NOTAS

Muitos trovadores provençaes, vendo inutil a galanteria de suas

canções, sem esperança de abrandarem o coração ou pelo menos de

alcançarem um sorriso das castellãs, precipitaram-se na empreza das

Cruzadas; era a resolução extrema a que se entregavam, ao acaso das

peregrinações e dos combates, em vez da vida ociosa dos castellos e das

côrtes do amor, que mais satisfazia a sua natureza meridional. Quando

a Europa, se alevantava levada pelo sentimento religioso, com a idêa

no sancto Sepulchro, o trovador ía acompanhado pelo desalento para

esquecer o sepulchro dos seus amores--a Provença. Assim se espalharam

as grandes tradições cavalheirescas, repetidas na Italia, em Portugal,

Hespanha e na Grecia moderna; tradições que se não prendiam a algum

facto historico, que versavam quasi sempre sobre peripecias e situações

então produzidas pelo estado social: ora se vê um peregrino que pede,

tocando na theorba, hospedagem em seu castello para reconhecer a

fidelidade de sua dama; ora um mancebo volta da guerra ainda a tempo

para salvar a noiva de um casamento forçado; umas vezes uma donzella

disfarça-se em trajos de guerreiro; outras vezes é a historia de uma

romeira accommettida por algum conde em altas serras, aonde ninguem

lhe pode valer. Não se prendendo as versões a facto particular da

historia, eram mais promptamente acceitadas na tradição oral, que as

accommodava ao gosto da phantasia popular, e á prosodia dos differentes

dialectos do Meio Dia da Europa. O povo guardava na memoria o romance

ligeiro, com que o trovador peregrino, na sua passagem, pagava a

hospitalidade; ía-o repetindo, e o recordar-se era como crear novamente

sobre as impressões que tinham ficado: assim dramatisava mais aquellas

partes em que o trovador fôra conciso, era mais plangente onde lhe

falara á paixão, e prescindindo completamente das transições que não

comprehendia. Pons de Capduelh, enamorado trovador da dama Mercoeur,

vae morrer na Palestina, inconsolavel pela morte d’aquella que nunca

lhe acceitou os galanteios; Gancecem Faidit, depois de amar sete annos

a esquiva Maria de Vantadour, alista-se na Cruzada para se tornar mais

digno d’ella; Pierre Vidal, na sua doudice, parte levando na alma

a imagem de Adelaide de Roquemartine, e na imaginação a conquista

do Oriente. D’este poeta encontram-se documentos da sua passagem em

Portugal.

A vinda dos Cruzados pelo Mediterraneo á Terra Santa, e o auxilio que

prestavam na conquista de Lisboa, fazem crer que pelas narrações das

viagens e dos arraiaes espalhassem entre nós essas grandes tradições

cavalheirescas do cyclo carolino, que então percoriam a Europa. Os

factos levam-nos a estas inducções. Existem na poesia popular da Grecia

moderna alguns romances cavalheirescos communs ao Meio Dia da Europa;

espalharam-se ali na tradição pela passagem dos Cruzados. Falando

do romance piemontez, _A Guerreira_, o cavalheiro Nigra determina

as similhanças que se dão entre elle e um canto slavo publicado por

Tommaseo nos seus _Canti Greci_, _illirici_, e com outro canto grego

que traz o conde de Marcellos nos _Cantos da Grecia moderna_; por este

facto assigna-Ihe a Provença por origem, passando para ali no tempo

das Cruzadas. Este romance é em tudo similhante á versão portuguesa

da _Donzella que vae á guerra_, e accresce a circunstancia de ser uma

tradição do líttoral, porque é omissa nas collecções hespanholas.

Um facto analogo se dá com o romance portuguez da _Noiva roubada_,

e com o romance da _Dona Infanta_, cujos paradigmas se podem ver na

citada collecção do conde de Marcellus. Se estes cantos foram levados

para a Grecia pelos Cruzados, e se encontram tambem entre nós, não é

destituida de fundamento a inducção, posto que não pizemos o campo da

historia.

=1 e 2--Romances da Dona Infante.=--São estes romances os mais

repetidos na tradição oral; um allude ao tempo das Cruzadas; no

outro, mais moderno, o Brazil substitue na imaginação do povo o

ponto para onde converge a aventura cavalheiresca. A origem d’estes

romances é litteraria; na _Esposa Fiel_ de Juan Ribera se determina

ella visivelmente. (Duran, Romancero general, n.º 318) Encontram-se

paradigmas nos _Cantos populares da Grecia moderna_, (pag. 152, 162

e 163) no romance catalão de _Brancaflor_, na collecção ingleza de

Percy (Liv.I, p. 261) na Ballada allemã de _Liebesprobe_ (Deutsches

Balladenbech, S. 14) nos cantos da França e da Italia (Du Puymaigre,

_Vieux auteurs castillans_, p. 389). Pode com certeza affirmar-se que é

um dos principaes romances communs aos povos do Meio Dia da Europa.

=3, 4 e 5--Romances de Dom Martinho de Avisado.=--Quasi todos os

romances portuguezes são de origem castelhana e ainda se encontram nos

Romanceiros hespanhoes. _A donzella que vai á guerra_ não apparece

n’essa collecção; apesar d’isso Garrett não o julga originalmente

portuguez. Fala d’este romance Jorge Ferreira de Vasconcellos (Scena I,

acto III; fol. 84 da Aulegraphia) conhecido no seculo XVI pelo _Rapaz

do Conde Daros_. Versões d’elle se encontram no Alemtejo, Extremadura,

Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa, Açores e Lisboa; a

donzella que vae á guerra, segundo cada provincia, ora se chama Dom

Martinho de Avisado, Dona Leonor, Dom Carlos, Dom João e Dom Barão. Foi

pela primeira vez publicado por José Maria da Costa e Silva nas notas

ao seu poema _Isabel ou a heroina de Aragão_, em 1832. M. Nigra, em

seus interessantissimos estudos da poesia popular do Piemonte (Revista

Contemporanea de Turin, novembro de 1858) publíca um romance piemontez,

intitulado a _Guerreira_, que é como uma variante da versão portugueza:

«Porque choraes, meu pae, porque Choraes? Se tendes de ir á guerra,

eu irei por vós; apromptai-me um cavallo que possa levar-me bem, e um

bom pagem em quem me possa fiar. Tomae meus vestidos cinzentos, dae-me

umas calças e um _gonel_, e com a minha pequena fita fazei-me um laço

sobre o chapéo.» Quando chegou a Nice, eis que sobe aos bastiões: «Oh!

vêde-a! que linda pequena vestida de rapaz!» O filho do rei estava á

janella, a miral-a: «Oh! que pequena tão bella: se ella quizesse ser

minha! Oh minha mãe, minha mãe, ella é uma rapariga! Oh que pequena

tão bella: se ella quizesse ser minha! «--Se queres saber quem é,

leva-a a casa de um negociante; se fôr uma donzella, só ha de comprar

luvas.--Olhae, meus soldados, olhae para estes guantes!--Soldados

que vão á guerra não têm frio nas mãos.--Oh minha mãe, minha mãe, é

certamente uma donzella! Oh que pequena tão linda: se ella quizesse ser

minha!--Se queres saber quem é, leva-a a casa de um ourives; se fôr

uma rapariga, ha de comprar um annel.--Olhae, meus soldados, vêde que

anneis tão bellos.--Soldados que vão á guerra só precisam de espadas

e punhaes.--Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella. Oh que

rapariga linda! Se ella quizesse ser minha!--Se queres saber quem ella

é, leva-a para dormir comtigo. «Ella apagou o candil e mandou para lá

o seu creado.» Oh minha mãe, minha mãe, é certamente uma donzella! Que

rapariga, linda! se ella quizesse ser minha!--Se queres saber quem

é, fal-a passar na agua; se for uma donzella, não se ha de querer

descalçar. Ella despiu uma perna, quando chegou uma carta; a carta diz

que lhe dêem a sua baixa. A pequena a meio caminho se poz a cantar:

«Donzella estive na guerra, donzella voltei de lá».

No romance portuguez também se encontra esta prova do banho, e da carta

que o pagem lhe traz, mas continúa, porque o capitão acompanha-a na

volta á patria e vem a casar com ella. Na licção dos Açores, que traz

Garrett, (t. III, pag. 65) termina egualmente o romance com um conceito

engraçado:

Sette annos andei na guerra

E fiz do filho barão,

Ninguem me conheceu nunca,

Senão o meu capitão;

Conheceu-me pelos olhos,

Que por outra cousa não.

M. Nigra encontrou tambem na Servia vestigios d’este romance. Posto que

se não ache nos Romanceiros hespanhoes, Jorge Ferreira na Comedia da

_Aulegraphia_ traz uns fragmentos em castelhano:

Pregonadas son las guerras

Da Francia contra Aragone...

Como los haria triste

Viejo, cano o peccador?...

que fazem suppor ter elle existido primitivamente n’esta lingua,

attendendo á grande importancia que o castelhano tinha na corte

portugueza. Tommaseo recolheu nos seus _Canti greci_, _illirici_, etc.,

um canto slavo, cuja similhança com o canto piemontez e portuguez faz

suppor uma origem commum. Tommaseo publicou tambem um canto grego

moderno. Qual será essa origem commum? M. Nigra diz que «os cantos

romanescos communs á poesia romanesca das raças latinas devem, sem se

hesitar, ser considerados como vindos e muitas vezes originarios da

Provença, etc.» M. Nigra julga este romance do tempo das Cruzadas,

passando da Provença para os paizes Slavos e para a Grecia. É o unico

modo como se pode explicar o seu apparecimento na poesia popular das

duas Peninsulas. (Du Puymaigre, _Vieux Auteurs Castillans_, Append. p.

462 e 465.)

=6--Romance de Gerinaldo=--São muitas as influencias das tradições do

norte sobre a poesia do nosso povo. O Conde _Niño_ tem um final como

o romance de Tristão e Yseult; a _Imperatriz Porcina_, de Balthasar

Dias, encontra-se na lenda de _Hildegarda_, recolhida por Jacob Grimm.

