigia o _ménage_.

--A-pesar-de doentinha--dizia uma vez o caseiro a Nuno--ainda é uma

ajuda. Deus ma conserve mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande

falta...

De quando em quando Nuno, comovido, abria vagarosamente a porta cerrada,

para a ver, para lhe falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a

sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe todos os dias

um alimento mais apetitoso e nutritivo: e ela, grata a estas

delicadezas, não se cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os

bons senhores que ao seu lar desditoso haviam levado uma clara luz de

alegria.

--Então, como vai hoje, snr.^a Teresa? Melhorsinha, não é

assim?--perguntava-lhe Nuno.

--Para aqui estou à espera da minha hora! Pois, como hei de estar, se é

esta a vontade de Deus?... E curtidinha de padecimentos!--respondia ela,

com um fundo suspiro.

Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se iluminava a claridade dum

sorriso.

--E a senhora e o menino?--interrogava a doente.

--Estão esplèndidos. Não há mal que lhes chegue, neste paraíso. Êles

qualquer dia por aí voltam a aparecer.

--Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...

Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade existisse gente

desgraçada, ordenou a construção duma casa nova ao lado da

primitiva--que se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos

longínquos em que os seus antepassados tinham adquirido aquela

propriedade que constituía a parte mais vasta dos seus domínios

territoriais. Alargara os estábulos para o gado, dera maior amplitude ao

alpendre e à eira e procurara longe, na encosta dos montes que ficavam

ao fundo da quinta, um mais farto veio de água de rega, canalizando-o,

com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao tio Mateus, que

resplandecia de contentamento e que murmurava, com a face jubilosa e

enrugada em que as barbas crespas encaneciam:

--Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras hão de encher-me

celeiros e tulhas!...

--Está contente?--inquiria Nuno.

--Ora! se estou contente!... Pois, o patrão faz um milagre destes e

ainda me baixa a renda! Que hei de querer mais?

O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade do amo com a secura

do procurador, um unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas

reclamações, que nem sequer lhe mandava concertar o telhado por onde,

nos invernos agrestes, entrava a água das chuvas, e que, nos anos

hostis, não lhe perdoava um ceitil.

--Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara na mão--dizia o tio

Mateus, lembrando-se dêsse homem de expressão dura e coração empedernido

que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava, exclamando:

--Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o, para que não venha depois

com desculpas.

Agora, mercê da magnanimidade de Nuno, a esperança renascia na alma do

lutador destroçado que, durante uma longa existência, em vão se

afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais farto e que a vida

amarga vencera, acabrunhando-o de tristeza. E êsse renascimento

palpitava por tôda a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais

viçosas, nos espíritos humildes, que adquiriam maior confiança!

Entregue ao entusiasmo das suas ocupações de proprietário rural, Nuno,

em certas manhãs, abalava logo depois de almôço, de charuto aceso e uma

côr de saúde na face máscula, para vigiar os trabalhos. Esta actividade

nova tinha para êle um grato sabor. A princípio, Frederico

acompanhava-o, interessando-se tambêm por uma lide que desconhecia.

Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo o convidava para ir até

ao fim da quinta, êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto

desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:

--Não! Eu fico, se a minha companhia te não é indispensável.

--Pois fica, homem. Fica e dorme!

--Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre tive as melhores disposições

para o sono.

Então, Frederico, penetrado pela quebreira que amolecia o ar, descia ao

parque, escolhia um recanto de sombra e lá se demorava lendo um romance

ou evocando as suas recordações e pensando no caso passional que o

trazia inquieto. O calor, a irradiação crua do sol, faziam pesar mais o

silêncio. A atmosfera resplandecia, tinha uma vibração especial no

esplendor matutino da claridade. Até ao seu isolamento chegavam o chiar

dos carros de bois, vergando sob a carga e atravessando os caminhos

desertos, a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro das

folhagens estremecendo ao vento, sôbre a sua cabeça. Em certos

instantes, repousando das fadigas caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma

página musical que embalava suavemente a solitude. O sol saía em ondas

pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim--e a música, nesta solidão

inspiradora, adquiria maior sedução e beleza. Frederico, pousando o

romance, analisava o estado particular dos seus nervos. Uma grande,

inexplicável lassidão prostrava-o. Sentia-se incapaz dum mais vivo

esfôrço de reflexão, dum metódico exame da sua sensibilidade.

Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade psíquica: a realidade

exterior produzia-lhe uma bizarra alucinação que o transtornava; mas,

neste sobressalto intimo havia, alternadamente, certos fulgores de

pensamento, relâmpagos de inteligência, que lhe aumentavam a angústia e

a opressão interior. Um elemento estranho, tendo qualquer coisa de

violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente, invadia-o e

perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe, sem repouso, à imaginação--e

notava que essa imagem era muito diferente da mulher que êle conhecia,

da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno, Atribuía êste fenómeno

desconcertante a uma singularidade do seu organismo enfêrmo. Monologava,

atribulado:

--Eu estarei doente, na verdade? Doente de espírito e de corpo?

Como os dias que ia vivendo, no meio duma confusão e duma agitação que

lhe não davam tréguas, eram diversos dos que, dois meses antes, tinha

passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara com a sua ventura

conjugal imensa! Então, tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu coração,

lucidez no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente o espectáculo que o

cercava; era mais acessível à bondade e à beleza; convalescia, sarava,

uma esperança floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos

experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e todo o egoísmo. E

agora, não! A tranquilidade emotiva dos primeiros dias perdera-se

completamente. Um agente mórbido, qualquer provocava nêle, de-certo,

alterações profundas, transformava-o num sêr humano que o seu próprio

sentido ignorava. Que doença seria essa? Física ou espiritual? E se

fôsse espiritual, proviria da influência duma luz súbita, revelando aos

seus olhos uma felicidade possível, ou da suspeita duma dor inevitavel?

Frederico fazia estas interrogações a si próprio, sem encontrar uma

resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se minuciosamente,

era ditoso pensando em Júlia--e êste sentimento, ao mesmo tempo que o

iluminava interiormente, gelava-o de terror, como se representasse um

perigo imediato, uma catástrofe de que não pudesse já desviar-se. Ela

era a companheira purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido

imersa na ventura que êle lhe oferecia, como uma flor imersa em aroma,

surpreendia-os a cada passo beijando-se com transporte, apertando-se no

mesmo abraço, peito contra peito, face contra face, para mais

intensamente sentirem a pulsação dos corações. Frederico, absorvendo-se

em ideias de que não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente

obsessão, em sensações que o não abandonavam, ao estudar a sua

psicologia com pavor de chegar a alguma conclusão que o aterrasse,

murmurava, para se iludir:

--Verdadeiramente, não a amo com um amor físico. Sou-lhe apenas grato

pelo encanto que me transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que

não quero fugir.

Concentrando-se, calculava as consequências que uma adoração menos pura

por Júlia provocaria fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como

um remorso ou como um crime, essa adoração que nunca revelaria e que lhe

roeria a alma como os vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma

lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma amizade consolidada

por longos anos de dedicação, lhe confessasse o reconhecimento que

consagrava a Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe trouxera a

vida, a bôa fortuna que nela--na sua pureza, na sua beleza, na sua

devoção--encontrara; e, raciocinando assim, como se admitisse a

duplicidade do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava

que seria infinitamente desgraçado. Tinha mêdo dum tal desfecho: e, para

se libertar de cogitações dolorosas, tentava esquecer, espairecer,

distrair-se. Levantava-se, corria o parque a largos passos, sacudia com

as mãos nervosas os arbustos floridos, fazendo cair nos musgos do chão

um luminoso e colorido orvalho de pétalas, monologando:

--Ah! não, que horror! Não sinto ainda por Júlia uma paixão sensual, não

a desejo pela carne, não me impele para ela um fogo impuro, uma fôrça

abominável. Quando essa paixão chegar--se é que ela tem de vir--saberei

ser enérgico, hei de dominar-me, fugir, esquecer...

Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade tam carinhosa e tam

franca. Não queria imitar Vaz de Sousa; não mancharia, com uma

inapagável mácula, a santidade daquele lar; não toldaria a pacificação

daquela morada em que se agasalhavam sentimentos perfeitos já abençoados

por uma inocência angélica; não conturbaria a limpidez da sua

afectividade fraterna com um punhado de lama e de vileza. Era um homem,

um consciente, possuía uma dignidade, uma irredutível inteireza de

carácter. De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura aliava os dons

mais nobres e elevados duma dedicação admirável, seria a primeira a

repeli-lo com indignação, a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo fóra da

porta como um ladrão que ali penetrasse para roubar uma felicidade que

só a ela pertencia. E o amigo, sabendo de tudo, iria para êle com uma

cólera que a imensidade da traição praticada mais avolumasse,

ferozmente, as mãos crispadas, os dentes rilhados, o desvairamento

homicida fulgurando nos olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia

retroceder. Nunca fôra timorato. O que o assustava mais era a torpeza

moral em que se afundaria para sempre.

