´Ao primeiro de junho mandou el-rei lanÁar bando que todas as companhias

fossem receber soldo, e que todo homem assi natural como extrangeiro que

recebesse ou tivesse recebido soldo, e n„o passasse · Africa, que

morresse.ª

´Foi el-rei por vezes ao campo vÍr os esquadrıes e os capit„es como o

faziam, e elle mesmo andava nas resenhas e entre o pÛ e fumo da

arcabuzaria, muito alegre e contente. E È de notar o fervor com que

negociou estas cousas: e depois que se isto comeÁou a apparelhar lhe era

pesada toda a practica, que n„o tractava de guerra ou do apparelho

d'ella.ª

´N'este meio tempo houve algumas brigas, mui travadas, e algumas de

bandos, como foi uma dos portuguezes e tudescos na praia da Boa-vista,

sendo mais de duzentos tudescos e outros tantos portuguezes, que durou

por muitas horas, sem os poderem apartar nem apasiguar: e n„o morreu

mais de um tudesco, e houve muitos feridos de uma parte e outra: e

nasceu esta briga de dois portuguezes quererem obrigar a dois tudescos

que pagassem a uma taberneira o que lhe comeram, que lh'o n„o queriam

pagar. Outra briga houve de portuguezes contra castelhanos, porque tres

portuguezes inconsideradamente arrancaram contra um esquadr„o de

castelhanos, e succedeu-lhes bem, que em pouco se junctaram quarenta ou

cincoenta portuguezes que brigaram valorosamente, onde mataram quatro

castelhanos e feriram mais de vinte: dos portuguezes n„o mataram nenhum,

mas ficaram alguns feridos. Esta briga se fez no rocio, · porta do

hospital d'el-rei, e armou-se de estes tres portuguezes chamarem ladrıes

a seis ou sete castelhanos dos d'aquella companhia, porque estando um

mouro de Cide MuÁa com tres moedas d'ouro de quinhentos rÈis na m„o, lhe

disseram estes sete castelhanos se as queria trocar, que lhe dariam de

ganho quarenta rÈis por cada uma: acceitou o mouro, e pediram-lhe os

castelhanos as moedas para vÍr se eram de peso, e mostrando-lhes as

tres, as passaram de m„o em m„o uns pelos outros de maneira que

desappareceram; e o mouro pediu ajuda a estes tres portuguezes e emenda

da zombaria que lhe fizeram, e que lhe tornassem o seu dinheiro. Vendo

el-rei que estes negocios iam para mal e que cada dia havia brigas,

mandou lanÁar bando que todo homem assim natural como extrangeiro, que

na cÙrte arrancasse espada, morresse por isso, e assim se atalharam as

brigas.ª

´Mas depois que el-rei se partiu houve uma sÛ, que foi a gente do duque

de BraganÁa com uma companhia de castelhanos que ficou em Lisboa para

receber soldo; e tanto que a briga se comeÁou, o capit„o dos castelhanos

recolheu sua gente o melhor que pÙde nas varandas dos paÁos da ribeira,

e a briga comeÁou-se · Porta do-mar juncto ·s casas de Affonso

d'Albuquerque. Ajunctaram-se da gente do duque mais de duzentos homens,

e o fizeram como muito soberbos e pouco esforÁados; porque, sahindo o

capit„o dos castelhanos com uma bandeira de paz, e pondo-se de joelhos

diante d'elles dizendo que por amor de Deus o matassem a elle e

deixassem os seus soldados; que olhassem que eram irm„os dos

portuguezes, e vinham a servir el-rei de Portugal; elles sem deferirem a

