duvida...
--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!
--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez,
vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o
coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um
despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases,
immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do
teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em
prol do teu defuncto...
--Intranquillisas-me, Ormindo.
--Não ha razão para isso.
--Se tu mandas...
--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?
--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?
--É isso...
--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...
.........................................................................
A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um
grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma
desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...
A HUNGARA
A HUNGARA
Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das
paredes.
Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos
que nelle se afundaram.
SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um
estridente signal de contentamento...
.........................................................................
--Aqui estou. Nem sei como acertei.
--Estás apaixonado?
--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?
--Quem te disse o meu nome?
--Li-o nos programmas.
--Ah! sim. Gostaste do meu canto?
--Não te ouvi.
--Como te agradei?
--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante.
Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante
e dezenas surgirão...
--Como elle é experiente!
--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo
_manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o
canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as
malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus
sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_...
Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com
cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma
_ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo
prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae.
Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente
encontrei-me comtigo...
--Ladrãosinho! Como elle sabe contar!
--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de
amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um
cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que
o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho
de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem
trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho
para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo
de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro?
Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos
encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as
nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias.
Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só
nos não apaixonaremos se não quizermos...
--Como sabes a vida!
--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe
pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque,
alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar
longe, te darà muito tempo aos amores furtados.
--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não
se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o
trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um
dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso,
o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...
--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter,
ao passo que o Gustavo...
--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho
para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...
--Neste caso ficaràs com elle...
--Porque então?
--Conheceste-o primeiro.
--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no
mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me
do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios,
com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma
mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte
dispenso as galanterias...
--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua
bolsa...
--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...
--Là com isto combino eu.
--Assim, và que seja e comecemos...
--Que tenho eu para tanto me olhares?...
--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes
são dois vulcões. Como te chamas?
--Guanabarino, um nome difficil.
--Como?
--Gua-na-ba-ri-no!
--Gua-na...
--... barino.
--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?
--De corpo e alma. E tu?
--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva,
aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...
--Tens percorrido meio-mundo, hein?
--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...
--Dize outra vez esse termo...
--Reminiscencia.
--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...
--Como elle é ardente!
--De verdade?
--A tua alma està fugindo-te pelos olhos...
--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão
carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto
da mulher que o escalda?...
--Ih!... Que gêlo!
--Sabes explicar?
--Não. É difficil?
--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As
extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste
nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só
relance.
--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?
--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas
gentilezas.
--Tens gozado tanto?
--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos
tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um
desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda
hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a
minha amante...
--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!
--Não.
--Desmentes o que asseguras.
--Jà tiveste o teu quinhão.
--Como assim?
--Jà te possuiu o Gustavo...
--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja
revelada, ainda não desejou...
--De facto?
--Juro-te eu.
--Ao depois delle... nunca!
--Mas, porque? Mettes-me medo...
--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...
--E porque me inflúes para ser a sua amante?
--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi:
pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de
recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...
--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...
--Um collar?
--Sim.
--De libras esterlinas?
--Conheces?
--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...
--Foram presente.
--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
aqui...
--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
_chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...
--Adoravel!
--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber,
offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho
aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio,
outras...
--Muito em cheio, Sarah!
--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha
retribuição, deu-me estes correntões para atilios...
--Que lindas fórmas!
--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...
--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no
gêsso das tuas pelles...
--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me
cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse
coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia
preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de
muita paixão, só um beijo...
--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...
--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...
--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser
sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira
sensualidade de pagar uma caricia...
--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...
--Com todo o fervor...
--Não te enciumas?
--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de
ouro que elle te der.
--Queres ver o collar de hoje?
--Verei.
--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.
--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...
--Vês tu o bello collar?
--É lindo!... Elle t'o deu?
--Sim.
--Esta joia?
--Que significa o teu espanto?
--É que este collar é...
--Falso?
--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...
--Agora é minha!
--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...
--E só a ti amarei, Guanabarino!...
.........................................................................
Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de
GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o
silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal
conhecido visinho de quarto...
DEPOIS DO COMETA
DEPOIS DO COMETA
De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA
ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D.
CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.
Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre
que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços
a figura da amiga e beijaram-se fartamente.
De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de
brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e
com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.
Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes,
confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas,
onde se foram acastellar para a permuta de segredos...
.........................................................................
--A que horas despertaste?
