´As ruas, bem que largas, s„o muito incommodas, por subidas e descidas

continuas a que obriga a desegualdade do terreno..... Por isso usam os

moradores andar a cavallo, do que procede verem-se n'aquella cidade

bellissimos ginetes, que os portuguezes compram por todo o dinheiro,

attendendo · grande estimaÁ„o em que os tÍem. N„o usam de coches, e

quatro ou seis que ahi havia eram de castelhanos que seguiam a cÙrte.

Quanto as ruas, em geral, s„o m·s e incommodas para andar assim a pÈ

como em coche, tanto È f·cil, deleitosa, e bella a Rua-nova pelo seu

comprimento e largueza, mas sobre tudo por ser ornada de uma infinidade

de lojas cheias de diversas mercadorias para o uso de nobre e real

povoaÁ„o.--Entre ellas ha quatro ou seis que vendem objectos trazidos da

India, como porcellanas finissimas de varios feitios, conchas, cÙcos

lavrados de diversos modos, caixinhas guarnecidas de madreperola, e

outras obras similhantes, que d'antes se compravam por moderado preÁo,

mas que ultimamente eram carissimas por tres respeitos: o da peste que

havia assolado a cidade; o do sacco dado pelos castelhanos quando

entraram em Lisboa, bem que el-rei houvesse ordenado ao duque d'Alva tal

n„o consentisse aos soldados; e ultimamente pela raz„o de n„o terem

vindo armadas da India durante dois annos. Na mesma Rua-nova ha muitas

lojas de livros, com infinito numero d'elles em portuguez, castelhano,

latim, e italiano. Todos s„o mui caros; e por isso os estudantes, por

serem pobres, costumam mais _alugal-os_ (como ahi dizem) a tanto por

dia, do que compral-os. N„o deve esquecer aqui que na praÁa chamada do

Pelourinho-velho est„o de continuo assentados muitos homens com mesas

ante si[20], os quaes se podem chamar notarios ou copistas sem caracter

de officiaes publicos, e que n'este exercicio ganham a sua subsistencia.

