Os dias deslizavam serenos, para Frederico, no encanto da simplicidade
campestre, no íntimo convívio de Júlia e de Nuno. Nenhuma imperfeição da
vida dolorosa e amarga alterava a pacificação dum ambiente que se fazia
mais doce à volta de tanta ventura humana. Ao contacto permanente das
coisas e dos sentimentos puros, o coração de Frederico purificava-se
tambêm, como se fôsse um pouco sua a felicidade dos outros. Vivia numa
espécie de esquecimento, não se lembrava de ter sofrido moralmente,
parecia-lhe que, na sua existência árida, no seu sentimento estéril,
desabrochava, por fim, uma rara e ditosa flor. As faculdades emotivas
subtilizavam-se nêle; as tristezas, os desesperos que o haviam
atormentado em horas inquietas e febris, dissipavam-se na sua alma.
Passava por uma funda renovação, penetrava-o uma fôrça estranha,
formava-se-lhe na inteligência e na moral um novo princípio: e uma
prodigiosa multidão de sensações espontâneas, que não sabia interpretar,
convertiam-se, para êle, num intenso fenómeno psicológico.
--Parece-me que vou renascendo, Nuno!-- dizia Frederico ao antigo
companheiro de estudos. A alegria que existe em tua casa comunica-se-me
tambêm aos nervos, à sensibilidade. E é curioso! A minha confiança no
futuro, uma confiança que nunca foi grande, aumenta agora
sucessivamente. Porquê? Porquê? Que elemento operou êste milagre
estupendo?
--É porque só agora desperta em ti a capacidade mental para a
compreensão das coisas belas--afirmava Nuno, zombando. O sêr pensante
anda inconscientemente perdido no turbilhão do mundo, até ao momento
singular em que acorda para a verdade. Tu nunca leste o drama de
Ibsen:--«_Quando dentre os mortos nós ressuscitarmos_»?
--Nunca li êsse nebuloso escandinavo, na realidade...
--Fizeste mal, porque Ibsen ensina-nos a analisarmo-nos com lucidez...
Eras um morto. Começas a ressuscitar. E olha que é dêstes bons ares,
desta claridade puríssima, da paz rústica, da singeleza que nos rodeia.
Frederico, em momentos de solitude, concentrava-se, para melhor observar
o seu caso, que era bizarro: e tinha a impressão de que convalescia duma
doença de espírito e de corpo. Nesta convalescença, surpreendia-o um
facto enigmático. Com efeito, alvorecia nêle um encanto desconhecido que
o absorvia todo, que o exaltava e lhe perturbava os sentidos.
Levantava-se cedo, quando ainda a casa dormia na frescura da luz, na
ternura matinal, tomava o seu banho bem frio, que o tonificava, descia
ao jardim que o orvalho nocturno tornava mais viçoso, passeava nas ruas,
fumando, entregando-se ao prazer contemplativo, parando ingénuamente
junto dos arbustos floridos. Depois, Nuno levantava-se tambêm, vinha ao
seu encontro, ambos encetavam uma animada palestra, que se demorava
pelos inefáveis recantos de sombra--por onde circulava um ar estimulante
e ligeiro--até ao almôço. Perto de Júlia Frederico principiava a
sobressaltar-se, experimentava uma ansiedade confusa que o angustiava.
Nem sequer pretendia investigar a origem dêsse sobressalto, por temer
que dentro dêle se fizesse uma revelação assustadora e terrível... Via-a
andar dum lado para o outro, nas ocupações caseiras, tôda sorridente e
natural. A luz difusa imprimia-lhe mais nitidez e destaque às linhas
plásticas, dava uma irradiação maior à sua beleza de mulher
completamente formada. À mesa, sentada em frente dêle, perto de Nuno, os
seus olhos pensativos, iluminando-lhe o rosto, pousavam, por vezes,
sôbre Frederico, que se sentia feliz sob aquela muda carícia em que nada
de impuro existia: e o tempo ia fugindo, leve e animado, sem deixar
resíduos de fadiga.