--Quantos disparates a minha fantasia enfermiça arquitecta!--diria

Frederico, zombando forçadamente.

Com efeito, o irremediável não se interpusera, por enquanto, entre êle,

Nuno e Júlia. Podia estar absolutamente tranqùilo, sem còrar da

perversidade duma acção que nem sequer se esboçava. Mas que infortúnio,

o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o a uma situação alarmante que já

o fazia sofrer com amarga crueldade. Entrando naquela habitação, pela

primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo de espírito, a

calmaria, o repouso da alma: e, afinal, apenas encontrara uma angústia

maior, uma tortura mais lancinante! Como se operara no seu ser uma

transformação de tal ordem? O convívio de tôdas as horas, a ambição duma

ternura igual àquela, o renascimento de ilusões que julgava extintas,

deprimiram-no, certamente; o encanto que da formosura e da pureza de

Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente, contra a sua vontade, contra o

seu veemente desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade?

Podia ser acusado com eqùidade e justiça, pela consciência e pela

inteligência que lhe formavam a individualidade psicológica e mental?

De-certo que não! Êste subterfúgio apaziguava-o...

Continuava o passeio ou entregava-se, mais calmo, à leitura, olhando a

vida por aspectos menos carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos

trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia tambêm, um momento, ao

parque, graciosa, adorável de beleza e de simplicidade. Frederico via-a

avançar, com o coração pulsando desordenadamente, o sangue circulando

com mais pressa nas veias e uma grande palidez no rosto. O busto de

Júlia modelava-se nítidamente na leveza e na frescura duma blusa de sêda

branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo, fino e alto, o

princípio do colo, em que a pele se dourava à luz, uma parte dos braços

que emergiam, admirávelmente contornados, da espuma de rendas das

mangas: e isto provocava uma atracção irresistível, tornava mais áspera

a sua ânsia. Júlia, avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar

mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual dos seus movimentos,

falava-lhe:

--Então, para aqui só, aborrecendo-se mortalmente?...

--Oh! minha senhora, que ideia!

--Nuno sempre tem um modo de compreender a hospedagem!...

--Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!... Hoje, apetece-me o

isolamento.

--Tem, talvez, conversas com os espectros das suas saùdades...

--Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado da própria saùdade.

Ninguêm se interessa, por mim!

--Ninguêm?--interrogava Júlia, risonha e duvidosa.

--Ninguêm...!--afirmava Frederico, fitando-a.

Mas arrependia-se imediatamente da fixídez com que a olhava, no receio

de cometer alguma grosseria que a magoasse, no susto de que o seu olhar

revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia a formular, no confuso

turbilhão dos seus sentimentos--e muito perturbado, desviava a vista.

--Creio eu lá nisso!--acrescentava ela.

Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade de Frederico, Júlia

sentou-se num outro banco, perto dêle, quis saber que livro lia, quais

eram as suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com um riso a

que pretendia imprimir naturalidade:

--As minhas leituras predilectas são as biografias, a correspondência

dos grandes homens, as obras de psicologia.

--Porquê, porquê?

--Porque me interessam as almas superiores...

Júlia pegou no volume que Frederico folheava, viu o título.

--Em todo o caso, lê tambêm romances!...

--Nos romances, há ainda almas, minha senhora...

--De que trata êste?

--Dum amor infeliz, dum amor que nunca se confessou, e que era

incomparável de elevação, de fervor, de constância...

--Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que apenas existe na emoção e na

ideia dos artistas... Um grande e puro amor confessa-se sempre.

--Sempre?... Eis um belo êrro!

--Ora essa! Êrro?... Não compreendo...

Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente, podia traír-se,

Frederico deu novo rumo à conversação.

--A uma mulher é que nunca se deve perguntar quais são os livros da sua

preferência, snr.^a D. Júlia.

--Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe já o que prefiro, em

literatura:--são os poetas líricos.

--Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta às senhoras, porque na

selecção das leituras os espíritos femininos revelam-se.

--Ah!--atalhava Júlia. Não sabia!...

E os seus olhos negros e imensos, banhados por um claro-escuro húmido e

misterioso, pousaram-se vagamente em Frederico, parecendo contemplar

aparições inefáveis, longínquas, imprecisas.

--Talvez haja alguma verdade no que diz--exclamou ela.

--Creio que há tôda a verdade...

De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:

--Nuno demora-se tanto!...

E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma gracilidade mais animada nos

gestos:

--Coitado! Anda todo apaixonado por uma obra de generosidade e de

misericórdia. É um santo. A miséria da família do caseiro atormentou-o.

--Um coração de ouro!--concordava Frederico.

--Não é verdade?--atalhou ela, tôda interessada e com o reflexo dum

grande contentamento na fisionomia.

--Um coração de ouro!--repetiu Frederico, pondo nas suas palavras a

convicção e a sinceridade--uma alma como poucas existem!...

Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente meigo aquele justo louvor

ao marido e disse afectuosamente:

--Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda fica por aqui, pelas

espessuras, como um namorado, com as suas lembranças?

--Ainda fico, minha senhora, mas só, sem recordações, uno e indivisível,

em corpo e em alma.

Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente, colhendo uma ou

outra flor no caminho, cantando entre dentes, voltando-se ainda para

trás e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, notava que

junto dela, respirando o mesmo ar, o envolvia a carícia dum ambiente em

que a brisa tépida e odorífera como que emanava a vaporização duma

volúpia tôda esperitual em que não havia nenhuma instigação inferior da

animalidade, da substância, do sangue, dos nervos. A notação fina desta

particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente a mulher de

Nuno, mas apenas porque, entre a fealdade moral da sociedade que

conhecia de perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do condão de

reconciliarem com a espécie o homem de temperamento sensível...

Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras, a tarde baixava,

um arrepio friorento passava no parque, entre os troncos, fazia tremer

as fôlhas pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: e Nuno,

voltando das obras, com a roupa em desalinho, despenteado, as mãos

cheias de terra, veio encontrá-lo ainda sentado no banco, meditando.

--Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua, Frederico!--gritou êle,

surgindo, de repente, do meio das árvores.

E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra ocupado e fértil em

resultados o seu dia, a sua actividade junto dos pedreiros e dos

carpinteiros, dando ordens, fornecendo indicações, esboçando projectos

de trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao vélho Mateus sôbre

a lida agrícola. Até, para se exercitar, para desemperrar as

articulações, tirara a enxada ao caseiro e cavara um bom bocado!

Mostrava as botas enlameadas, as mãos vermelhas do exercício violento.

Frederico, ouvindo-o e como se regressasse das regiões longínquas,

irreais, por onde andara com a sua fantasia, atalhou:

--Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?

--E porque não?--replicou Nuno, muito sério.

--Homem, isso é ainda literatura, poesia rural à maneira das

_Geórgicas_...

Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, realmente, em dedicar à

lavoura a sua existência improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus, à

colectividade, empregando novos processos de cultura que duplicariam a

fecundidade da terra, fazendo experiências em que constantemente pensava

desde que se instalara na quinta.

--Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem fielmente o caminho

trilhado por uma rotina secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando

as inovações que, com menos dispêndio de fôrças, aumentariam a produção

e ofereceriam óptimas compensações.

--Santo Deus, como vais de-pressa!--contrariou Frederico. Mas isso é a

multiplicação dos pães de que nos fala uma doce página da Bíblia. A

multiplicação dos pães? Que digo eu? Trata-se dum milagre, mais

considerável. Chegas, da cidade, vestido como um _dandy_, nada sabes de

agricultura, ignoras mesmo como se produz a torrada que comes ao almôço,

com manteiga, mas isso que importa? Tens audácia para tudo! Pegas num

punhado de trigo, ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu

charuto...

--Não rias, Frederico! Olha que começou, na verdade, para mim, uma vida

nova...

--Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse punhado de trigo ao raiar da

manhã. Ao meio-dia, uma enorme messe de louras espigas ondula já à

aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas os ceifeiros, fazes a

colheita e enches um celeiro!... É como nos contos do fadas...

-- Bem! Não há maneira de nos entendermos--concluiu Nuno. Vamos jantar.