isto iam seguindo sua furia, e vendo algum castelhano ·s janellas ou

varandas lhe tiravam ·s arcabuzadas, e ao mesmo capit„o que lhes pedia

paz lhe tiraram muitos golpes e pedradas, que foi milagre n„o o matarem

ou ferirem. Fez este capit„o maravilhas, e deu mostras de muito

esforÁado; e porque j· alguns do duque haviam tido os dias atraz brigas

com alguns da sua companhia, e era em rixa velha, foi este capit„o ao

duque pedir-lhe amqestasse a sua gente n„o lhe quizesse matar seus

soldados, e como j· o duque estava informado das finezas que este

capit„o fizera, lhe agradeceu muito e lhe mandou dar um cavallo e

duzentos cruzados, e um chapeu seu, que tinha, para levar, porque o

capit„o ia sem elle, que o perdera na briga.ª

´E pela cidade se comeÁou a alevantar um rumor que seria bom prenderem

ao mesmo duque; que n„o era possivel que elle n„o mandasse · sua gente

fizessem bandos e as taes brigas, sendo el-rei ausente; e que sempre a

casa de BraganÁa fÙra avessa ·s cousas do rei. N„o faltou quem avisasse

o duque d'isto, o qual mandou chamar toda a justiÁa, e lhes pediu com

muita instancia que todo seu criado prendessem e julgassem no mesmo

instante, e que, se conheciam alguns dos outros da briga passada, os

prendessem logo e se julgassem como a el-rei e a suas justiÁas

parecesse. Conheceram doze dos que comeÁaram a briga; prenderam-nos:

todos os mais fez logo o duque embarcar, e partiram com o duque novo.

AfÛra estas brigas todas, amanheciam muitos homens mortos das brigas de

noite.ª

´Aos oito dias de junho mandou el-rei lanÁar bando que todos se

aviassem, porque elle se embarcava a quatorze do mesmo mez, que foi um

sabbado; e t„o firmemente que, perguntando-lhe Christov„o de Tavora se

havia de passar alguns dias depois dos quatorze, lhe respondeu:--que bem

se podia o cÈu ajunctar com a terra, sem haver falta no que tinha

mandado apregoar.ª

´N'este sabbado quatorze de junho foi el-rei, dos paÁos da ribeira · sÈ,

a buscar a bandeira real. Tanto que amanheceu comeÁaram a correr os

fidalgos para o acompanharem: e parece que · porfia trabalharam para ir

cada um mais galante e custoso: cousa que espantou muito as gentes, vÍr

como todos iam ricamente vestidos; porque, se a materia dos vestidos era

rica, a obra, feitios e invenÁıes de mais rica sobejava; porque tudo era

brocado, tela d'ouro e prata, tecidos d'ouro e prata, tecidos de seda

mui custosos. Os velludos, damascos, e todas as mais sedas perderam sua

valia; e se alguma tinham era pelos muitos passamanes, rendilhas,

espiguilhas, torchados e alamares d'ouro que lhe punham. Mas tudo isto

era de pouco gasto em comparaÁ„o dos feitios, que estes destruiram os

homens.ª

´AlÈm d'isto, foi espanto vÍr a muita pedraria que n'este dia sahiu: os

botıes d'ouro, as tranÁas dos chapÈus cheias de rubins, diamantes, e

esmeraldas de preÁo infinito, entresachadas a compasso umas com as

outras; os camafeus, medalhas e estampas de feitio singular; as cadeias

d'ouro grossissimas aos pescoÁos, de dez e doze voltas; as couras

borladas d'ouro com botıes d'ouro, cristal, perolas e demais pedraria;