Nas horas de solidão e de calor, Nuno, cansado, recolhia-se ao quarto
para dormir a sésta: e Frederico, pegando num livro, que escolhia na
pequena biblioteca do amigo, ou num jornal, dirigia-se ao parque, indo
sentar-se no banco de cortiça, sob a mosqueteira que, na tarde da sua
chegada, peneirara uma chuva colorida de florações sôbre Júlia e sôbre o
filho: e ali, fazendo esforços para recordar-se, evocava com saùdade um
passado que já ia muito longe, quando a sua existência era inconsiderada
e o seu pensamento não tinha inquietações. Na solidão, no isolamento,
estudava-se. Fôra sempre um afectivo, por necessidades de temperamento,
talvez por vícios de educação: e, justamente, essa afectividade levara-o
outrora para as aventuras de amor, em que procurava o infinito para a
sêde ardente que o devorava e em que sempre encontrou o desengano, a
desilusão, o aborrecimento, o desgôsto. Certas imagens femininas que
mais forte impressão lhe tinham produzido, despertavam um momento nas
suas recordações. Lembrava-se, sobretudo, de Adelaide, uma pobre e linda
costureira por quem se apaixonara e com quem fez um idílio saboroso que
durou seis meses. O alvorôço com que para ela fôra impelido, como se
essa mulher pudesse oferecer-lhe a verdade nos seus beijos!... Mas,
sossegada a animalidade dum sensualismo grosseiro, apaziguada a febre
carnal, viu que se havia iludido, mais uma vez, e que a crédula rapariga
que nêle confiara, entregando-se-lhe, nenhum gôzo emotivo e intelectual
lhe daria para assim prolongar uma voluptuosidade que a posse arrefeceu.
Nuno reconhecera êste seu romance, tinha-o mesmo reprovado, dizendo-lhe
que êle andava a gastar, em caprichos banais da fantasia e da luxúria, e
em desvairamentos românticos, a reserva de energia sensitiva de que
precisaria mais tarde para uma adoração séria que lhe enchesse tôda a
vida, que o transfigurasse. Só depois, quando o desalento surgiu--e com
êle o cansaço, o enfado, a saciedade--Frederico verificara que Nuno
estava na razão... Que seria feito de Adelaide? Em que lamaçais
profundos teria caído? Por que despenhadeiros a iria conduzindo a mão
implacável do destino? Frederico, na noite em que decidiu separar-se
dela--uma noite tempestuosa que decorreu entre lágrimas e
lamentações--deixara-lhe sôbre a roupa desfeita do leito uma carteira
com dinheiro. Fôra a sua primeira acção vil, porque nenhum ouro pagaria
a felicidade para sempre destruida duma alma que era virginal quando o
seu egoísmo a encontrou; mas, nesse procedimento, reprovável de-certo,
guiara-o ainda a generosidade. Parecia-lhe que um punhado de notas de
Banco atenuaria o seu abominável feito--e só agora reconhecia o seu êrro
e a sua ignomínia...
Com o livro ou o jornal, que não lia, abertos sôbre o joelho, scismando
ininterruptamente, seguindo com os olhos vagos as espirais de fumo do
charuto, que se esgarçavam e ascendiam na atmosfera luminosa, Frederico,
durante longas horas, revivia os seus fantasmas inertes e experimentava
a sensação dum pêso contínuo que o esmagava, que esmagava tôda a sua
vida. Oh! a bela quimera dum amor eterno, conservando sempre a mesma
intensidade, a mesma fôrça superior de atracção, uma fonte inexaurível
de sentimento, uma novidade que jàmais, jàmais, se banalizasse para os
corações que fizesse palpitar! Existia êle, na verdade? Ou não seria
mais do que uma mentira entre o acervo de mentiras de que o mundo estava
cheio e que os homens criavam conscientemente para se iludirem a si
próprios?...
Mas, quando o seu scepticismo era mais devastador, o exemplo da união
feliz de Júlia e de Nuno surgia-lhe como a imagem tangível dêsse amor de
que duvidava. Então, para explicar a contradição que lhe exacerbava o
sofrimento, construía teorias originais.
--O que há é almas completas e almas incompletas. Umas, possuem uma
finura sensível que as torna perfeitamente aptas para a vida amorosa.
Outras não teem uma receptividade que as faça vibrar sob as influências
dessa vida, e daí deriva todo o mal, que vai espalhando nas sociedades a
funda melancolia contemporânea. A alma de Nuno pertence às primeiras...
De resto, Frederico entendia que as verdadeiras mulheres são as
admiráveis educadoras do sentimento, as inspiradoras sublimes de tudo o
que pode fazer os homens grandes dentro do lar. Júlia era uma dessas
mulheres excelsas, pelas graças do corpo e pelas graças mais puras e
elevadas do espírito: e a ventura de Nuno provinha de êle a ter
encontrado no seu caminho. Por sua parte, em vão buscaria uma criatura
assim, que fôsse a companheira ideal e perpétuamente desejada, a amante
incomparável, a espôsa atenta, a mãe solícita! Com ela, a sua existência
improdutiva entraria numa fase diversa e activa, numa realidade que
nunca se extinguisse...
Lembrando-se insistentemente de Júlia, Frederico era assaltado por um
sentimento curioso. Tinha a sensação especial de estar encerrado num
círculo muito estreito, em que nada havia de claro, de definido, de
preciso. Tôdas as impressões da natureza exterior passavam por êle,
velozmente, sem lhe provocarem uma simpatia mais demorada. Apenas lhe
ficava, na intimidade moral, a noção profunda do seu próprio isolamento,
entre a vastidão e o tumulto das aspirações indecifráveis. Sofria essa
fascinação estranha que um desejo veemente--que se não abandona, porque
o abandôno excitaria o padecimento, e se não procura realizar tambêm,
porque a realização teria conseqùências funestas--produz nas almas!...
