fossem receber soldo, e que todo homem assi natural como extrangeiro que
recebesse ou tivesse recebido soldo, e n„o passasse · Africa, que
morresse.ª
´Foi el-rei por vezes ao campo vÍr os esquadrıes e os capit„es como o
faziam, e elle mesmo andava nas resenhas e entre o pÛ e fumo da
arcabuzaria, muito alegre e contente. E È de notar o fervor com que
negociou estas cousas: e depois que se isto comeÁou a apparelhar lhe era
pesada toda a practica, que n„o tractava de guerra ou do apparelho
d'ella.ª
´N'este meio tempo houve algumas brigas, mui travadas, e algumas de
bandos, como foi uma dos portuguezes e tudescos na praia da Boa-vista,
sendo mais de duzentos tudescos e outros tantos portuguezes, que durou
por muitas horas, sem os poderem apartar nem apasiguar: e n„o morreu
mais de um tudesco, e houve muitos feridos de uma parte e outra: e
nasceu esta briga de dois portuguezes quererem obrigar a dois tudescos
que pagassem a uma taberneira o que lhe comeram, que lh'o n„o queriam
pagar. Outra briga houve de portuguezes contra castelhanos, porque tres
portuguezes inconsideradamente arrancaram contra um esquadr„o de
castelhanos, e succedeu-lhes bem, que em pouco se junctaram quarenta ou
cincoenta portuguezes que brigaram valorosamente, onde mataram quatro
castelhanos e feriram mais de vinte: dos portuguezes n„o mataram nenhum,
mas ficaram alguns feridos. Esta briga se fez no rocio, · porta do
hospital d'el-rei, e armou-se de estes tres portuguezes chamarem ladrıes
a seis ou sete castelhanos dos d'aquella companhia, porque estando um
mouro de Cide MuÁa com tres moedas d'ouro de quinhentos rÈis na m„o, lhe
disseram estes sete castelhanos se as queria trocar, que lhe dariam de
ganho quarenta rÈis por cada uma: acceitou o mouro, e pediram-lhe os
castelhanos as moedas para vÍr se eram de peso, e mostrando-lhes as
tres, as passaram de m„o em m„o uns pelos outros de maneira que
desappareceram; e o mouro pediu ajuda a estes tres portuguezes e emenda
da zombaria que lhe fizeram, e que lhe tornassem o seu dinheiro. Vendo
el-rei que estes negocios iam para mal e que cada dia havia brigas,
mandou lanÁar bando que todo homem assim natural como extrangeiro, que
na cÙrte arrancasse espada, morresse por isso, e assim se atalharam as
brigas.ª
´Mas depois que el-rei se partiu houve uma sÛ, que foi a gente do duque
de BraganÁa com uma companhia de castelhanos que ficou em Lisboa para
receber soldo; e tanto que a briga se comeÁou, o capit„o dos castelhanos
recolheu sua gente o melhor que pÙde nas varandas dos paÁos da ribeira,
e a briga comeÁou-se · Porta do-mar juncto ·s casas de Affonso
d'Albuquerque. Ajunctaram-se da gente do duque mais de duzentos homens,
e o fizeram como muito soberbos e pouco esforÁados; porque, sahindo o
capit„o dos castelhanos com uma bandeira de paz, e pondo-se de joelhos
diante d'elles dizendo que por amor de Deus o matassem a elle e
deixassem os seus soldados; que olhassem que eram irm„os dos
portuguezes, e vinham a servir el-rei de Portugal; elles sem deferirem a
isto iam seguindo sua furia, e vendo algum castelhano ·s janellas ou
varandas lhe tiravam ·s arcabuzadas, e ao mesmo capit„o que lhes pedia
paz lhe tiraram muitos golpes e pedradas, que foi milagre n„o o matarem
ou ferirem. Fez este capit„o maravilhas, e deu mostras de muito
esforÁado; e porque j· alguns do duque haviam tido os dias atraz brigas
com alguns da sua companhia, e era em rixa velha, foi este capit„o ao
duque pedir-lhe amqestasse a sua gente n„o lhe quizesse matar seus
soldados, e como j· o duque estava informado das finezas que este
capit„o fizera, lhe agradeceu muito e lhe mandou dar um cavallo e
duzentos cruzados, e um chapeu seu, que tinha, para levar, porque o
capit„o ia sem elle, que o perdera na briga.ª
´E pela cidade se comeÁou a alevantar um rumor que seria bom prenderem
ao mesmo duque; que n„o era possivel que elle n„o mandasse · sua gente
fizessem bandos e as taes brigas, sendo el-rei ausente; e que sempre a
casa de BraganÁa fÙra avessa ·s cousas do rei. N„o faltou quem avisasse
o duque d'isto, o qual mandou chamar toda a justiÁa, e lhes pediu com
muita instancia que todo seu criado prendessem e julgassem no mesmo
instante, e que, se conheciam alguns dos outros da briga passada, os
prendessem logo e se julgassem como a el-rei e a suas justiÁas
parecesse. Conheceram doze dos que comeÁaram a briga; prenderam-nos:
todos os mais fez logo o duque embarcar, e partiram com o duque novo.