Sabida que È a idÈa de qualquer freguez que se chega a elles,

immediatamente redigem o que se pretende, de modo que ora compıem cartas

d'amores, de que se faz grande gasto, ora elogios, oraÁıes, versos,

sermıes, epicedios, requerimentos, ou outro qualquer papel, em estylo

ch„o ou pomposo. Juncto da Rua-nova ha muitas outras ruas, cada uma das

quaes tem suas lojas de uma sÛ especie de mercadorias. Na dos ourives do

ouro havia muitas mal abastecidas de pedras preciosas, de perolas,

d'ambar, e d'almiscar, em consequencia da tardanÁa da frota. A prata de

Lisboa È lavrada com delicadeza e variedade, por ser costume, assim

entre nobres como entre plebeus, usarem de pratos e bacias de prata. Ha

egualmente ahi lojas cheias de doces e fructas seccas, e cobertas,

primorosamente preparadas, de que se faz grande trafico, mandando-as

para diversas partes do mundo. Vende-se tambem, em uma unica rua, grande

quantidade de tÈlas de toda a sorte, portuguezas, flamengas, e

italianas: das primeiras s„o na verdade bellas algumas que chamam

_casiquino_ (?), mui finas e alvas, e alguns lenÁos · mourisca, que s„o

baratos e lindos. N'outra parte, em certa viella, trabalham

delicadamente ao torno, em que fazem guarda-soes de barba de baleia,

obra acabada, e cÙcos lavrados a modo de taÁas, com embutidos de madeira

do Brazil. Vasos de estanho e mais objectos d'este metal se fabricam

abundantemente n'outra rua, e se carregam para a India, onde d„o grande

lucro.ª

´O commercio da praÁa de Lisboa È muito consideravel pela

correspondencia que tem ordinariamente com todas as outras da Europa e

do Novo-Mundo, de modo que as permutaÁıes s„o importantissimas, e os

negociantes possuem grossos cabedaes; porque sÛ nas especiarias e

drogas, que vÍm a Lisboa, depois que expirou, pelos annos de 1504, o

commercio da Syria e d'Alexandria, ganham rios de dinheiro, que perdem

os nossos venezianos, pois eram elles quem, fazendo trazer estas

preciosas mercadorias pelo Mar-rÙxo a Beyruth e a Alexandria, d'alli as

transportavam a Veneza nas galÈs d'alto bordo. Bem como costumam partir

de Sevilha todos os annos armadas para irem ·s indias occidentaes

pertencentes · corÙa de Castella, assim costumava el-rei D. Sebasti„o

mandar ordinariamente uma frota de Lisboa ·s Indias orientaes. No anno

em que este rei morreu, partiu no mez de marÁo para Malaca, segundo me

contaram, uma nau de mil e quatrocentas toneladas, e um mez depois mais

cinco do mesmo porte para GÙa. Era este o numero de vasos que ia

annualmente, e aquella a monÁ„o da partida. Essas naus levavam carga

d'el-rei e dos particulares. Por conta d'estes ia vinho, azeite, pannos

finos de varias cÙres, d'Inglaterra, Flandres, e Castella, barretes

finos e ordinarios de Toledo, escarlatas de Veneza e de Valencia, rasos

de FlorenÁa, sarjas de lan de Flandres, marlotas de Constantinopla,

acolchoados e calÁas de seda de Napoles, velludos de Genova, damascos de

Lucca, taffet·s e calÁas de seda de Toledo, sarjas de seda e luvas de

Valencia. Por conta d'el-rei carregavam-se cor·es em bruto e lapidados,

azougue, cinabrio, arame, espelhos e diversos vidros de Veneza,

mercadorias que ninguem podia enviar sem expressa licenÁa d'elle. O que,

porÈm, principalmente se exportava era uma grandissima porÁ„o de prata

em reales castelhanos, negocio em que se ganhavam trinta por cento; e

affirmaram-me que os contractadores das especiarias e varios outros

negociantes mandaram nas cinco ultimas n·us para GÙa um milh„o e

trezentos mil ducados. Este tracto havia crescido a tal ponto que era de

maior lucro a ida que a volta......ª

´A carga para Lisboa consistia principalmente em pimenta a granel, que

devia subir, por contracto, pelo menos a trinta mil quintaes, e que se

dividia, metade para el-rei, que n„o entrava n'este negocio com somma

alguma, e a outra metade para os contractadores que tinham o exclusivo

da pimenta: o quinh„o d'el-rei compravam-no ordinariamente os mesmos

contractadores a trinta e dois ducados o quintal. Aos particulares era

licito mercadejar em qualquer outra especiaria, pagando os

direitos........ª

´Do reino de Soffala vinham todos os annos a Lisboa cento e setenta

barras d'ouro, e uma barra vale para cima de trezentos ducados: tambem

de Soffala e de toda a GuinÈ vinha grande quantidade de marfim......