Por cima da sua cabeça, a mosqueteira, ramalhando ao vento, sacudia os
seus cachos aromáticos que se desfolhavam numa nuvem loura; ao seu lado,
a fonte, correndo no jôrro faíscante da água entre musgos verdes e
veludosos, cantava sempre, exalando-se em frescura e murmúrio.
Frederico, extenuado de imaginação pelas suas infindáveis _rêveries_,
erguia-se, fechava o livro inútil, o jornal mais inútil ainda, e
recomeçava o passeio por entre os arvoredos, por entre os canteiros de
flores, onde umas abelhas, tam douradas como as do Hymeto, procuravam o
mel. Nuno, às vezes com os olhos inchados de sono, uma preguiça que lhe
comunicava lassidão, um pouco còrado, descia ao jardim, perguntava-lhe:
--Em que passaste o tempo?
--Meditando, sentado num banco do parque--respondia Frederico.
--Procuras, como S. Bruno, os logares solitários para pensares nas
felicidades do céu?
--Homem, ando a tratar da minha conversão e S. Bruno, efectivamente, é
um modêlo desejável.
--E se fizéssemos uma jornada mais larga, por êsses campos, por essas
amplidões? Júlia podia ir tambêm...
--Acho o teu alvitre muito digno de ser aceito.
Iam acima chamar Júlia, calçar luvas que lhes resguardassem as mãos dos
bafos da soalheira e do pó cáustico dos caminhos, e na suavidade
maravilhosa da tarde, rindo, conversando, sensíveis ao mais fugidio
eflúvio do ar ambiente, metiam pelos atalhos escorregando por entre
sébes que as madre-silvas perfumavam, por azinhagas onde havia repouso e
penumbra, por congostas que os ervaçais reverdeciam. A essa hora do dia,
no delíquio da luz que principiava, tudo era gracioso, jovial. Dos
casais disseminados pelas terras cultivadas, subiam colunas delgadas e
direitas dum fumo branco, que algodoava o espaço. Nas eiras secava o
milho, que lembrava pequeninas bolhas de sol cristalizado. Errantes, nas
pastagens, os bois erguiam um instante a cabeça, para os ver passar,
fitando-os com uns grandes olhos de infinita melancolia. Júlia que
marchava à frente, na elegância dum vestido de tecidos leves que lhe
modelava puramente as formas corpóreas, assustava-se, tinha mêdo,
soltava pequeninos gritos, acolhia-se à protecção de ambos. A palha do
seu chapéu em que, entre laços de veludo negro, destacava a côr
sugestiva de pálidas rosas de toucar, fazia-lhe uma sombra doce no rosto
adorável. Nuno animava-a:
--Que mulher! Que criança! Tem mêdo dos bois, que são tam mansos. Oh!
tôla! Olha que não fazem mal!...
Frederico ria-se e achava-a encantadora.
Cortavam através das pradarias, das lezírias, das veigas, ao acaso, sem
fim. Às roupas de Júlia prendiam-se os perfumes dos fenos atravessados,
que as suas saias roçavam, as seivas vitalizadoras das ervas esmagadas.
Sentiam uma grande e nobre pacificação interior. O gôzo íntimo
emmudecia-os.
--Hein, Frederico? Como isto é diferente da cidade! Era preciso que
conhecesses a aldeia, homem. A aldeia é a verdade--dizia Nuno,
entusiasmado.
Frederico não conhecia a aldeia, com efeito, e nunca imaginara, vendo-a
através das janelas de combóios lançados a tôda a velocidade, que
pudesse seduzir sêres civilizados; mas, eis que ela se lhe revelava,
totalmente, por uma feição atraente, que o cativava. Louvava, com
sinceras palavras, a fertilidade dos extensos domínios, que são o
Calvário da gente humilde e que a sua dor, o seu suor, a sua miséria,
fecundam; as casas dos camponeses, duma arquitectura rudimentar; os
milheirais de longas fôlhas já sêcas, ondulando e rangendo à aragem; a
paìsagem que a luz, fulva e rutilante, espiritualizava, transmitindo-lhe
animação, uma vida quáse supersticiosa, insuflando-lhe uma alma. De
quando em quando, Júlia, batendo as palmas de contente, detinha-se para
observar de perto as trepadeiras silvestres que se cobriam de
florescências cheirosas, e as suas mãos, que eram tam lindas, tinham
delicadezas extrêmas ao tocarem nas folhagens, nas corolas rescendentes.
--Veja que beleza, Frederico!--convidava ela.