O romance de _Reginaldo_ pertence ao cyclo carlingiano; não nos veiu

através da Hespanha, como a maior parte dos romances carolinos; os

dois romances recolhidos das folhas volantes publícados no _Romancero

general_ de Duran (1849-51, tomo I, p. 175 e 176,) differem muito do

nosso; o primeiro é incompleto, e o segundo tem uma côr mourisca da

fronteira. Em cada provincia dão ao pagem feliz diversos nomes; no

Alemtejo _Generaldo_, no Minho e Porto _Girinaldo o atrevido_, e na

Beira, segundo descobriu primeiro Garrett, chamam-lhe _Eginaldo_,

que é a traducção mais proxima de _Eginhart_. Quasi todos os nomes

dos personagens carolinos foram aportuguezados pelo nosso povo, como

Valdovinos, Reinaldos de Montalvão, Roldão, Oliveiros, Beltrão,

Dones Ogeiro, transformados de Bauduin, Reynaud de Monteauban,

Roland, Olivier, Bertrand, Ogier le Danois. O romance portuguez de

_Reginaldo_, tal como corre no Alemtejo, Extremadura, Beira Alta,

Beira Baixa, Minho, apesar de todas as differenças de acção nas

variantes, aproxima-se o mais possivel da tradição, que Jacob Grimm

recolheu do _Chronicon Laurishamense_, (ed. Manheur, 1768, in 4.º, I,

f. 40, 46) e que Vicente de Bauvais refere ao tempo de Henrique III:

«Eginhart, primeiro camarista e secretario de Carlos Magno, alcançou,

pelos bons e leaes serviços na corte, a estima de todos, e sobretudo

o amor de Emma, filha do Imperador. Estava promettida em esponsaes

ao rei da Grecia; e quanto mais o tempo do casamento se aproximava,

mais a intima inclinação d’Eginhart e de Emma se fortificava em seus

corações. Detinha-os o medo de que o rei não viesse a descobrir esta

paixão e se enfurecesse. Por fim o mancebo não pode dominar os seus

transportes; revestiu-se de coragem, e, não podendo communicar com

a joven princeza por algum confidente, veiu protegido pelo silencio

da noite ao quarto d’ella. Bateu levemente á porta do aposento, como

se viera mandado pelo rei, e entrou. Ali protestaram o mutuo amor,

e regosijaram-se nos abraços tão ardentemente desejados. Eis que,

ao romper da alvorada, o mancebo ao retirar-se viu que havia cahido

durante a noite muita neve, e não se atrevia a dar passo da soleira

da porta, porque as pegadas de homem o teriam logo trahido. N’esta

perplexidade, os dois amantes resolveram o que haviam de fazer, e

a menina concebeu um plano atrevido: quiz a toda a força pegar em

Eginhart aos hombros, e antes do rasgar da manhã levou-o até á porta

do seu quarto, e voltou cuidadosamente sobre as mesmas pegadas. Logo

n’esta noite não tinha o imperador pregado olhos; levantou-se, e

mal raiavam os primeiros alvores, se poz a olhar para os jardins do

palacio. Então viu passar por debaixo das janellas a filha, que vergava

sob o doce, mas carregado pezo, e que, depois de o haver deposto,

correu rapidamente sobre os primeiros passos. O imperador firmou-se

bem, para se não enganar, e ao mesmo tempo se sentiu tocado de dor e

admiração; comtudo calou-se. Eginhart que sabia muito bem que mais

hoje ou amanhã chegaria o caso aos ouvidos do rei, resolveu-se, e veiu

ter com seu amo, deitou-se-lhe aos pés, pedindo que o despedisse,

a pretexto de que seus fieis serviços não eram suficientemente

recompensados. O rei ficou silencioso por longo tempo, e refreiou seus

sentimentos; alfim prometteu ao joven de lhe dar uma prompta resposta.

No entanto formou um tribunal, reuniu os primeiros e mais íntimos

conselheiros, e descobriu-lhes que a magestade real fôra ultrajada

pelo commercio amoroso de Emma com o secretario; e em quanto ficaram

todos surprehendidos com a nova de um crime tão inaudito e grave,

explicou-lhes como se haviam passado as cousas, e como observara tudo

com os proprios olhos; depois, quando acabou, pediu-lhes parecer

sobre o facto. A maior parte dos conselheiros, homens prudentes e

inclinados á doçura, foram de voto que o rei pronunciasse de motu

proprio sobre esta circunstancia. Carlos, depois de haver considerado

o caso em todas as suas faces, reconheceu n’este acontecimento o dedo

da Providencia, resolveu usar de clemencia, e casar os dois amantes.

Applaudiram todos com alegria a moderação do rei, que mandou chamar

o secretario e lhe falou assim: «Ha mais tempo devera ter compensado

melhor os teus serviços, se me tivesses já manifestado o teu pezar;

agora quero, em recompensa, dar-te em casamento minha filha Emma, pois

que ella propria, levantando sua cintura, te quiz levar aos hombros.»

Immediatamente deu ordem para que chamassem a filha, que appareceu

muito córada, e em presença da assembleia foi casada com o enamorado.

Deu-lhes um rico dote em bens immoveis, em ouro e em prata: e depois da

morte do imperador, Luis-le-Debonaire fez-lhes presente, por um acto

particular de doação, de Michlinsadt, no Maingan. Os dois amantes,

depois de mortos, foram enterrados n’esta referida cidade. A tradição

oral do paiz conserva ainda a sua memoria, e a floresta vizinha, se

se der credito a esta tradição, se chamou _Odenwald_, porque uma vez

Emma se dirigiu a ella exclamando «O _duwald_! «Oh tu, floresta.»

(_Tradições allemãs_ de Jacob Grimm, ed. franceza de 1838, t. II, p.

149, 152.) O nosso romance popular apenas differe d’esta tradição em

lhe faltar a pequenissima circumstancia da neve e das pégadas. Em nada

altera a acção; os trovistas do Meio Dia só tiraram da tradição os

episodios que conheciam; descreveram a paixão como a sentiam; pintaram

a natureza como estavam costumados a vel-a. É assim qne se transplantam

e naturalisam as tradições e as formas poeticas. Garrett, no engraçado

estudo com que precede a sua versão de Reginaldo, quer achar na ballada

ingleza de _Little Musgrave and Lady Barnard_ uns longes de semilhança

com o nosso romance: (Percy’s _Reliquis_, XI, secç. III, book the

first), o que o leva a julgar a tradição de todos os paizes; no romance

de _Blancefleur_ ha o mesmo episodio do sonno dos dois amantes (v.

2363). Este assumpto era da predilecção dos menestreis populares;

representa a acção que, segundo Edgar Quinet (Revoluções de Italia)

exerceu a poesia provençal, isto é--a fusão do elemento aristocratico

e feudal com o povo, pelo sentimento; a nossa lenda dos amores de

Bernardim Ribeiro e da infanta Dona Beatriz, promettida ao duque de

Saboya, tambem se parece bastante com a de Eginhart, accommodada ao

gosto de uma civilisação mais conveniente. No romance de Reginaldo se

encontram costumes dos povos do norte; o imperador, quando encontra o

pagem dormindo com sua filha,

Tira el-rei seu punhal d’oiro,

Deixa-o entre os dois mettido,

O cabo para a princeza,

Para Reginaldo o bico.

Foi-se a virar o pagem,

Sentiu-se cortar no fio:

--«Accorda já, bella infanta,

Triste sonno tens dormido!

Olha o punhal do teu pae,

Que entre nós está mettido.»

Tambem no thalamo de Brunhilde e Sigurd, e na pyra, se collocou entre

ambos uma espada (Ampère, _Litterature du Nord_; Michelet, _Origines_,

p. 32). Já nos romances de cavalleria, quando o esposo encontra Yzeult

dormindo com o amante entre a relva, retira-se tranquillo, porque ha

entre ambos uma espada (Michelet, _Histoire de France_, t. II, c.

1, prope finem). A significação d’este symbolo cavalheiresco era o

respeito, como ainda no seculo XV se usava, quando o procurador do

archiduque Maximiliano desposou Maria de Bourgonha, e dormiu com ella

separado por uma espada núa. (Grimm, _Antiguidades do Direito Allemão_,

p. 170.) No romance popular o cabo voltado para a princeza e o fio

para o pagem, denota aquelle symbolo juridico da Lei Ripuaria: «que

uma mulher livre que desposasse um escravo contra a vontade da familia

devia escolher entre a espada e a roca, que o rei ou o conde lhe

apresentassem. Se pegava na espada, era preciso que ella matasse com

suas mãos o escravo; se escolhesse a roca, devia permanecer tambem na

escravidão.» (Lex Rip. 58, 18, d’après Michelet, _Origines_, p. 31.) Na

Hespanha havia tambem um costume em que a mulher renegava o marido de

inferior condição depois de morto, e tornava a alcançar os seus fóros.

Uma das verdades da poesia popular é o seu apparecimento logico; o

romance de _Gerinaldo_ encontra-se em Hespanha e Portugal, justamente

até onde se estendeu a acção da poesia provençal; o genio hespanhol,

impulsionado pelo sentimento cavalheiresco da _honra_, e o caracter

portuguez, dominado pela integridade do _dever_, acceitam esta creação

dos trovadores da Provença, em que a dama do solar, a filha do hidalgo

se deixa amar por um homem de condição inferior. Cumpre citar aqui a

auctoridade de Edgar Quinet no seu brilhante livro das _Revoluções de

Italia_: «A feição caracteristica dos trovadores é que quasi todos são

filhos de servos que, pelo acaso do genio, pela elevação do coração,

se acham por instantes em uma relação de egualdade ficticia com a

aristocracia feudal. Entrando no solar o filho do povo, o trovador,

todo emoção, ingenuidade, alma, poesia, paixão, é immediatamente

deslumbrado pelo encanto da dama sua soberana; ousa apenas levantar os

olhos para ella. D’onde resulta, que pela sua propria origem, o amor

dos trovadores nasceu de relações inteiramente novas, que repugnavam á

antiguidade, em que a mulher se torna o forte, e o homem fica o ente

fraco. As relações dos sexos estão invertidas: é a mulher que protege,

e o homem que necessita do apoio. Do lado d’ella está a auctoridade,

o mando, o pleno poder; para elle ha só timidez, a submissão do

servo. O trovador dedica-se a uma pessoa, que das alturas sociaes em

que está collocada o domina, o opprime com a superioridade; é sempre

para elle um ser inaccessivel.» (p. 80). Em outro logar o profundo

pensador dá ainda mais relevo a esta idea: «O começo da sociedade

moderna é a alliança da castellã e do filho do povo sobre os confins

da barbaria; n’este laço chimerico, n’este momento de extasis que

aproxima as duas extremidades da humanidade e casa duas condições que

no decurso dos seculos estiveram sempre desunidas, está verdeiradamente

encerrado o nascimento civil do mundo moderno. Emancipação real do

escravo pelo amor d’aquella a quem elle pretence, instincto manifesto

de fraternidade social, egualdade das almas, tudo está contido nestes

esponsaes invisiveis da dama nobre com o humilde servo» (p. 85). Todos

estes sentimentos nos são despertados ao lêr o romance de _Gerinaldo_;

é incontestavelmente de origem provençal, e tanto que até pode servir

como prova do pensamento luminoso de Quinet. Cada vez nos convencemos

mais do que uma vez disse Jacob Grimm: que não ha uma só mentira na

poesia popular.

Este romance canta-se em Freixo de Espada á Cinta; é mais breve do que

na lição de Garrett; differe em pequenas circumstancias, e no desenlace

principalmente. El-rei vae dar com o pagem dormindo com a infanta por

causa de um sonho, um pezadello sinistro, _que bem certo lhe sahia_; no

_Reginaldo_ de Garrett, é já dia e não apparece o pagem para trazer os

vestidos a el-rei, caso que o leva a serias desconfianças. Na versão do

Alemtejo remata com um epigramma: el-rei castiga o pagem dando-lhe a

filha por mulher. O final do romance, como traz o Romanceiro de Garrett

(t.II, p. 161), parece não pertencer-lhe, como ampliação que afrouxa

as situações; antes parece mais uma addição do romance hespanhol de

_Virgílios_. Nas collecções hespanholas o romance de Gerinaldo termina

sem a ampliação da versão de Garrett.

O romance de _Gerinaldo_ encontra-se no Romanceiro de Duran; a primeira

versão (n.º 320) é a das Asturias, aonde se encontram tambem vestigios

da Náu Catherineta, e uma versão da _Rainha e Captiva_. A segunda

versão (n.º 321), tambem anonyma, é um romance que os cegos vendem

em folha volante, aonde se não encontra a segunda parte do Reginaldo

de Garrett, que é visivelmente uma interpollação. Na Andaluzia ha um

_Corrio_ ou romance tradicional de Gerinaldo:

=Carrerilla de Gerineldo=

«D’onde vienes, Gerineldo,

Tan triste y tan affligido?

--Vengo del jardin, señora,

De regar flores y lirios.

«Gerineldo, Gerineldo,

Mi camarero es Pulio

El que te pondrá esta noche

Tres horas á mi servicio.

--Como suy vuestro criado,

Señora, os burlais comigo.

