ALMACHIO DINIZ
MUNDANISMOS
(CONTOS)
F. França Amado, editor
Coimbra. 1911.
Composto e impresso na Typographia França Amado,
rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.
MUNDANISMOS
(CONTOS)
Obras completas de ALMACHIO DINIZ
Contos
Um artista da moda, Lisbôa, José Bastos & C.ª, editores.
Sombras de pudor.
Mundanismos, Coimbra, F. França Amado, editor.
Novellas
A Carne de Jesus, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, 1910.
O Diamante Verde, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1910.
Sonhos de meduza, em preparo.
Romances
Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903.
Crises, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906.
Pavões, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 (Exgottado).
Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910.
Duvidas e remorso, em preparo.
Theatro
A Escarpa, Porto, Lello & Irmão, editores.
Tropheus em cinzas.
Sazão de luz (em preparo).
Critica
O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em
lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado).
Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmão, editores, 1908.
Sociologia e critica, Porto, Magalhães & Moniz, editores.
Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor.
A questão das raças na literatura universal, em preparo.
Symbolismo
Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado).
Sê bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado).
Lingua portuguesa
A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado).
O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisbôa,
Santos & Vieira, editores.
Scientificos
Genesis hereditária do direito, Bahia, 1903 (Exgottado).
Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito,
Bahia, 1906.
A sciencia do direito e as producções espirituaes do
homem, Bahia, 1907 (Exgottado).
Questões actuaes de philosophia e direito, Rio, H.
Garnier, editor, 1909.
A objectividade do phenomeno juridico no direito
brazileiro, em pub.
As formações naturaes na philosophia biologica, em preparo.
ALMACHIO DINIZ
MUNDANISMOS
(CONTOS)
Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
ANATOLE FRANCE.
COIMBRA
F. FRANÇA AMADO, EDITOR
1911
A
GUERRA JUNQUEIRO
L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et
les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel
est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le
peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent à faire dans la
fiction, comme la vie dans la réalité. Au fond de chaque oeuvre
d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation étroite ou
libre évocation--une réalité reproduite de la vie.
CHARLES ALBERT.
O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não
agrada à _visão_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o
espaço, por isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se
livremente a acção que a descriptiva, por vezes, compromette.
COELHO NETTO.
MUNDANISMOS
Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
ANATOLE FRANCE.
NEDDA
NEDDA
Manhansinha.
A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada:
era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se
abrirem de par em par as gelosias.
SAUL, de NEDDA esposo, ficàra a dormir na alcova.
E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não
dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
DONA LOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...
Num canapé, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias
de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão
branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizêta
de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida
do cansado movel...
.........................................................................
--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me
entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como
uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que
vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à
tarde...
--Exactamente.
--Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na
rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella
cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me
e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os
meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois
mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de
malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a
honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui
mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar
como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de
amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse
homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às
suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do
senhor meu marido...
--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que
me pasma...
--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter
o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um
tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em
caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto
mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando
a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de
rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra,
porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte
alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para
o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe
intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este
provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o
caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma
defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu
perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...
--Respeita o teu marido, minha filha!
--Pois não é, maman?
--Essas couzas não se devem dizer...
--Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um
temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos
quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito
sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês
velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque
ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso
acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura
de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não
intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua
doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se
de si mesmo e não me culpe a mim.
--Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.
--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje
dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu
toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe
aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou
coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha
repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos,
nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a
menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no
campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina
que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como
energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia,
todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de
mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?
--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te
esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral
esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te
surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser
suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal.
--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como
tudo se deu...
--E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não
dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem
calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que,
callejada a alma, o amuo será definitivo.
--Que teria isso?
--Um escandalo, minha filha!
--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me
pouparei a um grande escandalo.
--Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes
o teu marido como o teu senhor...
--Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como
entenderes... Não me darei por achada.
--Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu
marido.
--Jà estás julgando o feito?
--Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se
e sejam felizes.
--Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu
ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma
só...
--Interpretas muito mal o meu genio.
--Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr.
meu marido?
--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a
accusação, eu nunca seria contra ti.
--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não
julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu
o que se passou...
--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...
--Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi
passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle
que me falou pelo telephono, fui à Barra correr uma cazinha vaga e
que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao
depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a
gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas.
Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê
tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha,
arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi
quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer
essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o
primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da
rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta.
Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse,
porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois
resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por
um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do
sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo,
desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as
escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por
Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo,
maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente,
desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o
qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle
quiz, fechou sósinho a caza e veiu só...
--Devias ter evitado tudo isto, Nedda.
--Evitado, como?
--Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr.
Eduardo.
--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em
que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...
--Recusasses os favores offerecidos.
--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à
grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...
--Conforme o renome desse moço.
--Tem mà fama o dr. Eduardo?
--Não sei, não. Dizem.
--Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de
sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal
visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os _habitués_ de
nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto
qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do
nosso convivio...
--Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
referiu-me que estavas sem chapeu...
--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha
van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr.
meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e
asseiei-o prestamente...
--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...
--Saul é um mentiroso.
--Não te zangues, Nedda.
--Injuriou-me.
--Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...
--E elle o quer?
--Porque perguntas?
--Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da
esposa deshonesta.
--Não deves dizer assim, minha filha!
--Aceita-me elle?
--Que tolice, Nedda!
--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço
em attenção aos teus bons officios...
--Fazes muito bem.
--Là vem elle descendo...
--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...
--Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos
encontrarmos os tres...
.........................................................................
Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e
decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se
escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de
esculptura grega...
VOLUPTUOSAS
VOLUPTUOSAS
No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
_stores_ pallidos, HELENA fazia somno à hora da sesta, quando MARIA
ANGELICA a surprehendeu adormecida.
A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de
HELENA...
Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com
um fremito de prazer...
.........................................................................
--De onde vens tu, Angelica?
--De encommendar flores...
--Flores?!
--Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?
--Sou uma esquecida.
--E ella é credora de nossas gentilezas...
--Das minhas, especialmente.
--Encommendei orchidéas e chrysanthemos.
--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.
--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.
--Não lhes acho graça.
--Ó exigente!
--Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e
roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres
melancolicas?
--Descobres coisas...
--Mas, não é?
--Realmente.
--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?
--É a moda, é o chic, é o _dernier-cri_...
--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas,
chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?
--Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os
olhos muito brilhantes...
--De verdade?
--Sim. Sonhavas?
--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...
--Apanhei muito sol.
--Os teus olhos estão pisados e languidos...
--É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor
que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...
--Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...
--E eu os concertei no espelho de Esther.
--Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther.
Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está
mal posto, a fita está retorcida...
--Nem reparei...
--Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão
mal-amanhada. É de causar vergonha.
--Foi a pressa, Helena.
--E no teu hombro a sêda está nodoada...
--Nodoada?!...
--Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei
mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...
--Quem o poderia fazer?
--Esther.
--És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as
flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás
satisfeita?
--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...
--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é
arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...
--Que venturas posso ter?
--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha
vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras
occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me
porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado...
--Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes
calor, Maria Angelica?
--Algum.
--Neste caso...
--Que fazes?
--Dispo-me. Não me imitas?
--Póde ser. Passarei a tarde comtigo...
--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla
assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...
--Tira os alfinetes.
--Usas um bom pó de arroz, Angelica.
--Ui! Helena!
--Que foi assim, ardilosa?
--Espetaste-me as carnes...
--Tambem é uma ruma de alfinetões...
--É para segurar bem.
--Tens uma pellugem de arminho...
--Ai!... Assim não... não...
--Que tens, rapariga?
--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste
vontade de...
--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos...
--É para vingar o teu beijo...
--Porque me olhas assim, Angelica?
--És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
perfume originalissimo que me entontece...
--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as
amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que
se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte.
Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras
marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos
desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não
só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as
faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por
fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de
Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...
--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...
--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na
essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para
contrastar com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as
minhas vestias...
--E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!
--Qual?
--Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És
avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...
--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...
--Teria graça!
--Porque assim?
--Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
carnes...
--Tens desejos masculinos, minha queridinha!
--E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis,
junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os
teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais
feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade,
ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição...
--Mofadora!
--Mofar eu de ti?!...
--Não te abraza o calor?...
--Sim... Intoleravelmente...
--Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções
na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os
homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante
do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na
mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não
conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora,
impiedosamente, o veu de tua nudez...
--Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
arrôcho de um collête dictatorial?
--Quantas vezes?!
--Tu brincas, mulher divertida...
--Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais
provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...
--Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos
oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser
morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é
um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto
mais calmo...
--Não te agrada a minha nueza?
--Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu
ventre...
--Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas
desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu
contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um
retrato...
--Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?
--E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?
--Que egoismo leviano!
--Acha-o?
--Sim... Photographemo-nos...
--Adoravel!... Como não irradiará no _cliché_ o contraste de nossas
pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa
de um pólo...
.........................................................................
Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma
solução de perolas e opalas.
Os seus labios permutaram cariciosos beijos.
E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia,
desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...
O POETA MORIBUNDO
O POETA MORIBUNDO
Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina
pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de
Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio
das tapeçarias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter.
HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro
CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le poète mourant_--de Gotschalk.
As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de
admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos
que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.
Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente
combalida pela dor de uma alma irman...
.........................................................................
--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas
e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do
passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não
despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre
personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o
desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão
inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado,
frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei,
pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou
pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se
lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a
longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui
minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a
alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim
inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença
illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão
para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua
confidencia ultima: amaste-me alguma vez?
--Que pergunta, Christovam.
--Indiscreta?
--Não; ao contrario. Amesquinhante...
--Extranho-te.
--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora?
Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa
irreductivel deante de minha vontade altiva?
--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas
de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz
com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um
homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino
de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura
lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das
fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em
sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava
rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me
deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe.
Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E
porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria
ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás
piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era
porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do
precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente...
Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção?
Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a
clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do
affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o
talento immensuravel com que sempre me amaste...
--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
possuir o maior tino dos homens.
--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem
pesada se antepõe á sua esphera...
--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do
regosijo delles...
--Dos teus paes?
--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em
tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque
admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a
marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher?
Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam
as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro,
algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a
nossa união se perpetraria ao teu sabôr?
--Desconheço-te já...
--Mas, porque...
--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos
outros...
--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a
existencia de mulher?
--Nem sei de mim mesmo que te responda...
--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio
não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar
a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para
tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te
livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente,
Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia...
De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não
terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é
porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a
causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...
--Mas...
--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas
perfeitas. Queres responder-me?
--Nada significará o que te responda.
--É preciso que sejas categorico.
--Pois sim: responder-te-ei.
--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?
--Por certo que não.
--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por
mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?
--Se quizesses, sim.
--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu
assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque
não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por
impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o
amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse
de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e
em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...
--É um dilemma sophistico.
--Por que principio, não sei.
--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor,
Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?
--Do modo mais franco.
--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
quizesse, matar a sêde que allegava...
--Dependia de mim. Dei-te.
--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão.
Negaste-m'o?
--Não poderia negar.
--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria
a intensidade do teu sentimento...
--Dependia de mim. Pratiquei.
--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...
--Como te respondi, Christovam?
--Com a primeira negaça.
--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman,
como o caminho propicio para vencer o papá.
--Realmente, Heloisa. Sou um vencido.
--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...
--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do
dever...
--Desistes, então, do teu amor?
--Razões me sobejam...
--Que te disse, afinal, a maman?
--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e
lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...
--Nada de mais, Christovam!
--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar
contra um homem...
.........................................................................
E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER
assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita
criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
despediu de HELOISA...
O VELHO MEDICO
O VELHO MEDICO
O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.
ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao
esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como
se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e
perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige
os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...
MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em
que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os
olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de
suas attenções...
.........................................................................
--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da
mocidade...
--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso
affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das
humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as
enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou
curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.
--E quem te curou, meu caro?
--A natureza...
--O novo deus pagão...
--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes
curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?
--Lembro-me, sim.
--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.
--O sr. era verdadeiramente um doente.
--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
invariaveis.
--Realmente.
--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o
ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na
inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu
estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos
symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade
de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em
illustrar-me em torturas ineditas.
--Afinal... quem te curou?
--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...
--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos:
salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela
intervenção do doutor...
--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos
casos communs.
--Desculpe-me.
--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a
minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu
estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei
assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada
fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci,
aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade
effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez
primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o
delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha
vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram
sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil
e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes
as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao
maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se
e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as
alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me
combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas
para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...
--De um crime delicioso...
--Talvez, doutor.
--E então?
--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar
della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na
garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de
minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre
num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia
quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de
tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes
balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...
--É curioso, de véras, o seu caso.
--Foi, doutor.
--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.
--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.
--Paranoico?