Isso é debilidade... A fraqueza excita o teu delírio.

Atravessando os arruamentos da floresta, que escureciam, o jardim, que

rescendia, Frederico ainda satirizava as intenções de Nuno, afirmando:

--Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em te consagrares à

terra, então sempre te digo que há tôdas as probabilidades de que venhas

a arruìnar-te...

--Arruìnar-me?

--Não tenhas dúvidas! Um simples pão, que podes comprar por um vintèm em

qualquer padaria, agricultado por ti, com máquinas para arar a leira,

máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a debulha, adubos químicos,

outras coisas requintadas e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões,

o que é, na realidade, barato, não te parece?

Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra, ao ar livre, anoitecia.

O ocaso, com sua tristeza elegíaca e o vago das suas sombras, descia

apressadamente. As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se na atmosfera.

Uma névoa ténue subia da terra para o alto. Das coisas inertes parecia

elevar-se um confuso múrmurio que fôsse como que a confissão da natureza

para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, e as vidraças

lampejavam batidas por um súbito, inesperado fulgor de ouro. Nuno e

Frederico lavaram-se, vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já

quando os esperava Júlia--e a palestra reatou-se:

--Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!--exclamou Frederico,

sentando-se.

--Parabens, porquê?--interrogou ela.

--Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade e na lavoura. É bem

provável que esta habitação mundana venha a transformar-se em herdade,

brevemente.

--Está hoje impossível, Júlia!--retorquiu Nuno. Não compreende que um

janota como eu venha a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui

definitivamente, a despir-se de todo o artifício por amor à

naturalidade.

--Ouve-o? É a renovação que começa. Teremos em Nuno, dentro de pouco, o

Jorge Brumell das colheitas.

--E porque não? Porque não?--perguntou Júlia, olhando demoradamente o

marido.

--Tambêm V. Ex.^a?... Belo! Já está convertida. A coisa é mais

importante e profunda do que eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao

nascimento duma religião nova...

A conversação alegrava-se, sob o reflexo da claridade que fazia

relampejar as pratas, scintilar os cristais, alvejar mais puramente os

linhos e brilhar com maior nitidez o verniz dos móveis e a coloração das

flores que morriam nos solitários. A serenidade em que a vivenda

adormecia era tanta que se ouviam os menores ruídos. A criada que servia

à mesa, no seu severo vestido preto com punhos e gola de bretanha

gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo, em passos

apressados e miúdos. Da cozinha chegava o rumor das palestras e da louça

que se entrechocava. Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos. De

vez em quando, o som duma viola passando para os serões ou para as

desfolhadas nas eiras, sob a lua branca, poetizava, bucolizava a

solidão...

No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo a face a Nuno para o

beijo costumado e apertando a mão de Frederico, para tratar da refeição

dos servos. Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando e

divagando...

Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um desalento inexprímivel

pesar mais duramente à sua volta, na imensa melancolia dos ideais

falhados, no desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza que o

consumia, reencetou as suas lucubrações, sentando-se numa poltrona e

deixando correr as infindáveis horas de pacificação exterior. O que

agora temia era que nêle se viesse a dar o violento conflito do espírito

e do instinto, perto de Júlia--o que seria um suplício que mais lhe

atribularia a amargura de viver. Observava que já ao lado de Nuno não

estava bem, que temia o desconhecido, que experimentava um

constrangimento inexplicável. E porquê? De-certo que o amigo tinha para

êle as mesmas delicadezas, as mesmas atenções, a mesma inefável

simpatia; mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente para que logo

julgasse que o seu olhar penetrante pretendia expiá-lo, ler-lhe na alma

surpreender os sentimentos impuros que lá se geravam. Suspeitaria

dalguma coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu drama, por uma

frase impensada, por uma palavra mais ardente de louvar a Júlia, por um

estremecimento de paixão irreprimível que pusesse Nuno de sôbre-aviso?

Não! Claramente, não! Tôdas as suas dúvidas nada mais representavam do

que uma perversão da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos

sentidos...

Ainda não sabia se amava Júlia--porque tinha mêdo de interrogar-se; se a

desejava carnalmente; se a admiração que lhe dedicava era de essência

espiritual ou sensual: mas se, com efeito, era maior a perturbação que o

alvoroçava, ninguêm--nem êle mesmo--conheceria êsse amor insensato, que

ficaria para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...

Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra nocturna, repousava

serena, como a felicidade que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama

dormia com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade dúbia da

lamparina acesa, filtrando-se através das bandeiras das portas, que eram

de vidro. E Frederico continuava os seus devaneios. Naquele momento, a

mulher admirável para quem ascendiam, como um incenso, a sua crença pura

e a sua admiração exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do marido,

tendo ainda na bôca o calor e o perfume dum profundo beijo apaixonado e

genesíaco. Êsse calor rosava-lhe a pele da face, acelerava-lhe a

circulação do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a no sono, a

cabeça pousada sôbre a alvura do travesseiro por onde se espalhavam,

como uma núvem, os seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente,

a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente, Frederico

erguia-se, dava alguns passos irresolutos sôbre o tapête fôfo, e voltava

a sentar-se sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades

do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo, que fruía uma indizível ventura

com a posse da mulher esplêndida (que tambêm o aliciava a ele--e com que

formidável intensidade! Então, enclavinhando a mão trémula nos cabelos,

Frederico revoltava-se contra si próprio.

--Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura desperta em mim!...

Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade inquebrantável e

fidelíssima, a afeição cega. Abrira-lhe confiadamente as portas do seu

lar virtuoso, considerava-o como um membro da sua família,

devotara-se-lhe inteiramente, mostrara-lhe a alma. E êle, correspondendo

a esta confiança, a êste afecto, a esta devoção, estava ali, naquele

doloroso momento de tortura, invejando-lhe criminosamente a espôsa

legítima, odiando-o pelos beijos que com ela trocava, pela presença de

Júlia no seu tálamo--um tálamo que a adoração mútua santificava e em que

o ventre da mulher amada recebia o calor que faria germinar as vidas

novas e esperançosas.

--Não! Isto é verdadeiramente infame!--exclamava Frederico, acusando-se

com rancor.

Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de Júlia perseguia-o; a

inquietação permanente irritava-lhe os nervos, exauria-o. Quáse imputava

a Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, da agitação que

o alucinava; mas logo caía em si, arrependendo-se. Era injusto,

inexorávelmente injusto! Ela não fizera nascer, por uma só palavra, por

uma atitude suspeita, por uma irreflectida _coquetterie_, o sentimento

funesto que o invadira. Frederico é que não pudera dominar-se, ser

casto, ser nobre, ser refractário a um desejo vil. O culpado único do

seu tormento era êle, certamente. E julgava que, por mais que sofresse,

todos os seus sofrimentos não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse

causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; que tôdas as suas

lágrimas não valeriam uma única das lágrimas que Júlia choraria, se êle

tentasse destruir-lhe uma placidez de que era tam digna, pela alma, pela

bondade, pela elevação moral, pela formosura, corpórea.

Em determinados instantes, o seu cérebro tinha uma estranha lucidez.

Lembrou-se, repentinamente, de factos, de acontecimentos há muito

olvidados. Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, por

exemplo, de ter lido há muito tempo, num livro de que esquecera o

título, esta sentença que agora solicitava particularmente a sua

atenção:--«Elemento divino e principal, que a natureza produz mas que

apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza é uma simples exteriorização da

forma. Tudo é susceptível de beleza, do gesto ao acto, do olhar à

palavra. Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar tôdas as

aspirações de beleza num sêr único, o segundo será o de preferir a

beleza da alma à beleza físicamente afectiva do corpo». No delírio da

sua febre, Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar a

verdade total e que logo abandonava, como infantis: e só de manhã,

quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou através das frinchas da

janela, êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela vigília e pelas

emoções intensas. Ao levantar-se, estava pálido, mal disposto, cheio de

tédio--e pensava então que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável

de dia para dia...

* * * * *

Uma tarde, o amigo abalou para as obras que continuavam activamente. Ao

passar no escritório de Nuno, para escolher um livro, Frederico

encontrou lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada à janela

abrindo para o jardim e tôda ensombrada por uma trepadeira já sem flor.

Frederico sentou-se tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto

que lhe imprimia maior destaque à brancura das carnações. Na gola da

_corsage_, afogada ao pescoço, fulgurava um brilhante, irrizando-se à

luz. Os seus dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como sempre, a

noite de Frederico fôra tempestuosa, deixara-o doente e mais aborrecido.

