´Que posto S. A. estivesse t„o infermo lhes ouviu _pacientemente_ esta

resposta no dia 25, e lhes respondeu que dentro de dois dias

sentenciaria sobre o ponto da eleiÁ„o, e assim os despediu:ª

´Que depois mandou chamar os do seu conselho e letrados, que assentaram

n„o tocar aos procuradores a eleiÁ„o, e que se esperava a sentenÁa sobre

este artigo no dia seguinte:ª

´Que n'aquelle mesmo dia enviara S. A. o bispo Pinheiro com um recado

aos procuradores, aspero, segundo dizem, o que saberia quando o bispo

voltasse:ª

´Que, vivendo S. A. oito dias, espera que amansem; e quando n„o queiram,

como diz _aquelle amigo_, tem S. A. determinado levar o negocio ao

cabo:ª

´Que o _amigo_ faz mui bons officios com S. A., e elle solicita esses

officios, apertando-o com os inconvenientes que poderiam sobrevir:ª

´_Que os fidalgos e prelados est„o mui conformes_ com a vontade de S.

A., e que tudo depende da sua vida:ª

´Que D. Antonio È que traz alterados os procuradores por intervenÁ„o de

frades, fazendo todos os maus officios que podem contra S. M.:ª

´Que com aquelle seu amigo francez, que est· por parte do seu rei

solicitando os procuradores e D. Antonio, procurou falar, e

responder-lhe que D. Antonio lhe tinha dicto que se a sentenÁa se dÈsse

a favor de S. M. _elle seria o primeiro a vir beijar-lhe a m„o como a

seu rei_, e quando n„o, nada queria fazer:ª

´Que soube do francez que o seu rei se via muito embaraÁado com os

lutheranos, e que n„o queria que os portuguezes confiassem muito no

soccorro d'elle:ª

´Que S. A. manda hoje o meirinho-mÛr[38] a Lisboa para socegar a gente

do povo e ter conta na cidade, e vai com mui bom animo e vontade.ª

(´N„o ia a isso, segundo me escrevem, mas sim a prevenir a armada que ha

de ir para a India, como vedor da fazenda, que È agora, o que vem a ser

como contador-mÛr. E teem n'isto das armadas melhor fÛrma que

c·.ª--_Nota de Philippe II, · margem_.)

´Que, despedindo-se de S. A. (o meirinho-mÛr), lhe disse que

sentenceasse por S. M., _visto haver-lhe dicto que o direito era seu_, e

que se apressasse em dar o seu a seu dono, e n„o deixasse o reino em

perdiÁ„o:ª

´Que S. A. lhe respondeu que em breve sentenciaria.ª

´Que a isto lhe replicou o meirinho-mÛr que dÈsse a sentenÁa e n„o

curasse de tractar de concertos com os procuradores, os quaes depois se

poderiam fazer com S. M.; ao que lhe tornou que d'um modo ou d'outro n„o

tardaria a dar a sentenÁa.ª

´Que o meirinho-mÛr faz novas instancias sobre a conveniencia de S. M.

se approximar das fronteiras d'aquelle reino.ª

´Que S. A. n„o est· bem com o duque de BraganÁa, _nem o pÛde ver, depois

que n„o quiz fazer o que lhe mandou propÙr por Paulo Affonso, e ainda

mais depois que lhe disseram que anda em ajustes com D. Antonio_.ª

´Louva o bom proceder e officios de D. Christov„o de Moura, e diz que

elle por sua parte n„o descanÁar·.

