´No outro dia · tarde...... cresceu a marÈ e podÈmos embarcar.

Appareceram de repente muitos barcos de pesca e varios outros, afÛra

cinco bateis. Embarcaram os cavallos por uma ponte de madeira que ha

aqui, n„o sem a difficuldade e o perigo de se estropiarem, e pela

passagem pagou-se meio escudo de cada um. Os familiares passaram em seis

barcas toldadas de velludo ou tapetes finos, com muitas bandeirolas

variadas, e o Legado e demais prelados em outra que era pintada de

vermelho e toldada de damasco da mesma cÙr, com uma quantidade ainda

maior de similhantes bandeirolas; e n'outra, toldada de velludo

encarnado e verde, D. Constantino de BraganÁa com varios fidalgos

portuguezes. Teriamos andado obra de uma legua quando aferrou comnosco

uma barca grande do feitio do Buccentauro de Veneza, pintada e toldada

do mesmo modo, na qual entrou o Legado com todos os seus, e D.

Constantino com todos os fidalgos de sua companhia. ¡ pÙpa havia um

docel de tÈla d'ouro, e debaixo d'elle uma cadeira de brocado d'ouro

para o Legado, estando tudo defronte forrado de finos pannos de

Flandres, e cobertos de tapetes os escabellos em que se assentavam os

prelados, bem como o pavimento da pÙpa, e atÈ o da proa. Pelo que

parecia que n„o estavamos em uma barca, mas sim em magnifica e bem

ornada sala. Os bordos d'ella estavam cheios de ramos de louro, e por

cima esvoaÁavam bandeiras de damasco verde e amarello. A galeota, para

que por extrema velocidade n„o corresse algum risco, posto que o vento

fosse de feiÁ„o, n„o trazia vÈla; mas vogava com remos a compasso e

rebocada por dez bergantins pintados de vermelho. A marinhagem estava

vestida de.....[16] e barretes vermelhos. Chegavam a nÛs dez barcas

variamente pintadas e ornadas, nas quaes ouvimos pifanos, trombetas,

adufes, tÌmbales e outros instrumentos, com cantores e bailarinos

vestidos · mourisca, os quaes bailavam com garbo, mas o canto parecia-se

com o que cantam os judeus nas suas sinagogas. Esta gente rodeando a

galeota e fazendo seus cumprimentos deleitavam-nos muito. Depois disto

ainda se approximaram muitas mais barcas, talvez trinta, que salvaram a

galeota cada uma com dois tiros d'artilheria. N'uma d'ellas veio o

arcebispo de Lisboa, com muito clero, e beijando a m„o ao Legado se

despediu para o receber depois em terra com ceremonial. Partindo o

arcebispo vieram ainda mais bergantins toldados e vestida a marinhagem,

uns de verde, outros d'amarello, outros de vermelho, outros emfim de

cÙres misturadas, com muitos estandartes similhantes, nos quaes vinham

pintados, n'este um mundo, n'aquelle um jardim, n'aquell'outro um cÈu

estrellado: em alguns as armas e brazıes de seus donos, ou outras

divizas, e atÈ as havia com motes e tenÁıes que n„o se podiam bem

discernir no meio d'aquella confus„o. Varios d'estes bergantins eram dos

magistrados da cidade, outros das ordens militares de Portugal. Alguns

fidalgos e todos os officios mechanicos mandaram seu bergantim. Muitos

indiaticos que residem em Lisboa enviaram dois cheios de varias plantas,

flÙres e fructos da India, feitos de cÍra, que representavam uma

primavera, n„o faltando ahi rosas, violas e hervas odoriferas, naturaes

e verdadeiras, colhidas em Lisboa. Eram tantos os barcos vindos de toda

a parte que se computaram em mais de quinhentos....... Distariamos um

terÁo de legua da cidade quando chegaram dez galÈs pequenas, seguidas

por uma grande, que chamavam o gale„o, as quaes saudaram o Legado com

cem tiros d'artilheria, e o gale„o com vinte e quatro, deitando ao mesmo

tempo muitos foguetes e outros fogos de vistas.ª

......................................................................

