O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu derradeiro
adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses canticos,
que passam e morrem nas tranças da floresta; as aguas, que reflectem o raio
que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se deita; os echos que
despertam; os echos que adormecem; a treva que se adelgaça e a treva que se
condensa; o crepusculo da manhã e o crepusculo da tarde, são duas horas
gemeas nos encantos, na suavidade, na doçura, nas inspirações.
Elysa, será um erro, uma superstição talvez; mas eu creio que todo o
pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabeça do
homem, numa d'estas duas horas é que foi concebido.
Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso
d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma
porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos
os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só;
sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado
nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações,
parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o
homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as
palavras do Creador!
É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é ella
que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não possa
transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do Eterno!
Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz frouxa,
crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por sobre toda
a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de esmeraldas a
terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado, o enfadonho
do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva levam de cada
folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para Deos!
Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam, vivam,
e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a noite no
bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se alevantava;
deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho suavissimo da mais
rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu comigo assistir em
espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da madrugada:
Eil-a trajando verdores
A linda mãe dos amores,
Com seus volateis cantores
Pelos campos a folgar;
Eil-a folgando na mata,
Que nas aguas se retrata,
Nas aguas de lisa prata,
Na prata do liso mar.
Salve, rainha formosa!
Festeja-te o lirio, a rosa,
Dos jardins a mariposa,
Do trovador a canção;
Festeja-te a pastorinha,
Que nas côres te adivinha
Um pensamento que tinha,
Que tinha no coração.
D'aldêa o sino te chama,
E o moço, que deixa a cama
Porque vai ver a quem ama
Ao pé da encosta d'alem;
Suspiram-te sempre os montes,
Abraçam-te os horisontes,
Choram-te rios e fontes,
Nas fontes d'amor, que têm.
Bemdiz-te o velho, e ensina
Á neta, que é pequenina,
Rezas sanctas da divina
Crença, que tem no Senhor
Bemdiz-te o armento balando,
Do tomilho o cheiro brando,
E o pegureiro cantando,
Cantando magoas d'amor.
Vem, ó linda madrugada,
Vem de violetas c'roada,
Pelas brizas embalada,
Vem nestes campos folgar;
Folga nos céos e na mata,
Que nas aguas se retrata,
Nas aguas de lisa prata,
Na prata do liso mar.
Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso da
felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a
cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho
d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada
um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos
me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos.
Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e para
os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos é
mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas
dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas
intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia
ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia.
De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais
energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o
mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as
horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as
horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar,
que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos
arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da
terra!
Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da
causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o
coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não
sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da
sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se
noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras,
cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe
Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos
como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que
são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no
manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o
teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais
segura da existencia de Deos!
O Senhor quiz no teu rosto,
Quiz o impio confundir,
Quiz dos céos todo o composto
N'um só ponto resumir;
Nos olhos pôz-te as estrellas,
Inda mais lindos do que ellas
Os vejo d'amor fulgir;
Poz-te nas faces a aurora
Poz o sol no teu sorrir,
E nas tranças côr d'amora
Fez negra noite caír;
Que o Senhor quiz no teu rosto,
Quiz dos céos todo o composto
N'um só ponto resumir.
Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o absurdo
do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios; ha lá
dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, que,
mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão desgraçado,
que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente apontando-lhe
para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um acaso estupido,
a minha Elysa é a victoria do Eterno!
E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa não
és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar com a
fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando
brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!
Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a contemplar
socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua lindeza
pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de todos os
anjos!
Que formosa não és tu nessas horas!
O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um
altar e chamava-te _Vesta!_ Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as
_Estações_ e o _Amor_; veria as choréas das _Nymphas_ á volta do teu carro
tirado por soberbos leões; veria os _Ventos_ adormecidos ao teu lado, e
_Ceres_, _Pomona_, e _Flora_ a cingirem-te a fronte com uma corôa de
rainha!--o pagão erguia-te um altar e chamava-te _Vesta_.
Mas no teu templo, minha _Vesta_... minha Elysa,--enganei-me--no teu templo
não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo immortal; ahi o
sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu coração.
Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle estado
que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que então te
exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da varzea,
recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te vira,
em vez de te chamar _Vesta_, chamava-te a _Melancolia_.