´Espera que ainda que os procuradores bravateem n„o se poder„o defender,

porque n„o tÍem dinheiro, nem muniÁıes, nem armas, nem gente de vulto;

nem pensam que S. M. haja de se mover d'aqui.ª[39]

´Entende que em l· sabendo que S. M. se encaminha para aquelle reino se

aplacar„o.ª

Os extractos immediatos aos que anteriormente public·mos s„o de uma

carta, datada de Almeirim a 22 de marÁo de 1580 e escripta pelo

licenciado Medellin, que d'esta carta e d'outra sua se vÍ ter sido um

dos mais activos agentes da usurpaÁ„o castelhana. … um dos documentos

importantes, pelas materias de que tracta e notas que o acompanham. O

seu conteudo È o seguinte:

´Recebeu as cartas que se lhe escreveram.ª

´Representa haver feito l· todos os bons officios que pÙde, e que aos

ministros de S. M. parece que elles tÍem aproveitado.ª

´Que Miguel Telles, alcaide de Marv„o, ainda n„o partiu, e que o acha

duro de condiÁ„o, ainda que o escutou placidamente, e que espera

reduzil-o, posto que lhe affirmasse que a qualquer outro n„o soffreria o

que lhe elle disse.ª

´Que Manuel Alvarez, homem nobre e rico, que È feitor do irm„o do

alcaide, e todo d'elles, e que vive n'aquella praÁa, levou elle Medellin

a casa de Rodrigo Vasquez; que este se offereceu para servir devÈras a

S. M. tractando em Marv„o com todas as cautelas com Miguel Telles para o

pÙr em bom caminho.ª

´Que as cartas que S. M. mandou escrever aos Tres-Estados foram bem

recebidas, e fizeram muito effeito, junctamente com o discurso que

Rodrigo Vasquez lhes fez.ª

´Diz que houve descuido em n„o falar aos procuradores antes, e

principalmente quando el-rei morreu: que isto fÙra de grande

importancia, como o advertiram Antonio Carrilho, procurador por Marv„o,

e outros. Que elle o lembrou e assim se resolveu, mas que atÈ agora se

n„o fez.ª

´Tambem diz que foi de parecer que os procuradores estivessem em

Almeirim, para que todos os dias se podesse tractar com elles, e n„o

ficassem entregues a D. Antonio; que os dictos procuradores se mostram

sentidos do pouco caso que se fazia d'elles.ª

´Que os que tinhamos por nossa parte se ausentaram ha dias, logo que se

lhes declarou que as cÙrtes estavam acabadas com a morte d'el-rei; e n„o

havendo quem os entretivesse se foram os mais d'elles; ficando os

parciaes de D. Antonio e do duque de BraganÁa, que por certo buscavam

meios de os reter.ª

´Demonstra como este inconveniente se deu na realidade, porque j· se

experimentou com os outros dois BraÁos que tÍem estado em Almeirim, os

quaes se mostram mais partidarios de S. M. por os seus ministros os

haverem tractado; e os procuradores, por n„o os haverem conversado, se

tÍem portado mal causando alvorotos.ª

´Que os procuradores que estavam de bom animo lhe diziam que n„o ousavam

falar, porque em falando iam · noite a suas casas queixar-se (os

outros?) que n„o os deixavam em liberdade.ª

¡ margem dos paragraphos antecedentes acham-se tres notas, duas pela

letra de Philippe II, e uma pela de D. Jo„o da Silva.

Primeira, de Philippe II:--´Veja o conde tambem esta, que ha ahi cousas

de consideraÁ„o.ª

Segunda, de D. Jo„o da Silva:--´Esta È mui boa carta. O bispo de

Portalegre que torne logo depois de Paschoa em todo o caso, e seja um

dos que fiquem, se fÙr possivel. Aquelle Melchior do Amaral de que fala

È homem de muito juizo e honra; e entendo que entre a gente de letras e

nos tribunaes tem S. M. grande parcialidade. Depois vi e sube com gosto

que o bairro de Portalegre n„o se movia.ª[40]

Terceira, de Philippe II:--´Diz mui bem o conde, e assim escrevi em

conformidade d'isso, e notai se ha alguns pontos de importancia a que

convenha responder em particular, e um d'elles È este.ª

Segue o extracto:

´Diz que falando-se individualmente aos portuguezes entendem a raz„o, e

quanto lhes importa serem de S. M. Dilata-se em representar isto.ª

´Que n„o sabem dar outra resposta sen„o que se julgue a causa.ª

´Que Rodrigo Vasquez tem desempenhado bem a sua obrigaÁ„o no particular

e nas junctas.ª

´Que o bispo de Portalegre quer ir na semana sancta · sua egreja, que

est· d'alli 18 leguas; que lhe disse n„o fosse, e que lhe respondeu

voltaria; e que elle tambem vai para Valencia, que fica a 4 leguas de

Portalegre; que se lhe pÛde escrever para l·, se S. M. fÙr servido que

faÁa tornar o bispo depois de Paschoa para onde estiver a cÙrte.