os gibıes e coletes sobre telilha (d'ouro com invenÁ„o de cÛrte, pique,

presponte maravilhoso; os capotes de damasco, setim, chamalote de seda,

bandados com barras de velludo e torÁaes d'ouro.ª

´Os arreios dos cavallos eram cousa de admiraÁ„o; porque todos os

fidalgos levavam em seus cavallos cabeÁadas e esporas de prata,

esmaltadas d'ouro e azul; as estribeiras com mil figuras e maneiras de

bichos abertos n'ellas, obrados por singular arte; as nominas,

peitoraes, cigolas e cordıes com muitas borlas d'ouro e torÁaes; as

muchillas com os jaezes e cobertas quando menos eram de velludo com mil

franjas d'ouro e prata, e os mandis de velludo.ª

´Nem era menos vÍr como os fidalgos vestiram todos a sua gente, uns de

gran, outros de raxa de mÈscla e tamate, isto assim a escudeiros e

pagens como a lacaios e escravos, cada um de sua librÈa de suas cÙres, e

alguns os vestiram de calÁas e gibıes de seda da cÙr de sua librÈa, com

meias de agulha de seda.ª

´Emfim foram os fidalgos esperar a el-rei · sala, e d'ahi desceram com

elle atÈ cavalgar. Estava a este tempo o terreiro do paÁo, que È um

espaÁo grande, muito cheio de gente, que n„o havia poder andar; e alÈm

d'isso era para vÍr estar as librÈas de dez em dez homens, pegados nos

cavallos de seus senhores, de cÙres differentes todos, com muitas plumas

de diversas cÙres nos chapÈus, com cendaes aos pescoÁos com borlas

d'ouro e seda, que faziam um campo esmaltado de diversas boninas.ª

´Finalmente passando el-rei pela varanda, juncto da escada por onde

havia de descer a cavalgar, olhou para todo o espaÁo da gente, e

conhecidamente se lhe enxergou no rosto o contentamento de vÍr tanta

gente, t„o lustrosa e t„o alvoroÁada; e cavalgando foi passando pelos

fidalgos, pondo os olhos em cada um com uma alegria e benignidade

desacostumada. D'esta maneira foi acompanhado atÈ a sÈ, onde, depois de

ouvir missa, se benzeu com muita solemnidade a bandeira, na qual estavam

de uma parte postas as armas reaes, e da outra um crucifixo, com el-rei

D. Sebasti„o tirado pelo natural.ª

´J· que tudo era acabado, el-rei com os joelhos no ch„o e os olhos

arrazados d'agua esteve um pedaÁo diante do Sanctissimo Sacramento

rezando. Acabando a oraÁ„o entregou a bandeira a D. Luiz de Menezes,

alferes-mÛr, que coberto a levou diante; e assim acompanhado atÈ o caes

da rainha, se embarcou na galÈ real, cuja obra È estranha, porque sÛ na

pÙpa, onde el-rei vai, se affirma que se gastaram mais de oito mil

cruzados, porque È da mais estranha e singular invenÁ„o que se viu. Toda

era cozida em ouro, com muitas historias abertas no mesmo p·u, com

outros muitos vultos formosissimos, e outras personagens de temerosos

aspeitos, tudo obrado com maravilhoso artificio; e o farol real era

conforme a dicta obra de maravilhosa invenÁ„o.ª

´E porque n„o haja quem diga que n„o tractaram os homens mais que de se

enfeitarem, nem lhes lembr·ra mais que suas louÁainhas e vaidade, sei

dizer que o gasto que fizeram nos vestidos foi pouco em comparaÁ„o das

armas e apparelhos para pelejarem.ª

´N„o houve homem fidalgo que n„o comprasse muitos corpos d'armas muito

lustrosos, e n„o mandasse pintar n'ellas suas armas em campos de

diversas cÙres: mil peitos de prÛva de muito preÁo, muitas couras e

coletes de anta, couraÁas de laminas cobertas de velludo e setim de

todas as cÙres com tachas d'ouro e prata, muitas saias de malha, e

gibanetes, tudo muito galante e de muito gosto, e muitas rodelas d'aÁo

tauxiadas de lavor d'ouro com suas armas pintadas n'ellas, muitas

adargas muito fortes, muitas lanÁas dourados os contos e engastes,

espadas largas e cortadoras, muitos montantes, leques, terÁados, e todo

outro genero d'armas muito fortes e galantes.ª

´Levam muitos homens fidalgos um cavallo acobertado de cobertas d'anta

muito fortes e louÁans, pintadas n'ellas suas armas de tintas

finissimas. Houve cobertas d'estas que passaram de mil cruzados. N„o

houve genero d'armas, assim offensivas como defensivas, que os homens

n„o comprassem com muito gasto e custo, e com mais gasto ainda que nos

vestidos.ª

´Levam tambem muitas tendas muito ricas, e muitas d'ellas de seda, com

suas grimpas douradas e bandeiras de seda, e tendilhıes para a gente e

cavallos; e el-rei leva muita somma de tendas que mandou trazer de

Allemanha; e se affirma que as d'el-rei e dos fidalgos e extrangeiros

ser„o mais de quatro mil com os tendilhıes.ª