E fazia um ramo que prendia, com alfinetes, na blusa de sêda--uma sêda
transparente que o tom sadio e casto da sua carne rosava.
A cada momento deparavam vergeis em que os frutos apetitosos
amadureciam. Nos ramos mais altos, as maçãs còravam ao calor como faces
humanas; as laranjas, no meio das fôlhas, redondas e amarelas--dum
amarelo brilhante,--ofereciam-se às gulodices. A terra mostrava-se
hospitaleira e generosa, e Frederico, já iniciado, sob o céu que tinha a
meiguice dum amoroso olhar humano, compreendia, enfim, que essa terra,
mãe piedosa e inexaurível, comunicasse às criaturas um pouco da sua
bondade clemente, da sua energia vigorosa, inspirando-lhes uma regra
justa da vida. Diante dos casebres pobres, Júlia, compadecida, parava,
contemplando com piedade as crianças rotinhas e sujas que brincavam
pelos portais e pousando-lhes os dedos sôbre as cabeças. Elas
fitavam-na, espantadas, com um secreto temor no olhar.
--A vossa mãe?--perguntava.
--Não está cá--respondiam elas, com modos agressivos.
Dava-lhes moedas de cobre, amimava-as com essa ternura que só as
mulheres felizes conhecem, enquanto Nuno, enojado da porcaria em que a
gracilidade daquela infância murchava, dizia:
--Nas aldeias há, de-certo, muita pobreza, muita penúria. Mas tambêm há
muito desleixo. Oh! senhores, uma tina de água transformaria em flores
êstes pequeninos selvagens!
--Que queres tu, Nuno?--atalhava Júlia, condoída. As desgraçadas mães
trabalham um dia inteiro e quando chegam a casa o que querem é repousar.
Vendo-a assim, luminosa, pura e branca no meio das meninices desditosas,
Frederico tinha a visão deslumbrante duma aparição celeste baixando do
azul, num vôo brando, para consolar aflições, acolher no seu desamparo
as plebes lacrimosas, sarar feridas, suavizar torturas: e cada vez a sua
admiração por Júlia mais crescia. Nela tudo era perfeito, sedução,
perfume, ritmo, claridade: e o encanto que derramava à sua volta
penetrava-o até ao âmago da consciência. Pensando na sua beleza, na
unção da sua bondade, abstraía-se por tal modo que até chegava a
esquecer Nuno, marchando ao seu lado: e era-lhe necessário fazer um
esfôrço violento para reentrar na realidade das coisas.
Nestes instantes, analisando-se, espavorido, perguntava a si próprio se
não estaria interessando-se demasiadamente por essa mulher tam digna e
tam cândida que, legítimamente, pertencia ao seu melhor, ao seu único
amigo. No espírito passava-lhe confusamente a recordação doutros dias já
extintos em que, entre êle e Nuno, se fôra consolidando uma camaradagem
nunca interrompida; e, por isso mesmo, julgava que a fôrça secreta que o
impelia para Júlia era uma traição... Uma traição? A esta ideia, ficava
transido de terror e ansiosamente pretendia conhecer a essência da sua
admiração, da sua simpatia, para ver se nelas surpreenderia qualquer
coisa de impuro: mas, a análise minuciosa tranqùilizava-o. Não! Não
existia nenhuma impureza no seu sentimento. Amava Júlia santamente, como
amaria uma irmã mais nova.
--Em que diabo vais tu a matutar, Frederico?--interrogava Nuno,
intrigado com a sua prolongada mudez.
--Eu? Em nada! A paz rural mergulha-me num estado psíquico de tal ordem
que me torna incapaz de sustentar uma conversa. Verdadeiramente, nem sei
o que hei de dizer. Custa-me a articular os vocábulos, a construir as
expressões.
Quando o crepúsculo, descendo progressivamente, idealizava as
perspectívas e desdobrava sôbre arvoredos, sôbre outeiros, pelas
encostas, pelos vales mais fundos, uma sombra e uma névoa que de
instante para instante se adensavam e gradualmente escureciam,
regressavam a casa, satisfeitos, reconciliados com a natureza que lhes
ofertava alegrias, prazeres nunca experimentados. Júlia, pousando os
ramos de flores silvestres, que sempre trazia das suas digressões pela
campina, corria para o filho, já saùdosa da sua inocência, da sua
formosura. Devorava-o com beijos, acariciava-o com meiguice, mostrava-o,
orgulhosamente, a Nuno, que sorria enlevado, a Frederico, que a fitava
num alheamento. Os _stores_ subidos das janelas deixavam entrar os
derradeiros fulgores da claridade expirante. Lentamente, o céu
embranquecia. Longe, as linhas dos montes tinham enredamentos
complicados que decompunham uma paìsagem quáse sem realidade,
fantástica, cheia de vago e de mistério.