E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem
mimosa ao coração: _Melancolia!_ que mais feiticeira ficção tem o paganismo
para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, mais
divino sentimento ha ahi na terra?
Mais que o prazer, que a alegria,
Mais que a risonha emoção,
É mais doce ao coração
A doce melancolia!
Como é bello, quando o dia
Se afoga no salso mar,
Sobre ignota penedia
Ir co'as vagas conversar!
Ir sósinho suspirar
Juncto a fontinha sonora,
E nos prantos que ella chora
Ir aprender a chorar!
Como é bello então scismar
N'uma scismada ventura,
E aquelles sonhos sonhar
Nunca fartos de ternura!
Como a harmonia se apura
Nas cordas da meiga dor
Quando a rola da espessura
Poisa n'harpa ao trovador!
Quando uns gemidos d'amor,
Gemidos que não sabia,
Sáem da harpa, e ao redor
O echo lh'os repetia!
Como então mais que a alegria,
Mais que a risonha emoção,
É mais doce ao coração
A doce melancolia!
Elysa, se o pagão te chamasse a _Melancolia_, o pagão chamava-te um bem
doce nome!
E as horas da melancolia são as horas da tarde.
Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas
diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se
vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave,
que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha;
aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão
alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas
aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces
com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo
dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no
casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no
silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle;
aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o
sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha
esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o
manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os
campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o
coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as
suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a
deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os
risos do prazer!
As horas da melancolia são as horas da tarde.
Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha
nascido o _Amor_; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que elle
tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu como
ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca d'um
irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a cantar
sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que respondendo a
outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os affectos ainda
em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um segredo lindo, que
lhe anda entre nuvens no pensamento?
Coração de mulher, qual Philomela,
É todo amor e canto ao pé da noite:
Do amante a voz então entra mais branda,
Mais grata, mais feliz, dentro do peito;
Toldam sombras o pejo, as faces podem
Osculadas córar sem que o triumpho
Lá veja o vencedor escripto em rosas;
Melhor se escuta o frémito dos labios
Suspirando d'amor, pedindo amores:
Póde o _sim_ mais sumido então colher-se,
Fingir que foi acaso a mão tocada:
O rigor feminil, desdens, orgulhos,
Da tarde a viração leva-os nas azas.
Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo impeccavel
que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude, tremeria com a
idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por tal hora do
dia:--é a hora dos amores.
Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor
vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia
de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me
depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante
ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés
do Senhor!
A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento
d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador?
Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das
suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a
creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que
fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te
ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão
melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles,
tão angelical como tu mesma!
Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os
namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e
desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto
philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.
A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de _ferro_, que
não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro desleal e villão,
logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de campeador, e
retinir-lhe nos ouvidos um _mentes!_ d'aquelles, que sempre deixavam uma
bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje diz-se e escreve-se
impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se dicto das mulheres
o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais grosseiros _devotos_, que
nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas doidas, Elysa, não tenho tambem
eu dicto e escripto para ahi a respeito das mulheres?! mas agora cuido que
d'esse mal estou curado e desculpado--não tinha encontrado uma só Elysa: e
a quem a não encontra que lhe digam que andam anjos na terra? não o
acredita. E já que tu foste quem me fizeste renegado, já que a ti devo a
minha nova crença, quero que seja o teu livro, Elysa, o campo onde levante
pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente que eu desculpe alguma
cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho defeito sem ter ao
menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe minorar a imputação.
No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me
convencem duas cousas; não as ter nunca visto _devéras_ agastadas com os
maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que ellas
bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que elles só
offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração d'amante
capaz de o não admittir, não ha.
Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou
sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo,
gente capaz de _constipar_, como disse um Italiano fallando das mulheres da
Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem porque algum
raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um philosopho ha de
dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que _as mulheres não pertencem ao genero
humano_[10], ha de fallar com toda a seriedade a favor d'essa these
brilhante no concilio de Mâcon[11], ha de escrever que ella é um ente
imperfeito na sua organisação[12], e, contente com pertencer á humanidade
só pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante
d'um _in-folio_ abysmado na sua intellectualidade unilateral!
Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua
colera.... ao teu desprezo queria dizer.
Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas
terriveis, dir-te-hão:--
«Mulher pura e fiel não ha, nem houve!
......................................