«No me burlo, Gerineldo,

Que de veras te lo digo:

A la una de la noche

Has de venir al castillo,

Con zapatitos de seda,

Para que no seas sentido.»

Esto le digo la Infanta,

Y al punto se ha despedido,

Diciendole Gerineldo:

--Señora, será cumplido.

DURAN, t. I. p. 177.

=7--Romance da Noiva roubada=--Na bella collecção dos _Cantos populares

da Grecia moderna_, feita pelo conde de Marcellus, na quinta parte,

que encerra as legendas, se encontra uma intitulada o _Rapto_, em tudo

semelhante ao romance portuguez. Eil-a:

«Em quanto estava assentado e comia a uma mesa de marmore, meu cavallo

nitriu e o meu sabre estrepitou. Disse então para mim: Casam a minha

bella; abendiçoam-na com outro; para outro a corôam, desposam-na, e

dão-lhe outro marido. Levanto-me e vou direito aos cavallos, que são

ao todo setenta e cinco: qual é dos meus setenta e cinco cavallos, o

que pode faiscar no Levante e dar consigo no Poente? Todos os cavallos

que me ouvem gotejam sangue; todas as eguas que me escutam abortam.

Mas um velho, um velho corcel, com quarenta feridas: «--Eu sou velho e

feio, não me dou com as viagens; mas pelo amor da minha bella senhora

emprehenderei a corrida, porque ella me trazia de comer no avental

arregaçado, e de beber na cova da sua mão.» Sella immediatamente o

cavallo, e immediatamente o monta. «Cinge a cabeça com uma toalha de

nove almas, não puches a redea, nem craves as esporas, porque isso

me lembraria a minha mocidade, e eu seria como um pôtro e semearia os

teus miollos em um campo de nove covados.» D’uma chicotada no cavallo

adianta quarenta milhas; redobra e faz quarenta e cinco; e caminhando

roga a Deos:--Meu Deos, fazei com que encontre meu pae entrançando

sua vinha. Pediu como christão, como sancto foi ouvido, e encontrou

seu pae podando a vinha.--Bem andaes, meu velho; mas de quem é essa

vinha?--Para lucto e desgraça é do meu filho Janaki. Hoje dão um outro

marido á sua bella. Com outro a abendiçoam, para outro a corôam.--Oh

dize-me, dize-me, bom velho, ainda os encontrarei á mesa?--Á mesa

os encontrarás, se tiveres um bom cavallo; se tens só um rocim,

encontral-os-has na benção.--D’uma chicotada no cavallo avança quarenta

milhas; redobra, e faz quarenta e cinco, e caminhando, vae orando a

Deos.--Meu Deos, fazei com que eu encontre minha mãe regando no seu

jardim! Como christão o pediu, como sancto foi ouvido, e encontrou

sua mãe regando o jardim. Bem andaes, minha velhinha; de quem é este

jardim?--Para desgraça e luto é do meu filho Janaki. Hoje dão um outro

marido á sua bella; com outro a abendiçoam, coroam-na para outro.--Oh!

dize-me, dize-me minha velha, encontral-os-hei ainda á mesa?--Á mesa tu

os encontrarás, se tiveres um bom cavallo; se tiveres só um rocim, tu

os encontrarás na benção.--D’uma chicotada no cavallo galga quarenta

milhas, redobra e faz quarenta e cinco. O cavallo começa a relinchar e

a donzella o reconhece. «Minha filha, quem conversa comtigo? quem te

fala?»--É meu irmão mais velho, que traz o meu dote.--«Se é teu irmão

mais velho, sae para ir dar-lhe de beber. Se é teu amante, sáio eu, e

mato-o.» É meu irmão mais velho, que me traz o dote.--Ella pega em um

copo d’ouro, para sair e dar-lhe de beber.--Põe-te á minha direita, ó

encantadora, e dá-me de beber pela esquerda.--O cavallo ajoelhou e a

donzella se achou sobre elle. Então desfillou como o vento. Os turcos

pegam em seus mosquetes, mas já não alcançam nem o cavallo, nem a

poeira d’elle. Aquelle que tinha um bom ginete viu a sua poeira; os que

só tinham um rocim, nem sequer a avistaram». (_Chants populaires de la

Grèce Moderne_, p. 140.)

Uma outra conclusão, que se tira da ubiquidade d’estes romances, é

que o povo adopta sempre aquelles que não dizem respeito a facto

algum particular ou historico; os romances communs aos povos do

Meio Dia da Europa, são apenas acções cavalheirescas de imaginação,

aventuras inspiradas por um certo ideal; isto se confirma pela grande

vulgarisação dos romances do cyclo da Tavola Redonda, e pelo pequeno

numero dos romances carolinos na Italia, na Hespanha e nullo quasi em

Portugal. Na forma portugueza, e grega d’este romance se encontra a

côr local de cada povo: comtudo o nosso parece mais antigo; as _terras

d’alem mar_ lembram-nos o modo como o povo designa as expedições á

Terra sancta.

=8--Romance do Alferes matador=--Este romance ainda não tinha sido

recolhido da tradição oral; veiu da Covilhã, a mina mais rica destas

preciosidades, e aonde se encontram as versões mais puras. Pela

confrontação com os romances francezes e italianos está incompleto,

porque a donzella apenas se finge morta para salvar a sua honra:

circumstancia que não seria omittida, se o nosso rhapsodo popular

completasse a historia. Gerard Nerval (Bohème galante, pag. 71) traz

uma canção bourbonesa, _La jolie Fille de la Garde_, tambem conhecida

na Picardia. No Pays Messin foi recolhida uma outra versão por M. du

Puymaigre (_Vieux Auteurs_, t. II, p. 478):

Au chateau de Beufort y avait trois belles filles

Elles sont belles, belles comme le jour;

Trois do nos capitaines leur vont faire 1’amour.

....................................................

Le plus jeune des trois, celui qui la courtise,

A mis la bell’sur son cheval grison,

Puis ils l’ont emmenée droit á la garnison.

Deux ou trois jours après, la belle est tombée morte,

Sonnez, trompette, et le tambour joli:

Voilà la belle morte sans en avoir joui.

Il faut enterrer dans l’jardin de son père;

Au dessus de sa tombe on mettra par écrit:

«Voilà la belle morte sans en avoir joui.»

Deux, ou trois jours après, le père qui se promène

A vu le tombeau frais... «Mon pèr’si vous m’aimez,

Faites ouvrir la tombe;

J’ai fait trois jours la morte pour mon honneur garder.

Nos _Canti populari_, raccolti da Oreste Marcoaldi (pag. 163) vem um

romance similhante, na colleção de Caselli (Chans populaires d’Italie,

pag. 203), que o dá como do reproduzido Piemonte.

=9--Romance da Romeirinha=--O grande uso das peregrinações e romagens

como pena ecclesiastica e civil na edade media, produziu uma tal

perturbação na familia, que muitas vezes os maridos vieram encontrar as

mulheres já casadas; tudo isto originava muitas tradições. A promessa

de romaria era tambem hereditaria como o castigo na penalidade heroica;

Josselin fica herdeiro da peregrinação á Terra santa, que seu pae

promettera. No testamento de el-rei D. Diniz se lê: «Item, mando que

um Cavaleiro, que seja homem de boa vida, e de verguença, que vá por

mi á Terra Santa dultramar, e que estêe hi por dous annos compridos se

a cruzada for servindo a Deos por minha alma etc.» (Provas da Historia

Genealogica, por Antonio Caetano de Sousa, t. I, pag. 101.) As mulheres

tambem faziam romarias, e, expostas aos perigos da estrada e da

pirataria, não poucos romances tiveram origem das situações difficeis

por que passaram. Nos nossos romances do _Conde Preso_, se vê o

fundamento d’aquella carta que escreveu San Bonifacio a Guthbert, bispo

de Cantorbery, ácerca das romarias das mulheres: «A maior parte d’ellas

succumbem e muito poucas voltam com a sua castidade.»[1] As leis

protegiam os peregrinos, coadjuvadas pelas excommunhões dos canones

dos Concílios. A lei bávara diz: «Que ninguem faça mal ao estrangeiro,

porque uns viajam por Deos, outros por necessidade, e todos precisam

de paz». O concilio de Latrão em 1123 excommunga os que vexarem os

peregrinos que vão a Roma ou a outro qualquer logar de devoção. No

romance portuguez de Dom Garfos, o conde é enforcado por ter violado

a romeira de Sanct’Iago. Este romance da _Romeirinha_, que anda na

tradição oral de Trás-os-Montes e Minho, encontra-se tambem, na parte

essencial da acção, com alguns romances populares da Italia. Pode-se

apresentar como o typo dos romances communs ao Meio Dia da Europa; o

cavalleiro Nigra e Du Puymaigre determinaram os paradigmas.

M. Amador de los Rios, nos romances asturianos, que publicou em 1861 no

_Jahrbuch_, traz um em tudo similhante ao nosso; refiro-mo ao essencial

da acção. (Vid. Du Puymaigre, t. II, p. 465.)

O _Rico Franco_ do Romanceiro hespanhol (Du Puymaigre, 406) a

_Montferrina_ (Caselli, pag. 190), _O Corsario_ (Du Puymaigre, t. II.

p. 406), _Le beau Marinier_ colligido de Beaurepière, e o _Barzas

Breiz_, appresentam bastantes situações identicas.

=10 e 11--Romances da Infanta de França=--A versão da Beira-Baixa é

notavel por appresentar uma fusão natural de dois romances o _Caçador_

e a _Infeitiçada_, que traz Garrett, (Romanceiro t. II. p. 21 e 32). O

final, que não apparece em nenhuma das lições de Garrett, encontrei-o

tambem em um fragmento que recebi de Penafiel. A versão da Foz tem os

dois romances confundidos, e nella se nota o processo de abreviação que

se dá continuamente nos romances populares. Estes mesmos dois romances

vêm nos Romanceiros hespanhoes com o nome de _Infantina_ e _Romance

de la Infanta de Francia_. (Duran, t. I, p. 152). O espirito d’este

conto meio decameronico é manifestamente de origem franceza; as nossas

versões vieram-nos da tradição de Hespanha, como se vê pela perfeição

d’ellas, quasi sempre mais bem acabadas do que as castelhanas. Saem

da ultima demão. «A versão portugueza, segundo Fernando Wolf, está

mais proxima do original francez do que da versão hespanhola. Ambas

tratam o mesmo assumpto, o logar da scena em ambas é perto de Paris;

a lubricidade dos _Fabliaux_, um tom desenvolto e a crença nas fadas,

acham-se notadas no primeiro d’estes romances.» (Proben, S. 54). As

duas versões que appresentamos, assignalam a influencia normanda na

poesia popular portugueza. Gil Vicente no _Auto dos Quatro Tempos_,

traz uma cantiga franceza:

Ay de la noble

Villa de Paris, etc.

que nos comprova esta asserção; basta-nos porem esse paradigma, para

fundamental-a melhor:

Nons étions trois filles,

Bonnes à marier;

Nous nous en allâmes

Dans un pré danser.

Nous fîmes rencontres

D’un joli berger.

Il prit la plus jeune,

Voulut l’embrasser.

Nous nous mîmes toutes

A l’en empêcher.

Le berger timide

La laissa aller;

Nous nous en criâmes:

«Ah! le sot berger!

Quant on tient l’anguille

Il faut la manger.

Quant on tient les filles,

Faut les embraser.»

Charles de S. Malo traz esta canção a pag. 379 das _Chansons

d’autrefois_, referida ao anno 1660 como anonyma. Gerard Nerval

recolheu na Normandia um romance popular, que é o pensamento das nossas

versões, mas com aquella graça facil que caracterisa o genio francez.