--E se tu tocasses alguma coisa antes do jantar, Júlia?--lembrava Nuno.
Até nos abria o apetite...
--Pois sim! Que queres que eu toque? Prefere alguma composição,
Frederico? Ou tem horror á música?
--Eu, minha senhora? Sou um guloso do som...
A delicadeza de Júlia, interrogando-o sôbre as suas preferências
musicais, encantava-o. Não seria isto já uma correspondência da simpatia
fraterna--oh! simplesmente fraterna--que sentia por ela? A suposição
alvoroçava-o.
--Que eu toco mal, muito mal. Não me julgue uma grande artista. Há
dificuldades que nunca me foi possível vencer. Preciso que me escute com
benevolência...
--Deixa falar, Frederico. É exímia, por exemplo, em Chopin--nos
_Nocturnos_,--afirmava Nuno.
Júlia, protestando, sentava-se ao piano. O marfim das teclas reluzia
ainda no fulgor indeciso da luz moribunda. O verniz dos móveis perdia o
brilho. A sombra parecia prender-se molemente aos cortinados de renda,
amontoar-se aos cantos: e um _Nocturno_ soluçava, em harmonias, sob os
dedos afusados de Júlia, em que as pedras dos aneis chamejavam fogos
mortiços. Nuno e Frederico, sentados em poltronas de molas flácidas e
embalados pelo afago da música, em que vozes ignoradas, vindas de muito
longe, das mais recônditas regiões da alma, se lamentavam, narrando a
tristeza das aspirações nunca alcançadas, os sonhos de amor traídos, as
ilusões nunca realizadas, fechavam os olhos para mais se absorverem no
segrêdo, no mistério espiritual dessa música divina que pouco a pouco, e
por influxo da sua beleza, da sua potência expressional, da sua doçura
penetrante, extinguia todos os azedumes, acalmava, pacificava as
imaginações sobreexcitadas, era como que uma simbólica promessa de
aspirações veementes que haviam de realizar-se e parecia conter em si o
sentido oculto da graça de viver. Fóra, na noite silenciosa, a lua
branca e enorme flutuava no céu, entornava o seu luar suave como uma
carícia pelo jardim adormecido, sôbre as ramagens dos arvoredos imóveis
do parque, alongava as formas, transmitia às coisas inertes quáse que
uma emoção.
Na cozinha, em baixo, a vélha Margarida terminava o jantar. O clarão
vermelho do lume, que ardia no fogão, irradiava, reflectia-se em cheio
nos cobres e nos metais, que resplandeciam, enquanto dois belos gatos
ingleses, cinzentos e listrados de negro, ronronavam ao calor,
enrodilhados debaixo duma mesa. Depois, o piano calava-se, numa
derradeira vibração de som: e na tranqùilidade que envolvia a vivenda, a
sineta retinia, anunciando festivamente a refeição, que se prolongava
até tarde, entre as conversas.
Muitas vezes, se o tempo corria brandamente e a temperatura convidava,
Frederico e Nuno baixavam ao jardim, fumando e palestrando, ou, com
Júlia, iam sentar-se à varanda, entre as avencas, os fétos arbóreos, as
begónias, contemplando a scenografia nocturna, que era surpreendente. Os
campos solitários, sob o fulgor do luar, repousavam sem um sussurro. Um
lento nevoeiro elevava-se para o alto como uma ténue nuvem de algodão,
esfumando a paisagem. Os casais adormeciam na efusão luminosa,
extenuados da lide diurna. A paz que caía sôbre a natureza, como uma
bênção de Deus, era infinita e inexprimível. De instante a instante, a
aragem desprendia das frondes fôlhas mortas que baixavam vagarosamente,
quáse imperceptíveis, que se demoravam um momento, no ar, trémulas,
hesitantes como asas de falenas. No seu recolhimento, Júlia dizia, em
voz baixa, para não perturbar o enlêvo contemplativo em que os três se
abismavam:
--Admirável! Admirável! Só o campo ainda pode oferecer êstes
espectáculos aos que veem do ruído, da barafunda das cidades!...
O timbre da sua voz, que era muito puro, mais encanto imprimia ao êxtase
do Frederico, sentindo que alguêm muito suavemente lhe falava à alma
para revelar-lhe sensações nunca experimentadas...
* * * * *
Nessa manhã, Júlia, que estivera tocando a _Sonata Patética_, de
Beethoven, descansava ainda os dedos fatigados sôbre as teclas, enquanto
Nuno e Frederico, encostados ao peitoril da janela, espreitavam o
parque. Uma criada entrou, de repente, na sala, com o correio. Eram
cartas e jornais, de que êles logo se apoderaram para conhecerem o que a
cidade, pela sua imprensa ou pelas suas epístolas, lhes revelaria de
mais importante. Em face da pressa com que ambos correram para a
correspondência, Júlia riu saborosamente, comentando:
--As grandes aglomerações hão de ser eternamente tentadoras para os que
um dia habitaram a sua perigosa confusão.
