combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim...
rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem
sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma
fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite,
pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim...
rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e
plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em
cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as
louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...
--Foi a mesma coisa...
--... não foi là dentro...
--Foi, sim!
--Pareceu-me na sala da frente...
--Não cuidarás de outra coisa?
--E que seria o que cahiu?
--Uma bacia de folhas...
--Não!... não!... não!...
--Que queres fazer?
--Levanta-me aqui...
--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do
que um menino...
--Aquelle barulho... Levanta-me aqui...
--Para que? não me dirás?
--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como
se pegasses num pedaço de pau...
--Assim?
--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...
--Queres muita coisa tambem...
--Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...
--Estás muito impaciente...
--Tira o travesseiro...
--Prompto. Queres mais alguma coisa?
--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem
sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...
.........................................................................
E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer,
minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu
esconderijo, como verdadeiras inutilidades...
AO DESPIR UM PIERROT
AO DESPIR UM PIERROT
A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em
que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro
lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em
marmore rozado e humido.
Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas
soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da
lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de
não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
.........................................................................
--Reconheceu-te, Stella?
--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?
--Não o viste?
--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de
desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente,
naquella tua phrase.
--Viste-o?
--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?
--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com
uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses
os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...
--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não
obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim?
Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções.
Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma
_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi
espionar-lhe os passos de homem livre...
--É o que te parece: livre?...
--Pois não é livre Narciso?
--Digo-te que não!
--O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
estado?
--Repito-te que não.
--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das
vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...
--Narciso differe dos outros...
--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as
carnes...
--O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado
semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos
assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos
os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito
de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...
--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda
ordinaria, esta!
--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias
das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais
cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua,
os seus labios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes
produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue
ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus
dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do
que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo
instinctivamente, os nossos labios se encontraram...
--Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...
--Desbotou nellas o setim?
--Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas,
estão para ser exprimidas... Que sudorifico!
--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de
um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo...
Avia-te, afim de que me contes o que viste...
--Dir-te-ei centos de coisas novas...
--Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um
pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse
que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo...
Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte
que cubiço...
--Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...
--Apressa-te, Stella!
--Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de
confidencias que inauguraste...
--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento
hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe
resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella,
intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos...
Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e,
quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o
prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo
deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na
medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora,
o que tu viste...
--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...
--E onde ficou Alberto?
--O meu primo?
--Sim.
--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_
da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu
primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos.
Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do
que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...
--Invejo-te, Stella!
--Bem poderias ter ido...
--Qual nada!
--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?
--Isto é fácil para ti...
--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...
--Não!
--Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que
vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do
baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle
numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres...
--Mulheres, tambem?
--E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de
sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho,
casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...
--Narciso tambem?
--Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não
tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...
--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei
logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...
--Ao seu lado estava uma _écuyère_ italiana: deves gabar-te do gosto de
teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...
--Era bonita a que o seguia?
--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decóte,
exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da
qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era
tido como mascotte...
--Jà agora me penso feliz por não ter ido là.
--Que teria se tu tivesses ido?
--Não me conteria.
--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe
acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse
fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...
--Nada mais natural.
--É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que
elle tomou a bebida de dentro da taça?
--Sim.
--Pois não! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus
nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...
--Confesso-te que não.
--Ahi está. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou
nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
sugou-lhe a entontecedora bebida...
--Como deve ser bom esse carinho!
--Ao depois, beijaram-se...
--Aos olhos do publico?
--Sim.
--Ah!... Se eu estivesse là...
--Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande
excesso, alli mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas
mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos...
Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um
conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto
luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto
final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se
entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e
cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um
corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem
igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos...
--E Narciso dansou?
--Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_,
os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco
retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles
escandalisariam...
--Todavia, vingar-me-ei...
--Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...
.........................................................................
As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se,
cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...
A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos
corpos de uma semi-nudez pagan...
A TAVERNA DE MME BERTHON
A TAVERNA DE MME BERTHON
No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos
_pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos,
essencialmente mundanos, conversavam surdamente...
Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha
de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares
cupidos por todas as bancas.
ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a
passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...
.........................................................................
--Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta
«Menina Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da
infeliz Madame Berthon.
--E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade
desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações,
anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.
--Não conheceste tambem a Madame Berthon?
--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
ignorado...
--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.
--Alguma divindade incognita...
--Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem
a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e
na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora
absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais
inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que
povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de
tranquillidade agora é a sementeira de um incommensuravel estado de
attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as
mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua
subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de
seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria,
aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o
rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz
cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas
decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de
alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E,
se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava...
Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua
alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher,
Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido,
entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura.
Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um
suicidio...
--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.
--Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros
tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por
certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que
veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a
mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem,
Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar
o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque
nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as
tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea
tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de
compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o
bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a
Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio
espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher
gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico,
saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam,
com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na
manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas
furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos,
espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia
de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o
assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos
extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento
no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa
de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia,
meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado
em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem
feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um
crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os
botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...
--Revolto-me jà contra esse perverso.
--Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella
operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava
zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos
dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito,
arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes
desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita
avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os
ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas,
olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro
crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e
penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um
delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina
autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina...
Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada.
Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por
dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça affoita
enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente:
«Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e
penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon,
numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já
era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre
as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas
rubras, e as pequenas sapatinhas...
--Que miseria!
--Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A
perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros
perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas
proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que
esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e
senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão
da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo
esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros
Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
que um corpo morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo,
porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais
sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só
naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que
possuia um nevo sobre o quadril direito...
--Sensualizas tudo, Wenceslau!
--E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte,
como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas
fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela
força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à
instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a
mão na dosagem da condemnação do homem algoz.
--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no
senhorio dos homens.
--E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?
--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo
do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da
mulher, de tão distantes tempos vem ella.
--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que
Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua
obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não
poderia ser contraria à sua origem...
--És rigoroso demais...
--Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os
dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo
e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos
homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam
no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil,
de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que
é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto
senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao
demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?...
.........................................................................
Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois
policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta
noite...
INDICE
Dedicatoria VII
Epigraphes IX
Nedda 3
Voluptuosas 17
O poeta moribundo 29
O velho medico 41
Os dois espelhos 53
O primeiro filho 65
Á vista da denuncia 75
Irado até à cura... 89
A hungara 101
Depois do cometa 115
Amores no claustro 127
A Consulêza 139
De como o avarento morreu... 153
Ao despir um pierrot 167
A taverna de Madame Berthon 179