Du Puymaigre, d’onde o reproduzimos (Vieux auteurs Castillans, p. 251,

t. II), tambem o ouviu cantar na Borgonha e no Pays-Messin:

Après ma journée faite

Je m’en fut promener,

En mon chemin rencontre

Une fille à mon gré;

Je la prit par sa main blanche,

Dans les bois je l’ai menée.

Quant elle fut dans les bois,

Elle se mit à pleurer:

--Ah! qu’avez-vous, ma belle,

Qu’avez-vous à pleurer?

--Je pleure mon innocence,

Que vous me l’allez ôter.

--Ne pleures pas tant la belle

Je vous le lesserai.

Je la pris par sa main blanche

Dans les champs je l’ai menée;

Quant elle fut dans les champs

Elle se mit à chanter.

--Ah, qu’avez-vous la belle,

Qu’avez vous à chanter?

--Je chante votre bêtise

De me laisser aller,

Qand on tenait la pule

Il fallait la plumer.

Já o sr. Duran tinha dito d’este romance: «Todo indica que este romance

es de origen frances, é imitacion de alguna trova caballeresca. De

todas maneras é bellissimo por su natural sencillez, y por la festiva e

punzante expresion de sus ideas, tan propria de las crónicas bretonas

e de los cantos de los Troberos.» (Rom. Gener. p. 152, t. I).

Ha na _Infeitiçada_, que Almeida Garrett colligiu, e na versão da Foz,

um lance dramatico de quasi todos os romances populares: é o cavalleiro

que se encontra com sua propria, irmã:

«Deixai-me agora chorar,

Olhai a minha mofina;

Cuido que levo mulher

E levo a uma irmã minha!

Este mesmo desenlace se encontra no romance de _Branca-Flor_:

Ai triste de mim coitada,

Ai triste de mim mofina,

Mandei buscar uma escrava,

Trazem-me uma irmã minha.

(Pag. 103, n.º 38.)

No romance catalão _Las dos Germanas_, publicado por M. Milà y

Fontanals (Observationes sobre la Poesia popular, p. 117) a cativa

dá-se a conhecer por uma cantiga de berço. Na _Bella Infanta_ ha tambem

um reconhecimento. No romance de _Dom Bueso_, recolhido por Amador de

los Rios, o cavalleiro encontrou uma donzella que estava lavando em

uma fonte fresca. Leva-a comsigo; já proximo de casa, ella recorda-se

d’aquelles sitios, e é quando Dom Bueso reconhece sua irmã Rosalinda.

Na poesia grega, onde o amor não é conhecido com a simplicidade ingenua

dos povos modernos, a mulher é quasi sempre a que se apaixona de um

modo irresistivel, a que se sente arder em um fogo ignoto; veja-se

Sapho, Phedra, Pasiphae; o heroe não comprehende essa hallucinação.

Na poesia hespanhola o cavalleiro é quasi sempre tambem incitado

pelas graças das donzellas. A rudeza das armas fazia-lhe esquecer os

devaneios ferventes. No romance da _Encantada_ e da _Infeitiçada_, a

donzella é que se dirige ao cavalleiro, e que ri da sua ingenuidade.

Uma ballada allemã intitulada a _Filha do rei encontrada_, que Du

Puymaigre traduziu (Vieux auteurs Castillans, t. II, p. 365) versa

sobre a mesma peripecia, mas illuminada pela melancholia vaga do norte:

«Um rei tinha uma filha pequenina; chamava-se Annellein. Sentou-se

ás abas de um bosque sobre uma pedra. Veio um vendilhão estrangeiro

por ali; atirou-lhe uma fita de seda: «Agora é preciso que tu me

sigas.» Levou-a para casa de uma mulher, que tinha uma estallagem, e

deixou-a para servir. «Estallajadeira, minha estallajadeira, tomae

para vos servir essa minha filhinha.»--Oh sim, sim, é o que eu quero;

heide tratal-a bem, heide ser como uma mãe para ella. «Passado certo

tempo, já se contavam annos, eis que passa um senhor a cavallo, indo

em busca de uma mulher. Passou pela casa da estallajadeira; a rapariga

lhe trouxe vinho. «Estallajadeira, minha cara estallajadeira, é vossa

filha? ou é mulher de vosso filho? como é tão bella?--Não é minha

filha, nem tão pouco mulher de meu filho: é a pobre Gudeli; ella ensina

os quartos aos hospedes.--Estallajadeira, minha cara estallajadeira,

deixai-me ficar uma noite ou tres, tantas quantas me fizer conta.--Oh

sim, sim, isso é o que eu quero. Eu vos hospedarei tanto tempo quanto

quizerdes.» O cavalleiro tomou a bella Annelein pela mão, e a conduziu,

para o quarto de dormir; levou-a para uma bella cama e perguntou-lhe

se quereria dormir junto d’elle. O Duque tirou a sua espada d’ouro

e pol-a entre os dois corações. A espada não hade ferir nem cortar,

mas Annelein hade ficar como uma virgem criança. «Ah Annelein, olha

agora para mim. Conta-me a tua sorte, dize-me tudo o que sabes, tudo

o que te lembra. Dize-me quem é a tua mãe?--O senhor rei é meu pae, a

rainha é minha mãe; eu tenho um irmão que se chama Mannigfalt: Deos

sabe por onde elle agora anda.--Já que teu pae é o rei, e tua mãe a

rainha, e que tens um irmão chamado Mannigfalt, eu apérto a mão de

minha irmã.» E quando rompeu a madrugada, a estallajadeira veio à porta

do quarto: «Levanta-te, priguiçosa, levanta-te, vem dar de almoçar

aos hospedes.»--Oh não, deixa dormir a bella Annelein; serve tu os

viajantes; minha irmã Annelein já não é criada.» Monta-se a cavallo,

e leva sua irmã á garupa; toma galhardamente sua irmã pela cintura e

leva-a atrás de si. E quando chegou á corte, veiu sua mãe ao encontro:

Bem vindo sejas, meu filho mais essa terna mulhersinha.--Não é uma

mulhersinha, é vossa filha, que tinhamos perdida ha tanto tempo.

«Sentaram á meza a bella Annelein, deram-lhe peixe frito e cosido;

meteram-lhe no dedo um annel d’ouro: «Até que fôste encontrada, minha

filha real.» (_Volksliedei_, S. 186) Uma outra ballada allemã, de uma

orphan, que vae bater á porta de uma irmã casada, para a servir, tem

sua analogia com a _Branca-Flor_ (Deutsches Balladenbuch, S. 10).

Esta mesma peripecia se encontra em cantos suecos, dinamarquezes, em

um fragmento do poema bretão _Les Breiz_ (M. de Villemarqué, _Barzaz

Breiz_, t. I, p. 137-180), nos _Cantos populares do Norte_ (Marmier,

p. 175), nos _Cantos populares da Grecia moderna_ (Conde de Marcellus,

p. 146). O maravilhoso feérico das margens do Rheno tambem apparece

n’estes romances da _Infanta de França_, e _Encantada_. M. Du Puymaigre

indica a maior parte dos romances em que se encontram situações

analogas de reconhecimento, cujas collisões formam ordinariamente os

lances da poesia popular. (Vid. Vieux auteurs castillans, t. II, p.

357, 374).

=12--Romance da Silvana=--É dos mais populares e antigos; encontra-se

em Lisboa, Ribatejo e Beira Alta. Já no seculo XVII D. Francisco Manuel

de Mello o cita como velho, como se deprehende d’aquelle verso do

Fidalgo apprendiz: _Uma letra nova quero_, que diz Brites, recusando-se

a escutar este romance que Gil lhe ia cantar á guitarra. (Pag. 247).

A _Silvana_ faz lembrar a Myrrha da mythologia grega. Pertencerá ella

ás ficções eruditas do cyclo greco-romano? Não parece o combate de

Tristão com o Morouhet de Irlanda uma imitação o combate de Theseu

com o Minotauro? Arthur não é trahido por Ginebra, como Hercules por

Djanira? Têm ás vezes origens caprichosas estas tradições do povo. O

principio da _Sylvana_ anda quasi sempre confundido com o romance do

_Conde Alarcos_. Foi pela primeira vez publicado por Almeida Garrett,

que o dá como originario portuguez. (Rom. t. II, p. 98). Encontra-se

porem nas Asturias, e o sr. Amador de los Rios o publicou no _Jahrbach

für romanische und englische Literatur_, _t. III_, _p. 284_, com o

titulo de _Delgadina_: «O rei tinha tres filhas, cada qual como uma

flor, e a mais nova d’ellas todas chamava-se Delgadina. Estando um dia

á meza, estando um dia a comer, seu pae que a estava a mirar, seu pae

que tanto a mirava.--Porque é que me olhaes, meu pae? Porque é que me

estaes a olhar?--Ólho, filha, porque quero sejas minha namorada.--Isso

é o que Deos não quer, nem a Virgem soberana. Deos do céo não quer

que eu seja tua namorada. O pae quando isto ouviu a levou para uma

torre; não lhe dava para comer, mais que sardinhas salgadas; não lhe

dava de beber mais que summo de laranja. Delgadina, morta á sêde, foi

pôr-se a uma janella, e vendo os irmãos que estavam a par dos grandes

de Hespanha: Oh meus irmãos, meu irmãos, se me daes um pingo de agua,

que o meu coração se quebra, e a minha alma se parte.--Não t’a darei,

Delgadina, pois se o soubesse meu pae a vida me tiraria com a ponta da

sua espada. Delgadina morta á sêde, foi pôr-se a outra janella, viu

suas irmãs estarem bordando tea de Hollanda: Oh manas, manas queridas,

mandae dar-me uma pouca de agua.--Não t’a darei Delgadina, Delgadina

não darei, porque perderia a vida se é que meu pae o soubesse.

Delgadina morta á sêde, foi pôr-se a outra janella, e vendo seu pae

já prestes a partir para a caçada: Meu pae, vós que sois meu pae,

dae-me vós uma gota de agua?--Eu te darei Delgadina, se tu commigo

falares.--Ouvirei as vossas falas, bem contra minha vontade. Os criados

que elle tinha, todos foram buscar agua, uns a trazem em jarros de

ouro, outros n’um gomil de prata. Ao primeiro que chegou, mandou sua

corôa dar, ao que chegou derradeiro, manda a cabeça cortar. O leito de

Delgadina estava de anjos cercado, e a cama de seu pae toda cheia de

diabos.»

A lição portugueza é mais extensa e mais primitiva, nada perde da sua

originalidade; porque os romances asturianos, segundo Amador do los

Rios, são de origem extranha, accommodados ás toadas antigas:

=Faustina=

_(Variante de Coimbra)_

O Conde da Villa-Flor,

Por ser o Conde maior,

De tres filhas que elle tinha

Clarinhas como o sol;

Uma se chama amada,

Outra se chama querida.

Outra se chama Faustina

for ser a mais fidalgada.

--Queres tu, filha Faustina

Ser a minha namorada?

«Não permitta Deos do céo,

Nem a Virgem consagrada,

Que eu, sendo sua filha,

Seja sua namorada.

--Deixa vir a mãe da missa,

Que eu lh’o saberei dizer:

Ora vinde mulher minha,

Ver o que aconteceu:

A nossa filha Faustina

De amores me prometteu.

Dizei lá, oh mulher minha,

O que Faustina mereceu?

--«Torre de pedra lavrada

Para meteres Faustina!

Deras-lhe o pão por onça,

Agua por uma medida.

Ali tiveram Faustina

Por sete annos encerrada:

Davam-lhe agua por onça,

E da carne mais salgada.