--Porquê?--interrogou Nuno.
--Ora! Ainda perguntas! A ansiedade com que todos os dias esperas o
correio! E dizes que te agradaria ficar aqui, para sempre...
--Viva! Viva!... Sim, senhor!--bradou Frederico, de súbito, concluindo a
leitura duma carta.
--Que é, homem?
--Pois, é uma coisa estupenda. Nem podem imaginar!...
--Entrou a revolução no Vaticano? Foi proclamada a monarquia na Suíça?
--Santo Deus, não. Êsses factos consideráveis não me causariam surprêsa,
porque hão de dar-se àmanhã, daqui a um ano, a dois séculos... O caso é
êste:--a Alice Tôrres fugiu ao marido.
--A Alice Tôrres? Quem diabo é essa Alice?--perguntou Nuno.
--Ora, tu conheces... A Alice, uma loura, casada há dois anos com o
Fernando Tôrres, que foi nosso condiscípulo na Politécnica e que não
concluiu o curso...
--Ah! sei, sei... Perfeitamente... Agora me lembro. E tu tambêm
conheces, Júlia.
Voltaram-se ambos para ela, que ainda se conservava ao piano, muito
còrada do pudor melindrado.
--Sim, eu conheço-a... É uma infeliz!
--Infeliz?... Não, o nome que ela merece é outro mais violento.
--Oh! Nuno! Jesus!...
--Queres, talvez, desculpá-la?
--Não! Lamento-a... O seu acto não tem desculpa, mais inspira compaixão.
--O que êle inspira, no meu entender, é bengaladas--atalhou Nuno,
brutalmente.
--O que, porêm, torna mais reprovável esta fuga é que o homem que ela
seguiu foi o Vaz de Sousa, o amigo íntimo, a inseparável sombra do
marido--comentou Frederico.
--O que? Que porcaria é essa?--atalhou Nuno, com furor.
--Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Está aqui a coisa com todos os
pormenores, nesta carta que me escreve o Alfredo de Oliveira.
E, para dar às suas revelações um ar mais solene e verídico, Frederico
leu alguns trechos menos escabrosos.
--Ouçam, que tem graça:--«O grande escândalo da semana forneceu-o a
mulher do Fernando Tôrres, a scismadora dos olhos ideais, que se safou,
com tôda a semcerimónia e todo o descaramento, com o Vaz de Sousa,
visita permanente dêste curioso ninho conjugal. Simpatia romântica?
Admiração pelo ôlho lúbrico e pela melena do amante? Não sei! Mas o
palerma do marido--que nunca percebeu que os dois há muito conjugavam o
verbo inglês _To flirt_--está como uma bicha. Há miopias fatais e a de
Fernando foi uma delas... Aqui tens tu!...»
Nuno, muito sério e sombrio, cofiava o bigode, enquanto Frederico lia.
Júlia, emmudecida, curvada mais sôbre o piano, batia nervosamente com a
ponta da unha sôbre um caderno de músicas. O silêncio tornava-se
angustiado e embaraçoso para os três.
--Que fará agora Fernando?--perguntou, finalmente, Frederico,
levantando-se da cadeira em que estava sentado e dando alguns passos
sôbre o tapête.
--Não faz nada!--replicou Nuno. É um imbecil e, alèm disso, é um
grotesco. Ainda havemos de vê-lo, outra vez, muito amigo da mulher,
depois de perdoar à Madalena arrependida. Coitado, tem bom coração, é
inultrapassavelmente cómico e a sua dignidade é uma hipótese...
--Crédo, Nuno!--interveio Júlia. Pois, é lá possivel?
--Com êste idiota, tôdas as vergonhas são possíveis--afirmou sêcamente.
Ergueu-se tambêm, torceu o bigode com fúria e depois, de mãos nos
bolsos, parando diante de Frederico:
--Se êle fôsse, na realidade, um homem, sabes o que fazia?
--Procurava uma solução violenta...
--Tu o disseste... Porque esta traição carecia dum castigo tremendo,
exemplar, moralizador. Portanto, partia atrás dos fugitivos, com um bom
punhal ou uma bôa pistola, corria até os encontrar, e, seguidamente,
frio, implacável como a vingança, abatia-os a tiro como dois animais
malfazejos e imundos, retalhava-lhes as carnes sórdidas à punhalada,
molhando bem as mãos no sangue culpado, que escorresse das feridas, para
se lavar...
Nuno falava apressadamente, com uma raiva concentrada nos olhos, que
fulguravam. Júlia desconhecia-lhe aquela cólera que de súbito irrompera,
costumada como estava a vê-lo sempre afável, sempre terno, cheio de
delicadezas e de tolerâncias para tôdas as fraquezas humanas.