Traziam-se egualmente a Lisboa sedas da China, pannos finissimos e

ordinarios de algod„o do Brazil, bellos tapetes da Persia, Èbano,

aguila, p·u brazil, dixes e louÁa transparente de porcellana, borax,

camphora, laca, aloes-hepatico, tamarindos, cÍra, almiscar, ambar,

algalia, beijoÌm, perolas, rubins, diamantes, e mais pedras preciosas em

abundancia, e outras varias mercadorias que iam do Egypto para

Alexandria, as quaes, todavia, n„o eram a millesima parte das que vinham

a Lisboa nas sobredictas frotas.........ª

´Os homens da cidade de Lisboa e de todo o Portugal s„o de mediana

estatura, mais baixos que altos, magros, de cÙr ferrenha, cabellos e

barba pretos, olhos negrissimos, e mui similhantes no exterior aos

gregos. O seu trajo, antes da morte do cardeal rei, era mui mesquinho,

em consequencia da pragmatica, que n„o consentia usassem vestidos de

seda; pelo que trajavam um saio de baÍta preta, calÁıes de panno

escocez, borzeguins de marroquim, chapeu de feltro e capa comprida da

mesma baÍta. Com a chegada d'el-rei catholico alteraram o seu antigo

trajo, porque, posto que conservaram a capa de baÍta, comeÁaram a usar

do gib„o de raso, bragas e calÁıes de velludo, e meias de seda, cousa

que nunca tinham calÁado, bem como escarpins, dos quaes n„o era possivel

achar um sÛ par antes da entrada d'el-rei, porque todos, sem excepÁ„o,

calÁavam borzeguins. S„o os portuguezes mais ambiciosos de louvores que

outra qualquer naÁ„o do mundo, affirmando que as suas faÁanhas s„o

milagrosas. Celebram Lisboa com tal copia de palavras, que a fazem egual

·s principaes cidades do mundo, e por isso costumam dizer:--´Quem n„o vÍ

Lisboa, n„o vÍ cousa boa--ª. A gente miuda gosta que lhe dÍem o

tractamento de _senhor_, manha esta commum a toda a Hespanha. Vivem

parcamente, porque a plebe pela maior parte È pobre, e os cavalleiros

que se teem em conta de ricos fundam a opini„o da sua riqueza em

possuirem uma ou duas aldÍas, com trinta ou quarenta visinhos cada uma,

no meio de campinas estereis com vinte ou trinta folhas cultivadas, e

tudo o mais inculto, aspero, e coberto de pedras, com alguns cazebres

mesquinhos e mal concertados, como eu o experimentei durante muitas

semanas d'aquella viagem.ª

´Poucas pessoas se d„o ahi ·s letras; mas applicam-se muitos ao

commercio, genero de vida aborrecida dos nobres, que n„o podem ouvir

falar em tal, tendo por gente villissima os mercadores. Exercitam-se

apparentemente nas armas, e algum tanto em cavalgar, contentando-se com

ter leves principios d'estas duas profissıes, sem quererem supportar mui

diuturno ensino.ª

´As mulheres portuguezas s„o singulares na formosura e proporcionadas no

corpo: a cÙr natural dos seus cabellos È a preta; mas algumas tingem-nos

de cÙr loura: o seu gesto È delicado, os lineamentos graciosos, os olhos

negros e scintillantes, o que lhes accrescenta a belleza; e podemos

affirmar com verdade que em toda a viagem da peninsula as mulheres que

nos pareceram mais formosas foram as de Lisboa; posto que as castelhanas

e outras hespanholas arrebiquem o rosto de branco e encarnado, para

tornarem a pelle, que È algum tanto, ou antes muito trigueira, mais alva

e rosada, persuadidas de que todas as trigueiras s„o feias. O trajo

feminino em Lisboa È o commum de toda a Hespanha; isto È, o manto grande

de lan ou de seda, segundo a qualidade da pessoa. Com elle cobrem o

rosto e o corpo inteiro, e v„o aonde querem, t„o disfarÁadas que nem os

proprios maridos as conhecem: vantagem esta que lhes d· maior liberdade

do que convem a mulheres bem nascidas e bem morigeradas. As damas nobres

costumam ser acompanhadas, pela cidade, de creados bem vestidos, que

lhes precedem com passos lentos e socegados, e de donas que as seguem

com grandissima gravidade, n„o tendo por signal de boa reputaÁ„o o serem

acompanhadas de donzellas.ª

´O povo miudo vive pobremente, sendo a sua comida diaria sardinhas

cosidas, salpicadas[21], que se vendem com grande abundancia por toda a

cidade. Raras vezes compram carnes, porque o alimento mais barato È esta

casta de peixe, que se pesca em notavel cÛpia fÛra da barra, como se

pesca muito outro de todas as qualidades e muito grande; mas em geral

menos gostoso do que o das aguas de Veneza, e t„o caro, que faz espanto

aos extrangeiros e custa muito aos naturaes, que passam mal pelo preÁo

excessivo de tudo o que serve para o sustento. Comem os pobres uma

especie de p„o nada bom, que todavia È barato, feito de trigo do paiz,

todo cheio de terra, porque n„o costumam joeiral-o, mas mandal-o moer

nos seus moÌnhos de vento, t„o sujo como o levantam da eira. O p„o bom e

alvo faz-se de trigo de fÛra, que trazem de FranÁa, Flandres e Allemanha

os navios d'estas naÁıes quando vÍm a Lisboa buscar sal e especiarias.