Ao cabo de sete annos

Faustina sem ser findada;

Foi-se d’ali a Faustina,

Tristinha e desconsolada,

Assobindo uma ventana

Outra ventana mais alta,

D’ahi viu estar suas manas

Cosendo em uma almofada:

«Deos vos guarde, manas minhas,

Manas minhas da minha alma;

Peço-vos pelo amor de Deos

Que me deis uma pinga de agua!

«--Deos te guarde, oh Faustina,

Oh mana da minha alma,

O nosso pae nos jurou,

P’los cópos da sua espada,

Que quem désse agua á Faustina

Sua cabeça é cortada.

Foi-se d’ali a Faustina,

Tristinha e desconsolada,

Assobiu a uma ventana,

Outra ventana mais alta,

D’onde via estar sua mãe

Lavrando a ouro e prata:

«Deos vos guarde, oh minha mãe,

Mãe minha da minha alma!

Peço pelo amor de Deos

Que me dê uma pinga d’agua.

--«Deos te guarde, oh Faustina,

Oh filha da minha alma;

Ha sete annos que eu vivo

Com o teu pae mal casada.

Foi-se d’ali a Faustina,

Tristinha, desconsolada,

Assobiu a uma ventana.

Outra ventana mais alta,

D’onde viu andar seu pae

Passeando n’uma sala:

«Deos vos guarde, oh meu pae,

Oh pae meu da minha alma;

Peço pelo amor de Deos

Que me deis uma pinga de agua.

--Deos vos guarde, oh Faustina

Minha filha mal fadada.

Eu pedi-te a mão direita

Tu não m’a quizeste dar.

«Aqui tem a mão direita,

A esquerda se a quizer!

--Venham as jarras de prata

De ouro se as houver;

Quero dar agua á Faustina,

Que já é minha mulher.

Corram, corram, cavalleiros,

A dar agua á Faustininha;

O que primeiro chegar

Hade ter uma prenda minha.

A agua era chegada,

Era findada Faustina!

No meio d’aquelle largo

Um tanque d’agua apparecia.

Vieram sete senhoras

Domingo de madrugada

Para levarem Faustina

Para o céo em corpo e alma.

Nossa Senhora do Pranto

É que a pranteava,

Tu morreste, Faustininha,

P’la honra de seres honrada.

Nossa Senhora do Pranto

Era quem a pranteava;

No seu pranto, que dizia:

Domingo de madrugada

Vieram sete demonios,

Dormiram em tua casa

Para levarem teu pae

P’r’o inferno em corpo e alma.

Aqui está completa a versão apontada por Garrett, de que apenas deixou

alguns versos (Rom. t. II.) É um facto curioso vêr como o povo vae

confundindo os romances, produzindo inconscientemente situações novas.

O nó da acção é imitado pelo povo dos romances do _Conde de Allemanha_.

Nossa Senhora do Pranto, que vem prantear a desgraçada, dá ao romance

uma côr de alta antiguidade; era um velho uso de Portugal, já prohibido

no tempo de D. João I.

=13--Romance de Bernal Francez=--Anda na tradição oral da Beira Baixa

e Estremadura, e já Garrett o tinha encontrado nos manuscriptos

do cavalleiro de Oliveira, por onde _aperfeiçoou_ a lição mais

circumstanciada e extensa que vem no Romanceiro, t. II, pag. 129. A

versão da Foz é egualmente dramatica, e superior por se ter respeitado

n’ella a sua rudeza nativa. Tenho para mim que o romance é formado de

duas partes distinctas que a tradição confundiu, e que o povo não sabe

discriminar; o pensamento da primeira parte, isto é a difficuldade que

sente a esposa diante de seu marido, encontra-se no _Romancero General_

(Duran, n.º 298) na _Adultera castigada_; a segunda, parece formar-se

do romance _El Palmero_ (Duran, n.º 292) em que o cavalleiro vem ver se

vê a sua amada e lhe dizem que é morta por amor d’elle.

Circumstancias do dialogo, desfecho, e o caracter principal da acção,

revelam-nos manifestamente a fusão dos dois romances, que pelo andar do

tempo e pela desmemoria do vulgo se uniram. Porem de todos os romances

hespanhoes que mais se parecem com este é o da _Bella mal maridada_

(Ochoa, Tesoro, p. 490) que já vem citado na Comedia de _Rubena_ por

Gi1 Vicente:

Cantará o Demo um grito

_Das las mas lindas que yo vi_.

O romance hespanhol principia assim:

La bella mal maridada

_Das las lindas que yo vi_.

Este romance foi muito imitado em Portugal pelos poetas cultos dos

principios do seculo XVII.

=14--Romance do Conde Ninho=--Pertence pelo seu caracter maravilhoso ao

cyclo da Tavola Redonda. Encontra-se na tradição oral dos Açores, e em

Trás-os-Montes foi novamente recolhido. Na lição de Garrett (Rom. t.

III, p. 7) não se encontra o _cantar_ que o conde armou. Nesta versão

o rei manda cortar as arvores que rebentam das sepulturas dos amantes,

porque o não deixam ir á missa; correm d’ellas leite e sangue, que

symbolisam os sexos; situação que faz lembrar, se não é directamente

imitada, o mais popular de todos os romances da Europa na edade media

_Tristan e Yseult_. Eis como essa deliciosa imagem se encontra na

seguinte passagem do _Tristan_: «Et de la tombe de monseigneur Tristan,

yssoit une ronce belle et verte et bien feuilleue qui alloit par dessus

la chapelle, et descendoit le bout de la ronce sur la tombe de la reyne

Yseult et entroit dedans. La virent les gens du pays et le comptèrent

au roy Marc. Lo roy la fist couper par troys foys et, quant il l’avoit

le jour fait couper le lendemain estoit aussi belle comme avoit aultre

fois esté, etc.» (_Tristan, Chevalier de la Table ronde_, fol. CXXIV).

Este mesmo maravilhoso se encontra no _Lord Thomaz and fair Annet_,

(Percy, Reliques of ancient english poetry, t. III, p. 296); no _Prince

Robert_, e no _The Douglas Tragedy_ (Walter Scott, Minestrelsy of

the Scottish Border, t. III, pag. 59, t. II, pag. 224). O romance de

Tristão era conhecido já em Portugal no tempo de D. Diniz, como se vê

do seu Cancioneiro:

Qual mayor poss’e o mui _namorado_

_Triste_, sey ben que non amou o seu,

Quant’eu vos amo......(Pag. 53.)

Tambem no Catalogo dos _livros de uso_ de el-rei D. Duarte, (Sousa,

Provas da Hist. Genealogica, t. I, p. 544) se encontra citado o livro

de _Tristam_. As almas dos amantes voam na forma de pombas; nas lendas

ecclesiasticas, e no hymno latino de Santa Eulalia, a alma do justo

ascendia para o céo na apparencia do uma pomba. Portanto não é nem

provençal, nem francez, ou normando, como pretende Garrett. O nome

do conde Niño é talvez a forma hespanhola de conde _menino_. Garrett

chama-lhe Nillo, e diz que não é nome portuguez; com tudo Bernardes, na

_Floresta_, traz um nome de santo similhante, o que bastava para o povo

o adoptar.

Quanto á realidade historica d’este romance, alguma se lhe pode

assignar:

Na _Chronica do conde D. Pedro Niño_, narração meio historica meio

fabulosa de Gutierre Diez de Games, se encontram vestigios do romance,

porque ahì se fala em varias aventuras de amores. Como d’ali veio a

tradição para Portugal, é facil de comprehender, porque o conde Niño

foi casado com D. Beatriz, infanta portugueza. Quanto á origem do

nome de _Niño_, diz a chronica: «Segund que de antigüa edad quedó en

memoria, dícen qe vino en Castilla un Duque de Francia, é vivió é moró

en ella grand tiempo, hasta que morió: é dejó dos fijos pequeñeruelos,

é tomólos el Rey, é diólos á un Caballero que los criasse en su casa

del Rey.

El Rey llamabalos siempre los _Niños_: é el su Ayo, cada que alguna

cosa delibrar con el Rey para los Niños, siempre eram mentados Niños.

D’esta guísa los llamaban las otras gentes: assi que á cada uno decían

su nombre apertadamente, é decian encima el _Niño_.» (Cap. I, 10, 15,

pag. 13). O romance fala de um cantar do conde Niño: na Chronica se

lê: «Avia graciosa voz, é alta: era muy denoso eu sus _decires_» (Cap.

X, p. 44). O casamento de Pedro Niño com D. Beatriz de Portugal, filha

do infante D. João, causou-lhe immensos trabalhos, porque a elle se

oppunha el-rei Regente de Castella: «E despues de la respuesta del

Infante andubo Pero Niño mas de medio año por la corte é cerca d’ella,

é vióse en assaz peligros muchas veces por ver á su esposa.» (Cap. III,

Part. III, p. 185). No testamento do conde Pero Niño dispõe que elle e

sua mulher sejam sepultados no côro da egreja de S. Thiago da Villa de

Cigales. Crêmos ter apresentado os principaes traços historicos, para

se vêr a formação do romance popular. Os amores do conde Niño foram

cantados em verso por Villasandíno, poeta do tempo de Henrique III e

João II, como se pode ver pelo _Cancioneiro_ de Baena.

=15--Romance da Promessa de Noivado=--Veio-nos esta versão da Beira

Baixa; é uma variante do romance a _Peregrina_, (Romanc. de Garrett,

t. III, pag. 22). Apresenta collisões novas, taes como a de estar o

cavalleiro já casado e com filhos. A versão de Garrett é artificial,

porque a formou dos fragmentos que obteve do Minho, Extremadura e

Trás-os-Montes, fundidos na lição do Porto: «Contudo aproveitei

bastante d’elles para restituir o texto e dar nexo e clareza à

narrativa.» (Pag. 20). Assim fundiu aquella situação de romance de

Tristão e Yseult, que apparece no _Conde Niño_ e na _Rosalinda_,

de nascerem duas arvores na sepultura dos amantes, e que elle teve

de explicar como logar commum dos romances populares. Na versão da

Beira Baixa é só a amante que morre de tristeza. Garrett diz que nos

Romanceiros Castelhanos nada se encontra parecido com esta singela

historia. No _Romancero General_ do Duran, o _Conde Sol_ (n.º 327) tem

muitos pontos de similhança com o nosso, e tanto que pela extensão

d’elle deduzimos ser o nosso uma abreviação posterior. Foi Walter Scott

o que primeiro descobriu a tendencia que têm os romances populares de

_se aberviarem_.

=16--Romance de Dom Aleixo=--Se não é de origem hespanhola, o primeiro

verso com que o romance principia faz nascer tal suspeita, posto que

nas collecções castelhanas se não descubra. Sabe-o o povo de Lisboa

e da Beira Alta. Nos manuscriptos do curioso Cavalleiro de Oliveira

o encontrou Garrett, por onde restituiu os fragmentos das versões

provincianas. (Rom. t. II, p. 91). Assim a lição que appresenta é

bella, mas não é puramente popular, como elle proprio confessa:

«Ainda assim, algumas raras palavras foram por mim conjecturalmente

substituida.» Ha ali um mysterio que faz estremecer a quem lê: parecem

palavras de um encantamento. A versão da Foz que recolhemos é estreme

e revela-nos o lavor da imaginação popular sobre um thema commum. A

dama pediu ao cavalleiro uma confidencia nocturna, em que elle morre

por traição dos seus cunhados; Dona Maria mata-se ao pé do cavalleiro

moribundo. Na lição de Garrett é ella que se toma de medo e mata o

namorado. Uma é mais bella, a outra simplesmente verdadeira; mas na

poesia do povo, segundo Grimm, á principal belleza é a sua grande

verdade.