´… de notar como os homens v„o alfaiados, e o muito provimento de todas

as cousas que levam, que parece que levam casa mudada, como se l·

houvessem de estar vinte annos. Foi de maravilhar em todo este tempo,

com tanta confluencia de forasteiros e gente de todo este reino, n„o

faltarem nunca os mantimentos n'esta terra, nem alevantar o preÁo

d'elles, antes que nenhum outro tempo houve mais, nem mais baratos. Esta

foi uma das cousas em que Lisboa mostrou bem sua grandeza.ª

´Comquanto el-rei mandou lanÁar bando com penas grandes que ninguem

vendesse as cousas por mores preÁos do que d'antes valiam, e com ao

principio prenderem alguns por isso, n„o deixaram as sedas, pannos, e

armas, e todas as cousas necessarias para esta jornada de custar cinco e

seis vezes mais do costumado. Isto destruiu os homens; e na rua-nova,

onde todas estas cousas se vendem, apreÁando um fidalgo algumas cousas

de seda para se vestir, pelas quaes lhe pediram tanto mais do que

valiam, que fazia medo, disse com assaz dÙr de coraÁ„o:--que mais

arreceavam os homens a guerra que se lhes fazia na rua-nova, que a que

se esperava em Africa. D'estes havia muitos, e os mais d'elles

negociavam em pessoa, que assim era necessario para se melhor

negociarem, e, pelo muito gasto que fizeram, ficaram todos destruidos, e

uns venderam as herdades e casas e casaes e quintans por dois seitis, e

outros empenharam as commendas e morgados por muitos annos por d'ante

m„o, para se aviarem, por muito pouco preÁo valendo muito, e haviam

provisıes d'el-rei para o poderem fazer sem embargo de serem morgados: e

outros vendiam a prata e ouro, e tudo o mais de que se podia fazer

dinheiro se punha em leil„o.ª

´N„o houve nenhum officio que n„o estivesse com obra, e todos elles

alevantaram sem consciencia. Ao menos os officiaes de vestidos,

pintores, douradores, armeiros, sirgueiros, e officiaes de tendas,

ficaram ricos para sempre, e os mais n„o ficaram pobres.ª

´Deu o arcebispo licenÁa, pelo principio de maio, que d'ahi atÈ se

partir el-rei trabalhassem todos os officiaes de todos os officios dias

e sanctos de guarda, nas cousas que pertenciam · guerra ou seu

apparelho; e assim se fez, que todos trabalharam; e com tudo isso n„o se

poderam acabar de aviar todos os fidalgos, que ainda c· ficaram alguns

que apoz el-rei se partiram.ª

´Foi recommendado a Jeronimo Corte-Real e a D. Jo„o de Mafra e a outro

fidalgo, que n„o soube o nome, que inventassem o que poria el-rei no

timbre de suas armas novas, com que n'esta jornada havia de sahir.

Accordaram que pozesse abaixo das armas reaes dois piramides ao modo de

columnas, e de um d'estes ao outro pozessem umas letras que

dissessem:--Amor, fÈ, amor.ª

´Depois de el-rei assim estar embarcado, este sabbado que disse, ao

domingo seguinte, que foram 15 dias do mez de junho, sahiu a ouvir missa

na igreja de Sanctos velho, e d'ahi se tornou outra vez a jantar · sua

galÈ, e n'ella andou toda a tarde vendo a frota e dando pressa que se

aviassem, e da mesma maneira todos os dias d'aquella semana andou

visitando as n·us e vÈlas grandes, dando-lhes pressa que se aviassem; e

na segunda feira pela manhan mandou el-rei lanÁar bando com trombetas

que todos se embarcassem, porque elle botava na quarta feira seguinte de

foz em fÛra, e o mesmo fez na segunda feira · noite, e · terÁa feira

pela manhan e · noite.ª

´Na quarta feira se mudou o tempo do mar, e esteve assim atÈ segunda

feira vespera de S. Jo„o tÈ o meio-dia.ª

´[19]N'este meio tempo aconteceu uma desgraÁa grande ao senhor D.

Antonio, prior do Grato, com el-rei e com Christov„o de Tavora; e foi

que tinha o senhor D. Antonio fallado a um criado da infanta D. Maria,

grande reposteiro, e mantieiro maravilhoso e mui destro n'esta cousa de

banquetes: e estava concertado leval-o comsigo n'esta jornada, e a esta

conta esteve, comeu e pousou alguns dias em casa do senhor D. Antonio.

Teve Christov„o de Tavora noticia d'este homem: mandou-o chamar, e lhe

rogou ou lhe mandou que o acompanhasse n'esta jornada; que cumpria

assim. Como Christov„o de Tavora È do bafo d'el-rei e tanto seu privado,

e quer, pÛde e manda, acceitou este homem de boa vontade ir com elle,

sem embargo da palavra que tinha j· dado ao senhor D. Antonio, o qual na

vespera da partida o mandou chamar a sua casa e lhe disse que se

acabasse de aviar. Respondeu-lhe elle sem pejo que ia com Christov„o de

Tavora; que n„o podia ir com S. Ex.^a. Faltou a paciencia ao senhor D.