AfÛra estas brigas todas, amanheciam muitos homens mortos das brigas de
noite.ª
´Aos oito dias de junho mandou el-rei lanÁar bando que todos se
aviassem, porque elle se embarcava a quatorze do mesmo mez, que foi um
sabbado; e t„o firmemente que, perguntando-lhe Christov„o de Tavora se
havia de passar alguns dias depois dos quatorze, lhe respondeu:--que bem
se podia o cÈu ajunctar com a terra, sem haver falta no que tinha
mandado apregoar.ª
´N'este sabbado quatorze de junho foi el-rei, dos paÁos da ribeira · sÈ,
a buscar a bandeira real. Tanto que amanheceu comeÁaram a correr os
fidalgos para o acompanharem: e parece que · porfia trabalharam para ir
cada um mais galante e custoso: cousa que espantou muito as gentes, vÍr
como todos iam ricamente vestidos; porque, se a materia dos vestidos era
rica, a obra, feitios e invenÁıes de mais rica sobejava; porque tudo era
brocado, tela d'ouro e prata, tecidos d'ouro e prata, tecidos de seda
mui custosos. Os velludos, damascos, e todas as mais sedas perderam sua
valia; e se alguma tinham era pelos muitos passamanes, rendilhas,
espiguilhas, torchados e alamares d'ouro que lhe punham. Mas tudo isto
era de pouco gasto em comparaÁ„o dos feitios, que estes destruiram os
homens.ª
´AlÈm d'isto, foi espanto vÍr a muita pedraria que n'este dia sahiu: os
botıes d'ouro, as tranÁas dos chapÈus cheias de rubins, diamantes, e
esmeraldas de preÁo infinito, entresachadas a compasso umas com as
outras; os camafeus, medalhas e estampas de feitio singular; as cadeias
d'ouro grossissimas aos pescoÁos, de dez e doze voltas; as couras
borladas d'ouro com botıes d'ouro, cristal, perolas e demais pedraria;
os gibıes e coletes sobre telilha (d'ouro com invenÁ„o de cÛrte, pique,
presponte maravilhoso; os capotes de damasco, setim, chamalote de seda,
bandados com barras de velludo e torÁaes d'ouro.ª
´Os arreios dos cavallos eram cousa de admiraÁ„o; porque todos os
fidalgos levavam em seus cavallos cabeÁadas e esporas de prata,
esmaltadas d'ouro e azul; as estribeiras com mil figuras e maneiras de
bichos abertos n'ellas, obrados por singular arte; as nominas,
peitoraes, cigolas e cordıes com muitas borlas d'ouro e torÁaes; as
muchillas com os jaezes e cobertas quando menos eram de velludo com mil
franjas d'ouro e prata, e os mandis de velludo.ª
´Nem era menos vÍr como os fidalgos vestiram todos a sua gente, uns de
gran, outros de raxa de mÈscla e tamate, isto assim a escudeiros e
pagens como a lacaios e escravos, cada um de sua librÈa de suas cÙres, e
alguns os vestiram de calÁas e gibıes de seda da cÙr de sua librÈa, com
meias de agulha de seda.ª
´Emfim foram os fidalgos esperar a el-rei · sala, e d'ahi desceram com
elle atÈ cavalgar. Estava a este tempo o terreiro do paÁo, que È um
espaÁo grande, muito cheio de gente, que n„o havia poder andar; e alÈm
d'isso era para vÍr estar as librÈas de dez em dez homens, pegados nos
cavallos de seus senhores, de cÙres differentes todos, com muitas plumas
de diversas cÙres nos chapÈus, com cendaes aos pescoÁos com borlas
d'ouro e seda, que faziam um campo esmaltado de diversas boninas.ª
´Finalmente passando el-rei pela varanda, juncto da escada por onde
havia de descer a cavalgar, olhou para todo o espaÁo da gente, e
conhecidamente se lhe enxergou no rosto o contentamento de vÍr tanta
gente, t„o lustrosa e t„o alvoroÁada; e cavalgando foi passando pelos
fidalgos, pondo os olhos em cada um com uma alegria e benignidade
desacostumada. D'esta maneira foi acompanhado atÈ a sÈ, onde, depois de