Este, na verdade, tambem n„o È joeirado; mas as mulheres pobres o

escolhem gr„o a gr„o, assentadas · porta da rua, com paciencia

fleugmatica mais propria d'allemans que de portuguezas. Estas mulheres

tÍem licenÁa para fabricar o p„o e vendel-o pela cidade onde e como lhes

apraz, o que sempre È por alto preÁo. O trigo vale a duzentos e oitenta

rÈis o alqueire. Nutre-se tambem a gente pobre de fructa, que abunda

muito e È baratissima.ª

´O vinho commum È pouco bom, por n„o dizer mau; porque n„o sabem, ou n„o

querem ter o incommodo de o fazer bom. Vale geralmente a vinte e quatro

rÈis a canada. Os vinhos finos s„o excessivamente caros: os senhores

embaixadores tiveram de pagar o branco para o consumo ordinario da sua

mesa a sessenta escudos a pipa..............ª

´Quanto ·s vitualhas n„o È em Lisboa que se h„o de buscar cousas muito

exquisitas. AtÈ a vitella È rara; porque n„o costumam matar estes

animaes, guardando-os para crescerem e servirem nos trabalhos do campo

ou de abastecimento da cidade, sendo, alÈm d'isso, ahi a comida

ordinaria o capado, que È excellente.ª

......................................................................

´No tempo de el-rei D. Sebasti„o as rendas reaes consistiam nos direitos

das alfandegas de Lisboa e de todo o reino, assim sÍccas como molhadas.

D'umas cousas pagava-se o quinto, d'outras a decima; e do peixe, em

muitas partes, mais de metade. Havia tambem rendas em cereaes, vinho, e

outros generos; as rendas dos mestrados a que pertenciam as ilhas de S.

ThomÈ, Terceiras, Cabo-Verde, Madeira, e Principe; as da Mina que

pertenciam · Ordem de Christo. As especiarias e outras fazendas que

vinham annualmente da India e do Brasil produziam tambem um avultado

rendimento. Apesar, porÈm, d'este ser tamanho, nada vinha a entrar no

thesouro; porque tudo se dispendia em armadas e mais cousas necessarias

para a conservaÁ„o d'aquelles estados, e afÛra isso se distribuia em

salarios d'officiaes e ministros da justiÁa no continente; em mercÍs

vitalicias, que chamam tenÁas, aos benemeritos da corÙa, aos fidalgos, e

mais pessoas, que serviam assim no reino como na Africa e India; em

juros perpetuos, que os reis vendiam, estabelecidos nos direitos reaes;

em despezas com a gente e petrechos necessarios para a defens„o das

praÁas d'Africa; em cinco galÈs constantemente armadas, e no armar dos

navios redondos, que todos os annos sahiam junctos, assim para comboiar

as frotas que iam e vinham dos portos com que Portugal commerciava, como

para mandar ao Brasil, a GuinÈ, · Mina, a S. ThomÈ; e finalmente em

moradias, gastos da cÙrte e casa real, paga de creados, esmolas,

presentes, embaixadas, dotes ·s filhas dos creados, e conservaÁ„o das

fortalezas de Lisboa e do reino.ª

As noticias do viajante relativamente a Portugal versam desde este ponto

sobre a organisaÁ„o judicial e administrativa, ·cerca da qual nada se

accrescenta que n„o se ache na nossa antiga legislaÁ„o. Conclue o

narrador com uma historia succinta do reinado de D. Sebasti„o e das

causas do desastre de Alcacer-quibir, da acclamac„o de Philippe II em

Thomar, etc.--Abstemo'-nos de extractar essa parte relativa · historia

politica, n„o porque seja pouco interessante e curiosa; mas porque È

demasiado extensa.

POUCA LUZ EM MUITAS TREVAS

1844

POUCA LUZ EM MUITAS TREVAS

1579--1580

Se ha alguma epocha da nossa historia que nos offereÁa uma alta liÁ„o;