´Com esta bella e alegre companhia cheg·mos finalmente · cidade, em cuja

praia havia tanta gente que se calculava em cincoenta mil pessoas.

Deitou-se uma ponte de madeira, e por ella desembarc·mos para outra

ponte fixa, no meio da qual dÈmos de rosto com o serenissimo cardeal D.

Henrique que nos esperava com muitos cavalleiros.ª

......................................................................

´Deram principio · entrada muitos cavalleiros portuguezes, caminhando

aos dois, aos tres, e aos quatro, e misturados com elles os familiares

do Legado, a cuja esquerda ia o cardeal infante. Tendo andado vinte

passos vieram cumprimental-o todos os magistrados e officiaes publicos

de Lisboa, que seriam noventa, uns vestidos de vestiduras compridas atÈ

o ch„o, outros de saios atÈ o joelho feitos de diversas fazendas, com as

varas nas m„os, e trazendo muitos alabardeiros e creados apoz si, uns

mais, outros menos, segundo as suas graduaÁıes. Veio ent„o, encontrar-se

com o Legado, D. Sebasti„o, rei de Portugal, mancebo de vinte e oito

annos, de boa cÙr e muito parecido com D. Joanna, princeza de Portugal,

sua m„e, e irman d'el-rei catholico. … de estatura mediocre, de olhar e

sobrecenho algum tanto carregado e altivo. Trazia uma capa de panno

preto, e o capuz com botıes de diamantes, rubins, e perolas, saio com

abotoadura tambem de diamantes e as faldas atÈ o joelho, calÁas

vermelhas com poucos tufos e quasi lizas, barrete chato de velludo,

carregado para a testa quasi atÈ o sobrolho, e adornado com um cord„o

d'ouro, diamantes e perolas: trazia botas largas nas pernas, de cordov„o

preto, que lhe subiam atÈ os joelhos. A espada, cinto, estribos e

esporas eram dourados, e a sella do cavallo de velludo preto recamada de

ouro e perolas: na cabeÁa trazia o cavallo pendentes de pedras preciosas

e ouro. Adiante d'el-rei dois escravos pretos conduziam dois ginetes, um

claro, outro baio claro, com xaireis de brocado d'ouro e jaezes d'ouro.

Ao redor vinham cincoenta alabardeiros vestidos de panno preto, com

capas compridas atÈ meia perna, saios com faldas pelo joelho, e botas de

cordov„o preto largas. Seguiam-se o infante D. Duarte e muitos outros

cavalleiros, que seriam mil, quasi todos montados em formosos ginetes

bem arreados, fazendo aquelle todo maravilhosa vista, principalmente os

cavalleiros, que eram de bella presenÁa e ricamente vestidos. El-rei

parou · direita do Legado e, descobrindo a cabeÁa ao mesmo tempo que

este, fez uma leve inclinaÁ„o, tornando immediatamente a pÙr o barrete.

Feitos os cumprimentos e correspondida a cortezia que fizera, caminhou

ao lado do Legado, e sempre · direita, seguindo-se depois o cardeal

infante e D. Duarte, e depois D. Constantino, D. Francisco, e D.