=17--Romance de Dom Pedro=--Apparece este romance com o nome de

_Helena_ no Romanceiro de Garrett, t. III, p. 40; anda na tradição

oral da Beira Alta, Extremadura e Lisboa. Da Beira Baixa recebemos uma

variante de uma belleza profunda e inexcedivel; é ali aonde a poesia

popular portuguesa se conserva mais primitiva e completa. O romance

de _D. Pedro_ é mais simples e menos artificioso do que a versão de

Lisboa. Aqui o _cavallo branco_, signal de lucto, demonstra a sua

antiguidade. O final, sobre tudo, é a parte mais delicada; não são as

penitencias do esposo, mas é elle que enterra _a sua rosa branca_, como

quem planta uma flor, o lhe amollece a terra com as lagrimas dos olhos.

=18, 19 e 20--Romances da Filha do Imperador de Roma.=--Estes tres

romances, colhidos em differentes provincias, completam a tradição. Já

Garrett os tinha publicado, unindo-os e cortando aquellas partes em que

a variante destruia a unidade da acção. A primeira parte foi colhida em

Trás-os-Montes, terra fertil de tradições locaes, e aonde, logo depois

da Beira Baixa, se encontram mais thesouros de poesia popular.

O _Hortelão das flores_ é mais antigo.

Este metro, chamado _rimance em endechas_, é pouco frequente na poesia

popular; é ordinariamente de uma incorrecção pittoresca. Recebi o

romance recolhido na tradição oral da Beira Baixa em uma letra tão

falta, de forma legivel, de pontuação e escripto á maneira de prosa,

que não sabemos se o trabalho de interpretal-o destruiria em parte a

ingenuidade simples da creação anonyma!

É um facto curioso comparar este romance, de uma elaboração differente,

com o romance do _Cegador_, versão da Beira Alta e Trás-os-Montes,

que traz Garrett, (Romanceiro, t. III, 98). Ha a mesma peripecia da

princeza se entregar a uns amores desconhecidos, ao filho de um corta

carne, que lhe sae um Duque, como na lição alludida. Este verso podia

cortar-se em redondilha; Jacob Grimm na _Silva de romances viejos_

adoptou a forma monorrima de dezeseis syllabas. Um facto notavel se

descobre n’este romance: O celebre romance de Gil Vicente intitulado

_D. Duardos_, que os Romanceiros, principalmente o de Anvers,

adoptaram, que o povo assimilou e fez quasi de novo, como se pode ver

na lição conservada pelo cavalleiro de Oliveira, apparece-nos aqui

agora, novamente assimilado, mas deixando ainda ver alguns restos

primitivos. A despedida da donzella e as falas de _D. Duarte_, foi o

que o povo conservou na versão da Beira Baixa. São sempre as partes

dramaticas que se perpetuam. Eis o romance de Gil Vicente:

=Dom Duardos=

En el mes era de Abril,

De mayo antes um dia,

Cuando lyrios y rosas

Muestran mas su alegria,

En la noche mas serena

Que el cielo hacer podia,

Cuando la hermosa Infanta

Flerida ya se partia:

En la huerta de su padre

Á los árboles decia:

--Quedáos á Dios, mis flores,

Mi gloria que ser solia;

Voyme á tierras estrangeras

Pues ventura allá me guia.

Si mi padre me buscare,

Que grande bien me quería,

Digan que amor me lleva,

Que no fue la culpa mia:

Tal tema tomó conmigo,

Que me venció su porfia:

Triste no sé a dó vó,

Ni nadie me lo decia.--

Alli habla Don Duardos:

«No lloreis mi alegria,

Que en los reinos de Inglaterra

Mas claras aguas havia

Y mas hermosos jardines

Y vuesos, señora mia.

Terneis trecientas donzellas

De alta genealogia;

De plata son los palacios

Para vuestra señoria,

De esmeraldas y jacintos

De oro fino de Turquia,

Con letreros esmaltados

Que mentan la vida mia.

Cuentan los vivos dolores

Que me distes aquel dia

Cuando con Primalion

Fuertemente combatia.

Señora, vos me matastes,

Que yo a el no lo temia.»

Sus lagrimas consolaba

Flerida que esto oia;

Fuéronse a las galeras

Que Don Duardos tenia.

Cincoenta eran por cuenta,

Todas van en compañia:

Al son de sus dulces remos

La Princesa se adormia

En brazos de Don Duardos,

Que bien le pertencia.

Sepan quantos son nacidos

Aquesta sentencia mia;

_Que contra la muerte y amor

Nadie no tiene valia_.

_Obras_, t. II, p. 249.

=21--Romance de Dona Agueda de Mexia=--Nos _Cantos populares da Italia_,

de Caselli, pag. 204 e 207, encontram-se dois romances, que tem

grande analogia com este, excepto no final, cujo desenlace não é pelo

milagre. Creio mesmo que na tradição portugueza é juxtaposição de algum

troveiro, como succedeu com o final do romance _A Nau Catherineta_ da

versão do Algarve. N’esta versão alemtejana falta a descripção da manhã

de Maio que traz a lição de Garrett (Rom. t. III, p. 116). Nem ella tem

caracter popular, antes parece um descuido de artista, que teve Garrett

quando recompoz as duas versões da Estremadura e Alemtejo para formar o

romance de _Guiomar_. Eis como um d’esses romances se canta no Piemonte:

«Nesta terra ha um mancebo, que pretendia casar; foi pedir a

conversada, e não lh’a quizeram dar. Ficou com esta recusa tão afflicto

e amargurado, que disse adeus aos amigos, e foi-se fazer soldado.

Recebeu carta depois de pouco tempo passado. Uma carta bem fechada, em

que lhe era declarado: «A tua querida amante está de cama a morrer»

Foi-se ter com o capitão. Aos pés d’elle se foi ter: «Capitão, por

vossa alma, a baixa me concedei.» O capitão lhe pergunta: «O que queres

tu fazer?--Quero ir ver a minha amante, que está de cama a morrer.--Já

vinha perto da terra, ouviu os sinos tocar. Tocam sinos n’um enterro, o

defunto quem será? Ao entrar na sua terra, foi quando ouviu resar; era

o esquife da amante, que levavam a enterrar. Mete esporas ao cavallo;

tornou outra vez para trás; morreu-me o meu coração, vou ser outra vez

soldado; «Adeos pae e adeus mãe, e tambem d’ella os parentes; se me

dessem vossa filha, estariam mais contentes.»

Quasi que parece a forma primitiva da versão portugueza que reune um

outro romance piemontez da _Giordanina_.

=22--Romance do Casamento e mortalha=--Foi pela primeira vez publicado

por Garrett (Rom. t. III, p. 32). Não o encontrámos na tradição oral;

extrahimol-o d’aquella artistica collecção para completar este simples

monumento da poesia popular portugueza. De facto não apparece nos

Romanceiros hespanhoes. Em um romance francez _Le Roi Renaud_, ha

alguns longes de similhança; o rei volta da guerra, moribundo quasi;

sua mãe vem ao encontro, e no meio da alegria o filho pede-lhe que

faça uma cama ás escondidas de sua mulher, por que está para expirar.

No restante diversifica a tradição (Du Puymaigre, t. II, p. 480). Nos

cantos italianos existe tambem o romance do _Conde Angilioni_, que

volta quasi moribundo da guerra; é até onde a situação é commum á

França, Italia e Portugal (Tommaseo, Canti populari, t.I, p. 35).

=23--Romance da Náu Catherineta=--Nas antigas relações de naufragio

temos a nossa poesia maritima com toda a profundidade do sentimento;

que importa lhe não déssem fórma poetica? Sente-se uma alma em cada

palavra do marinheiro, que faz a narração do que passou, com aquella

resignação e serenidade de quem ha sofrido muito e tem uns alvores

de esperança que o alentam,--o amor da patria, o culto das tradições

gloriosas que procura conservar integerrimas. Com que uncção crente e

piedosa não desenha elle os maiores transes! Os horrores do desastre

fazem-lhe reconhecer um poder immenso, que adora com uma vehemencia

e ardor capazes de fazer prodigios. Vêem a nau quasi a afundar-se:

«Pelo que, como homens que esperavam antes de poucas horas dar contas

a Nosso Senhor de nossas bem ou mal gastadas vidas, cada um começou

a ter com sua consciencia, confessando-se summariamente a alguns

clerigos, que ahi iam. A este tempo andavam com um retabulo e crucifixo

nas mãos, consolando a nossa angustia com a lembrança d’aquella, que

ali nos apresentavam. Isto acabado pediamos perdão uns aos outros

despedindo-se cada um de seus parentes e amigos, com tanta lastima,

como quem esperava serem aquellas as derradeiras palavras que teriam

n’este mundo. N’isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em

parte onde se não vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma

amarellidão e trespassamento de manifesta dor e sobejo receio, que a

chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em quando algumas

palavras lastimosas, signal certo da lembrança que ainda n’aquelle

derradeiro ponto não faltava dos orphãos e pequenas filhos, das amadas

e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes, que cá deixavam; e

acabando cada um de satisfazer ao humano com este pequeno mas devido

comprimento, todo o mais certo do tempo se gastava em pedir a Nosso

Senhor remedio espiritual (que do corporal ninguem fazia conta).»[2]

A lembrança viva representa a cada instante as passadas angustias.

A côr da narração é a verdade. O genio aventureiro marítimo do povo

portuguez está dentro d’aquellas paginas; cada palavra é um sentimento

surprehendido na sua ingenuidade. O marinheiro ama a sua nau e

confessa-o irreflectidamente: «levando a phantasia occupada n’esta

angustia, e os olhos arrasados de agua, não podia dar passo, que muitas

vezes não tornasse a trás, para ver a ossada d’aquella tão formosa e

mal afortunada nau, porque posto que já n’ella não houvesse pau pegado,

e tudo fosse desfeito n’aquellas rochas, todavia emquanto a viamos,

nos parecia que tinhamos ali umas reliquias, e certa parte d’esta

nossa desejada terra, de cujo abrigo e companhia, (por ser aquella a

derradeira coisa que d’ella esperavamos) nos não podiamos apartar sem

muito sentimento, etc.»[3]

Isto que o capitão da nau _S. Bento_ sentia era o mesmo que se passava

na alma dos velhos mareantes, que davam aos navios nomes domesticos,

de paixão, com que esqueciam os que lhes tinham imposto no baptismo;

o galeão _S. João_, que naufragou na carreira da India em 1551, tinha

por _alcunha_ o _Biscainho_;[4] a nau _Aguia_ chamava-se vulgarmente

_Patifa_.[5] Este nome da nau _Catherineta_, nome popular que Garrett

julga um diminutivo de affeição dado por graça a algum navio favorito,

parece ter a sua origem do galeão _Santa Catherina do Monte Synai_,

que levou a infante D. Beatriz para Saboya. As memorias do tempo

descrevem-n’o como digno da affeição popular, capaz de deslumbrar

a imaginação do vulgo, e de fazer nascer uma paixão ao mostrar-se

á vista penetrante do marinheiro, que sabe tão bem avaliar o bello

das curvas, dos pontaes, e a mastreação elegante. O galeão de _Santa

Catherina_ começou a ter a sua popularidade nos versos de Gil Vicente,

na tragi-comedia das _Côrtes de Jupiter_:

Leva gente muito fina,

Poderosa artilharia,

E a nau _Santa Catherina_

Que vae por graça divina

Co’a a prôa n’Alexandria.[6]

Em uma memoria contemporanea se lê: «e a infante duqueza embarcou esse

dia, que eram 5 de agosto, na nau _Santa Catherina do Monte Synai_, nau

de 700 toneis, _muito formosa_, e de dentro todalas camaras da infanta

pintadas de oiro e forradas de bordados.»[7] Não é hypothese gratuita,

ter a imaginação popular motivo sobre que idealisasse uma nau typica,

como centro de acção para todos os seus romances maritimos. O genio

do povo só exprime os seus sentimentos personalisando e localisando;

d’aqui a multiplicidade das lendas, e ao mesmo tempo um fundo de

verdade em todas ellas.