Raça infame de viboras dolosas
Podesse uma só nau contel-as todas,
E o piloto fosse eu...................[13]
que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que quizer; mas crê que se
elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de salvamento. Não ha
gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; com a penna na mão
todas as vezes que se enfurecem temos _vesperas sicilianas_; mas, chegada a
occasião, vem logo absolvição papal. Embora te diga que não ha mulher, nem
houve, pura e fiel, não é cousa em que elle creia; o poeta é todo coração;
coração de poeta, se não amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na
mulher é impossivel. Não sei se _Milton_ disse mal das mulheres, o que sei
é que elle casou tres vezes.
Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.
Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? queres
ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--«Um
sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso
deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da nossa
especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas
cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para
se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e nos dá em
troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer
como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel,
pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim
dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras
calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que montezinha
ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz que os
soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do
seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que
não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as
futuras pelejas--»[14].
Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando _transfugas dos arraiaes dos
levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas_;--todos esses libellos, que
lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, sinistro do
ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos
pobres poetas.
E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são
necessarios. _Ovidio_, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os
porque traziam comsigo a _redintegratio amoris_, a doçura da nova paz; e
tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a
despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem _Moliére_, que não foi
sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa
dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais;
qu'il est des amours emportés aussi bien que des doucereux; et qu'en de
pareilles occasions les paroles les plus étranges, _et quelque chose de pis
encore_, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles
même qui les reçoivent?--»[15].
Não sei se _Moliére_ quiz adoptar o principio de _Ovidio_ naquelle _quelque
chose de pis encore_; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com
as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais
competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse[16]. O que é certo
porém, Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo
é que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a
lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior
prova de indifferença que de amor.
Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os philosophos,
e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella injuria fria,
tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as _mulheres não pertencem
ao genero humano_:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes não
quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem.
Nunca taes homens souberam
Ler na face da mulher,
Em seus olhos aprender
Nunca taes homens quizeram.
Não viram manar-lhe a flux
Dos labios celeste riso?
Não viram do paraiso
Nos olhos accesa a luz?
Não é d'anjo a voz macia,
Que, vencendo almo pudor,
Te diz ternura e amor
Com tão mimosa harmonia?
Aquelle encanto só seu,
Graças e mimos só d'ella,
Aquella rosa tão bella
Não vem do rosal do céo?
A quem á terra só veiu
Por te servir, por te amar,
D'irmã tua lhe chamar
Parece que tens receio?[17]
Se o teu orgulho não quer
Chamar anjo á formosura,
Deixando ingrata loucura,
Chama-lhe ao menos mulher.
Não pertence á humanidade
Dizes tu, impio! e não vês
Do seio caír-lhe aos pés
Humanada a Divindade?!
Se em ti a crença inda tem
Algum poder, pensa n'isto,
Pensa tu que Jesus-Christo
Foi homem por sua mãe.
O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em França
que _a mulher não tinha alma_, appareceram _Isabel de Baviera_ e _Joanna
d'Arc_: aquella entregou a França á Inglaterra para mostrar o poder d'uma
mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a
generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar.
Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a
mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe
seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta;
nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la
trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on
appele détestable--»[18].
A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de _Hippocrates_
não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve
ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisação, essa
preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a
graça das fórmas.
A mulher intellectual haviam de encontral-a em _Sapho_, _Heloiza_,
_Catharina_, _Semiramis_, _Staël_, _Sevigné_, _Coulanges_, _Lafayette_,
_Bernier_, _Flaugergues_, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a
penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os
_Aspasia_ a _Socrates_ e _Pericles_, _Ninon de Lenclos_ a _Condé_ e _La
Rochefoucault_:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos;
elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas
a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher podia ser descoberta. A
litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na imaginação a principal
natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda d'ella:--até se não for ella
quem povôe o coração do homem das illusões do amor, aonde irá elle
encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida
material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus
livros?