Henrique: apoz estes o duque d'Aveiro e seu irm„o D. Pedro, aos quaes se

seguiam os marquezes, condes e outros fidalgos titulares, e depois os

magistrados da cidade com os seus alabardeiros e os cavalleiros das

quatro ordens militares, alÈm de outras pessoas distinctas, cada qual

segundo a sua graduaÁ„o. Caminh·mos obra de uma boa milha por bellas

ruas, direitas e largas (principalmente a que chamam _rua nova_, a qual

È bellissima e povoada de nobres edificios) atÈ que cheg·mos ao paÁo

real, situado no sitio mais alto da cidade, que d'alli se descobre quasi

toda, fazendo uma vista soberba com o braÁo de mar que a cÈrca, cheio de

grande multid„o de navios. Por todas estas ruas era t„o basto o povo que

se calculou haver ahi mais de cento e cincoenta mil pessoas. Estavam as

dictas ruas adornadas todas de finos pannos de Flandres e d'outras

qualidades, n„o havendo columna ou parede que d'elles n„o estivesse

coberta. Dobrado era o adorno das janellas, porque n„o sÛ estavam a

ellas damas t„o louÁans, que n„o sei a que comparal-as, mas tambem

estavam colgadas de riquissimos tapetes e colchas, o que era tanto mais

esplendido, quanto as casas teem muitas janellas e muito junctas, e cada

morada tres ou quatro andares, que se alugam facilmente pela grande

frequencia d'extrangeiros. Era por este motivo que d'um e d'outro lado

se n„o via v„o do tamanho d'um dedo, que n„o estivesse coberto de

tapetes e pannos, divididos por quadros de figuras em vulto, ou

bordadas, de vistosa apparencia. Quando cheg·mos · egreja de Sancta

Maria[17], perto dos paÁos reaes, el-rei, fazendo leve menÁ„o de

descobrir a cabeÁa, partiu para os dictos paÁos acompanhado de cincoenta

tochas, e o Legado entrou na egreja.ª

O paÁo de D. Sebasti„o--A cÙrte

´Partindo da sÈ o Legado com o cardeal infante e muitas outras pessoas,

foi apear-se ao dicto palacio, chamado do castello, era sol posto.

Acompanhado de cincoenta tochas, conduziram-no a um aposento no andar

nobre, por cima do quarto d'el-rei, onde ceou sÛ, e os prelados e

gentis-homens de seu serviÁo em publico, n'uma sala, e em outra maior os

gentis-homens dos prelados. Assim os mais criados cada um segundo a sua

jerarchia e classe.ª

´As mesas n„o eram t„o bem ordenadas, lautas, e abundantes como em

Madrid, porque os portuguezes n„o teem habito de banquetear-se.