--Nem sei mesmo...
--Não é possivel.
--Palavra!
--Então ferraste no somno, e...
--Ao contrario: não durmimos.
--É exquisito.
--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
--O dia mais bello da mulher...
--Parece-te?
--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te
sentiste extraordinariamente feliz?
--Ah! sim... Casei-me por meu gosto...
--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...
--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É
preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia,
minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...
--Prohibiram-te de dizer-m'os..
--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher
que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida
conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no
craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan
seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as
duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...
--Mas eu te vejo a mesma boniteza...
--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem
e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo
seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração
palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As
tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso
que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no
cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como
dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria
impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.
--Tens razão!
--Não te parece?
--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das
alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o
cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as
minhas amigas...
--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as
velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na
vida de uma mulher inditosa.
--Pois pensei que me dirias tudo...
--Tudo... quê?
--Ora!
--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo
menos, não o foram para mim.
--Foste differente das outras!
--Offendes-me.
--Não te offendo, não. Desconheço-te.
--Que quererias tu que eu te falasse?
--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.
--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha
com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para
mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices...
e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...
--Não! Deixa...
--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação,
especialmente no dia de hoje.
--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...
--Amúas sem razão.
--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida?
Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do
sr. Arthur...
--Não exaggeres...
--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os
meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo,
porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os
delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...
--És incondescendente!
--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.
--Em parte, minha amiga.
--Não. Em tudo.
--Veremos.
--Pois experimenta!
--E se eu te provar?
--Pago-te com um beijo...
--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não
seja o seu esposo?
--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o
meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua
maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...
--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.
--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
quantas tem...
--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes
ou não ao teu marido?
--Conforme.
--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?
--Se fôr só do teu interesse, não.
--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te
disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria
de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento
que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te
fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de
parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...
--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o
modificará.
--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!
--Achaste?
--Encantadoramente bella!
--E tu me viste?
--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da
igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.
--Era a ultima nota do meu pudor de virgem!
--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua
elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os
olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.
--Lisonjeira!
--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se
dominavam com a curiosidade de ver-me...
--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem
saber que... mais tarde...
--Dize... dize...
--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
algozes...
--De véras?
--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...
--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que,
ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?
--Guardei-o já para offerenda a uma Santa.
--Quem t'o tirou?
--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos
retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da
madrugada. Duas ou tres, não sei.
--E o teu vestido? Era primoroso...
--Está no _armoire-à-glace_...
--Muito amarrotado?
--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão
bem uma vez na vida?!...
--Choraste, Alexandrina?
--Sim.
--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...
--Não sabia.
--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?
--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...
--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?
--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do
successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada,
desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do
sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal.
Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de
_buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa,
eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as
incorrecções dos outros...
--E o tempo se passava...
--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem,
como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o
tiro das cinco horas...
--E então?
--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?
--Ainda não!
--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada
do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...
.........................................................................
Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as
mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na
conversação commum...
AMORES NO CLAUSTRO
AMORES NO CLAUSTRO
Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos,
instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o
excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.
Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de
dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro
e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam
gostosamente de coisas alegres...
.........................................................................
--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução
improvisada...
--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não
venci: fui derrotado.
--Não posso crer facilmente.
--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no
sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem
parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella
animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava
triumphante...
--Tambem a mulher...
--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia
asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje,
tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre
hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os
pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem
cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos
nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos
venceu...
--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
olham por sobre nós para tempos bem distanciados...
--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci
contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia
ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E
tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella
tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A
vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me
disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito
brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e
esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente
irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens...
--Tanto poude o amor!
--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui
dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem
corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por
ventura não professaste como os outros?
--Sem tirar nem pôr na cauza.
--Sempre assim.
--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.
--Ah! por certo.
--Quem me déra!
--E que te faltou, Frei Thomasio?
--Justamente o amor.
--Intrigas-me de véras.
--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
mocinho?
--Se me lembro!...
--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era
menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do
desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes,
todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar
das tentações humanas...
--Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...
--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o
carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas
e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições
de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as
primeiras cousas de amor...
--E não lias o _Cantico dos Canticos_!
--Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o
primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os
arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com
olhos de escaldo...
--Que maganão!
--E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o
cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham
as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções
exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu
era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.
--Estou vendo que eras o preferido...