ouvir missa, se benzeu com muita solemnidade a bandeira, na qual estavam
de uma parte postas as armas reaes, e da outra um crucifixo, com el-rei
D. Sebasti„o tirado pelo natural.ª
´J· que tudo era acabado, el-rei com os joelhos no ch„o e os olhos
arrazados d'agua esteve um pedaÁo diante do Sanctissimo Sacramento
rezando. Acabando a oraÁ„o entregou a bandeira a D. Luiz de Menezes,
alferes-mÛr, que coberto a levou diante; e assim acompanhado atÈ o caes
da rainha, se embarcou na galÈ real, cuja obra È estranha, porque sÛ na
pÙpa, onde el-rei vai, se affirma que se gastaram mais de oito mil
cruzados, porque È da mais estranha e singular invenÁ„o que se viu. Toda
era cozida em ouro, com muitas historias abertas no mesmo p·u, com
outros muitos vultos formosissimos, e outras personagens de temerosos
aspeitos, tudo obrado com maravilhoso artificio; e o farol real era
conforme a dicta obra de maravilhosa invenÁ„o.ª
´E porque n„o haja quem diga que n„o tractaram os homens mais que de se
enfeitarem, nem lhes lembr·ra mais que suas louÁainhas e vaidade, sei
dizer que o gasto que fizeram nos vestidos foi pouco em comparaÁ„o das
armas e apparelhos para pelejarem.ª
´N„o houve homem fidalgo que n„o comprasse muitos corpos d'armas muito
lustrosos, e n„o mandasse pintar n'ellas suas armas em campos de
diversas cÙres: mil peitos de prÛva de muito preÁo, muitas couras e
coletes de anta, couraÁas de laminas cobertas de velludo e setim de
todas as cÙres com tachas d'ouro e prata, muitas saias de malha, e
gibanetes, tudo muito galante e de muito gosto, e muitas rodelas d'aÁo
tauxiadas de lavor d'ouro com suas armas pintadas n'ellas, muitas
adargas muito fortes, muitas lanÁas dourados os contos e engastes,
espadas largas e cortadoras, muitos montantes, leques, terÁados, e todo
outro genero d'armas muito fortes e galantes.ª
´Levam muitos homens fidalgos um cavallo acobertado de cobertas d'anta
muito fortes e louÁans, pintadas n'ellas suas armas de tintas
finissimas. Houve cobertas d'estas que passaram de mil cruzados. N„o
houve genero d'armas, assim offensivas como defensivas, que os homens
n„o comprassem com muito gasto e custo, e com mais gasto ainda que nos
vestidos.ª
´Levam tambem muitas tendas muito ricas, e muitas d'ellas de seda, com
suas grimpas douradas e bandeiras de seda, e tendilhıes para a gente e
cavallos; e el-rei leva muita somma de tendas que mandou trazer de
Allemanha; e se affirma que as d'el-rei e dos fidalgos e extrangeiros
ser„o mais de quatro mil com os tendilhıes.ª
´… de notar como os homens v„o alfaiados, e o muito provimento de todas
as cousas que levam, que parece que levam casa mudada, como se l·
houvessem de estar vinte annos. Foi de maravilhar em todo este tempo,
com tanta confluencia de forasteiros e gente de todo este reino, n„o
faltarem nunca os mantimentos n'esta terra, nem alevantar o preÁo
d'elles, antes que nenhum outro tempo houve mais, nem mais baratos. Esta
foi uma das cousas em que Lisboa mostrou bem sua grandeza.ª
´Comquanto el-rei mandou lanÁar bando com penas grandes que ninguem
vendesse as cousas por mores preÁos do que d'antes valiam, e com ao
principio prenderem alguns por isso, n„o deixaram as sedas, pannos, e
armas, e todas as cousas necessarias para esta jornada de custar cinco e
seis vezes mais do costumado. Isto destruiu os homens; e na rua-nova,
onde todas estas cousas se vendem, apreÁando um fidalgo algumas cousas
de seda para se vestir, pelas quaes lhe pediram tanto mais do que