Conhecia-se-lhes a boa vontade com que davam tudo, e que eram abastados

de peÁas de ouro e de prata, e servidos por muitos criados; mas as

comidas eram mais grosseiras que delicadas; os vinhos fortes; a fructa

pouco singular. Quanto ao p„o e carne, eram optimos.ª

´O palacio do castello, todo por fÛra de cantaria, assim como n„o tem

fÛrma alguma d'architectura, por ter sido feito aos poucos em diversas

epochas, tambem por dentro È mais commodo que vistoso. Sobe-se por uma

grande escada a um atrio que gira em volta, e que d· entrada para

diversas quadras, ficando · m„o esquerda da entrada uma porta que d·

para outra escada ingreme e estreita, pela qual se sobe a alguns quartos

bem ornados, nos quaes se alojaram varios prelados. Tomando por outra

escada subimos a uma varanda que d· passagem para as camaras d'el-rei,

por cima das quaes fica uma grande sala, que tem quarenta e oito passos

de comprido e dezoito de largo, dividida em naves com um tecto pintado

de brutescos, e forrada toda de bellas razes de Flandres e de lhama

d'ouro. Seguia-se um quarto feito a modo d'escada, por ser em degr·us,

onde os gentis-homens dos prelados comiam. O tecto d'este quarto era

feito · maneira de pinha e de muito mau gosto. D'aqui subia outra

escadinha de madeira para um aposento, ao lado do qual ficava outro onde

estavam os aparadores com a copa, assaz copiosa de peÁas d'ouro e prata,

mas n„o tanto como a do duque de BraganÁa. D'esta casa se passava para

uma sala forrada dos mesmos pannos de Flandres, na qual os prelados

comiam. No fundo d'esta sala se descia para uma varanda feita de novo,

em cujo topo havia um bellissimo panno de Flandres com uma imagem da

virtude que segura pelo collo e pelos cabellos uma fortuna com seu

letreiro latino que significa: _n„o sabe escapar, nem pÛde fugir a

fortuna, quando a virtude com sua forÁa a retem_. Do meio d'esta varanda

se desce para uma sala forrada de lhama d'ouro, com seu docel de

brocado, debaixo do qual est· um estrado com tres degraus, coberto de

panno verde. D'aqui se entra em uma camara, ornada do mesmo modo, onde

est· um grande leito de brocado d'ouro, com travesseiro e duas

almofadinhas de razo[18] carmezim ricamente bordados d'ouro. Fica

immediata outra, onde estava um leito para dormir o Legado, cuja armaÁ„o

era de finissimos razes de seda e d'ouro, com bem lavradas figuras

poeticas, e franjas subtilissimas. Havia tambem ahi uma mesa pequena de

couro preto da India mais bello que o ebano, todo lavrado ao redor de

folhagens d'ouro. Ao pÈ d'esta camara estava um oratorio, armado de

razes similhantes aos da camara, com a differenÁa de serem as figuras ao

devoto........... D'estas camaras sahe-se por uma porta secreta para um

terrado donde se descobre uma extensa vista, tanto de mar como de

terra.ª

´Os quartos d'el-rei ficam por baixo d'estes e em tudo lhes s„o

similhantes, salvo em alguma pequena diversidade nos estrados e doceis,

e em serem bordados os pannos de raz com historias do Testamento Velho,

e ao mesmo tempo com quantas ficÁıes teem inventado os poetas. Havia ahi

alguns que valiam bem dois mil escudos.ª

......................................................................