se ha algum successo que nos possa fazer energicamente sentir quaes

sejam as consequencias fataes da pervers„o moral de qualquer paiz, e

como aos povos corrompidos n„o tarda o dia da servid„o, ou de serem

riscados da lista das naÁıes, os fins do seculo XVI e a conquista feita

por Philippe II s„o essa epocha e esse facto. As virtudes politicas de

nossos maiores, o seu amor de independencia, grosseiro, feroz atÈ, se

quizerem, tinham esmorecido gradualmente com as pompas dos reinados de

D. Manuel e de D. Jo„o III; com o v„o luxo, e com as desgraÁadas

riquezas adquiridas na Asia, quasi sempre por preÁo de immoralidades e

crimes. As resistencias e luctas da edade-media, que alimentaram o

sentimento da propria dignidade, n„o sÛ nas classes sociaes, mas tambem

nos individuos, haviam cedido o passo a um servir mais ou menos abjecto

para obter como mercÍ ou privilegio o gÙzo de vantagens e direitos, que

a fraqueza dos municipios e a decadencia da nobreza tinham deixado

perder. O homem do concelho, o burguez, em logar de se unir aos seus

eguaes para repellir nos parlamentos os vexames dos poderosos, achava

mais facil para a timidez, que substituira na sua alma a antiga ousadia,

receber como recompensa de serviÁos humildes ou como esmola de charidade

uma parte dos tributos oppressivos e rigorosamente illegaes que se lhe

extorquiam, e as classes elevadas entendiam que era menos arriscado, e

sem comparaÁ„o mais commodo, obterem de joelhos e por carta de graÁa

ante os chancelleres, privados, e desembargadores, alguns fragmentos das

suas legitimas ou illegitimas prerogativas, do que imitarem o duque de

BraganÁa pondo a cabeÁa n'um cadafalso por amor d'ellas. Como a moeda

antiga, cujos cunhos o roÁar de muitos annos apag·ra, o caracter

portuguez estava poÌdo e quasi de todo gasto quando chegou, pela

desgraÁa d'Alcacer-quibir, o curto reinado do velho cardeal D. Henrique.

¡ morte d'este principe, a cuja completa degeneraÁ„o moral sÛ pÛde

servir de desculpa o ter sido apenas um agonisante coroado, seguiu-se a

conquista castelhana e o dominio dos tres Philippes durante sessenta

annos. Por todo esse largo periodo, quasi n„o passou um dia sem

affrontas ou oppressıes para o povo subjugado. Portugal, amarrado ao

poste da tyrannia extrangeira, assistiu como se fosse uma cousa morta e

inerte · desmembraÁ„o do proprio corpo. Os ministros de Castella, que

pouco melhor tractavam o seu paiz natal, a cada porÁ„o das nossas

colonias de que hollandezes, inglezes, ou francezes nos expulsavam, a

cada nau ou comboi que nos saqueavam ou mettiam a pique, accrescentavam

um novo tributo, um novo vexame, uma nova quebra de nossos direitos; e

foi sÛ nessa especie de estufa ardente que pÙde semear-se, nascer, e

vecejar a planta de odio vivaz, que nos restituiu ao menos um symulachro

da extincta energia, e nos temperou de novo para reconquistarmos n'uma

lucta de quasi meio seculo a antiga independencia como naÁ„o, sen„o a

antiga vida politica e os antigos fÛros de liberdade.

A tradiÁ„o conservou na memoria do povo a lembranÁa dos largos e

variados males que nos trouxe o senhorio extranho: contra elle nos tem

guardado e guarda ainda, pelo temor, essa recordaÁ„o; mas as causas que

os geraram, essas, como mais remotas e mais difficultosas de avaliar, È

que pouco a pouco nos v„o esquecendo, e este esquecimento È ajudado

pelos escriptores menos reflexivos, a quem deslumbram as tristes glorias

dos descobrimentos e conquistas, e os elogios que por ellas nos d„o com

admiravel magnanimidade aquelles para cujo proveito tantas gentilezas

d'armas, tanta ousadia, e tantos crimes practic·mos, e que esperaram

tranquillamente nos suicidassemos moralmente para recolherem a heranÁa

que lhes ajunctaramos. As paginas laudatorias que ainda hoje ahi se lÍem

·cerca das eras manuelina e joannina, e que nos fazem lembrar dos

_panegyrici veteres_, em que os rhetoricos romanos ridiculamente

antepunham a fastosa decadencia do imperio aos tempos asperos, mas viris

e robustos, do crescimento da republica, s„o a maneira mais segura de

inutilisar as proveitosas admoestaÁıes da historia, cujo estudo encerra,

por via de regra, a explicaÁ„o do presente e a prophecia do futuro.