valiam, que fazia medo, disse com assaz dÙr de coraÁ„o:--que mais
arreceavam os homens a guerra que se lhes fazia na rua-nova, que a que
se esperava em Africa. D'estes havia muitos, e os mais d'elles
negociavam em pessoa, que assim era necessario para se melhor
negociarem, e, pelo muito gasto que fizeram, ficaram todos destruidos, e
uns venderam as herdades e casas e casaes e quintans por dois seitis, e
outros empenharam as commendas e morgados por muitos annos por d'ante
m„o, para se aviarem, por muito pouco preÁo valendo muito, e haviam
provisıes d'el-rei para o poderem fazer sem embargo de serem morgados: e
outros vendiam a prata e ouro, e tudo o mais de que se podia fazer
dinheiro se punha em leil„o.ª
´N„o houve nenhum officio que n„o estivesse com obra, e todos elles
alevantaram sem consciencia. Ao menos os officiaes de vestidos,
pintores, douradores, armeiros, sirgueiros, e officiaes de tendas,
ficaram ricos para sempre, e os mais n„o ficaram pobres.ª
´Deu o arcebispo licenÁa, pelo principio de maio, que d'ahi atÈ se
partir el-rei trabalhassem todos os officiaes de todos os officios dias
e sanctos de guarda, nas cousas que pertenciam · guerra ou seu
apparelho; e assim se fez, que todos trabalharam; e com tudo isso n„o se
poderam acabar de aviar todos os fidalgos, que ainda c· ficaram alguns
que apoz el-rei se partiram.ª
´Foi recommendado a Jeronimo Corte-Real e a D. Jo„o de Mafra e a outro
fidalgo, que n„o soube o nome, que inventassem o que poria el-rei no
timbre de suas armas novas, com que n'esta jornada havia de sahir.
Accordaram que pozesse abaixo das armas reaes dois piramides ao modo de
columnas, e de um d'estes ao outro pozessem umas letras que
dissessem:--Amor, fÈ, amor.ª
´Depois de el-rei assim estar embarcado, este sabbado que disse, ao
domingo seguinte, que foram 15 dias do mez de junho, sahiu a ouvir missa
na igreja de Sanctos velho, e d'ahi se tornou outra vez a jantar · sua
galÈ, e n'ella andou toda a tarde vendo a frota e dando pressa que se
aviassem, e da mesma maneira todos os dias d'aquella semana andou
visitando as n·us e vÈlas grandes, dando-lhes pressa que se aviassem; e
na segunda feira pela manhan mandou el-rei lanÁar bando com trombetas
que todos se embarcassem, porque elle botava na quarta feira seguinte de
foz em fÛra, e o mesmo fez na segunda feira · noite, e · terÁa feira
pela manhan e · noite.ª
´Na quarta feira se mudou o tempo do mar, e esteve assim atÈ segunda
feira vespera de S. Jo„o tÈ o meio-dia.ª
´[19]N'este meio tempo aconteceu uma desgraÁa grande ao senhor D.
Antonio, prior do Grato, com el-rei e com Christov„o de Tavora; e foi
que tinha o senhor D. Antonio fallado a um criado da infanta D. Maria,
grande reposteiro, e mantieiro maravilhoso e mui destro n'esta cousa de
banquetes: e estava concertado leval-o comsigo n'esta jornada, e a esta
conta esteve, comeu e pousou alguns dias em casa do senhor D. Antonio.
Teve Christov„o de Tavora noticia d'este homem: mandou-o chamar, e lhe
rogou ou lhe mandou que o acompanhasse n'esta jornada; que cumpria
assim. Como Christov„o de Tavora È do bafo d'el-rei e tanto seu privado,
e quer, pÛde e manda, acceitou este homem de boa vontade ir com elle,
sem embargo da palavra que tinha j· dado ao senhor D. Antonio, o qual na
vespera da partida o mandou chamar a sua casa e lhe disse que se
acabasse de aviar. Respondeu-lhe elle sem pejo que ia com Christov„o de
Tavora; que n„o podia ir com S. Ex.^a. Faltou a paciencia ao senhor D.