´Na quarta feira seguinte foi o Legado visitar el-rei, o qual veiu

encontrar-se com elle ao meio da sala grande, acompanhado de muitos

cavalleiros, e vestido singelamente, todo de panno preto. Tirou o Legado

o barrete primeiramente, e depois tirou el-rei o seu, mas tornou-o a pÙr

logo, tendo-o o Legado ainda na m„o; e sem dizer palavra, tomando a

direita ao Legado, se encaminhou para o seu quarto, sem fazer a menor

ceremonia ao passar as portas, entrando primeiro que elle na camara,

onde sÛ havia uma cadeira. Ordenou ent„o el-rei que viesse outra, mas

antes que ella chegasse, ou por inadvertencia ou por altiveza,

assentou-se debaixo do docel, e o Legado defronte d'elle na que

trouxeram, que era de velludo. Tendo fallado obra de uma hora, o Legado

tornou a descobrir-se, fazendo el-rei apenas signal d'isso, e

acompanhando-o sÛ atÈ · porta do aposento, onde parou, com o barrete na

cabeÁa, em quanto os prelados lhe faziam suas cortezias, pondo o joelho

em terra, e retirou-se depois.ª

´O Legado jantou n'esse dia em publico, mas sÛ · mesa, na sala do docel,

n'um estrado de cinco degraus, assentado em uma cadeira de velludo

carmezim, franjada d'ouro, assistindo-lhe os prelados e grande numero de

fidalgos portuguezes. Ao mesmo tempo jantava el-rei tambem em publico e

sÛ · mesa, na sua sala principal debaixo do docel, em estrado levantado,

e assentado em cadeira de brocado d'ouro. Quatro padres jesuitas

benzeram a mesa e depois deram graÁas. O serviÁo era d'ouro: dez os

criados que serviam, n„o mais! As comidas poucas, mal temperadas e

grosseiras. Sobre a mesa estava sempre um grande vaso de prata cheio

d'agua, do qual se deitava em um jarro, chamado na lingua portugueza

_pucaro_, do feitio de uma urna antiga, d'altura d'um palmo, e feito de

certo barro vermelho, subtilissimo e luzidio, que chamam _barro

d'Estremoz_, pelo qual el-rei bebeu seis vezes. Ahi estava tambem sempre

uma salva de prata cheia de guardanapos, que se renovavam cada vez que

el-rei bebia ou mudava de prato. Comia depressa, e com a cabeÁa baixa,

com pouca delicadeza. Um pagem posto atraz da cadeira lhe tinha entre

tanto a espada. Dez estavam de joelhos. Apesar de lhe assistirem muitos

fidalgos, nunca disse palavra, nem olhou para nenhum, e levantando-se da

mesa, retirou-se para a sua camara com passos velozes.ª

´Depois de jantar, o Legado cavalgou em uma mulla, acompanhado dos

prelados e de quinhentos cavalleiros portuguezes, e seguindo quasi uma

milha ao longo da margem do rio, foi apear-se · porta de um convento de

freiras franciscanas, donde passou ao palacio da rainha D. Catharina,

viuva de D. Jo„o III e irman de Carlos V, avÛ do rei actual. Ter·

d'edade sessenta annos ou mais, mas est· bem conservada: È d'alta

estatura e de gentil aspecto. Estava vestida como a duqueza de BraganÁa

viuva, de que j· falei. Ach·mol-a em pÈ n'um aposento desadornado,

como o era todo o palacio. Deu sÛ dois passos a receber o Legado, com

uma leve cortezia. Juncto d'ella estavam quatro matronas e seis

donzellas formosas e ricamente vestidas. Despedidos os prelados e mais

pessoas, comeÁou a conversar com o Legado em lingua hespanhola e em voz

alta, por espaÁo de hora e meia, tendo-se ella assentado no ch„o e o

Legado defronte, em uma cadeira de couro, ambos sem docel, estando

entretanto os prelados n'outro aposento, onde, por orgulho ou por

descuido, n„o havia cadeiras. ¡ partida do Legado foram estes chamados

dentro para cortejarem a rainha, o que fizeram pondo o joelho em terra,

sem ella se mover; e quando o Legado se despediu pÙz-se em pÈ, mas n„o

sahiu do seu logar, e apenas fez uma leve inclinaÁ„o de cabeÁa.ª

......................................................................

´Tendo anoitecido, acompanhados com vinte tochas adeante fomos ao

palacio da infanta D. Maria, irman de D. Jo„o III, a qual, tendo ficado

orphan em tenra edade, n„o quiz j·mais casar, posto que fosse robusta,

formosa, e procurada. Era alta, e teria d'edade cincoenta annos, posto

que n„o pareÁa · primeira vista. Dizem que È a princeza mais rica da

christandade, possuindo innumeraveis joias e milh„o e meio de bens

patrimoniaes, que gasta com os pobres.ª

......................................................................

´Estava vestida a princeza com um vestido afogado de velludo preto com

orla d'ouro e botıes d'ouro no colarinho, coifa de rÍde d'ouro na

cabeÁa, e uma corÙa no braÁo, de rubins e diamantes, que avali·mos em

trezentos mil escudos. Esperava em pÈ pelo Legado, n'um aposento forrado

de pannos de Flandres de sÍda e ouro, debaixo de um docel de brocado.

Ajoelhou ao entrar de s. exm.^a, e levantando-se veio recebel-o · porta

do quarto. Depois assentou-se no ch„o debaixo do docel, e o Legado

defronte d'ella em uma cadeira de velludo carmezim franjada d'ouro.

Estavam presentes quatro matronas, quatro damas, e tres donzellas n„o

menos honestas que formosas, e similhantes ·s tres GraÁas, duas vestidas

de velludo preto, e a do meio de damasco branco, e todas cobertas de

joias tanto no pescoÁo como nas mangas, com coifas de fio d'ouro que lhe

chegavam sÛ a meia cabeÁa, e os cabellos bem assentados na frente, algum

tanto crespos mas n„o entranÁados. Depois de uma curta conversaÁ„o, o

Legado voltou ao palacio.ª

......................................................................

´Esta capella (a dos paÁos d'AlcaÁova) È de bom tamanho. Tem um S.

Miguel expulsando Lucifer que È obra de mestre: est· forrada de

tapeÁarias, uma das quaes representa ao natural el-rei D. Manuel,

rodeado do conselho dos grandes, quando resolveu mandar conquistar as

Indias que hoje chamam de Portugal. … de grande preÁo.ª

......................................................................

´Quando o Legado voltou para a sua camara (depois da segunda visita de

ceremonia a el-rei na qual nada ha notavel) os administradores do

thesouro real lhe levaram para vÍr uma sella de diversas peÁas, com os

demais arreios, feita na India. O corpo d'ella, ou assento, È de ouro e

as orlas lavradas subtilissimamente. Est· toda semeada de rubins,

diamantes, perolas, e outras joias similhantes. Dizem que vale

novecentos mil escudos, e È peÁa sÛ digna de um rei.ª

......................................................................