Assegura a boa vontade do bispo, e estar ligado com elle. Que o

licenciado Rodrigo Vasquez foi de parecer que se fosse por emquanto, e

que elle partia para Lisboa.ª

´Que n„o deixa de aperceber-se aquella gente enviando armas aos povos.ª

´Adverte de parecer commum que qualquer dilaÁ„o que S. M. faÁa ser·

muito damnosa, e que o ter j· antes entrado fÙra de grande importancia.ª

¡ margem, e acompanhando todos estes paragraphos, lÍ-se a seguinte nota

de Philippe II:

´E assim dae noticia ao conde para que o resolva na juncta; e que

convir· escrever aos fronteiros de l· que negocÍem com os logares

visinhos que tÍem voto em cÙrtes, e procurem tÍl-os de sua parte, a

elles e aos procuradores. Se o bispo se foi, convem que torne logo, e o

Medellin tambem, e assim se lhes escreva, e que nos avise sempre do que

houver, e que eu me approximarei de l· com brevidade e forÁas (?).ª

Continuam os extractos:

´A este proposito diz que Melchior do Amaral, membro do conselho

d'estado n'aquelle reino, que veio agora resgatado e que È um dos de

maior qualidade, lhe disse que n„o sabia porque S. M. n„o entrava no

reino.ª

´Que o dicto Melchior do Amaral È de parecer que Portugal ganha muito

n'isso, e que, se porventura S. M. n„o remedeia a pobreza d'elle, n„o

sabe quem ha de remedial-a.ª

´Que diz tambem que o reino deve tres milhıes, e que faltam trezentos

mil cruzados para chegar a receita · despeza, o que elle sabe pelos

livros da fazenda real.ª

Aqui pÙz Philippe II esta nota:

´Mau È isso, visto como estamos por c·.ª

Prosegue o extracto:

´Que as cÙrtes se reduzem a menor numero: os procuradores do povo a 30,

os prelados a 3, e os fidalgos a 9.ª

´Que o bispo de Portalegre lhe disse que seria um d'elles, e que os mais

da cÙrte se governam por elle.ª

Extracto da carta que vem inclusa:

´Que o bispo lhe disse, depois de estar escripta a carta antecedente,

que n„o escrevia a v. m.^{cÍ} por n„o saber da partida do correio; que o

faria no outro, e que breve esperava vÍr-se com v. m.^{cÍ}ª

´Que ainda n„o era certa a sua ida a Portalegre, porque os governadores

o n„o deixavam, e que o tinham emprazado para no dia seguinte se vÍr com

elles ·s duas horas.ª

´Que na segunda-feira da juncta que se fez de todos os tres braÁos em

Almeirim, quando D. Christov„o de Moura entrou para dar a carta de S. M.

houve algum alvoroto, e o bispo de Portalegre se travou com Phebo Moniz,

procurador por Lisboa, dizendo-lhe muitas palavras asperas, de modo que

o Phebo se poz de joelhos diante d'elle, e chegaram muitos procuradores

ao bispo dizendo-lhe se queria alguma cousa, e que o mesmo lhe foram

depois dizer a sua casa.ª

´Que lhe disse que dÈsse parte d'isto, e que lhe parecia que se

ajunctariam, como de novo, a cÙrtes os que faltavam de todos os tres

braÁos. Que em todos os tres se propÙz que se dÈsse dinheiro para a

defeza do reino, e que no dos bispos e nobreza se votou que tal se n„o

fizesse, e que no do povo ha agora differenÁas sobre isto.ª

´Que tambem lhe disse que avisasse para que S. M. dÈsse ordem a

escrever-se de c· para se diligenciar que _Martim GonÁalves da Camara

n„o assistisse com os governadores_, visto n„o ter cargo que exercer;

_porque era prejudicial_.ª

´Que tudo isto advertiu a Rodrigo Vasquez.ª

Segue-se a copia de uma carta dirigida a Philippe II e datada d'Almeirim

a 25 de marÁo de 1580, a qual, pela resposta d'el-rei, que se acha

algumas folhas mais adiante, no seu original, se vÍ ser do duque de

Ossuna. Transcrevel-a-hemos com a dicta resposta.

