Que é tudo isto, Elysa? que é todo esse cantar d'aquelle homem já longe de
Coimbra? Não é, não póde ser, não ha de ser nunca outra coisa senão o
transumpto das perolas, que a patria de _Sá de Miranda_ lhe engastou na
alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes que
o poeta pegar na lyra.
Elysa, eu amo muito esta formosa terra!
É o coração de Portugal, onde á vontade se revolve o seu sangue mais
ardente. Que viver este do mancebo com o mancebo!
Crença nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de
verdade e de força; amor e enthusiasmo por tudo o que é nobre e grande;
confiança nas idéas e nos homens; communhão quasi primitiva de bens e de
tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para
os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita fé no futuro:
eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este céo de Coimbra!
Elysa, eu amo muito esta formosa terra!
Depois de ti, da minha lyra... não, não quero que Coimbra seja o terceiro
affecto do meu coração, mas quero querer-lhe bem, porque é um querer que
ella merece.
Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo nas ruinas do mosteiro
da _Rainha Sancta_[9], e d'alli, depois de haveres passado teu alvo braço á
roda do meu pescoço, te esquecesses a contemplar Coimbra, como Coimbra se
esquecera, tambem com seu braço lançado ao pescoço do monte, a pasmar na
tua face d'anjo; se a viras tão linda a retratar-se no Mondego e a
sorrir-se para o céo, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra!
Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente
praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crês que a delicadeza do
sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma
liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traiçoeiros; não vale
mais esta franqueza? O coração foge para o _bello_ como a mariposa para a
luz; que culpa tem elle? que póde elle, se ha de por força amar o
_bello_:--é um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade,
Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu
olharás para Coimbra, e eu olharei para ti.