Antonio, e por sua m„o lhe deu com um p·u umas poucas de pancadas e o

tractou mal. Tomado Christov„o de Tavora d'isto fez queixume a el-rei

que o senhor D. Antonio lhe espancara um homem seu, porque n„o quizera

ir com elle. Estando isto d'esta maneira acertou de ir o senhor D.

Antonio · galÈ d'el-rei, e antes que chegasse a elle fallou a cinco ou

seis fidalgos que estavam afastados da pÙpa, entre os quaes estava

Christov„o de Tavora, e todos salvaram e tiraram o chapÈu ao senhor D.

Antonio sen„o elle, que virou o rosto para outra parte. Disse-lhe o

senhor D. Antonio:--´Sois mal ensinado, Christov„o de Tavoraª: a que

elle respondeu:--´Nunca o eu sube ser, sen„o quando me sobejou raz„o

para isso.ª Anojado o senhor D. Antonio se foi fazer queixume a el-rei,

parecendo-lhe que emendasse a descortezia: elle lhe respondeu de m·

graÁa e por cima do hombro:--´VÛs lh'o tereis merecido.ª Sahiu-se o

senhor D. Antonio da galÈ aggravado. Informado depois el-rei do que

passava, e sabendo que tractava de se ir para Castella, o mandou chamar

e apaziguou o caso.ª

´Em todo este tempo que el-rei esteve embarcado, o estiveram os fidalgos

principaes, porque tinham por m· fidalguia estar el-rei embarcado, e

elles em suas casas; ainda que de noite iam a furto dormir a ellas, e de

dia estavam em suas embarcaÁıes. ¡ segunda feira, vespera de S. Jo„o,

mandou el-rei lanÁar bando que toda a pessoa, que estivesse apontada nos

roes, estivesse embarcada dia de S. Jo„o pela manhan, sob pena de serem

presos · mercÍ de S. A.: e ao dia de S. Jo„o pela manhan mandou el-rei

levar ancora defronte da igreja de Santos, onde costumava a mandal-a

botar todas as noites, e d'ahi se botou defronte de toda a armada de

largo, e mandou disparar uma peÁa, que È signal de recolher, e se

despediu de todo; e deixando os que ficavam muito saudosos se foi

caminho de Oeiras, tres leguas de Lisboa, onde fez embarcar os

seiscentos romanos, e mandou que o mesmo fizessem os tudescos. Ahi

esteve atÈ o outro dia ao jantar, e toda a manhan andou o patr„o-mÛr em

um bergantim da ribeira de Lisboa, a bordo de todos os navios, dizendo

da parte d'el-rei que se partissem logo, que esperava por elles em

Oeiras.ª

´N'este mesmo dia · tarde, elle com a frota que estava juncta em Oeiras,

se partiu com um tempo bem assombrado como el-rei desejava para sua

jornada; e comquanto todos determinaram de se aviar depressa, ainda

ficaram na ribeira de Lisboa cento e sessenta vÈlas, entre caravellas de

fidalgos e outros navios d'alto-bordo que muitos fidalgos tinham

fretados. Todos estes navios que ficaram se negociaram com a mÛr

brevidade que pÙde ser para se irem apoz el-rei; e para isto mandou que

ficasse em Cascaes o gale„o S. Martinho, um navio formosissimo e mui

forte, o qual ficou para dar guarda e seguro ·s vÈlas que ficaram em

Lisboa, para as acompanhar atÈ Africa.ª

´Foi cousa mui formosa de vÍr a multid„o de vÈlas que foram com el-rei;

porque as vÈlas que estavam no rio de Lisboa para ir com el-rei eram

novecentas e quarenta, entre as quaes eram mais de quinhentas

d'alto-bordo mui bem artilhadas, e entre estas algumas guerreiras e

inexpugnaveis, como eram os galeıes d'el-rei, e as n·us venezianas, e

urcas, e outras muitas portuguezas, todas com artilharia de bronze, com

muitas bombas de fogo, e outros artificios e petrechos d'esta qualidade.