´Sacra Catholica Real Majestade.--Ainda que os tres despachos de V. M.

com que de presente me acho, de 13, 14, e 20 do corrente, s„o em

resposta de outros meus, contÍem alguns particulares a que responderei

no primeiro correio que fÙr apoz este, o qual leva sÛ a relaÁ„o, que V.

M. ordenou se lhe enviasse, do que nos pareceu se devia responder aos

mensageiros que l· est„o, se bem que È necessario pÙl-o em melhor fÛrma,

porque a occupaÁ„o das diligencias feitas esta semana n„o deram logar a

emendar-se c·; e parecendo-me que esse inconveniente È pequeno, ao mesmo

passo que seria mui grande o n„o chegar a tempo, tenho por melhor que v·

como fica dicto, para que V. M. despache brevemente os mensageiros, os

quaes bom ser· despedir na incerteza de tudo o que lhes foi incumbido,

para acabarem de crer que n„o pÛde haver n'este negocio meio termo entre

o caminho das graÁas (que V. M. lhes tem aberto) e o da forÁa, que de

necessidade se deve seguir faltando est'outro.ª

´As cartas de V. M. para os Governadores e para os BraÁos d'este reino

se entregaram com os memoriaes das graÁas e mercÍs que se lhes far„o se

jurarem a V. M.. Tudo foi bem recebido, e do mesmo modo as dirigidas aos

pretensores.

Espero em Deus que havemos de tirar bom resultado, ainda que n„o bastam

as demonstraÁıes presentes para o ter por certo; nem posso dar a V. M.

conta miuda de tudo o que ·cerca d'isto se passou pela raz„o que j·

disse.ª

´Grande contentamento mostram os bem intencionados da vinda da rainha N.

Sr.^a a essa sancta casa, porque d'isso deduzem que V. M. melhor se

poder· deter onde for preciso, do que se V. M. houvera ficado em Madrid.

Guarde N. S., etc.ª

Philippe II respondeu:

´Duque primo.--A rainha e eu cheg·mos aqui vespera de N. Sr.^a bons,

graÁas a Deus. E porque desejava cartas vossas mais recentes que as de

12 do passado, folguei muito com as de 25, por saber o que teria

resultado dos despachos que l· estavam, e saber o vosso voto e dos

outros meus ministros pelo que toca ao acolhimento que se devia fazer

aos mensageiros que d'ahi vem, e a resposta que se lhes poderia dar; e

chegou a bom tempo, porque se achavam j· a quatro leguas d'aqui. Resolvi

tractal-os do modo que vereis pelo memorial que vai incluso,

parecendo-me que devia tomar aquelle caminho para que n„o nos fique por

experimentar nenhuma das cousas que podem servir para chamar · raz„o os

d'esse reino, e obrigal-os a que por sua parte faÁam o que devem,

tirando-lhes todo o genero de achaque ou escusa, como parece teriam se

n„o se lhes dÈsse n'isso satisfaÁ„o. E quando a sua dureza fosse tanta

que nada bastasse, servir· ao menos para inteira justificaÁ„o do damno

que lhes vier da guerra; cujos meios se v„o apromptando sem perda de

tempo, antes se aproveita por tal modo que, se for mister, em poucos

dias se poder· pÙr na fronteira o numero de gente que vereis da relaÁ„o

que vos ha de mostrar D. Christov„o de Moura. Tenho tenÁ„o de ir mui

breve para Merida ou Badajoz, motivo porque j· mandei arranjar aposentos

n'aquellas duas cidades. Praza a Deus que as diligencias que l· se

fizeram com os BraÁos, Governadores, e cidades do primeiro banco, tenham

aproveitado tanto que de l· possa passar logo a esse reino, facil e

pacificamente, o que muito desejaria assim acontecesse pelo que a elles

proprios lhes convem. Do successo e da resoluÁ„o que tomarem espero j·

desejoso a noticia.ª

´Tendo visto a carta do marquez de Villa Real, e a satisfaÁ„o que

mostraes ter d'elle e dos de sua casa, lhe mandei escrever a que vai com

esta para que lh'a deis ou envieis, assegurando-lhes que os hei de

honrar e favorecer a todos; e n'esta substancia podereis dar o recado

que vos parecer a D. Jorge de Noronha seu primo, porque, ainda que

recebi a sua carta, pareceu que n„o era preciso responder-lhe eu, mas

que fizesseis vÛs este officio, por ter elle o genio que descreveis, e

c· se ficou entendendo.ª

´O mesmo, ou o que vos parecer, fareis com o bispo capell„o-mÛr[41] pelo

que diz no bilhete que vos escreveu; que justo È agradecer-lhe a sua boa

inclinaÁ„o.ª

´Conformando-me com o que advertis, tenho por mui necessario que com

grande brevidade se ordene uma boa, breve, e substancial relaÁ„o de como

me pertence justamente a success„o, e assim mandei que se pozesse no

memorial; e a vÛs encarrego muito que tenhaes particular cuidado em que

se faÁa e se me envie sem perda de tempo. De mais proveito fÙra ter

sahido antes, porÈm mais vale tarde que nunca.ª

´Se (o que Deus nunca permitta) se houver de usar de forÁa, tambem ent„o

se publicar· outro escripto que justifique a guerra; e j· c· mandei que

se v· considerando o que deve conter, e bom ser· que l· se faÁa o mesmo

para aproveitar o tempo, conferindo-se depois um com outro para se tomar

a resoluÁ„o que parecer mais a proposito.ª

Esta resposta È datada de Guadalupe no 1.^o de abril, assignada por

Philippe II e referendada pelo secretario «ayas. Vem apoz ella por copia

uma outra carta datada de Almeirim a 6 de abril, que pelo ironico e

violento attribuiriamos de boa vontade a D. Christov„o de Moura, cuja

ancia pelo dominio extrangeiro excedeu a de todos os homens corrompidos

d'aquella triste epocha. O que parece evidente È n„o ser do duque

d'Ossuna, porque n'ella se allude · carta que na mesma occasi„o

_escrevia ao embaixador_.