Diz-se, na verdade, que um grande numero de fidalgos e pessoas

principaes se venderam a Philippe II no reinado do cardeal D. Henrique:

cita-se o nome de D. Jo„o Mascarenhas, o heroe de Diu, com uma certa

indignaÁ„o pelo contraste da sua vida passada; o de D. Christov„o de

Moura, como o de um franco renegado da patria; o do bispo Pinheiro como

o de um insigne hypocrita; emfim, os nomes de muitos outros, e

especialmente os dos quarenta mercadores politicos que receberam dos

castelhanos os celebres _cartazes_ ou cedulas para as recompensas

futuras. Mas a que nos conduz isto? A imaginarmos que os corrompidos

eram alguns homens, ou quando muito alguma classe. Todavia a verdade È

que estendemos covardemente o collo ao jugo extranho, porque a naÁ„o

estava degenerada. Onde quer que Philippe II encontrava uma resistencia,

acudia ahi com ouro ou com promessas, e quasi que tinha a certeza de

superar a difficuldade: a quest„o estava, n„o na compra e venda, mas sÛ

no quanto do preÁo. A tenacidade e o amor da independencia nacional dos

Phebos-Moniz foram excepÁıes monstruosas. O proprio D. Antonio, que era

chamado pelas circumstancias a representar o papel de D. Jo„o I, e que,

bem como elle, tinha por si o amor popular, foi um miseravel, que sÛ se

collocou · frente das resistencias, as quaes dirigiu sem ordem, sem

juizo, e sem energia, porque n„o lhe chegaram os castelhanos ao preÁo

por que lhes queria vender alma e corpo. Dizem que Philippe II se

queixava de ter feito uma cara mercancia em comprar Portugal: esta

irris„o insolente da tyrannia, cuspida com legitima causa nas faces de

uma naÁ„o, foi · sua parte um castigo mais severo da immoralidade

publica do que todas as oppressıes de sessenta annos de jugo

extrangeiro.

Quando se compara a epocha de 1580 com a de 1385 È que se conhece qu„o

largos passos tinha dado Portugal no caminho da corrupÁ„o durante o

_brilhante_ e _glorioso_ seculo dos descobrimentos e conquistas: È

n'essa comparaÁ„o que est· a prova de que o antigo caracter portuguez se

pervertÍra completamente n„o sÛ nas classes privilegiadas, mas no

proprio povo; n'esses que nos apraz considerar unicamente como victimas

das traiÁıes da nobreza. O povo n„o resistiu · invas„o extrangeira,

porque lhe faltava esforÁo, crenÁa e patriotismo: isso tudo jazia no

sepulchro da edade-media. As situaÁıes eram rigorosamente analogas.--O

poder de Castella no tempo de Philippe II tem servido de desculpa ·

geraÁ„o apoucada que estendeu os pulsos ·s algemas. Mas para saber se

ella podia ou n„o resistir era necessario tental-o. N„o o fez, salvo se

se quizer chamar resistencia aos tumultos de um vulgacho desordenado, em

duas ou tres povoaÁıes do reino e na capital. Tem-se exaggerado o poder

de Philippe II, e imagina-se que entre as forÁas das monarchias

castelhana e portugueza, na epocha do filho de Carlos V, havia uma

superioridade a favor d'aquella muito maior que no tempo do rival do

mestre d'Aviz, de D. Jo„o I de Castella; mas qual È o facto?--… que

Philippe II mandou o duque d'Alva com vinte mil homens tomar conta de

Portugal, o que esse general fez quasi sem combate; e que D. Jo„o I veiu

pessoalmente · frente de trinta e cinco mil homens enterral-os em

Aljubarrota.--Portugal teria acaso menos recursos materiaes ou menos

populaÁ„o em 1580 que em 1385?--Duas mil lanÁas, as melhores de FranÁa,

ajudavam D. Jo„o de Castella contra nÛs. Quem ajudava Philippe II?