Resolvera internar-se no parque, à procura do isolamento, do sossêgo,

que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando Júlia, experimentou logo a

irresistível atracção que ela exercia sobre o seu sentimento e achou um

doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente o bordado, com a face

encostada à palma da mão; e, para interromper um silêncio que lhe fazia,

mal, exclamou:

--Só as senhoras teem paciência para tais tarefas...

--Questão de hábito--respondeu Júlia, sem levantar a cabeça.

--Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa dessas, que me parece mais

fatigante e difícil do que os dôze trabalhos de Hércules... Estragava

tudo, rasgava tudo...

--Jesus! Pois é assim impaciente?...--perguntou ela, fitando-o.

--Sou assim impaciente!

A radiação da luz fluida, que vinha de fóra, batia em cheio na cabeça de

Júlia, aureolando-a; sôbre os ombros descaídos havia tambêm manchas

luminosas. Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, a escolher

um volume.

--Que vaí ler?--interrogou Júlia.

--Sei lá! Talvez uma história triste dalguêm que nunca realizasse as

suas aspirações. Estou hoje tam nervoso, tam melancólico!...

--Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras alegres, para se

desanuviar... E diga-me: Crê que haja pessoas correndo continuamente

atrás dum ideal que nunca alcançam?

--Oh! de-certo que há!

--Eu julgo que essas pessoas estão fóra da realidade, e eis porque não

encontram nunca o seu mundo...

A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro, uma brandura acariciante.

Frederico, enleado, contemplava-lhe o busto, que era admirável de

proporções, a linha, a curva ondulante dos seios que se arredondavam sob

os tecidos leves, o pescoço esbelto, o lóbulo das orelhas que o penteado

deixava a descoberto e que era côr de rosa.

--Mesmo dentro da realidade--exclamou êle--nem sequer se podem atingir

certos ideais.

A solitude em que a casa estava mergulhada assustava-o. Desejava o

ruido, o barulho, tudo o que o aturdisse.

--Conhece alguns casos dêsses?--perguntou ela, mirando-o com a face

tocada pela graça do riso.

Frederico sentiu uma perturbação instantânea, passou-lhe na mente uma

névoa, tôda a resolução anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma

espécie de vácuo na consciência, a sua timidez aumentou. Sem poder falar

claramente, gaguejava. Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais

alto ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a luz dos seus

olhos tam sinceros.

--Diga!...--insistiu ela.

--Talvez!--respondeu Frederico. Tenho-me entregado a êstes estudos

especiais, porque o maior prazer duma alma é reconhecer outras almas

belas.

--Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a observação--atalhou Júlia.

--Não. Quando muito, constituem um mistério--mas mistério que se

sente...

Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se para a porta.

--Tem que fazer?--interrogou Júlia.

--Não... Absolutamente nada.

--Então, sente-se, seja a minha companhia, se isso lhe não desagrada.

--Oh! minha senhora!...

As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril afogueava-lhe as faces,

a sua respiração acelerava-se.

--E como se denunciam, às vistas perspicazes, as almas de que

fala?--inquiriu Júlia, baixando o rosto sôbre o bordado.

--Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que exercem, pela inspiração

que produzem.

--Julgo que está enganado. As almas femininas, por exemplo, furtam-se às

mais subtis análises. Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela

sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se às revelações íntimas...

--Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra da alma, ela revela-se

totalmente sob a sua influência...

Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha resvalado para um plano

perigoso, e Frederico empregava esforços violentos para subtrair-se às

tentações, porque começava a ter receio de dizer tudo a Júlia, de lhe

confessar o seu supremo segrêdo, de lhe denunciar, com lágrimas, o seu

inferno, o seu tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade de

pensar, de reflectir antecipadamente na significação das suas palavras e

de calcular-lhes as conseqùências, porque erradamente supunha que o

interrogatório de Júlia, tam natural, tinha qualquer cousa duma

provocação.

--Mas ainda me não disse francamente se conhece alguma dessas

almas--exclamou ela, de novo.

--Não conheço, mas tenho a certeza de que existem...

--Nos romances?

--Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe que se sabia perto da

mulher que amava, que lhe sentia as palpitações do coração, mas que não

podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de névoa opaca o separava

dela!...

Júlia, esquecendo as mãos no regaço, olhou-o então longamente, como se

quisesse compreender alguma obscuridade psicológica que pressentia: e

Frederico, comprometido, levantou-se logo, rindo um riso nervoso e

atalhando:

--Mas, é claro! O que os romances dizem não tem veracidade. E estas

nuvens só aparecem aos príncipes e às princesas...

Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois de tirar um livro da

estante.

--Sai?--perguntou Júlia.

--Sempre vou um pouco até ao jardim, tomar ar...

E desceu rápidamente sem se voltar, desgostoso consigo próprio,

excitado, ainda no pavor da leviandade irremediável que ia cometendo.

Ah! não! Aquilo não podia continuar! Era muito duro, muito cruel para

êle. Agora, compreendia que o temido conflito do seu espírito com o seu

instinto se daria fatalmente, se prolongasse por mais um dia, uma

semana, a sua estada perto de Júlia. Chegaria uma hora de fraqueza em

que a energia lhe faltasse para dominar-se. Antes de isso acontecer,

fugiria para longe, tentaria esquecer. Queria ser digno de amizade de

Nuno e do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara. Estava

ainda a tempo! E firmemente, nesse mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua

partida inevitável, pretextando a solução urgente de negócios que não

deviam ser adiados...

V

Foi num inquietante estado de alma que Frederico deixou a vivenda

pacífica onde o seu sentimento fizera, inesperadamente, uma tam

alarmante descoberta, regressando ao Pôrto sem um fim determinado, sem

mesmo pensar na maneira de evadir-se duma intensa e amarga tortura. A

certeza de que amava a mulher de Nuno com um amor que poderia levá-lo,

violentamente, a todos os crimes e a tôdas as degradações da alma,

obcecava-o e obrigava-o a reflectir na impureza da argila de que é

formado o coração humano. Fugia de Júlia, do amigo, do repousado lar em

que vivera tam plácidos dias--antes da fatalidade duma adoração que

quisera evitar, a que tentou, em vão, resistir e que lentamente se lhe

apoderou de todo o sêr consciente--em condições trágicas para a sua

emoção. Sentia-se enfeitiçado por uma espécie de malefício ao mesmo

tempo cruel e doce, que lhe causava sofrimento e saùdade e que nêle

abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar a lucidez da

inteligência a ponto de não discriminar entre o bem e o mal...

Durante a jornada para o Pôrto foi sobressaltado, várias vezes, por uma

singular diversidade de sensações. Ia fugindo como um bandido, trémulo,

aterrado, com mêdo de tudo--e porquê? Ninguêm conhecia o seu drama, bem

oculto, bem recalcado dentro de si próprio--a não ser que Júlia o

tivesse adivinhado, porque as mulheres; em coisas de sentimento, são

subtis. Aquela deserção representava a cobardia dum homem incapaz de

afrontar altivamente o primeiro perigo que diante de si imprevistamente

se levantava, com a segurança de que venceria; mesmo incapaz de dominar

as instigações da outra personalidade em que se desdobrava e que o

concitava ao êrro, à deslealdade, à vileza, solicitando a imediata

satisfação dum desejo gerado no seu egoísmo e na sua sensualidade; que

se mostrava impotente para conter a expansão vertiginosa do instinto.

Alucinava-o a quáse eliminação da vontade--de que o último lampejo se

exaurira com a resolução de sair apressadamente da casa de Nuno,

inventando um pretexto fútil em que se traíria, se o amigo não

depositasse nêle a maior confiança. Raciocinando nesta leviandade,

Frederico monologava, encolhido a um canto do combóio, sem mesmo

espreitar rápidamente a maravilhosa paisagem, que atravessava:

--Como fui imprudente, na realidade!

E agora, que estava mais sereno, aquela imprudência atemorizava-o.

Reconstituía na imaginação sobreexcitada a surprêsa de Nuno, quando lhe

comunicou a resolução firme de voltar à cidade. Fixando-o com uns olhos

penetrantes que o devassavam até às recônditas intimidades da

consciência, êle exclamara:

--O que? Vais-te embora?

--Sim, vou!--atalhara bruscamente, com uma perturbação que o denunciava.

Assuntos complicados a liquidar, um inferno...

--Homem, sê sincero. Tu o que estás é aborrecidíssimo, odiando êste

cárcere, abominando esta solidão, morto por te veres de novo no ruído,

no tumulto urbano...

--Mas não, mas não! Que ideia!...

Júlia expiava-o tambêm interrogadoramente, com um olhar em que à

vivacidade se mesclava uma pontinha de ironia amável.