´S. C. R. M.--Ainda que os embaixadores d'este reino parecem pessoas

humildes[42], devem estar t„o longe de sel-o, como todos os mais

portuguezes! Digo isto pela diligencia que mostraram em avisar os

governadores do tractamento que julgaram V. M. lhes havia de dar,

parecendo-lhes falta de cortezia n„o lhes tirar o barrete como È

costume. Toma-se t„o mal c· tudo o que È de Castella que, apenas chegou

o aviso de tamanha sem-raz„o, ajunctaram-se em conselho para

responderem, e depois de Martim GonÁalves ter esbravejado, e de se haver

aproveitado da occasi„o para encarecer quanto lhes importa dilatar o

negocio, e outras cousas a seu proposito[43], resolveram escrever aos

embaixadores que n„o se apresentassem a V. M. segunda vez, se da

primeira os n„o tractasse conforme o estylo. Pareceu-nos conveniente, a

troco de um correio, advertir d'isto a V. M.; e, ainda que eu tenho por

bom que V. M. executasse o que d'antes estava assentado, pois a

embaixada era tal, que n„o importava nada ouvil-a, ou que elles

voltassem sem a dar, visto V. M. ter feito o mais, segundo me escreve

que l· resolveram, e esses homens lhe beijaram a m„o, parece-me que,

havendo passado por tanta cousa, n„o se deveria tropeÁar em dois dedos

mais ou menos de barrete, muito mais havendo de dar isso occasi„o ao que

de c· lhes escrevem, posto que esses offereÁam em tudo motivos para

tractal-os de outra maneira. Bastante custar· j· a V. M. o que tarda em

comeÁar a fazel-o assim, e a encurtar o fio da brandura de que esta

gente se aproveita para o mal; e assim tÍem por chanÁa quanto se lhes

diz fÛra d'isto, parecendo-lhes impossivel que chegue o tempo do rigor

de vÈras, que cada dia merecem por novas culpas e desconcertos,

parecendo-lhes que tudo est· nas m„os d'elles; e atÈ que vejam signaes

para sahir d'este engano sempre ficar„o n'elle, se nosso Senhor n„o faz

algum milagre, de que bem precisa a obstinaÁ„o d'este paiz. E porque o

embaixador deve escrever mais extensamente, e ·manhan parte outro

correio, n„o tenho mais que dizer sen„o que nosso Senhor guarde, etc.ª

Entre esta carta, digna de um intrigante feroz, e as antecedentes est„o

os extractos de duas cartas de um agente portuguez que de novo vem

entrar em scena. Este, que escreve ambas ellas de Almeirim no mesmo dia

24 de marÁo, È D. Jorge de Noronha, neto do segundo marquez de

Villa-Real e primo do primeiro duque d'este titulo. O caracter de

vileza, que reina na linguagem d'estes dois documentos, È

verdadeiramente curioso.

Eis oqui o primeiro:

´Recebeu a que S. M. lhe mandou escrever a 17 do corrente, da Aceca:ª

´Approva a vinda da rainha n.s. com S. M. pelo especial prazer e honra

que com isso se faz ·quelles reinos:ª

´Louva tambem a vinda de S. M. pelo amor e tenÁıes christans com que

procede em tudo:ª

´Mostra grande sentimento das cartas que dizem escreveu Manuel de Mello

para aquelle reino:ª

´Que o bispo de Portalegre diz que o arcebispo d'Evora, tio de Manuel de

Mello, lhe contou que seu sobrinho lhe escrevera que n„o havia a gente

nem os apercebimentos de guerra que l· soavam; que acham o duque d'Alva

sÛ; e que estivesse seguro de que _se houvesse uni„o no reino n„o havia

c· poderio bastante contra elle_.ª

´Julga que n„o se deve fazer caso do que diz Manuel de Mello, porque

est· cego; que o reino de Portugal È de S. M.; e que pÛde ir quando

quizer, porque atÈ as creanÁas cantam que todo o seu remedio est· em S.

M.ª

´Que, afÛra isso, n„o ha l· forÁas para se defenderem sÛ do duque

d'Alva, ainda que viesse mais sÛ do que affirma Manuel de Mello; nem se

fala em defeza, nem ha nenhuns fronteiros; e que elle logo que alli

chegou dissera que largava o direito que tinha · frontaria que estava a

seu cargo, para mais claramente mostrar sua intenÁ„o.ª

´Que muitas outras cousas que passou as deixa por serem largas,

remettendo-se ao duque de Ossuna e mais embaixadores a quem as contou.ª

´Que se deram as cartas e recados de S. M. aos governadores e BraÁos, e

que se fizeram mui boas diligencias com todos, cujo proveito vai

apparecendo, _porque j· os mais d'elles est„o rendidos, convertidos, e

feitos christ„os, e que se baptizaram na agua das listas de mercÍs que

S. M. fez a todos_, as quaes s„o mal merecidas, porque ainda n„o est„o

os caminhos de Portugal e Guadalupe cobertos de portuguezes. Pede

licenÁa para ser elle o primeiro que o faÁa, pois talvez muitos o sigam,

sendo t„o natural nos portuguezes a enveja.ª

´Que o marquez n„o escreve por se n„o achar alli; mas que vir· passada a

paschoa, o que ser· conveniente para a boa conclus„o dos negocios.ª

A linguagem d'este reptil parece ter suscitado, talvez pelo excesso da

baixeza, as desconfianÁas do suspeitoso Philippe, porque ao lado do

extracto pÙz a seguinte nota, que o indica:

´Fica-me c· a carta, porque creio que ser· mister envial-a ao duque ou a

D. Christov„o pela raz„o que vos disse, e pelo que ha a respeito de quem

a escreve.ª

O segundo extracto contem o seguinte:

´Representa quanto elle e toda a casa do marquez de Villa-Real tem

desejado e procurado, desde a morte d'el-rei D. Sebasti„o, que se

entregassem aquelles reinos a S. M., a quem de justiÁa e raz„o e por

pura necessidade entenderam desde logo pertenciam, e quanto isso era

conveniente, o que esperam se far· com brevidade.ª

´Encarece o que tem trabalhado, e quasi brigado para reduzir a gente

d'aquelle reino, que estava mui tenaz, e que procederam com este afferro

por verem o zÍlo christianissimo de S. M.ª

´Pede que se lembre isto a S. M. e o animo e desejo com que fica o

marquez e toda a sua familia, e quanto h„o de ser sempre addictos ao seu

real serviÁo.ª

Este preambulo È destinado a captar a benevolencia do secretario

d'estado castelhano, a fim de se obter por sua intervenÁ„o um bom

casamento em Castella para uma filha do marquez de Villa Real. Omittimos

esses paragraphos, que sÛ accidentalmente e em cousas de pouca valia

respeitam aos negocios publicos. Prosegue depois ·cerca d'estes:

´Envia tambem um papel e uma carta dos procuradores dos povos, em que se

vÍ que desejam e querem paz, e que j· percebem a mercÍ que lhes faz

nosso Senhor em lhes dar por seu rei a S. M.

´Que mostrou estes papeis a D. Jo„o Mascarenhas, com quem communica tudo

o que se offerece, por ser um dos governadores e dos homens que mais

desejam o serviÁo de S. M.ª

´Que D. Jo„o o mostrou aos outros governadores, e lhe affirmou que

importaria muito que elles o vissem, e que diligenciasse obter lista dos

nomes dos mais que podesse achar do mesmo parecer em Santarem. Que

esperava fazer alistar a maior parte d'elles.ª

´Que muitos dos procuradores de bom e muito bom animo no negocio se

foram; porque os melhores, j· enfadados de n„o estarem todos d'accordo,

e de verem os de Lisboa, que era a cabeÁa, mal inclinados, comeÁaram a

partir.ª

´Que Manuel de Souza Pacheco, um dos procuradores de Lisboa, j· n„o È

companheiro de Phebo-Moniz, porque se fez christ„o, e deu palavra ao

bispo e ao arcebispo d'Evora de sel-o sempre, e _que todos se v„o

baptizando_.ª

´No papel que envia com a carta (a qual È datada de Santarem a 15 de

marÁo, e escripta por um dos procuradores que se chama Rodrigo d'Abreu)

o nome que est· riscado È o d'elle D. Jorge, e diz que assim se deu a

ler aos governadores.ª

´N'elle representam aos dictos governadores o desejo que tem a maior

parte dos procuradores da paz e quietaÁ„o em conformidade do que o

governo deseja, tudo pelo bem da christandade.ª

´Ahi dizem que È um engano pensar que para tractar dos concertos convem

que sejam menos, quando todos querem paz e concordia, porque j· cahiram

na raz„o e vÍem que È necess·rio.ª

´O meio que apontam para isto se poder alcanÁar È chamal-os dois a dois,

pois chamando-os junctos dizem que n„o, por n„o haver quem queira

comeÁar em publico.ª

´D. Jorge diz que testifica isto, porque fallou com os mais d'elles.

Recommenda o segredo e a brevidade da execuÁ„o. Que depois de se

conseguir o resultado dir· quem fez a proposta para ser agraciado.

Adverte que _atÈ das terras escrevem cartas avulsas_ em que lhes

significam o mesmo, mas que n„o ousam falar, tanto pelas agitaÁıes que

andam, como pelo que diz o vulgo. Pede que se lhe restitua este papel

porque È de letra conhecida.ª

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06 · 第 7 / 14 段