--Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui

dentro...

--Não sei explicar a tua falta.

--E eu careço de coragem para dizer...

--Tão futil não ha de ter sido o motivo.

--Eu conto. Foi o meu primeiro filho...

--Felicito-o desde jà.

--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade.

Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando

se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o

acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me

deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia,

ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada

de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os

trabalhos...

--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.

--Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi

em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...

--Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o

primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber

corresponder ao valor dos meus funccionarios.

--Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas

porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como

a que o Sr. Director acaba de conceder-me.

--E a senhora ficou sem novidade?

--Pouco mais ou menos, Sr.

--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...

--Qual nada!... Faltar hoje?...

--Não digo isto.

--Então...

--Obter uma dispensa de serviço...

--Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria

o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...

--São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise

dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu

lar.

--Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz

no acontecido.

--E não o foi?

--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.

--Qual foi o medico?

--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.

--Bons medicos, sem duvida.

--E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como

um horror...

--Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os

extraordinarios desse acontecimento inquietador.

--Não aceitarei, Sr. Director.

--Porque assim?

--Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.

--Quereria ter as razões dessa sua desattenção...

--Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas

difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo

filho, nas mesmas condições difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e

eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu

procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois

não é?

--Eu daria do melhor grado.

--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao

depois, se a parturiente inspira cuidados...

--Não se ficou bem ella?

--Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...

--E o que recommendaram os medicos?

--Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é

uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que

Olivia padeceu.

--Pois penso que devias retirar-te.

--Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas

da secretaria.

--Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...

--Perdão, senhor, mas...

--Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te

consumires ainda mais...

--Por acaso commetti alguma outra falta?

--Gravissima... Sabes porque te chamei?

--Lealmente ignoro.

--Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço.

Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de

invejas. Conheço-os todos...

--Agradecido, Sr. Director.

--Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem

com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.

--Mas, que fiz assim?

--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua

informação.

--Oh!... Esta cabeça...

--A conta de Silva & C.ª...

--Sei!... sei!... Então... errei-a?

--Inconvenientemente.

--E sei porque perpetrei o engano...

--É o que tu pensas...

--Por ventura outro me corrigiu?

--Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...

--Porque não hoje?

--Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...

--Não me conformo, Sr. Director.

--Sou irrevogavel.

--No maximo me satisfarei com o dia de hoje.

--Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua

esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o

pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!

--Dá licença?

--Pois não.

--Ás ordens do Sr. Director.

--Ah!... Sr. Orlando?

--Sou todo ouvidos.

--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?

--Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a

atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim...

--Que respondes?

--Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem

verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...

.........................................................................

Sorrira o DIRECTOR e dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja

crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos

factos...

Á VISTA DA DENUNCIA

Á VISTA DA DENUNCIA

O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias,

em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz

pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente

pelos vãos das grinaldas verdes.

Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a

indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem

bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA.

A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de

ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos

grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que,

distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia,

sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA...

.........................................................................

--Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio,

deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido

um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o

meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o

telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E

raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu

desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho

era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus

olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu

succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza,

emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à

indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà

buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são

os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il

n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra não devo, porem,

proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso

marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me

logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama

de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo,

elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei

à cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem

tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota

ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido

trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse

o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu

pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me

e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento,

eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos,

exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos,

assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma

ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser

recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se

envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim,

porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na

intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade

commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me

engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido

na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o

recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se

não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua

saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha

comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria

moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha,

desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia

de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se

convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres

criancinhas--mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros

lamacentos da podridão materna--elles dois se encaminhavam do leito,

quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o

ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao

lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o

meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal.

Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu

conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a

trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram

poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais

tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me

achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o

assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as

resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto,

naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam

os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais

depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é

essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr

apunhalante. O meu marido jantaria fóra, num banquete intimo, mas

numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de

suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de

Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por

dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas.

Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua

acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do

que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes,

que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois,

calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o

punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho

abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome

deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante

dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com

a sua abjecta convivencia...

--Nego, sim!

--Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do

publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de

Carlota.

--Juro-te.

--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir

as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella

devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta

nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira,

terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores

palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que

foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na

corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem

Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu

sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou

caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas.

Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão

facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!

--Nego, sim!

--Quero convencer-me. A pé firme?

--Com toda lealdade.

--Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle

pacote?