--Para que hás de negar?--insistia Nuno.

--Oh! filho, mas que impertinência tamanha, a tua!... Frederico é um

homem do mundo e julga ter cumprido já os deveres da amizade para

connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia. Se quiséssemos

retê-lo aqui por mais tempo, entre estas árvores, nesta solidão, no meio

dêste deserto, seria tirânico da nossa parte!--afirmara Júlia

benévolamente.

--É claro--acrescentou Nuno --eu não te imponho o sacrifício de nos

aturares até à consumação dos séculos... O meu despotismo não chega a

tanto...

--Sacrifício?... Mas que sacrifício?... Se eu te estou a dizer...

--Bem, acabou-se!--concluiu Nuno. Parte...

--Quem sabe, de resto, se haverá na cidade algum motivo superior que o

reclame a tôda a pressa?--insinuara ainda Júlia com aquele riso que era

de graça, de bondade, de malícia e de doçura e que tanto encantava

Frederico.

--Certamente, minha senhora... Há um motivo!--respondeu êle.

--Sentimental?--inquirira Nuno, rindo tambêm.

--Crê que estou a falar a sério!--replicara Frederico.

Propositadamente, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer e

o forçava a simular para esconder uma verdade que não podia ser

conhecida sem vergonha para êle, sem dor para Nuno e sem cólera

amargurada para Júlia, Frederico procurou ser alegre, mas inutilmente. A

intensidade da comoção experimentada crestou-lhe a floração do

humorismo, tornou-o fúnebre; e as horas que se seguiram à sua decisão

foram monótonas, tristes, cheias de fadiga. A cada instante, Nuno

murmurava, fumando um charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro

de porcelana:

--Vais, então, para o Pôrto, scelerado, reentras nos teus hábitos.

Frederico notava nestas palavras de afecto, que lhe doíam como um

queixume, a vaga sombra dum desconsôlo, e dizia:

--Vou, de-certo... Deveres... As obrigações primeiro e as devoções

depois. O método é tudo... E tu? Ficas por aqui ainda?

--Fico. Há uma infinita multidão de factos que exigem a minha

presença... Alêm disso, esta é que é a minha casa... Júlia dá-se bem. Eu

passo óptimamente. Retirar-me, para quê?

--Pois olha que sou muito capaz de voltar ao calor das vossas afeições,

em concluindo os meus negócios!

--Que lisonjeira mentira!--acudiu Júlia, aconchegada na sua cadeira,

ainda à mesa do jantar, seguindo o diálogo com a face inclinada na mão.

--Oh! minha senhora, eu nunca minto, por princípio. Seria um pecado.

--Não! Muitas vezes, mentir por amabilidade é uma virtude que denuncia

puros dons de alma.

Tornou-se impossivel animar a palestra em tôda a noite. Frederico

pensava que o desalento se comunicara, como um fluido subtil e

dissolvente, a Júlia e a Nuno, destruindo o gôzo espiritual daquele

momento: e foi para ele um grande alívio o instante em que pôde

recolher-se ao seu quarto, isolar-se, concentrar-se nas suas meditações.

Deitando-se e apagando a luz, reencetou a análise da sua própria

psicologia. A impressão que Júlia lhe produzia na sensibilidade era cada

vez mais forte. Por enquanto, a imagem da mulher amada iluminava-se

ainda de esplendor, movia-se num círculo de claridade e de pureza que o

coagia a uma adoração casta. Não atravessaria a zona luminosa que o

separava dela, para tocar-lhe com mãos profanas. Chegaria, porêm, uma

hora de alucinação em que a generosidade e a grandeza moral que

prevaleciam na sua organização desaparecessem, fundindo-se a um fogo de

voluptuosidade impetuosa, e em que a sua áspera ânsia carnal, numa

súbita e espontânea erupção de luxúria, o impelisse às piores

injustiças, às violentas rebeliões, às brutalidades, às loucuras em que

nada se respeita. Frederico temia essa hora e libertava-se, pela fuga,

da sua terrível influência. Por enquanto, conservava tôda a sua energia,

tôda a sua lucidez mental, podia calar-se a tempo, encerrar o seu amor

secreto num silêncio impenetrável; mas não viria a perder essas

faculdades redentoras se prolongasse a sua estada junto da mulher que

inocentemente excitara a sua paixão? Era preciso cortar como flor

venenosa o sentimento vil que lhe germinara na alma, exilar-se para

longe, esquecer... Tam ardente era nêle a imaginação que lhe parecia que

a voz de Júlia tremera ao ouvir-lhe anunciar a partida e que os seus

imensos olhos, negros e húmidos, fazendo-se mais lânguidos e

acariciadores sob as pestanas, cravando-se nos dêle, lhe pediam que

ficasse, o aliciavam com promessas de tôda a sorte. Resistir aos avisos

da dignidade, que o mandavam retirar sem demora, seria uma abjecção, um

acto inqualificável. Êsse amor, apenas nascente, tinha para êle a

sordidez, a vilania, a crápula dum incesto--porque Nuno era o seu irmão.

Não reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto puramente animal

que o tentava a não sair do lado de Júlia representaria a queda num

abismo insondável, a submissão que o desonraria para sempre, o remorso,

uma dor futura que nem sossegaria sequer, mesmo que fôsse possível

satisfazer a ignomínia da paixão que o exasperava.

--Não! Não!--murmurava Frederico, revolvendo-se no leito. Partindo,

serei ainda nobre e bom.

E a bondade, para êle, era a mais pura, a mais alta manifestação da vida

consciente. Alucinado por um sentimento que agitava tudo o que no seu

ser de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro, sofrendo

tôdas as torturas que um amor impossível e sem esperança pode fazer

experimentar a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico

sentia, como uma carícia de inexprimível enlêvo, essa bondade à sua

volta, naquele calmo lar tam digno. Ela irradiava da candura dum berço

onde dormia a inocência sem culpas; denunciava-se numa adoração conjugal

que se perpetuava indefinidamente com o mesmo encanto do dia maravilhoso

em que principiara; emanava-se de Júlia como uma espécie de

imaterialidade visível e penetrava-o a êle mesmo fazendo-lhe transbordar

de ternura o coração, purificando-o de pensamentos maus. Por mais duma

vez--absorvido na sua meditação e louvando-se pela coragem, pela energia

que revelava, afastando-se dum enlêvo que para êle condensava, nesse

momento, a felicidade suprema--Frederico descobria uma desconhecida

frescura de emoções novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma um sôpro

vital que o rejuvenescia. Mas êste entusiasmo era fugaz: e uma saùdade

muito funda--a saùdade de tudo o que perdia--continuava a exaltá-lo.

Murmurava, na sua viagem para o Pôrto:

--Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei a mim próprio que sou

cobarde, que tenho mêdo, que sou incapaz de resistir...

Então, arrependido, levantava-se do banco em que ia sentado, dava alguns

passos nervosos no compartimento em que viajava só e assaltavam-no

tentações de descer da carruagem na primeira estação e de voltar para

trás, regressando a casa de Nuno e de Júlia. Logo, porém, caía em si,

exclamando:

--Mas estou doido, doido! Êsse regresso seria uma revelação, uma

confissão completa pelo menos para Júlia, porque nada escapa à

sagacidade das mulheres, em amor.

Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditórios que o

desvairavam, curvou-se à janela da carruagem, observando o panorama que

se desdobrava ao sol no esplendor das suas tintas. A manhã resplandecia

como um cristal translúcido; tôdas as côres se aviventavam na radiação

da luz. As forfas elegantes das árvores, que donde aonde davam sombra e

manchavam de verdura os descampados, desenhavam-se com nitidez de linhas

e de contornos no azul claro, e a serenidade deliciosa do céu

cumunicava-se à natureza inteira. A largura infinita do espaço, mais

branco para as bandas do nascente, mais anilado no alto, parecia

decorada, vestida como para uma festa voluptuosa e delicada. A

profundidade alvacenta e luminosa do ar que envolvia e vivificava tôdas

as coisas tinha para Frederico uma novidade nunca surpreendida.

Parecia-lhe que Júlia, despertando-lhe a faculdade de amar, lhe

despertara tambêm a faculdade de compreender.

Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a imagem feminina que sem

repouso acariciava. O fenómeno fisiológico intenso que imprimira uma

completa modificação à sua consciência em horas tam ardente e

dolorosamente vividas, dava agora um rumo diferente aos seus

pensamentos--e isto desanuviava-o um pouco. Caía numa dessas cogitações

sem objecto definido que constituem verdadeiros e inefáveis

desfalecimentos de espírito...