A lenda da _Nau Catherineta_ não tem uma determinada origem historica;

é a generalidade tetrica de todos os naufragios. Garrett inclina-se a

achal-a no naufragio que passou Jorge de Albuquerque Coelho, vindo do

Brasil no anno de 1556, em que a fome e a ancia de se devorarem e a

resistencia do capitão reflectem muito as cores sinistras da lenda.[8]

Tambem na relação, que por vezes havemos citado, do naufragio da nau

_S. Bento_, se encontram ameaços do horror da antropophagia: «E porque

havia tantos dias que não fizeramos resgate, nem metteramos nas boccas

cousa que nome tivesse, constrangeu a necessidade a muitos serem de

parecer que comessemos este cafre; e segundo se já soava, não era

esta a primeira vez que a desventura d’aquella jornada obrigara a

alguns a gostarem carne humana;[9] mas o capitão não quiz consentir

em tal, dizendo que se cobrassemos fama que comiamos gente, d’alli

até ao cabo do mundo fugiriam de nós, e trabalhariam de nos perseguir

com muito mais odio.»[10] O facto de deitarem muitas vezes sola de

molho, apertados pela fome, como conta ligeiramente a lenda popular,

é frequente nas relações dos naufragios: «mas fizemos a ceia de umas

alparcas que eu levava calçadas, a quem tambem a nossa não menor mingua

fez que não menos gostosas as achassemos.»[11] O gageiro, que era o

diabo que na lenda da _Nau Catherineta_ levantava o temporal, tem

alguma reminiscencia, ou melhor, parece ser fundado no grumete que no

naufragio do galeão _S. Bento_ se benze e chama pelo nome de Jesus ao

ver erguerem-se uns enormes vagalhões a que elle não hade chamar senão

diabos, que vêm em tropelia.

Em todas as narrações de naufragios ha mais ou menos uma sombra do

quadro horrivel da _Nau Catherineta_; fomos apontando alguns factos,

não para determinar origens, mas para reconhecer a generalidade da

lenda.

Na poesia das Asturias encontra-se um pequeno romance chamado o

_Marinheiro_; tem o mesmo colorido, similhante ao final da _Nau

Catherineta_ da versão do Algarve:

=El marinero=

Mañanita de San Juan

Cayó un marinero al agua,

--Que me dás marinerito,

Porque te saque del agua?

«Doyte todos mis navios

Cargados de ouro y de plata.

--Yo no quiero tus navios

Ni tu oro, ni tu plata,

Quiero que quando tu mueras

A mi me entregues el alma.

«El alma entrego á Dios

Y el cuerpo á la mar salado.

Os naufragios frequentes dos galeões da India acharam Uma forma

livre, espontanea, para revelar a extensão do sentimento nos cantos

do genio popular. A _Nau Catherineta_ é uma epopea moderna e por

isso incompleta, porque o tempo não deu logar a accumularem-se os

episodios, nem dependerem mutuamente as _Variantes_. A sua formação

descobre-se na diversidade de versões que ella tem. A Estremadura, o

Minho, o Algarve, Lisboa, Beira-Baixa e Ribatejo, trabalham sobre a

mesma lenda. Mais tarde a variante tornava-se episodio, prendia-se á

unidade do poema. A imagem do diabo, que mostra as meninas debaixo

do laranjal, é de origem puramente christã. O _gageiro_ que sobe ao

mando do capitão, sobre quem cahiu a sorte para ser devorado, e que

promette o grau de cavalleiro, sua filha, o seu navio, se lhe avistar

terras de Portugal, é uma das mil personificações do diabo. Elle produz

a cerração que esconde a praia. O mar, segundo as crenças christãs

vindas do paganismo, era a mansão do diabo. Typhon, o principio do mal,

a quem o mar fora consagrado,[12] transforma-se depois no diabo da

mythologia christã.[13] O espirito supersticioso, a ignorancia das leis

naturaes ainda não vulgarisadas na edade media, estão representadas

no gageiro que suscita a tormenta. Era a crença da egreja. Na vida de

Guibert de Nogent, na _Summa_, de S. Thomaz e no livro de Alberto Magno

_De potentia Daemonum_ apparece este pensamento que vêmos determinado

na poesia popular portugueza. Na _Divina Comedia_ e na _Jerusalem

Libertada_, os ventos são tambem attribuidos ao diabo.

Garrett nas poucas linhas com que precede este monumento da nossa

poesia popular maritima, admira-se de que um povo de argonautas não

exercesse o seu genio creador no romance maritimo.

O século XVI foi a edade da prosa; comtudo o povo é sempre infante,

sempre creador e poeta; mas as imitações classicas infatuadas de

sciencia absorveram as attenções a ponto de excluirem a poesia popular.

O poema cyclo do mar tivemol-o nós. Basta ler as relações das viagens,

dos naufragios, das fomes, das tormentas. Antes de se fixarem na forma

prosaica da _Historia Tragico-maritima_, essas dores foram primeiro

soffridas e communicadas. A _Nau Catherineta_ não tem uma certa origem

historica, como suppõe Garrett, é o germen de uma Odyssea, aonde a

multiplicidade das scenas de naufragio estão reduzidas á generalidade

mais tetrica. Entre os folhetos de cordel do seculo XVIII encontramos a

narração do naufragio da nau _Gloria_, feito em verso por um marinheiro.

=24,25 e 26--Romances do Conde Prêso=--Um facto notavel se dá n’estes

romances: como tres provincias, Trás-os-Montes, Beira-Baixa e

Beira-Alta se apoderaram de uma mesma tradição, e dos diversos modos

como a bordaram. A versão de Trás-os-Montes é simples, não admitte

a intervenção do maravilhoso, que repugna ao genio dos romances

carolinos; a versão da Beira-Alta foi tomando uma côr religiosa, traz

o milagre do romeiro, que era Sanctiago vindo proteger a sua devota.

Sem duvida esta é a mais moderna, por isso que o sentido do romance

antigo, e o instincto da independencia, cavalheiresca, já não é

comprehendido, nem basta para sustentar o romance. Garrett confundiu

as duas versões (Rom. t. II, 289). «Poucas cousas mais bonitas, diz

elle, tem o romanceiro popular da nossa peninsula. Onde nasceu não sei;

mas as collecções castelhanas não o trazem.» A versão da Beira-Baixa

mostra-nos a sua origem hespanhola; chama-lhe _Dom Garfos_, corrupção

do nome _Conde Grifos_ do Romanceiro hespanhol (Duran n.º 324). Não ha

aqui maravilhoso, mas sim uma audacia cavalleirosa, a independencia

altiva que distingue os romances carolinos da França dos romances

carolinos da Allemanha. Sente-se nesta versão a herança do crime

do primitivo direito symbolico, e um tanto da _irmandade heroica_

na presteza com que Dom Garfos acode a seu tio, indo falar ao rei,

desafiando-o, vingando-se a final na filha d’elle, que é sua propria

mulher. Vejamos a lição hespanhola:

=El Conde Grifos Lombardo=

En aquellas peñas pardas,

En las sierras de Moncayo

Fue do el Rey mandó prender

Al conde Grifos Lombardo,

Porque forzó uma doncella

Camino de Santiago,

La cual era hija de un duque,

Sobrina del Padre Santo.

Quejábase ella del fuerzo;

Quejase el Conde del grado:

Allá van á tener pleito

Delante de Carlo Magno,

Y mientras qu’el pleito dura

Al conde han encarcelado

Con grillones á los piés,

Sus esposas en las manos,

Una gran cadena al cuello

Con eslabones doblados:

La cadena era muy larga,

Rodea todo el palacio;

Allá se abre y se sierra

En la sala del rey Carlos.

Siete Condes le guardaban,

Todos han juramentado

Que si el conde se revuelve

Todos seran á matalo.

Ellos estando en aquesto,

Cartas habiam llegado

Para que cazen la Infanta

Con el Conde encarcelado.

Muito se aproxima da versão da Beira-Baixa; ha aqui tambem os sete

condes que o sobrinho mata. A versão portugueza, descubrindo uma

continuação da peripecia, leva-nos a crer que fosse talvez da origem

portugueza, se é que todos os romances cavalheirescos do nosso povo nos

não vieram da Hespanha.

=27 e 28--Romances do Conde Alberto=--Qual será a rasão por que este

romance é o mais vulgar na tradição portugueza? Será porque tem alguma

similhança com o assassinato de Dona Maria Telles pelo Infante Dom

João, para casar com a filha da rainha Dona Leonor? Duran, (Romanc.

General, t. II, pag. 219) quando apresenta o romance do Duque de

Bragança compara-o com o do _Conde Alarcos_, e crê que o da tradição

oral se refere á historia. O romance do _Conde Alarcos_ (Duran, n.º

365), foi tirado dos Romanceiros hespanhoes por Balthazar Dias, e por

elle glosado, como se vê pelo _Index Expurgatorio_ de 1624, que prohibe:

«a sua Glosa, com o Romance, que começa: _Retrahida eatá a Infante_.»

(Pag. 98). Na collecção hespanhola é elle mais extenso, d’onde se

vê que a versão popular foi d’ali abreviada. É um dos retratos mais

completos dos costumes feudaes, e o facto do _emprasamento_, fez

suppor a Duran, que será da epoca de Fernando IV, o _Emprasado_.

Garrett queria á força dar-lhe origem portugueza: «eu me inclino a

que o trovador castelhano alargasse a lyra do menestrel portuguez, do

que vice-versa.» (Rom. t. II, p. 41). Hypothese inadmissivel á vista

dos factos apontados e diante da rasão, porque em todas as versões

portuguezas se encontram somente os traços geraes da lição hespanhola,

resultado das abreviações que vão soffrendo na tradição. O Conde

Alberto tem varios nomes nas diversas provincias: no Minho chamam-lhe

Conde Albano, no Porto Conde Alberto, na Beira-Baixa Conde Anardos,

Dom Duarte, Conde Yano, como colligiu Garrett, e _Conde Alves_, como o

obtivemos d’aquella mesma provincia. Na poesia popular da Catalunha é

conhecido pelo nome de _Conde Floris_. (Milà y Fontanals, Observationes

sobre la Poesia popular, p. 20). Ticknor (Hist. da litteratura hesp. t.

I, p. 131, not. 32) considera esta composição jogralesca de Pedro de

Riano, «como a composição mais pathetica e bella que se tem escripto.»

Guillen de Castro, Mira de Amescua, José Milanes, e Lope de Vega na

_Fuerza lastimosa_, aproveitaram-se dos lances profundamente dramaticos

d’esta creação.

Na versão de Garrett ha o _maravilhoso_ de uma criança que fala ao

peito da mãe; na versão da Beira-Baixa ha uma quasi similhança do

emprazamento da lição hespanhola, o que a torna mais antiga e mais

proxima da sua origem.

Suppõe-se, e Duran no _Romanceiro hespanhol_ o aventa, que este romance

allude á morte dada pelo Infante Dom João a sua esposa Dona Maria

Telles, por intrigas da Rainha Leonor Telles, para casar com a Infanta

Dona Beatriz.

=29 e 30--Romances do Conde da Allemanha=--Estas duas variantes são

egualmente bellas e genuinas da tradição oral; são n’este ponto

superiores á lição de Garrett (Rom. t. II, p. 79) refundida e apurada

no _que lhe pareceu mais legitimo e verosimil_, segundo as lições

castelhanas de Depping e Duran.