--Ignóro.

--São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero

devolvel-os.

--Mas, como?

--Não os guardarei mais commigo.

--Vais romper, então, com a familia do Aurelio?

--Forçosamente.

--É de mau alvitre.

--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar

com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento,

confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio

immundo...

--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais

grosseiro.

--Devolverei, sim, não ha que ver.

--Estàs no teu direito.

--E espero a tua sancção.

--Jà a tens.

--Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.

--Pois escreve-a!

--Não! Tambem não! Serás tu...

--Eu?!...

--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...

--Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos

nessas rusgas de mulheres.

--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores

apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser

quem escreverá a carta hoje mesmo, agora...

--Convencer-te-às de minha innocencia?

--De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.

--Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...

--E pensas que escreverás como quizeres?

--Não: como fôr conveniente.

--Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.

--Quê?

--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...

--Mas...

--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...

--Amaryllia?!...

--Virulenta e grosseira...

--Faça-se a tua vontade.

--Escreves?

--Como quizeres.

--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?

--A Carlota!

--Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em

todas as letras...

--É demais!

--Não retrocedas!

--Abusas de minha bondade...

--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...

--Absolutamente, não!

--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae

terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.

--Tua alma, tua...

--Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do

conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto,

tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a

queimadura do inferno mais verdadeiro...

.........................................................................

Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da

meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para

o seu leito...

IRADO ATÉ À CURA...

IRADO ATÉ À CURA...

Ampla alcôva: no _armoire-à-glace_ reflectida como outro vasto

commodo...

Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente...

Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos,

despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO,

luctando com a morte...

É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação

despropositada.

Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de

um chronometro, desenvolta frascaria...

Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na

vigilia: o seu semblante merencoreo só consegue alguma graça

quando ELOY visita o enfermo.

.........................................................................

--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente...

Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem

cessar...

--Tem fé em Deus, Ormindo.

--Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada

eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a

alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto

preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com

os creditos da medicina e da pharmacia...

--Tu pensas demais.

--Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida

e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova.

Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um

amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um

manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na

viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?

--A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com

honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...

--Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A

herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa,

ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes

assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir

com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve

pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais

homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da

pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das

transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente

transigir... Que dores!... Ui!...

--Estàs vendo: peioras quando falas!

--Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma

sorte grande...

--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o

silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando

forças para momentos mais graves...

--Durarei muito pouco.

--Não pódes saber mais do que os medicos.

--Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se

avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É

verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus

primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha

traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se,

rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um

globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar,

latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca

me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...

--Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel.

--A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração

senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar

mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz

para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a

chamma de uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um

instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade.

Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa

teimosa em torno de uma lampada.

--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são

outros tantos punhaes que me sangram o coração.

--Que horas serão?

--Jà é noite.

--E os medicos que não vieram?

--Vieram, sim. Tu estavas dormindo.

--Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a

minha existencia...

--Não pesas as tuas palavras, Ormindo.

--Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de

hoje. Estou condemnado a horas.

--Descansa um pouco.

--Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e

parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um

sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento

da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me

o ar...

--Assim queres! Falas tanto...

--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar.

Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas

consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te

lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico

com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh!

que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te

banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite

de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre

para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de

um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo

principiava?!...

--Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na

renascença da vida.

--A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões

fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz

arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos

os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só

recompôr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o

circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que

eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos

envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem!

esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o

supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria

mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o

segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o

adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um

agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais

no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro

mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?

--Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança

illuminar-me o rosto...

--Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os

affectos e vontades, a minha cura?

--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.

--É bem pouco um desejo!

--Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de

possuir-te novamente são?

--Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a

prolongação de minha tortura...

--Aborrecer-me eu!...

--E então?!...

--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna

desconfiança da amizade de tua esposa...

--Isto não!

--Pois parece, Ormindo!

--Neste caso, escutas-me com agrado?

--Sim.

--Posso falar?

--Não.

--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de

forças organicas...

--Diz o doutor...

--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro

conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar

num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções

animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa.

Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma

realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes

copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma

inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma

redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as

sensações...

--Não morreràs, Ormindo!

--São os teus votos?

--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda

no instante derradeiro?

--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.

--Pois então?!...

--Dà-me a tua mão...

--Estàs frio!

--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...

--Se o faço...

--É para depois de minha morte...

--Juro-te.

Mundanismos · 第 2 / 5 段