Haviamos perdido em Africa dez ou doze mil soldados com D. Sebasti„o. …

verdade. E quaes n„o tinham sido as nossas perdas durante as longas e

desastradas guerras de D. Fernando, em que Lisboa chegou a ser cercada,

e destruida na sua melhor parte? A aristocracia seguia o bando do rei

extrangeiro em 1580. Em 1385 a quem se inclinava decididamente a

principal fidalguia? Tambem ao rei extrangeiro. E todavia a naÁ„o venceu

ent„o, e foi vencida depois sem peleja. Os successos do fim do seculo

XVI n„o se explicam por accidentes e circumstancias, que est„o longe de

terem o valor que lhes tÍm dado: explicam-se por um facto gravissimo da

ordem moral--a morte da nacionalidade.

A epocha em que se preparou o dominio castelhano È, na t„o mal estudada

historia portugueza, uma das mais imperfeitamente conhecidas. E todavia

ella offerece uma altissima liÁ„o aos povos. Se a narraÁ„o dos successos

acontecidos nos tempos em que tinhamos virtudes, e a energia e amor de

patria que nos distinguiram antes do reinado de D. Jo„o II, nos pÛde

excitar uma honrada emulaÁ„o, o espectaculo dos ultimos paroxismos da

nossa lastimosa decadencia, ainda, porventura, considerada nas suas

causas, nos ser· mais proveitoso pelo nojo e horror que deve causar nos

animos essa especie de prostituiÁ„o politica a que nos chegou a soltura

de costumes, e de que foram manancial perenne os habitos de desenfreio,

cubiÁa, e egoismo, que em cada monÁ„o carreavamos do oriente para a

Europa. A historia da segunda metade do seculo XVI pÛde fazer ante as

geraÁıes presentes o papel do ilota embriagado, que os lacedemonios

expunham aos olhos dos mancebos nas horas da refeiÁ„o, para pelo tedio e

despreso os premunirem contra o vicio da embriaguez.

Mas o fazer dignamente o quadro das traiÁıes covardes, das corrupÁıes

hediondas, das torpes cubiÁas, da indifferenÁa e imbecilidade popular

d'aquelles tempos n„o È facil tarefa. Tudo isso se ha de ainda ir em

grande parte arrancar das trevas de archivos particulares e nacionaes,

de documentos e memorias que nunca viram a luz do dia. A historia, como

hoje existe, est· bem longe de nos fazer sondar o abysmo de tanta

perdiÁ„o, e achar as causas verdadeiras de t„o extraordinarios effeitos.

… depois d'essas laboriosas indagaÁıes e da publicaÁ„o d'ellas, que o

historiador poder· pintar com exacÁ„o o estado deploravel da sociedade

portugueza na epocha em que alcanÁou, emfim, subjugal-a a sua antiga

rival.

Uma serie de documentos temos diante de nÛs n„o sÛ conducentes para esse

fim, mas bastantes em si para moverem a curiosidade. Daremos a

substancia d'elles, acompanhando-os de notas necessarias para

intelligencia dos menos versados nos successos politicos d'aquelles

tempos, e no conhecimento das personagens que figuraram no drama, mais

repugnante ainda que lastimoso, da venda de Portugal a Castella. Os

documentos a que alludimos pertencem a uma collecÁ„o da bibliotheca

real.

Durante o curto reinado do cardeal D. Henrique (1578-1580) os animos

estiveram sempre occupados com a quest„o de saber quem seria o seu

successor. Aquelles que pareciam ter maior numero de probabilidades eram

o prior do Crato, D. Antonio, filho bastardo do infante D. Luiz e

sobrinho do cardeal; o duque de BraganÁa, por sua mulher D. Catharina,

neta d'el-rei D. Manuel; e Philippe II, neto tambem de D. Manuel por sua

m„e. D. Antonio, chegado do captiveiro de Berberia pouco depois da

acclamac„o de D. Henrique, era o mais popular dos pretensores, e o que

parecia estar mais resolvido a obter a coroa a todo o custo. O duque de

BraganÁa procedia frouxamente no negocio, posto que as suas riquezas, a

sua influencia, e o esplendor com que vivia, o tornassem a primeira

pessoa do paiz depois do monarcha. Philippe II, fazendo menos ruido que

D. Antonio, porÈm mostrando mais decis„o e firmeza que o duque,

trabalhava principalmente nas trevas para reinar sobre toda a Peninsula.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06 · 第 5 / 14 段