daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa
espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem
triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós
dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes
dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa
caza, amorosamente illuminados pela lua...
--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?
--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a
minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição
de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais
fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em
maior do que o sentimento...
--O pecado!
--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes
ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os
inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas
pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia
sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer,
pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as
scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia.
Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia
uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais
tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em
caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre
as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos
conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens
seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas
syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia,
irmão Patricio, dir-t'o-ei jà...
--Faço mesmo questão de sabel-o...
--Jà que queres ouvir-me, continuarei...
--Continúa...
--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...
--Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...
--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios
dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos
collegas, soprou-me segredadamente: «_Tico é um convite... E quando
ouvires, responde taco..._» Corei deante da revelação e maldei de tudo.
O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me
furtar às seducções de Almira...
--Que bello nome, e lendario!
--Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel
andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti
da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello
dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu
lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!»
Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as
experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi,
confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente,
quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi
escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que
cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que
creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho
animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey
Patricio...
--Ah!... ah!... ah!... ah!
--Não rias, Irmão!
--Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é
alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...
--Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E
quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!
--Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...
--Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e
voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia:
«Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco...
nem là dentro do teu sacco...»
--É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...
--Em seguida...
--Sim...
--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos
conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente.
Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a
recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim
mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio...
--Mizericordia!
--Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o
passo que dei...
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A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora,
chamava a Ordem para a humilde refeição da noite.
E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY
THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da
hora.
A CONSULÊZA
A CONSULÊZA
De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro
ardente.
Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a
grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia
as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor.
Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos
appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava
enfastiada com as iterações de extranhos.
Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o
velho francês, pelas suas funcções representativas, evitava
aquelles encontros mais notorios...
.........................................................................
--Nina?
--Quem bate? Octavio?
--Elle, sim!
--Entra, meu rico amor!
--Fiz-me esperar, hein?
--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas
para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de
vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos
da que me logrou...
--Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou
longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a
hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam,
todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua
plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas...
--Não sabes? O Consul pediu-me a noite...
--E deste-lh'a?
--Nem sei...
--Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas
serão as minhas?
--Todas até. Aturo-o porque tu consentes.
--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se
satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso
em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra.
Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios.
Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço.
Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e
insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei
confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe
meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um
dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será
absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com
o Consul... Estou libertado...
--Oh! não! Que succede Octavio?
--Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu
lugar, mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada
delle no leito que deixo vasio...
--Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...
--Careces de mim?
--Não me aborrece, Octavio!
--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes.
Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos
nós reunidos...
--Vale a pena a descuberta.
--Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um
amante deante do qual te esqueces mesmo de mim?
--Dizes-me coisas extraordinarias...
--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva
teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu
camarim...
--Não és amavel.
--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa
delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão
categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante
unico...
--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena...
Que te pareço de _maillot_?
--Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.
--O Consul?
--Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante
do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados
do que nós outros...
--Amante?
--De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?
--Nego.
--Contestas que exista esse amante?
--Juro-te mesmo.
--Vê lá que não me enganas...
--Quem será, Octavio?
--O teu espelho...
--Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus
trajos em _maillot_?...
--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito
masculina...
--Tens espirito.
--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as
sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
os _soutaches_, applicações e _manteaux_ serão poucos; se ficamos
aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo
enroupamento, ou a extrema nudez...
--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso
vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e
lindo chapeu de plumas, que farias de mim?
--É essa a primeira hypothese?
--Sim!
--Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora
de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...
--És digno de um acto destes.
--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?
--Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma _écharpe_ me velasse as
pomas, que farias de mim?
--Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
operosa solução...
--Porque?
--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas
uma gravura...
--Venceste-me. Despacharei o Consul.
--Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na
companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados
olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como
um camapheu...
--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta
para a minha vez...
--Queres, saio a ver...
--Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...
--A pernóstica!
--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da
outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!
--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...
--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu
lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?
--Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles
logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem
mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve
dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do
que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que
fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus
vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem
confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das
flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o
deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do
fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os
teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te
na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque
sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo
isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque
participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha
as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua
belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio
do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela
primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as
almas que tocam à meta de uma ventura no mesmo instante... e as
nossas duas...
--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o
poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a
inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao
amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite,
Octavio, naquella primeira noite...
--Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de
teu corpo, o halito bafiento do outro amante.
--O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o
porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor,
protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na
delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os
jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em
uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e
esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos
rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos
labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os
seus desejos...
--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem
sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...
--Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente
procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre
o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas
esquisitices.
--Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias!
Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos
amores...
--Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do
que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que
os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles
são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão...
Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as
virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...
--Quero crer.
--É um libertino.
--Nada mais?
--É um extrangeiro...
--Que importa?
--É um devasso...
--E sómente isto?
--Ama como um cão, Octavio.
--E que é que faz?
--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me
arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te
bastará a expressão do pouco que te digo?
--Repugnante!...
--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua
como nas demais...
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Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus
cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de
todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de
todas as riquezas do mundo...
DE COMO O AVARENTO MORREU...
DE COMO O AVARENTO MORREU...
Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma
enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia
blasphemias.
Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e
fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos
cautelosos a agitação do moribundo angustiado.
Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal
percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima
reacção da vida contra a morte.
Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL
CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que
rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...
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--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um
pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra
que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a
reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como
uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem
descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim...
rim... rim... rim...
--Como elle range os dentes?!...
--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as
cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como
massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um
diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no
meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que
ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem,
dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da
Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse
dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me
trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu
nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso
ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?
--São os trabalhadores no terreiro.
--Sahiram hoje os vehiculos?
--Sahiram todos.
--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.
--Talvez os cãis...
--Não me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarrão o meu maior
amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos.
Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?
--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...
--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e
desconhece os extranhos.
--Ladra e assusta.
--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as
suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos.
E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de
longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em
meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em
fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim...
rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E
hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga.
Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se
encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara!
Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os
simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me
dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma
fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo
de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu
capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim...
rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...
--Pois quem seria?
--Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se
é alguem...
--Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá
signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que
montas...
--Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de
cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira...
Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a
mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um
devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo
semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros
crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos
o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim...
Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de
seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres
annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me
por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não
mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o
conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca
quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse
barulho é dentro de caza...
--Desta vez não ouvi nada.
--Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente
andava. Rim... rim... rim... rim...
--Não sei que especie de gente...
--Realmente posso enganar-me.
--Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah!
Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...
--Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados
deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um
prejuisão... Rim... rim... rim... rim...
--Fiz ver tudo isto a elles.
--E porque não trabalharam?
--Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...
--Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là
na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do
enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu
estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim...
rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida
inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça
e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim
meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei...
Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?
--Sim.
--E então?
--Não sabes o que foi?
--Não sei...
--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
aos outros mandei pôr as correntes...
--Vai soltar o _Tupy_. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso.
Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!
--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança
sobre elle...
--É uma prova de lealdade.
--Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?
--Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com
essas despesas... Ainda o compraste hoje?
--O doutor mandou...
--Rim... rim... rim... rim...
--Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...
--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica,
é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das
pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem
recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se
a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um
homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha
saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos
inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...
--Deixa o cachorro preso.
--Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim...
Que afflição sinto agora!
--Bebe o leite!
--Dà-me.
--Jà se devem trinta medidas...
--Como?
--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e
duas à tarde...
--Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a
botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à
mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde
hoje...
--E com que te alimentas?
--Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo
em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...
--Sem o leite não poderás passar...
--Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?
--O medico.