Desejava chegar depressa ao Pôrto, reentrar na serenidade da sua vida de

solteirão, mergulhar no tumulto citadino, entregar-se todo à satisfação

dos seus caprichos, à sua fantasia, à multiplicidade dos seus prazeres,

com a secreta esperança de esquecer completamente, de depurar-se, para

ser outra vez digno do afecto de Nuno e da confiança de Júlia. Enquanto

dentro de si vivesse aquele amor criminoso, julgava-se impuro:--e como

impuro, não deveria pensar no regresso à vivenda do amigo, que era um

templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta excitação que entrou

no Pôrto, num sábado à tarde.

* * * * *

Começou, então, para Frederico um sombrio período do miséria moral e de

sofrimento. Jàmais a sua existência lhe aparecera tam solitária, tam

inútil, tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos

renovadores. Um inexplicável desalento enchia-o de desgôsto,

humilhava-o. Nunca, como nesses dias alucinantes em que, em vão,

procurava aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tôdas as excitações,

Júlia lhe parcera tam desejável. Um fogo sensual muito violento ia

secando nêle tôdas as fontes da virtude e da honestidade: e a sua

ausência infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma

vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a sua graça de mulher, as

perfeições do seu corpo, a doçura que a sua posse lhe transmitiria. O

ciúme, que já por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se. Como

se na evocação das coisas amargas houvesse para a sua alma um gôzo

especial, Frederico imaginava a cada momento Júlia nos braços do marido,

fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador, dando-lhe tôda a sua carne

latejante, todo o sangue das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tôda a

sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas. E via-a rolando a

cabeça desfalecida no ombro de Nuno, cerrando as pálpebras num delíquio,

mais côrada, com os lábios pálidos, o peito arfando apressadamente.

Insurgia-se contra êste amor conjugal como se êle representasse um

crime, como se exprimisse um pecado e como se fosse êle o traído... Um

acesso de impaciência e de cólera interrompia este delírio dos seus

sentidos. Reentrando novamente nos domínios luminosos da inteligência,

Frederico exclamava:

--Preciso de reagir contra esta doença que me devasta, senão enlouqueço!

Esperava que a crise lhe concedesse tréguas, e para apressar êsse

instante que seria venturoso e afável para êle, ia aos teatros, aos

concertos, freqùentava as reùniões das pessoas do seu conhecimento,

nunca faltava nos logares onde o mundanismo se dá _rendez-vous_: mas,

nas salas de espectáculos, nos salões de baile, nas _soirées_

familiares, surpreendia-se a aguardar a entrada súbita de Júlia,

radiante no esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse

insuflado mais graça e maior poder de sedução, sem reparar em nada do

que à sua volta ocorria. As senhoras achavam-no muito mudado e

diziam-lho, entre ironias. Não tinha a alegria antiga, a vivacidade

doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade que o caracterizava e

o impunha às admirações.

Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros, que às terças-feiras

reùnia algumas famílias íntimas, a sua tristeza foi notada pelas damas

com quem se entregara, em outras épocas, às suavidades do _flirt_. Uma

delas, D. Felismina Trigoso, que nutrira a esperança de ser por êle

amada em tempos findos de que ainda conservava a lembrança doce,

surpreendendo-o a um canto a folhear uma revista ilustrada, não se

conteve.

--Sabe?--exclamou ela--tôdas nós o estranhamos.

--E porquê, minha senhora?--inquiriu Frederico, fechando a revista e

erguendo-se.

--Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desinterêsse de tudo o que o

cérca, pelo isolamento em que voluntáriamente se encerra.

--É que ando a fazer um severo exame de consciência. Fui um grande

pecador, e para ganhar a glória celeste, decidi fechar-me num convento,

ser monge, penitenciar-me--disse êle.

--Não disfarce, não finja!

--Mas sou sincero!

--O que pretende é ocultar qualquer coisa--insistia ela.

--Ocultar o quê?

--Que sei eu? Talvez alguma paixão infeliz, algum desgôsto muito

profundo.

--Ah! como é errado o seu juízo! V. Ex.^a não sabe, então, que as

criaturas que se recolhem, que se isolam, que se concentram, são

precisamente as felizes?

--As felizes?

--Certamente! Só a felicidade é egoísta, concentrada, e não gosta de

revelar o seu gôzo interior. O sofrimento, pelo contrário, precisa das

multidões, das testemunhas, para dilatar-se.

--Paradoxos...

--Não, minha senhora. V. Ex.^a não conhece, de-certo, Heraclito, um

filósofo da antiguidade clássica, que, quando sofria, procurava as

praças públicas, as ruas das cidades, para chorar... Se eu fôsse

desgraçado...

D. Felismina ria saborosamente daquela abundante verbosidade que

incitava ao humorismo pelos efeitos do contraste.

--Se fôsse desgraçado?...--interrogava ela.

--Se fôsse desgraçado, rompia aqui num chôro de tal ordem, que a policia

teria de acudir!...

--Venham cá, venham cá!--chamou D. Felismina--está hoje brilhante!...

As outras senhoras acudiram, num grande rumor de riso e de sêdas

amarrotadas: e D. Felismina, voltando-se para a dona da casa, murmurou:

--Tem estado a dizer-me coisas monstruosas, não calcula!...

--Sim?--atalhou D. Francisca, com um sorriso afável iluminando-lhe o

rosto simpático. Então, de que falavam?

--De grandes verdades, minha senhora--respondeu Frederico. Afirmava eu

que as paixões amorosas mais sérias, porque decidem de todo um destino,

são as que alvorecem nos corações de cincoenta anos de idade. A snr.^a

D. Felismina, porêm, é de opinião contrária e assevera que essas paixões

só podem ser sentidas aos vinte anos...

--Não era de nada disso!--protestou D. Felismina. É um mistificador...

--E ainda não experimentou nenhuma, Frederico?

--Não, D. Francisca. Encontro-me na infância. Tenho apenas trinta e

cinco anos, estou muito longe da minha primavera!...

O riso animou-se mais nas bôcas femininas, que louvavam tôda aquela

alegria, tôda aquela mocidade de espírito, e, por momentos, Frederico

atraíu as atenções; mas foi um fogo-fátuo êsse instante de jubiloso

alvorôço, que se dessipou totalmente, quando D. Felismina, muito

solicitada, se sentou ao piano, tocando uma página de Mendelssohn, que

ela interpretava maravilhosamente.

De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos dolorosos, folheando

outra vez a revista que o fatigava de tédio e que tinha aberta sôbre uma

mesa de pau preto onde, em jarras de faiança antiga, brilhantes de

esmaltes e de coloridos, morriam e se desfolhavam lentamente ramos de

azáleas brancas, Frederico observava aquele mundo fútil de

exterioridades encantadoras e recordava-se de Júlia. O ambiente era, na

verdade, elegante. O salão estava decorado com gôsto. Um tapête de tons

suaves, rosa e verde-malva, amortecia o som dos passos e tornava mais

confortável o compartimento; os móveis, leves e bem lançados,

destacavam-so pela forma e pelos estofos que os recobriam. Sôbre um

fogão de mármore, que resplandecia de brancura na crueza da luz

eléctrica, um relógio de bronze, estilo Luis XIV, marcava as horas que

longos ponteiros dourados indicavam num mostrador esmaltado em que

corria, no esplendor das tintas, uma scena idílica, evocando as telas de

António Watteau, com pares de namorados enlaçando-se sob as árvores. Ao

fundo, um piano Bechstein com velas ardendo em serpentinas de prata e

acendendo fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha uma graça

ornamental pesada e imóvel. Sòbre a alcatifa, encostados dum lado e

doutro às paredes, que um papel côr de ouro fosco forrava, havia enormes

vasos do Japão, com figurinhas de mulheres abrigando-se do calor sob

largas umbelas de sêda, penteados altos seguros por pregos de feitios

bizarros e cegonhas de bico vermelho adormecendo à beira de lagos, junto

de cerejeiras em flor. _Etagères_ de ricas talhas sustentavam

graciosamente cristais cheios duma água que scintilava na claridade e em

que esplendia a graça duma rosa ou a beleza do ramos de violetas,

exalando-se em arôma. O que mais seduzia Frederico era a harmonia, a

disposição bem achada de cada peça de mobiliário, contribuindo para o

equilíbrio do conjunto, a correcção das linhas plásticas e decorativas.