´Na segunda feira seguinte fomos ver o arsenal ou armaria d'el-rei,

pegado com a praÁa principal, · beira do Tejo. Na verdade È cousa digna

d'espanto! Compıe-se de tres grandes salas todas cheias. Os cossoletes

que ahi ha s„o para cincoenta mil homens. N'outra que fica por cima

est„o lanÁas para outros; e n'outra morriıes e arcabuzes para egual

numero de soldados (os portuguezes dizem que s„o para oitenta mil), alÈm

de trinta mil armaduras inteiras para cavallaria. Em baixo est„o cem

peÁas d'artilheria grossa, e cento e cincoenta de artilheria miuda, bem

que muitas d'estas se podiam contar entre as de grande calibre. As

muniÁıes s„o abundantissimas, assim como os materiaes para a fabricaÁ„o;

nem n'esta parte ha mais que desejar.ª

......................................................................

´Fomos tambem vÍr as cavallariÁas reaes que est„o juncto a S. Domingos.

Havia n'ellas duzentos ginetes todos excellentes e tractados com grande

estimaÁ„o.ª

......................................................................

O cardeal tinha-se despedido d'el-rei D. Sebasti„o. Segue-se a

descripÁ„o da partida e da viagem para Castella atravez do Alemtejo, na

qual nada ha novo ou notavel, digno de ser transcripto para estudo dos

costumes d'aquella epocha.

ASPECTO DE LISBOA

AO AJUNCTAR-SE E PARTIR A ARMADA PARA A JORNADA D'ALCACER-QUIBIR

1578

Apesar de os historiadores do infeliz D. Sebasti„o haverem aproveitado

muitas memorias coetaneas para tecerem as suas narrativas, esta de que

hoje damos um extracto lhes foi desconhecida. E todavia ella apresenta o

quadro mais miudo e talvez mais completo da grandeza e importancia

d'aquella desgraÁada expediÁ„o, em que as riquezas, os sacrificios de

todo o genero, e as violencias inauditas, de que todo o paiz foi

theatro, n„o poderam remediar a decadencia do antigo esforÁo portuguez,

nem restaurar a energia indomavel dos seculos anteriores, corrompida

pela morte da liberdade municipal e da independencia aristocratica,

annulladas por D. Jo„o II e por D. Manuel.--Do estylo, do modo por que a

relaÁ„o dos successos se apresenta, do ponto em que ella termina, e dos

signaes paleographicos do manuscripto se deduz que esta memoria,

pertencente · Bibliotheca Real, foi escripta por um contemporaneo e

testemunha ocular dos aprestos da armada.

* * * * *

......................................................................