Iam estas vÈlas todas junctas e embandeiradas com seus estandartes de

seda nas gaveas, que chegavam com as pontas · agua empavezadas, com

varandas pintadas e cortinas de seda, e as caravellas com seus toldos e

bandeiras de quadra; e vÍr andar el-rei por entre as n·us mandando-lhes

que se aviassem depressa, e disparar toda a artilheria, e cobrir-se tudo

de fumo.ª

´Quando el-rei partiu de Oeiras, que desamarrou e levou ancora,

desamarraram com elle pouco menos de oitocentas vÈlas, com as vÈlas

todas mettidas, que faziam uma vista formosissima; e quando chegar a

Africa deve de ir com mais de mil e quinhentas vÈlas, porque tem mandado

que se ajunctem no Algarve as da cidade do Porto, de Vianna, d'Aveiro,

Villa do Conde, Buarcos, Setubal, em o qual est„o esperando mais de

duzentas vÈlas, e outras muitas que est„o em Cezimbra, Sagres, Lagos,

Tavira, e em todos os portos do Algarve, onde se havia de embarcar a

gente do terÁo de Francisco de Tavora.ª

´A ordem do soldo È que d· el-rei a cada soldado quatro cruzados cada

mez, e os mantimentos h„o-se de vender por elle, e para isto mandou ir

muitos taboleiros de todas as partes para venderem no campo os mesmos

mantimentos d'el-rei pela taixa, e d'esta maneira n„o se pÛde alevantar

o preÁo d'elles.ª

......................................................................

VIAGEM A PORTUGAL DOS CAVALLEIROS TRON E LIPPOMANI

1580

Quando offerecemos aos leitores varios extractos da viagem do cardeal

Alexandrino tendentes a fazer conhecer, melhor do que se conhecem, as

nossas antigas cousas, promettemos ahi extrahir algumas passagens de

outro livro inedito, que nos pareciam dar no alvo em que tinhamos posto

mira. Este livro È uma narraÁ„o da viagem dos dois embaixadores mandados

pela republica de Veneza cumprimentar Philippe II pela conquista de

Portugal. A epocha da viagem È quasi a mesma da que j· extract·mos; mas

o auctor anonymo d'esta toca outros pontos mui diversos dos que em

grande parte haviam dado materia ·s observaÁıes do antecedente

escriptor. No presente manuscripto, a relaÁ„o do caminho que os

embaixadores fizeram pelas provincias nada contÈm que n„o se ache em

obras portuguezas impressas. Na descripÁ„o, porÈm, particular de Lisboa

apontam-se tantas particularidades sobre os usos, habitos e grau de

civilisaÁ„o do paiz, e tantas noticias economicas ignoradas, por certo,

dos leitores, que julg·mos conveniente lanÁar aqui a memoria d'essas

cousas, que porventura importam mais · historia do que commummente se

cuida.

Na descripÁ„o geral de Lisboa e particular das egrejas, paÁos reaes,

hospital, etc., nada ha notavel n'esta viagem, sen„o os muitos erros

·cerca de quasi tudo o que È historico, em que o auctor sÛ parece ter

consultado pessoas menos instruidas em taes materias. N'essas

descripÁıes o bom do venezeano, auctor do livro, segue o estylo commum

do seu tempo: as egrejas s„o grandes, aceadas, ricas; os paÁos vastos,

sumptuosos, nobres; e com isto se contenta. N„o assim no que vamos

extractar, comeÁando pela noticia da _fonte dos cavallos d'arame_, j·

t„o celebre no tempo de D. Fernando.

......................................................................

´Para o lado da porta que chamam da Cruz ha outra fonte, ou antes lago,

que denominam dos cavallos; porque da boca d'alguns cavallos de metal

s·e tanta agua, que fÛrma uma corrente a modo de ribeiro.ª

......................................................................

´Posto que Lisboa seja tamanha e t„o nobre povoaÁ„o, n„o tem palacio

algum de burguez ou de fidalgo, que mereÁa consideraÁ„o quanto ·

materia; e quanto · architectura apenas s„o edificios muito grandes.

Ornam-os, porÈm, de tal modo que na verdade ficam magnificos. Costumam

forrar os aposentos de rasos, de damascos, e de finissimos razes no

inverno, e no ver„o de couros dourados mui ricos, que se fabricam

n'aquella cidade.ª

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06 · 第 4 / 14 段