--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com
banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro
medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente
banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o
tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta
dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta
hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e
disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade
carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser
feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e
tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe,
desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um
simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios,
boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do
meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de
alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias,
tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos
e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a
minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus
soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve,
por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria
sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de
sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com
facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um
visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas
forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos
de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a
conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha,
encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na
cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...
--E nem rezado, sr. Estephanio?
--Para o doutor ver! Nem rezado!
--É unica a sua historia.
--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.
--Assim acaeceu.
--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?
--Se me não falha a memoria, effectivamente.
--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os
medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram
trazidos em conferencia.
--Que disseram elles?
--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles
mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.
--Sãos, ou curados?
--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico
de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro
hypertrophia.
--Mas, afinal, acertaram?
--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a
saude.
--É espantoso, meu caro senhor.
--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha
reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e...
estamos casados, não foi assim, Judith?
--Parece-me!
.........................................................................
Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando
o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de
modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente
a espaçosa fronte...
OS DOIS ESPELHOS
OS DOIS ESPELHOS
Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé,
fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu
sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos
profundamente geladas.
SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto
dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
feições com um clarão colerico.
Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a
cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o...
.........................................................................
--Faze a tua scena.
--E não é sem tempo.
--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?
--Facilidades.
--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o
homem cazado não tem direito a facilidades.
--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma
existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união
infeliz!... Maldita hora!
--Ah!... ah!... ah!... ah!...
--Sorris...
--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?
--A minha vida depois que me senti enganado...
--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci
o teu adulterio...
--Insultas-me ainda em cima, Violante?
--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu
digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado
e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...
--Não dize, Violante, a indignidade!
--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a
tua ausencia do lar...
--E confessas o delicto?!...
--... só depois que conheci a tua amante...
--Mentes, mulher!
--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
sais...
--É horrivel, Violante!
--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de
ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...
--Tu viste?
--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...
--Poupa, Violante, essa phrase...
--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no
lar pelo marido libertino...
--É demais!
--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos
primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava
na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta.
Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te
perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz
saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu
procedimento...
--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.
--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e
consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te
devo satisfacções... São ellas por ellas...
--Abusas...
--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus
actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze
o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas
incontinencias e perversidades...
--E sabes quem é a minha amante?
--Se sei, Simeão?!...
--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não
conheces ninguem...
--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...
--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha
paciencia se exgottarà afinal...
--Ainda em cima me ameaças?
--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me
confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?
--Ninguem!
--Ninguem, como?
--Desconfiei e fui ao teu encalço...
--Não falas a verdade, Violante.
--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas.
Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem
lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio...
Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella
é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...
--Juro-te que não sei do que se trata.
--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia...
Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas
esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e
tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?
--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa
familia...
--E que é a tua amante...
--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As
minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e
começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a
dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem
jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma
supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os
dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria
relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O
mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia,
e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino
jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um
tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo
homem respeitador...
--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto,
sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em
lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu...
Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão
momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto
o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me
eu... Adquiriu uma amante...
--Retem-te, Violante!...
--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe
do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu
marido!...
--Intoleravel!
--Tambem tu o és!
--Adultera!
--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
devolver todos, um por um...
--Saber-me trahido...
--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando
nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher
digna do marido que lhe deram...
--Sinto faltar-me a luz da vista...
--Impressões, Simeão.
--Pois é justo que me consinta enganado?
--Não nos deshonramos...
--É um consôlo ridiculo.
--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?
--Diversa é a situação do homem, Violante.
--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente
nos submettemos a esse regimen de igualdade...
--Doloroso!
--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me
enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...
--E o teu amante?
--Dispensa sabel-o...
--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O
massagista...
--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não
vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te
fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de
ti?
--Então... Desabafa-me!... Sê completa!
--Insistes em conhecer tudo?
--Não duvides que o quero de coração.
--É Lourival...
--O marido de Idalia?...
--De certo.
--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
conjugadamente...
--Mas eu estou vingada...
.........................................................................
Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão,
perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...
E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...
O PRIMEIRO FILHO
O PRIMEIRO FILHO
Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo
até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.
O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido à assiduidade do
moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.
Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares
recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se
entregou ao trabalho sem explicações.
Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o
DIRECTOR entravam em confidencia...
.........................................................................
--Ah! Sr. Director!
--Estiveste doente?
--Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...
--Trocaste o dia?
--Como assim?
--Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?
--Tambem não!
--Viajaste a negocio?