Os romances que apresentamos, colhidos immediatamente da tradição oral,

e cheios de repetições que destroem a eurythmia do quadro, são o que ha

de mais pittoresco na inspiração popular. O povo tem em cada romance

uma parte dythirambica, que borda a capricho, em que se liberta da

_assonancia_ forçada; facto já lucidamente determinado por Garrett.

É a parte movel por onde a _variante_ vae de geração em geração

modernisando o romance.

Do Conde de Allemanha diz Garrett: «Facto conhecido da historia de

Portugal ou de outra parte de Hespanha, não sei que o memore este

romance;» Duran, falando da versão hespanhola (n.º 305 do Romancero

general) diz: «Tiene este romance antiquissimo alguma analogia con

el historico del conde Garci Fernandez; pero, un y otro mas parecen

tomados de una fabula caballeresca, que no de un hecho verdadero.»

Derivado do _Cancionero de Romances_ de 1581, impresso em Lisboa,

podemos sem errar, assignar-lhe uma origem litteraria.

=31,32 e 33--Romances de Dom Carlos de Montealbar=--Eis um d’aquelles

romances de que o povo tanto se apossou, que o inverte e borda, a

capricho, tomando a acção como typo de novas situações. Ha aqui

visivelmente a confusão da _Claralinda_ da versão do Porto e Beira

Alta. No _Romanceiro hespanhol_ encontram-se as versões d’onde os

nossos troveiros abreviaram a lição portugueza. O romance _del Conde

Claros_ (n.º 364) é a que parece mais ter contribuido para a versão

portugueza. Depping julga pertencer aquelle romance ás aventuras de

Eginart e da filha de Carlos Magno. A variante de _Dona Lisarda_

(Duran, romance de Dona Aliarda, n.º 329) parece-se muito com a

_Albaninha_ da lição de Garrett, (t. III, p. l5) principalmente nos

gabos do cavalleiro. A variante de _Dona Areria_ é uma confusão do

romance de _Dona Ausenda_. (Vid. _Hist. da Poesia popular portugueza_,

p. 152 e 162).

=34--Romance do Passo de Roncesval=--Depois da Beira-Baixa é provincia

de Trás-os-Montes a mais rica de tradições populares. Veio de lá este

romance; é como um ecco da energia da velha _Chanson de Roland_. O

cavallo levanta-se do meio do destroço para defender-se de que não

faltou á irmandade heroica do cavalleiro.

São assim os cavallos do cyclo carolino, como o cavallo Bayard, que

ao escarvar em terra parecia que tocava lyra! Como veio esta strophe

do poema de Roncesvalles fluctuar na tradição portuguesa? Como se

conservou no romance a memoria local, sendo a que primeiro se oblitera

na tradição? Viria directamente da Hespanha no principio do seculo XVI,

ou já cá existiria, desde que os Cruzados ao passarem pelo Mediterraneo

espalharam entre nós as grandes legendas dos cyclos cavalheirescos

da Europa? Questões estas que se devem propôr, mas não resolver,

sem risco de temeridade. Sabemos que este romance era conhecido em

Portugal no principio do seculo XVI, por isso que o encontramos citado

em Gil Vicente na Comedia de _Rubena_; vem lá o conhecidissimo verso

dos romances de Roncesvalles: _Em Paris esta Dona Alda_, que, podemos

asseveral-o com certeza se derivou para a tradição pelo celebre

_Cancionero de Romances_ de Anvers, reimpresso em Lisboa em 1581. Foi

Garrett o primeiro que recolheu este romance, e por felicidade o não

aformoseou, porque não pode alcançar variante alguma (Rom. t. II, p.

234). Encontram-se versões mais extensas no _Romancero General_ de

Duran, (nᵒˢ 395, 396 e 397) d’onde com certeza foi abreviada a nossa.

=35--Fragmento de um romance do Cid=--Muitos romances populares

portuguezes se encontram citados na obras de Gil Vicente. (Vid. a

Historia da Poesia popular, p. 23, e 138). Este fragmento do Romanceiro

do Cid encontra-se no Auto da Luzitania, (t. III, pag. 270,) e lê-se

por extenso no _Tesoro de los Romanceros_ de Ochoa, p. 185, que o

aponta como um dos mais antigos e mais populares:

Helo, helo por do viene

El moro por la calzada,

Caballero à la gineta

Encima una yegua baya,

Borceguies marroquies

Y espuela de oro calzada,

Una adarga ante los pechos

Y en su mano una azagaya,

Mira y dice á essa Valencia:

--De mal fuego seas quemada,

Primero fuiste de moros

Que de christianos ganada,

Si la lanza no me miente

A moros serás tornada, etc.

Pode confrontar-se a variante portuguesa; é no pequeno fragmento mais

bonita, por causa da segunda elaboração que lhe deram cá. Este mesmo

romance foi imitado em Hespanha, como se vê na _Primavera y flor de

Romances_, t. II, p. 36.

=36 e 37--Romances de Dom Gayfeiros=--Pertencem estes dois romances

ao cyclo carolino, caracterisado pela altivez do cavalleiro, e por

brilhantes feitos de armas. O gosto mourisco do seculo XVI vae

modificando os heroes da tradição carlingiana, até os substituir

completamente pelos contos de cativos. A lição de Garrett (Rom. t.

II, p. 250) traz as duas variantes em uma só versão formada pelas

differentes copias que obteve de Trás-os-Montes, e pelo manuscripto

do Cavalleiro de Oliveira, traduzindo nas situações duvidosas a lição

castelhana de Duran (Rom. general n.ᵒˢ 374 a 381). Na tradição oral

nunca os romances são tão extensos; nem o povo sabe o nome dos Doze

Pares, nem do Arcebispo Turpin, para os nomear no sequito que veio

receber os dois amantes. Os romances populares são sempre dramaticos,

raras vezes narrativos, e nunca descriptivos. A lição de Garrett

abunda em descripções, justamente nos pontos em que elle segue a

versão hespanhola, a qual por ser antiquissima, isto é, mais proxima

da sua composição jogralesca, devia de ser assim descriptiva. Duran

julga ser o romance de Dom Gayfeiros o que mais quadra com a memoria

que d’elle deixou Cervantes no Don Quijote (Part. 2, cap. 26). As

versões portuguezas _todas mais curtas do que as lições castelhanas

dos romanceiros_, como Garrett o confessa, denunciam a sua origem, e o

processo da abreviação, que a antiguidade lhes vae dando, reduzindo-as

aos traços mais profundos. Veio-nos o romance, directamente da

Hespanha para a tradição portugueza, e no seculo XVI correu elle na

sua linguagem nativa, por isso que Gil Vicente, na _Comedia de Rubena_

o cita no dialogo da Ama (Tom. II, scena II, p. 27): _Vámonos, dijo

mi tio_, que é o primeiro verso do segundo romance de Gayfeiros que

traz Ochoa no _Tesoro de los Romanceros_, p. 44. Veio do _Cancionero

de Romances_ de Anvers, reimpresso em Lisboa em 1581; collecção

celeberrima, por ser a primeira em que se recolheram os romances

directamente da tradição oral, até então desprezada. Quasi todos os

romances de origem hespanhola, communs aos povos do Meio Dia da Europa,

d’ali se derivaram para a tradição portuguesa. Tambem o romance do

_Mouro Calainos_, aonde se fala de uma cativa que está em Sansueña,

a qual muitas vezes requerida de amores, só os escuta com a condição

de lhe trazerem de Paris tres cabeças dos melhores Pares, pertence ás

aventuras de _Gayfeiros_. É certo que esse mesmo andou na tradição

portugueza, porque no _Index Expurgatorio_ de 1624 se prohibe: «O

Romance do Moro Calaynos y de la Infanta Sybilla.» (Index, Lisboa,

1624, por Pedro Craesbeck, pag. 174).

Uma tradição quasi similhante é a de Mira-Gaia, que se lê no

_Nobiliario_, e que foi romanceada por João Vaz, no seculo XVI.

=38--Romance de Flor e Brancaflor--=Outra vez a peripecia de

reconhecimento, como na _Dona Infanta_, e _Infanta de França_, tão

usada em quasi todos os romances populares da Europa. Corre esta

versão pela Beira Baixa, Minho, Extremadura, Ribatejo, Beira-Alta

e Trás-os-Montes. Publicou-a Garrett, (Romanceiro, t. 2, pag. 183)

dizendo: «Nem os romanceiros castelhanos, nem escriptor algum faz

menção do bello romance da _Rainha e Cativa_.» É porem certo que se

encontra com o titulo _Las dos Hermanas_ na _Primavera y flor de

Romances_, t. II, pag. 38, d’onde é manifesta a origem do romance

portuguez cujas pequenas circumstancias segue. E verdadeira a opinião

de Garrett, quando o faz pertencer ao seculo XII. M. Milá y Fontanals

recolheu um romance similhante _Las dos Germanas_ da poesia popular

da Catalunha, no qual predomina uma completa originalidade; podo

ler-se nas suas _Observationes sobre la Poesia popular_, pag. 117.

O romance portuguez é superior ás lições castelhanas. Du Puymaigre

tira a este proposito uma judiciosa conclusão: «Que os portuguezes

muitas vezes romanceam com mais talento assumptos que se acham nas

collecções dos dois povos; porem esta perfeição denota a sua pouca

antiguidade. De ordinario os romances portuguezes são mais claros,

mais bem desenvolvidos, para que se tomem por primitivos.» (Vieux

auteurs Castilhans. t. II, p. 370). Será este romance um vestigio

remoto e já completamente alterado pela tradição do romance de _Flor

e Blanchefleur_? Os nomes dos personagens são o _Conde Flores_ e

_Brancaflor_ a quem os mouros cativaram:

Dia de Paschoa florida,

Andando apanhando rosas

N’um rosal que meu pae tinha.

O nome de Blanchefleur, nas versões francezas é explicado pelo dia do

nascimento do heroe:

Li doi enfant, quant furent né,

De la feate fure nomé:

La crestiène, por l’honor

De la feste, et nom Blancefleur

v.--169--172.

Na versão italiana de Brancaflor as duas mães têm os seus filhos no

mesmo dia:

Partorirno in una medesma sera

Di maggio, ch’era la rosa in su la spina...

Lo fresco giorno di _Pasqua rosata_.

É mui frequente esta data nos poemas da edade media, principalmente

nos de origem oriental. Podemos com certeza asseverar que a versão

portugueza, recolhida da tradição oral, se encontra exactamente quanto

á essencia no romance de _Blancefleur_, desde o verso 55 até ao verso

190 (Ediç. Elzeviriana.) As alterações podem-se explicar do mesmo modo

que Du-Méril descubriu pela analyse das versões hespanholas: «l’esprit

espagnol ne paraît pas l’avoir jamais comprise.» (Introd, pag. LXXIX).

Desde quando andará na tradição portugueza este fragmento do romance de

_Blancefleur_? Que elle era conhecido na Hespanha sabemol-o por Affonso

o Sabio, pelo Arcipreste de Hita e por Francisco Imperial; em Portugal

encontramol-o citado no _Cancioneiro_ de Dom Diniz:

Qual mayor poss’ e o mays encuberto

Que eu poss’ e sey de _brancaflor_

Que lhe non ouv’ eu _flores_ tal amor

Qual vos eu ey; etc.» Pag. 52.

O romance de _Banchefleur_ encontra-se na tradição de todos os povos

da Europa; andou por certo na tradição jogralesca, como se vê por este

verso:

Mais a un clerc dire l’oït

Qui l’avoit léu en escrit.

Romanceiro geral · 第 77 / 84 题