A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que lhes
façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e desenvolvam:
foi na côrte de _Catharina de Médicis_ que _Henrique o grande_, aprendendo
a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que
distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça e polidez, que não
tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que _Maria_ e
_Catharina de Médicis_ levaram da Italia para França foram a origem do
desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E não seria á
influencia que as mulheres tiveram na côrte de Luiz XIV, que se deveu então
essa lista immensa de homens celebres, com que a França se honra, e que o
mundo estuda e admira? E não será para agradar á mulher que o homem gera a
industria, inventa o canto, a dança, a pintura, amenisa a linguagem com as
flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras
e costumes? A mulher intellectual não existe só em si, existe nos outros
tambem; não se contenta com as suas creações, instiga os outros a crear; e
é considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o
que a mulher concorre para as producções da alma do homem; é considerando
reunido num só ponto o que a mulher é em si e no homem, que eu a vejo tão
sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado moral para a olhar, já por
este lhe podia chamar anjo.
A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós
vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de _mulher_ e de mãe;
ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou
contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que
imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que
é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a
vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do
amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da
virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos
reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais
augusta da creação.
--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor[19]; e na
verdade só assim se pode definir o mysterio da mulher moral!
A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral é
o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves
excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa
acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja
no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não
seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que
elles sejam--» disse _Rousseau_[20], e disse uma grande verdade; porque
antes que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos _Gracchos_ e dos
_Corneilles_ tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de _Voltaire_ era
escarnecedora e de garridas maneiras; a de _Byron_, até nem os defeitos
physicos do filho escapavam á sua maldade; _Kant_ dizia que fôra sua mãe
quem lhe lançara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o
amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza[21];
_Cuvier_ deveu a sua mãe os successos brilhantes da sua vida illustre[22];
_Barnave_ já com um pé sobre o cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na
infancia o valor que alli o anima; _Lamartine_ aprendeu nas harmonias do
coração materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após
estes nomes tão respeitaveis e tão illustres é permittido citar o meu pobre
e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito
pouco, de bom que em mim tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu
o devo.
Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se
philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no
que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis
mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam
desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a
assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não
souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a
mulher, e depois julgae-a.
Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e
traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o
que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que
não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da
mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que
derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com
que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de _L'École des
Femmes_--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»[23].
Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a
natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os
costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, _veda-lhe_ a
entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do
tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem os erros da superstição e
os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia é no
Oriente um principio, que a civilisação é nulla, e que a moral é uma
palavra sem significação. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma
machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade só ella a ha de
crear, mas é mister que livre e desassombrada, rainha e não escrava, possa,
como a pomba da primavera, adejar sobre a cabeça do homem, ensinar-lhe as
aguas mais puras onde deve matar a sêde, e a relva mais macia onde se deve
assentar; só a mulher sabe, como a abelha, quaes são as flores que dão mel,
mas não lhe hão de crestar as azas na chamma da impureza, que então,
materialisado o amor, o homem e a mulher perderão a faisca da divindade que
os extremava do resto da creação;--«ou os povos se hão de embrutecer em
seus braços, ou civilisar a seus pés--»[24]. Não é com todos os pensamentos
cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente
não comprehendeu a mulher.
Que terá a filha do propheta para dar á alma do homem quando os sentidos
estiverem saciados?--a ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os
vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a
tristeza da escravidão, ou as traições d'um inimigo.
E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.
Ao cioso mahometano
Que vale o fechado harem,
Se amor de escrava a tyranno
Do coração lhe não vem?
Que importam centos de bellas,
Se uma só de todas ellas
Livre em seu gosto não ha?
Que importa matar desejos,
Que importam, louco! esses beijos,
Se só vendidos t'os dá?
Com alma núa d'esp'ranças,
Como ha de a escrava saber
Que alem de jogos e danças
Tem mais gozos a mulher?
D'esses gozos não sabidos
Como ha de trazer-te enchidos
Os dias que vão e vêm?
Se, dos paes perdida a trilha,
Ella não sabe ser filha,
Como ha de saber ser mãe?
Embora os astros lhe apontes,
Embora mostres os céos,
E uma a uma lhe contes
As maravilhas de Deos,
Ha de dizer-te--que importa?
Se eu tenho fechada a porta
Que leva ao reino da luz?
Que importa, se em vida e morte
Sou proscripta, e minha sorte
Nunca propicia reluz?
Lá quando a dor te accommetta,
Quando rir teu coração,
As filhas do teu propheta
Pranto e risos te darão.
Ouvirá co'os teus ouvidos,
Sentirá co'os teus sentidos,
Viverá no teu viver?
Oh que não!--solta-lhe os ferros,
Despe-lhe a alma dos teus erros,
E a escrava será mulher.