--Não há nada que mais me transtorne, que me perturbe até à loucura, do
que uma deslealdade--explicou êle. E neste caso, Frederico, há
deslealdade e há vileza. O coração humano tem abismos de infâmia
insondáveis...
Júlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava na doida que um
engano de amor fazia desertar do lar, para perseguir aventuras
ilusórias, obrigando-a a romper com o respeito e a consideração da gente
honesta, com as convenções sociais, a cobrir-se de lama, a preparar por
suas próprias mãos um destino que seria doloroso e cruel. Tinha-a
conhecido no colégio, outrora, na mocidade, fôra mesmo amiga dela até ao
momento em que a vida as separara. E compadecida com aquele
desvairamento, encontrava na sua bondade e na sua pureza um sentimento
para atenuar a sua culpa.
--Vais-te?--inquiriu Nuno.
--Tenho tanto que fazer, filho!--respondeu ela.
Nuno e Frederico ficaram sós, no salão que a luz, entrando pelas
vidraças descidas, alegrava. Sentaram-se em frente um do outro, reatando
a conversa momentâneamente interrompida.
--Ela era uma cabeça no ar--dizia Frederico. E o ludibriado não valia
mais do que a mulher.
--Todos os maridos--retorquiu Nuno com rancor--teem as mulheres que
merecem; e êsse Fernandete, já depois de casado, continuava uma
existência de devassidões. Ora, o casamento é um acto de
responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade mútua dos cônjuges.
Fóra dêstes limites de dignidade e de nobreza, transforma-se numa
miséria. Mas o que me indigna não é a fuga da adúltera. Caso banal...
Ocorre constantemente... E muitas vezes, mesmo, pode até justificar-se.
--Então que é?
--Mais desprezível do que Alice e do que Fernando é êsse Vaz de Sousa,
abusando duma estreita amizade e da entrada num lar que o recebia
confiadamente, para praticar as suas odiosas façanhas...
--Sim, com efeito!...--aprovou Frederico.
--É reles, é dissolvente de tôda a moral.
E puxando mais a sua cadeira para junto do amigo, para que só êle o
ouvisse nas confidências que ia fazer-lhe, Nuno continuou:
--O primeiro dever do homem justo é saber defender integralmente a
sinceridade dos seus afectos--porque para isso pensa--e saber dominar o
impulso das suas paixões bestiais--porque para isso difere dos brutos e
tem uma consciência. Posso falar assim, porque já tive de repelir
ásperamente dos braços a espôsa dum conhecido--um simples conhecido,
nota!--que por fôrça queria enxovalhar o marido comigo.
--E quem era essa interessante dama?
--Perdoa-me. Não to digo--afirmou Nuno com energia.
--Desculpa-me... A minha curiosidade é, na verdade, irreflectida...
--Foi no último ano do nosso curso... Nunca te falei nisto, por
dignidade, porque me rebaixaria. Há coisas que sujam... Mas, o mais
pitoresco é que êsse marido e essa dama se transformaram, mais tarde, em
meus inimigos irreconciliáveis!... Não é encantador?... Embora! Ainda
hoje me louvo por esta acção, que é uma das mais belas da minha vida,
Frederico!...
--Efectivamente, há beleza, há coragem, há heroísmo nela. Só conheço um
acontecimento semelhante na História Sagrada--riu Frederico.
--Tu, que és justo e que és leal, vê isto:--Mete a gente, ingénuamente,
na sua casa um homem que nos merece a maior confiança, para quem vai a
nossa dedicação, tôda a nossa afectividade. E desde o primeiro dia em
que lá entra, êsse homem, êsse amigo certo, começa a observar que a
nossa espôsa é bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor dos
seus beijos e doce a palpitação da sua ternura. Como goza de favores que
só se concedem às pessoas que verdadeiramente se estimam, há para êle as
maiores deferências. Surgem as ocasiões propícias à traição, veem as
intimidades, as fraquezas da mulher confiante. Diz-se-lhe uma palavra
mais ousada, que lhe melindra a candura, mas que a não faz protestar. A
sua passividade dá coragem ao sedutor para levar mais longe a audácia.
Depois, ambos cúmplices no crime premeditado, encontram nêle
solicitações cada vez mais fortes. São os sustos perto do marido que se
engana abominávelmente, a suspeita de que êle venha a descobrir tudo e
se vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por fim, chega-se à quéda
irremediável, a maior injúria com que se pode humilhar uma criatura. E
de quem parte essa injúria? Duma pessoa indiferente ao nosso sentimento,
alheia aos nossos interêsses morais, à nossa alma? De modo algum! Parte
dum amigo!...
--É horrivel, na verdade!--asseverou Frederico.
--É pavoroso!
--Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender bem, Nuno? Pois, é
isto. Nos casos de adultério em que a mulher prevarica, as ironias
insultantes da multidão vão para o marido. Para a prevaricadora existem
a piedade e a absolvição!...
--Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre impulsiva, injusta, não
raciocina, não procura ser equitativa nos seus juízos... Mas, por isso
mesmo, os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. Eu, no
logar de Fernando, matava-os! Matava-os, trucidava-os, despedaçava-os
como bêstas feras!...--concluiu Nuno, rilhando os dentes de furor.
Júlia, surgindo imprevistamente, veio surpreendê-los ainda no comentário
fatigante daquele escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais negra
na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir livremente a
jovialidade de Frederico.
--Então, aqui fechados, com um dia que é uma delícia, um verdadeiro dia
de rosas?--exclamou ela, com uma extraordinária animação no rosto.
--Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com as suas infelicidades caseiras,
veio estragar a nossa paz de espírito--murmurou Nuno. Queres ir até lá
abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes na habitação do
caseiro, Frederico? É uma diversão que nos há de fazer bem!...
--Não! Se mo permites, aproveito o tempo para pôr em ordem uma
correspondência atrasada e desordenada. Olha que estou aqui, na tua
hospitaleira vivenda, há duas semanas e ainda não respondi a ninguêm!
Quem sabe se me julgarão morto ou exilado?
--Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres de bisbilhotice.
--E eu acompanho-te, Nuno--acudiu Júlia.
--Tu? Mas é admirável a companhia. O príncipe e a princesa passarão as
horas fazendo _le tour du proprietaire_ e oferecendo-se à veneração dos
seus súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... Então, de-pressa!
Vem daí.
--Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre gente, essa entrevada de
quem me falaste, essas crianças desgraçadas...--disse Júlia, comovida.
--_Au revoir_, Frederico. E sê prolixo, homem... Olha...
Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer coisa que Júlia não pôde
perceber, e riram ambos com alacridade. Descendo a escada, atrás da
espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico se encerrava no
escritório, diante dum tinteiro, de cadernos de papel de cartas e duma
jarra com rosas frescas que Júlia tôdas as manhãs renovava para que ali
houvesse continuamente graça, côr e perfume.
Sôbre a escrivaninha de pau preto com ferragens amarelas e polidas que
refulgiam, brilhavam no banho fluido da claridade envolvente, havia um
soberbo retrato de Júlia, representando-a vestida de baile, em corpo
inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta na fotografia, tinira uma pureza
de linhas, uma opulência de contornos, um relêvo, um esplendor
indizíveis. O decote deixava a descoberto o princípio do seio, que era
redondo e farto; o pescoço, desafogado da espuma das rendas, exibia uma
elegância e uma nitidez impecável de modelação, tendo a gracilidade e o
movimento de certos caules de flores, ondulando à aragem. Uma expressão
de felicidade sem nuvens animava todo o seu rosto; e uma grande rosa
prendia-se à _corsage_. Frederico esteve contemplando o retrato um
instante, perdido em vagas meditações. Como ela era graciosa e divina,
efectivamente! Os seus olhos tinham um encanto virginal ainda--um
encanto que as lágrimas não haviam queimado. De tôda ela se exalavam,
imperceptivelmente, a castidade, a sedução, a ternura. A casa estava
impregnada da sua personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo. Júlia
era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma, com a sua dedicação
de mulher, com a sua abnegação, com o reflexo da sua formosura, aquela
habitação em que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males da
existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de Nuno, mais presa do que
nunca à sua paixão, suavizando-lhe os dias, acalmando-lhe as
inquietações, assistindo à formação das suas vontades, dos seus desejos,
das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, oferecendo-lhe a bôca
num beijo. Experimentava uma inexprimível consolação interior, pensando
nela...
Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe à memória a cólera
tempestuosa de Nuno, quando soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres
com o outro--uma cólera que se adensava no olhar, que ardia, que
coriscava, que chamejava... Os dois amantes iriam agora, entregues ao
ardor da sua volúpia pecaminosa, impura, talvez para as cidades
estrangeiras onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez dum gôzo que
dura apenas um fugaz minuto e com que a desgraça fabrica a dor, que é
eterna. Mas ao menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si mesmo
perguntava se êsse minuto, de que restaria uma perdurável recordação,
não constituirá a felicidade duma vida, de duas vidas inteiras...
Para fugir ao curso mórbido das suas lucubrações, Frederico levantou-se,
aproximou-se da janela, na ponta dos pés, como se temesse que o
sentissem. Na radiação loura da manhã, uma alegria esparsa flutuava
sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia um arôma adocicado. Nuno e a
espôsa, de braço dado como dois namorados, afastavam-se ao longe,
através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos musgosos alvejava
a brancura do vestido de Júlia--brancura que ficava pairando no ar
macio... Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa tristeza
abatia-se sôbre o seu coração...