Antonio, e por sua m„o lhe deu com um p·u umas poucas de pancadas e o
tractou mal. Tomado Christov„o de Tavora d'isto fez queixume a el-rei
que o senhor D. Antonio lhe espancara um homem seu, porque n„o quizera
ir com elle. Estando isto d'esta maneira acertou de ir o senhor D.
Antonio · galÈ d'el-rei, e antes que chegasse a elle fallou a cinco ou
seis fidalgos que estavam afastados da pÙpa, entre os quaes estava
Christov„o de Tavora, e todos salvaram e tiraram o chapÈu ao senhor D.
Antonio sen„o elle, que virou o rosto para outra parte. Disse-lhe o
senhor D. Antonio:--´Sois mal ensinado, Christov„o de Tavoraª: a que
elle respondeu:--´Nunca o eu sube ser, sen„o quando me sobejou raz„o
para isso.ª Anojado o senhor D. Antonio se foi fazer queixume a el-rei,
parecendo-lhe que emendasse a descortezia: elle lhe respondeu de m·
graÁa e por cima do hombro:--´VÛs lh'o tereis merecido.ª Sahiu-se o
senhor D. Antonio da galÈ aggravado. Informado depois el-rei do que
passava, e sabendo que tractava de se ir para Castella, o mandou chamar
e apaziguou o caso.ª
´Em todo este tempo que el-rei esteve embarcado, o estiveram os fidalgos
principaes, porque tinham por m· fidalguia estar el-rei embarcado, e
elles em suas casas; ainda que de noite iam a furto dormir a ellas, e de
dia estavam em suas embarcaÁıes. ¡ segunda feira, vespera de S. Jo„o,
mandou el-rei lanÁar bando que toda a pessoa, que estivesse apontada nos
roes, estivesse embarcada dia de S. Jo„o pela manhan, sob pena de serem
presos · mercÍ de S. A.: e ao dia de S. Jo„o pela manhan mandou el-rei
levar ancora defronte da igreja de Santos, onde costumava a mandal-a
botar todas as noites, e d'ahi se botou defronte de toda a armada de
largo, e mandou disparar uma peÁa, que È signal de recolher, e se
despediu de todo; e deixando os que ficavam muito saudosos se foi
caminho de Oeiras, tres leguas de Lisboa, onde fez embarcar os
seiscentos romanos, e mandou que o mesmo fizessem os tudescos. Ahi
esteve atÈ o outro dia ao jantar, e toda a manhan andou o patr„o-mÛr em
um bergantim da ribeira de Lisboa, a bordo de todos os navios, dizendo
da parte d'el-rei que se partissem logo, que esperava por elles em
Oeiras.ª
´N'este mesmo dia · tarde, elle com a frota que estava juncta em Oeiras,
se partiu com um tempo bem assombrado como el-rei desejava para sua
jornada; e comquanto todos determinaram de se aviar depressa, ainda
ficaram na ribeira de Lisboa cento e sessenta vÈlas, entre caravellas de
fidalgos e outros navios d'alto-bordo que muitos fidalgos tinham
fretados. Todos estes navios que ficaram se negociaram com a mÛr
brevidade que pÙde ser para se irem apoz el-rei; e para isto mandou que
ficasse em Cascaes o gale„o S. Martinho, um navio formosissimo e mui
forte, o qual ficou para dar guarda e seguro ·s vÈlas que ficaram em
Lisboa, para as acompanhar atÈ Africa.ª
´Foi cousa mui formosa de vÍr a multid„o de vÈlas que foram com el-rei;
porque as vÈlas que estavam no rio de Lisboa para ir com el-rei eram
novecentas e quarenta, entre as quaes eram mais de quinhentas
d'alto-bordo mui bem artilhadas, e entre estas algumas guerreiras e
inexpugnaveis, como eram os galeıes d'el-rei, e as n·us venezianas, e
urcas, e outras muitas portuguezas, todas com artilharia de bronze, com
muitas bombas de fogo, e outros artificios e petrechos d'esta qualidade.