Por êste arranjo impecável, reconstituía êle a individualidade

psicológica de D. Francisca, que se fanava na sua viuvez de longos anos,

que devia ser inteligente, ter um sentimento acessível às emoções

produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tôdas as delicadezas e

de tôdas as bondades. Para ela subiam o culto puro do seu afecto, a sua

ternura de homem. Sem saber porquê, D. Francisca fazia-o lembrar com

mais doçura de Júlia, que havia de ter, mais tarde, uma velhice assim,

encantadora, um porte que inspirasse admiração e respeito, uns olhos em

que vivessem milagrosamente as imagens dos sonhos mortos...

Num gabinete ao lado, servindo de _fumoir_ e de sala de jôgo, os homens

entregavam-se com interêsse ao seu _bridge_, enquanto esperavam pela

hora da debandada, discutindo, em voz baixa, escândalos sentimentais ou

casos frustes de política. A atmosfera pesava, aquecida pela luz,

carregada de perfumes. E a música de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de

sortilégio, a aspiração das almas pelos finos amores idealizados, tudo o

que murmura nas florestas pelos crepúsculos religiosos, tudo o que

suspira nas aragens, tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens.

Conturbado, Frederico fechou a ilustração, levantou-se, deu algumas

voltas, sacudido por uma emoção muito viva e muito forte...

Aquela música segeria-lhe uma outra que ouvira em casa de Nuno, por uma

noite inspiradora e silenciosa, pouco depois de chegar à aldeia e de

conhecer Júlia mais de perto. Nem um só pormenor lhe havia esquecido,

tam violenta fôra a comoção experimentada. A sua inteligência tinha uma

extraordinária argúcia. Relembrava o enlêvo daquela hora reveladora; a

graça ideal do busto de Júlia, sentada ao piano; o banho luminoso que

descia do candeeiro suspenso no alto e batendo em cheio na sua cabeça,

aureolando-a; a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos pousando

ágilmente sôbre as teclas de marfim; o seu olhar animado e brilhante; o

viço dos seus lábios vermelhos e húmidos; o jardim florindo ao luar; a

massa confusa de sombra formada pelo parque, ao longe...

Entrou na sala do jôgo, parando durante minutos. A conversa banal dos

homems enfastiava, sufocava-o o cheiro do fumo. Veio novamente para

junto das damas que sonhavam ainda sob a influência perturbante e

emotiva da música. D. Felismina tinha acabado de tocar e sorria,

cansada, encostando ao piano um braço nú, emergindo da alvura das

rendas, redondo, gordo e puramente medelado. Frederico, gentilmente,

cumprimentou-a.

--Sabe que é um nobre temperamento de artista?

--Ora! Gentilezas...

--Mas não, mas não! É perfeita. Não lhe parece, D. Francisca?

--De-certo! Eu acho-a admirável.

--E fica-lhe bem a modéstia--acudiu uma outra senhora, D. Maria do Céu,

espôsa dum magistrado, muito nutrida, entre duas filhas magras e

pálidas.

--Não é modéstia, D. Maria. É sinceridade.

--A música desperta em mim singulares comoções, fazendo aflorar tudo o

que na minha organização há de mais elevado moral e mentalmente--disse

ainda Frederico. É por isso que eu a considero a arte superior, pelos

sentimentos e pelas ideias que inspira, quando os seus executantes lhe

transmitem uma alma. E é êste, justamente, o seu caso, minha senhora.

--Para que há de zombar duma _dilettante_ sem pretenções?--exclamou D.

Felismina.

--Mas então, ninguêm me acredita, mesmo se digo a verdade! Arranja fama

de _blagueur_ e deita-te a dormir--comentou Frederico, risonhamente.

Demorou-se mais alguns momentos numa palestra que o aborrecia, pelo seu

ar de cortesia convencional; e, por fim, despedindo-se, saíu, seguido

pelo olhar de D. Felismina, que outrora galanteara, fazendo nascer na

sua ternura feminina uma fina flor de ilusão. A caminho de casa, pela

rua mergulhada numa meia obscuridade que mais o entristecia, Frederico

meditava na sua condenação atroz e monologava:

--Como custa ser honesto!

Efectivamente, a saùdade de Júlia acompanhava-o para tôda a parte, no

passeio, no teatro, nas ceias ruidosas com amigos, nas reùniões

familiares, velava-lhe os sonos inquietos, seguia-o sem repouso,

vigiava-lhe a formação das emoções e dos pensamentos. Não podia

separar-se dela um só minuto. Sentia-a tirânicamente no coração como um

remorso conjuntamente aflitivo e suave, no sangue, como um fluido que o

incendiava, nos nervos. Em vão procurava libertar-se. Para a apagar no

cérebro e na alma, torturava-se inutilmente. Julgava-se abandonado de

tôdas as afeições, mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde

que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar uma vilania.

Escrevera-lhe para lá uma longa carta, narrando-lhe o repouso

inolvidável das horas que perto dêle e de Júlia passara durante duas

semanas, pusera nas palavras mais vibração e calor, por imaginar que

também ela leria essas linhas em que o seu sentimento transbordava de

gratidão, dissera-lhe a solitude e a angústia dos dias que ia vivendo na

cidade, longe dum lar que lhe mostrára nítidamente a realização da

felicidade terrestre--e nenhuma resposta recebera. Porquê? Traíria êle,

nessa confissão ardente, um segrêdo que ninguêm devia conhecer?

Suspeitaria Nuno dalguma coisa? Não teria a carta chegado ao seu

destino? Estas dúvidas pungiam-no.

Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que se esgueiravam como cobras na

sombra que as fileiras irregulares de prédios projectavam nas calçadas,

Frederico sentia um grande desalento subir e invadi-lo todo. Como a sua

existência era estéril! Nem alegrias morais presentes nem confiança no

futuro. Evocava, por uma especial associação de ideias e de sentimentos,

a melancolia da sua vida desde os dias já remotos da infância, e, por

instantes, todo o passado se iluminava aos seus olhos.

Aos oito anos, quando as outras crianças ricas brincavam e eram amimadas

pelas mãos puras das mães, fôra êle metido num colégio como interno,

depois de lhe vestirem um fardamento. No internato onde a sua meninice

se enclausurara, deitava-se, levantava-se, ia para as aulas, para as

refeições, para a banca de estudo, para os ócios do recreio, sempre ao

toque duma sineta. A sua individualidade passiva resumia-se em obedecer;

os deveres da disciplina vergavam-no, a êle que era então tam tímido,

sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez maravilhosa se

lembrava duma época para êle desoladora! Não lhe escapavam os mínimos

detalhes. Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto êle como os

condiscípulos, esperavam a hora da folga, durante as lições enfadonhas

que um homem imensamente calvo e de bigodes brancos--o snr.

Justino--lhes professava. O snr. Justino tinha uma voz que soava falso,

uma face engelhada, vestia um vélho _frac_ muito coçado na gola e nos

cotovelos. Os seus olhos, que eram vivos e pequeninos, faíscavam por

detrás dos vidros das lunetas. Nunca se irritava, era fleugmático,

pachorrento, as suas palavras arrastavam-se no silêncio da sala--um

silêncio tam profundo que, em junho, se ouvia o lento zumbido das moscas

descrevendo, no vôo, movimentos giratórios incoerentes. Os rapazes

chamavam a êste pobre professor, que era a imagem dos lutadores

destroçados, o _D. Ana_. Escondendo-se com os livros abertos e postos ao

alto nas carteiras, curvando o busto, deitavam a língua de fóra, faziam

momices, trejeitos humorísticos, protestando assim contra a prisão nas

idades em que as infâncias, como as flores, amam os grandes espaços

livres, o tumulto, as indisciplinas. Por vezes, das bancadas elevava-se

um murmúrio confuso, estalavam risos abafados, as solas das botas

raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido. _D. Ana_,

interrompendo a sua vagarosa exposição, erguia a cabeça, fitava um

minuto os colegiais, que logo emmudeciam, atemorizados, dizia, na sua

voz de falsete:

--Então, meninos! Que é isso? Mais respeito e mais atenção!...

A tranqùilidade restabelecia-se imediatamente, mas por pouco tempo.

Perto de Frederico, um estudante com raras aptidões para o desenho fazia

a lápis a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas

tristemente do nariz que sugeria o agudo e longo bico dum pássaro. A

semelhança dos traços era flagrante e já com uma notável noção do

grotesco. O caricaturista dava a sua obra humorística a Frederico,

dobrada em quatro. Êle abria-a e lia por baixo da figura ridícula do

mestre:--«Veja e passe adiante». Frederico via e passava, sufocando o

riso na palma da mão com que comprimia a bôca. A caricatura corria assim

tôdas as bancadas dum extremo ao outro, despertando as hilaridades que

não podiam expandir-se e que espalhavam a inquietação, o nervosismo, a

impaciência, na aula. Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a

quem os rapazes denominavam de _Mata e esfola_, surgia de repente à

porta. Na sua bochecha còrada e gorda, tôda rapada, barbeada de fresco,

como a dum padre, espelhava-se a indignação. Lançava um _schiu!_ muito

sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma ameaça...

Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade de todos os

castigos sofridos, a supressão da sobremesa e das liberdades do recreio,

as longas e fastidiosas páginas de escrita em que se repete um verbo cem

vezes--e prometiam vingar--se... Depois, _D. Ana_ terminava a lição, os

livros fechavam-se de estalo, com alarido formidável, uma sineta

badalava na solidão e os colegiais saltavam as carteiras, com o _bonet_

agarrado nas mãos, corriam para o jardim que floria ao sol, no esplendor

das formas e das colorações, pulavam por entre os arvoredos que

projectavam na areia branca do chão largas máculas de sombra oscilante.

Era a hora melhor e mais doce para os internos do Colégio. Formavam-se

grupos, organizavam-se jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum

céu muito nítido vinha uma luz muito loura que dormia pacíficamente nas

clareiras. As mimosas enchiam-se de florações de ouro. Os adolescentes

que pertenciam a classes mais adiantadas não se associavam aos

divertimentos dos mais novos--passeavam dois a dois, liam versos rimados

na solitude dos seus quartos, sonhavam com possíveis glórias literárias

e tinham escondidos, entre o colchão e o enxergão das camas de ferro,

que recordavam tarimbas de caserna, romances de enrêdo complicado e

sensacional, que devoravam às escondidas, no refúgio dos momentos de

descanso. Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias das árvores, para

fumarem cigarros...

Frederico reconstituía com verdade surpreendente todos os episódios dos

seus longínquos anos de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe.

Relembrava que já nessa era remota era infeliz. Nunca pôde criar amigos

entre os camaradas, que o miravam desconfiados, que se afastavam dêle,

que o satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas inexplicáveis

antipatias, que não provocava, teve uma grave questão com um estudante,

Pedro de Menezes, contundindo-lhe a face com um forte murro. Os guardas

acudiram, foi repreendido severamente pelo director do Colégio, que nem

sequer escutou as suas desculpas e privado dos folguedos do recreio por

tôda uma semana. O conflito, que o tornou temido, mais o

incompatibilizou com os condiscípulos. Passou a ser designado pelo nome

irónico de _Ferrabrás_ e repelido amargamente pelos escolares, que o

detestavam...

Feitos os exames, vinham as férias, os descuidados meses de liberdade

por praias, termas, quintas rurais, sem a tirania dos livros, sem os

abomináveis toques da sineta, que tinham para êle o horror dum dobre a

finados, sem as reprimendas dos mestres, quando as lições se não sabiam.

A população do Colégio debandava alegremente. As casas ricas mandavam

carros e automóveis para levar os seus; os mais modestos mandavam

simplesmente um criado. Frederico ia, então, para junto da mãe, já

viúva, que andava sempre vestida de preto, rezando pelos corredores ou

ralhando, em voz baixa, com os servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e

havia casado, aos trinta anos, com o capitalista Simão de Noronha, muito

mais vélho do que ela e que fôra fulminado por uma congestão cerebral

poucos meses depois do nascimento de Frederico, único herdeiro da sua

abundante fortuna porque uma sua irmãzinha morrera aos dois anos de

idade.

Dentro da casa, Frederico sentia-se mais só do que no Colégio. A mamã,

absorvida nos fervores da devoção religiosa, nos ardores do seu

misticismo, mal reparava nêle, e não ser para o admoestar pelo barulho

que fazia na vivenda, sempre de janelas cerradas à luz exterior, como se

lá dentro se chorasse uma desdita permanente, como se a morte a

povoasse. De manhã e à noite, ao levantar do leito e ao deitar-se,

Frederico aproximava, com indiferença, o rosto da bôca materna e recebia

um beijo frio e rápido. No fim do almôço, do jantar e depois do chá, ela

obrigava-o a rezar, de pé, junto da mesa e de mãos postas, pela glória

de todos os santos mencionados na _Legenda Dourada_, de Voragine, que

tinha sempre sôbre a mesinha de cabeceira, perto dum castiçal de prata.

De vez em quando, vinham visitas, quáse sempre senhoras idosas tambêm

severamente vestidas de preto, com quem D. Isabel se fechava, no

oratório da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasiões, Frederico

fruía uma liberdade mais larga. Descia à cozinha, palrava com as criadas

que se riam muito das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos do

jardim... Depois, as férias acabavam, a mamã reforçava o enxoval,

puxava-o para junto do peito sêco em que nenhum desejo profano

arfava--rosando-lhe as carnes duma ponta de sangue mais

vivo--despedia-se dêle com o mesmo beijo frio que lhe causava arrepios,

murmurava em voz sumida:

--Vê se tens juízo... Porta-te bem.

Frederico regressava jovialmente ao Colégio, de que já tinha saùdades, e

ouvia os seus condiscípulos, com inveja e tristeza, narrarem uns aos

outros o encanto das vilegiaturas por estâncias de águas e estâncias

marítimas, das pequenas viagens recreativas com a família, das reùniões

e das danças nos Casinos, onde alguns tinham arranjado namoros.

--E tu, _Ferrabrás_, onde passaste o verão?--perguntavam-lhe.

Frederico, por vergonha, para não ser humilhado, tinha vontade de

mentir, inventando digressões maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe.

Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...

Mais tarde, concluiu os preparatórios, a mamã morreu duma doença do

coração, foi nomeado um tutor para administrar os seus bens, aumentados

considerávelmente pela viúva que vivia parcimoniosamente, que abominava

o luxo como se êle representasse ou um pecado ou um escândalo.

Na Academia Politécnica travou conhecimento com Nuno, que como êle

tirava o curso de engenharia, que era igualmente rico e órfão. As suas

relações estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta

coincidência que os identificava. Aproximava-os uma singular semelhança

de infortúnios, de temperamento e de carácter e foram, durante seis

anos, como dois bons irmãos. Nunca no afecto de ambos se levantou uma

discórdia que os separasse um instante... E era êste o tempo mais doce e

mais feliz da sua existència de homem, pelo menos aquele de que se

recordava com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe o seu

casamento. Estavam, então, em Vizela, tôdas as noites se dançava no

salão do hotel, e todos os dias se passeava no parque, se organizavam

merendas no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio, ao som de

guitarras românticas. Frederico assistiu à lenta formação do amor que

encheu o coração de Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para

as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres e para as sérias

responsabilidades da vida familiar. A princípio, tomou a inclinação do

amigo por Júlia como um banal _flirt_, como um capricho de que nada

restaria quando cada um fôsse para o seu lado. Depois, vendo-o

desinteressado de tudo quanto não fôsse Júlia--que fielmente acompanhava

para tôda a parte, com quem tôda a noite valsava ou conversava, em quem

falava contínuamente como se ela representasse o símbolo das suas mais

belas aspirações--sentiu que Nuno estava bem preso e bem apaixonado e

que o desfêcho lógico daquele namôro seria o casamento. A partir de

então, a sua vida fez-se mais solitária e mais despegada, os seus

entusiasmos arrefeceram, perdeu tôdas as suas galvanizadoras confianças.

Nesta solitude, porêm, era ainda relativamente feliz, até ao momento em

que Nuno teve a má ideia de aproximá-lo de Júlia, já mãe.

--E aqui está--murmurou êle com infinita desolação--o que um amor sem

esperança pode fazer dum homem!... Que sorte!...

No ermo da sua casa desabitada, Frederico, no enorme silêncio que

invadia os longos corredores, as salas sombrias com um desagradável

cheiro e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota. Era um vencido.

Para êle, o futuro não tinha horizontes luminosos, desde que uma

adoração impura, penetrando-lhe insidiosamente na alma e incitando-o a

trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade de vir a

amar com paixão e pureza uma outra mulher que não fôsse Júlia.

Revoltava-se contra aquela adoração, acusava-se a si próprio por não ter

sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento diante da

espôsa de Nuno. A fatalidade pesava sôbre o seu destino, sôbre o seu

coração, que empolgava com mão de ferro.

--Mas serei eu o único responsavel?-- monologava.

E, na sua dor, alucinado por uma perturbação que lhe toldava o cérebro e

a noção da equidade, quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza

aliciante, pela sua superioridade de mulher e pelas suas admiráveis

virtudes.

A Morte Vence · 第 10 / 15 题