´Estava a cidade de Lisboa em todas as cousas mui differente do que era,

porque a gente que n'ella havia n„o se lhe dava numero, nem havia homem

que passeasse nem andasse de vagar, assim naturaes como extrangeiros,

porque todos se negociavam para a jornada de Africa, onde el-rei queria

passar, e mostrava-se em todos tanto alvoroÁo que parecia que iam a

folgar ou a ver umas grandes festas.ª

´Havia muita gente estrangeira a fÛra os tudescos, que el-rei mandara

vir e que estavam em Cascaes alojados, afÛra seiscentos soldados, os

quaes, indo para a Rochella por mandado do papa em soccorro dos

catholicos contra os herejes, vieram a Lisboa tomar refresco, e pedir

embarcaÁ„o a Sua Alteza, a qual lhes n„o pÙde dar, por ter necessidade

de todos os navios para esta viagem, antes disse ao capit„o d'esta

gente, que era o duque de Lenister de Irlanda, que o quizesse acompanhar

n'esta jornada, e que para isso mandaria pedir licenÁa a Sua Sanctidade,

para o qual o duque lhe deu de prazo quarenta dias para dentro d'elles

vir a resposta, a qual n„o veiu atÈ · partida d'el-rei; mas emfim os fez

embarcar e levou comsigo. Era gente muito lustrosa, e soldados velhos

exercitados.ª

´Havia em Lisboa muita gente extrangeira, assim castelhanos como de

outras naÁıes, que vieram para irem n'esta jornada por aventureiros,

gente honrada e muito lustrosa, que vieram servir el-rei · sua custa e

sem partido. E assim acudiram muitos officiaes de instrumentos

militares; porque mandou el-rei declarar por Italia, Castella, e

Allemanha, que todo homem que em sua terra tivesse officio de guerra e

quizesse acompanhar n'esta jornada lhe faria partidos avantajados.ª

´El-rei Filippe em Castella mandou apregoar que todo o homem que

passasse com seu sobrinho n'esta jornada lhe levaria em conta todo o

tempo que servisse, como se acompanh·ra sua propria pessoa.ª

´Fez el-rei quatro coroneis, a saber: Diogo Lopes de Sequeira do terÁo

de Lisboa e seu termo; D. Miguel de Noronha do de Santarem; Vasco da

Silveira do de Alemtejo; Francisco de Tavora do terÁo do Algarve. N„o

fez coronel d'Entre Douro e Minho, nem da Beira, porque a gente que de

l· vier se ha de repartir por estes coroneis.ª

´Estes despediu el-rei a vinte dias de maio, para que cada um fosse

fazer sua gente e pagasse logo a todos, e comeÁasse a paga a correr

desde o dia que cada um partisse da sua terra. A gente de Lisboa e a dos

terÁos de Santarem e do Alemtejo veiu embarcar aqui em Lisboa; a outra

se embarcou em os portos mais chegados: e para esta gente se embarcar

mandou el-rei vir aqui de Setubal sessenta urcas que estavam · carga do

sal. Todas estas entraram em Lisboa em um dia, e ficaram l· em Setubal

outras setenta urcas, que el-rei mandou hi carregar de cousas

necessarias. Vai por general de toda a armada D. Diogo de Sousa,

governador que foi do reino do Algarve.ª

´Era el-rei t„o cioso ou curioso da negociaÁ„o d'esta jornada, que de

ninguem a fiava nas cousas necessarias sen„o de si mesmo. E foi por

vezes visto em pessoa mandar carregar e negociar os seus galeıes; e t„o

occupado que pela sÈsta se viu um dia no caes, sem chapÈu, mandar

arrumar em um gale„o umas poucas d'armas: e era a sÈsta ardentissima.ª

´… infinito querer contar do apparelho das cousas de guerra, que el-rei

mandou embarcar: de artilharia muita e muito grossa, uma de campo e

outra de bater, e outra para o mar, toda de bronze, infinitos corpos

d'armas, piques, arcabuzes, pelouros, ceirıes, carretas, enxadas,

alviıes, barras, polvora, marrıes, e murrıes; e para isto levava muitos

gastadores, que diziam que eram quatro mil: levava muitas azemulas,

bois, carros, e todo o mais d'estas cousas: levava mais para os

gastadores um gale„o cheio de Áapatos de malhÛo.ª

´Chegou a Lisboa o duque de BraganÁa no fim de maio com sua gente

escolhida, vestida de amarello, e guarnecida de vermelho: outra alguma

de seu serviÁo vinha de vermelho fino, com calÁas e gibıes da mesma cÙr.

Leva muita gente, e a mais d'ella mandou embarcar em Setubal, onde tinha

para isto, e para sua matolotagem e cavallos, vinte e sete urcas

apenadas por mandado d'el-rei. O duque veiu pela posta, e ao outro dia

adoeceu e esteve muito mal; e quando viu que n„o podia ir por sua

indisposiÁ„o, mandou vir de Villa-viÁosa o filho mais velho, para em seu

logar ir com el-rei. N„o lh'o quiz a duqueza mandar, e mandou-lhe o

filho segundo, que lhe elle logo tornou a mandar, e que em todas as

maneiras lhe mandasse o filho mais velho, o qual veiu, e partiu de

Lisboa apoz el-rei em uma n·u veneziana, t„o grande como uma da India,

muito bem concertada com muita artilharia grossa, com muitos estandartes

e padezes; e foi por Setubal para levar comsigo a sua gente que l·

estava embarcada.ª

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06 · 第 3 / 14 段