Iam estas vÈlas todas junctas e embandeiradas com seus estandartes de
seda nas gaveas, que chegavam com as pontas · agua empavezadas, com
varandas pintadas e cortinas de seda, e as caravellas com seus toldos e
bandeiras de quadra; e vÍr andar el-rei por entre as n·us mandando-lhes
que se aviassem depressa, e disparar toda a artilheria, e cobrir-se tudo
de fumo.ª
´Quando el-rei partiu de Oeiras, que desamarrou e levou ancora,
desamarraram com elle pouco menos de oitocentas vÈlas, com as vÈlas
todas mettidas, que faziam uma vista formosissima; e quando chegar a
Africa deve de ir com mais de mil e quinhentas vÈlas, porque tem mandado
que se ajunctem no Algarve as da cidade do Porto, de Vianna, d'Aveiro,
Villa do Conde, Buarcos, Setubal, em o qual est„o esperando mais de
duzentas vÈlas, e outras muitas que est„o em Cezimbra, Sagres, Lagos,
Tavira, e em todos os portos do Algarve, onde se havia de embarcar a
gente do terÁo de Francisco de Tavora.ª
´A ordem do soldo È que d· el-rei a cada soldado quatro cruzados cada
mez, e os mantimentos h„o-se de vender por elle, e para isto mandou ir
muitos taboleiros de todas as partes para venderem no campo os mesmos
mantimentos d'el-rei pela taixa, e d'esta maneira n„o se pÛde alevantar
o preÁo d'elles.ª
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VIAGEM A PORTUGAL DOS CAVALLEIROS TRON E LIPPOMANI
1580
Quando offerecemos aos leitores varios extractos da viagem do cardeal
Alexandrino tendentes a fazer conhecer, melhor do que se conhecem, as
nossas antigas cousas, promettemos ahi extrahir algumas passagens de
outro livro inedito, que nos pareciam dar no alvo em que tinhamos posto
mira. Este livro È uma narraÁ„o da viagem dos dois embaixadores mandados
pela republica de Veneza cumprimentar Philippe II pela conquista de
Portugal. A epocha da viagem È quasi a mesma da que j· extract·mos; mas
o auctor anonymo d'esta toca outros pontos mui diversos dos que em
grande parte haviam dado materia ·s observaÁıes do antecedente
escriptor. No presente manuscripto, a relaÁ„o do caminho que os
embaixadores fizeram pelas provincias nada contÈm que n„o se ache em
obras portuguezas impressas. Na descripÁ„o, porÈm, particular de Lisboa
apontam-se tantas particularidades sobre os usos, habitos e grau de
civilisaÁ„o do paiz, e tantas noticias economicas ignoradas, por certo,
dos leitores, que julg·mos conveniente lanÁar aqui a memoria d'essas
cousas, que porventura importam mais · historia do que commummente se
cuida.
Na descripÁ„o geral de Lisboa e particular das egrejas, paÁos reaes,
hospital, etc., nada ha notavel n'esta viagem, sen„o os muitos erros
·cerca de quasi tudo o que È historico, em que o auctor sÛ parece ter
consultado pessoas menos instruidas em taes materias. N'essas
descripÁıes o bom do venezeano, auctor do livro, segue o estylo commum
do seu tempo: as egrejas s„o grandes, aceadas, ricas; os paÁos vastos,
sumptuosos, nobres; e com isto se contenta. N„o assim no que vamos
extractar, comeÁando pela noticia da _fonte dos cavallos d'arame_, j·
t„o celebre no tempo de D. Fernando.
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´Para o lado da porta que chamam da Cruz ha outra fonte, ou antes lago,
que denominam dos cavallos; porque da boca d'alguns cavallos de metal
s·e tanta agua, que fÛrma uma corrente a modo de ribeiro.ª
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´Posto que Lisboa seja tamanha e t„o nobre povoaÁ„o, n„o tem palacio
algum de burguez ou de fidalgo, que mereÁa consideraÁ„o quanto ·
materia; e quanto · architectura apenas s„o edificios muito grandes.
Ornam-os, porÈm, de tal modo que na verdade ficam magnificos. Costumam
forrar os aposentos de rasos, de damascos, e de finissimos razes no
inverno, e no ver„o de couros dourados mui ricos, que se fabricam
n'aquella cidade.ª