E assim veio até Portugal pelo tempo dos Cruzados; apoia-se esta
conjectura no facto de se encontrar tambem na tradição da Grecia
moderna em um poema (publicado por Bekher nas _Memorias da Academia das
sciencias de Berlim_ em 1845) o qual fala da antiguidade da tradição.
=39--Romance da Moira Encantada=--Esta lenda foi recolhida no Algarve
pelo sr. Stacio da Veiga e publicada no nº 12 da _Estrella de Alva_.
O maravilhoso feérico das mouras encantadas é do genio popular
d’aquella provincia; tambem ali o romance da _Nau Catherineta_ acaba
phantasticamente; segundo o citado collector, este romance é dos mais
populares do Algarve, e exprime a crença commum e antiga de que na
cidadella mourisca de Tavira, á meia noite, na vespera de Sam João,
apparecia a formosa encantada pedindo que algum cavalleiro viesse
romper-lhe o encanto. Colloca tambem a sua formação nos fins do
seculo XVI, principios do seculo XVII, quando o gosto mourisco foi
imitado entre nós por Dom Francisco Manuel do Mello nas _Tres Musas de
Melodino_, e por Francisco Rodrigues Lobo no seu pequeno Romanceiro.
O final parece imitado do romance da _Moriana_ e do mouro Galvan,
que jogava no jardim com a sua amante, e de cada vez que perdia,
ia-se-lhe uma villa ou cidade. No romance do Algarve Dom Ramiro ganha
um castello, mas sem moira para amar. Isto revela um tanto a sua origem
artistica.
=40--Romance de Nossa Senhora dos Martyres=--O sentimento do
maravilhoso e a inspiração piedosa tornam este romance de aventuras
mais do genio celtico, do que do gosto mourisco. Nos Açores são
vulgares as tradições dos piratas da costa; e na legislação portuguesa
se encontram varias multas applicadas para a _Arca da Piedade_, d’onde
sahia o dinheiro para a redempção dos cativos pelos trinitarios. Foi
colligido este romance no Algarve, pelo sr. Stacio da Veiga; repete-o
o povo na romaria de Castro-Marim no meado de Agosto. A tradição é
antiquissima, a sua forma poetica é porem mais moderna. Frei Luiz de
Sousa no livro IV da _Historia de Sam Domingos_, refere o milagre do
seguinte modo:
«Reinando em Portugal el-rei Dom Afonso III, que foi Conde de Bolonha,
succedeu cair em poder de mouros um homem natural de Penamacor.
Escureceu o tempo as particularidades do nome e calidades da pessoa,
e da occasião e logar do cativeiro. Era o tratamento do amo mais
de inimigo e tyranno, que de amo e senhor. Porque sendo o pobre
cativo seu e fazenda sua, assim se deleitava em lhe fazer cruezas,
como se fora christão livre, ou cuidara que com os tormentos lhe
acrescentára a vida. Não tinha o atribulado outra consolação no meio
dos trabalhos, senão era soccorrer-se ao Santo da sua terra, Sam
Domingos da Sovereira. E quando a força d’elles lhe arrancava algum
gemido (que até o suspirar era culpa diante do barbaro), sempre saia
envolto com o nome de Sam Domingos. Era isto tão ordinario que o
mouro (devia ser algemiado, e d’aqui collijo que o cativeiro seria
em Granada, ou em outra terra de Hespanha, das muitas que então e
muitos annos depois senhoreavam os mouros nella) veio a notar-lhe a
linguagem. E porque não ficasse cousa em que deixasse de o martyrisar,
perguntou-lhe um dia que arenga era aquella que trazia na bocca,
contínua, quando devia chamar por Alá, nomear Domingos, Domingos (é
Alá o nome por que os mouros conhecem a Deos.) Alegremente confessou
elle que trazia na bocca, e tinha na alma tendo por obra de fé e
animo catholico pronunciar claramente e com a lingua o que sentia
o coração: e foi proseguindo que era um santo subido, pouco tempo
havia, da terra ao céo, e conhecido na sua por grandes maravilhas que
obrava, e em quem elle tinha esperança que o havia de livrar das suas
mãos. Caro lhe custou ao pobre a alegria e liberdade da confissão,
pagou-a com rigoroso castigo presente e com outro mais duro que não
tardou. O primeiro não estranhou tanto, como era seu pão quotidiano,
offerecendo-o a Deos por honra da fé. Mas com o segundo se viu
reduzido a termos de desesperação. Julgou o bárbaro que as esperanças
do cativo se deviam fundar em alguma determinação e traça de fugida:
quiz acautelar-se; Vindo uma noite cansado de servir e trabalhar o
dia inteiro, encerrou-o sobre má cêa em um novo genero de masmorra,
que era um arcaz grande e forte, que depois de fechado com mais do
uma chave, lhe ficou para inteira segurança servindo do leito. Mas
parecendo-lhe, que ainda assim o não tinha bastantemente arrecadado,
ia cada dia accrescentando novas cautellas a sua desconfiança. Já lhe
lançava algemas nas mãos, já adobes nos pés, depois de encarcerado
na arca. E tendo-o assim, perguntava-lhe de cima com escarneo, se
esperava ainda no santo da sua terra.................................
............................................................
«Uma noite, depois que o mouro o meteu na triste masmorra, na forma
que temos dito, sobre algemas nas mãos e outros ferros nos pés,
lançou-lhe no pescoço um grosso collar, das argollas do qual sahia
uma forte cadeia de trinta palmos, com que lhe foi dando voltas, e
enrolando o corpo todo. E para dormir mais a somno solto, lançou sobre
o alquifer que vestia um alfange a tiracollo, e prendeu um lebreo que
tinha ás argolas da arca. Feita esta diligencia estendeu-se sobre
ella, e contente com o que tinha de novo acrescentado, bateu-lhe de
cima dizendo que se não esquecesse de fazer oração ao seu Domingos da
Sovereira, que o viesse livrar de suas mãos...... Assim se lançaram
a dormir á noite ambos em terra de mouros: assim amanheceram amo e
escravo em terra de christãos com grande distancia de leguas, em meio,
e á porta de Sam Domingos da Sovereira em Penamacor..... Abriu o mouro
os olhos, viu-se entre montes e cercado de gente, que pelo trajo e
espanto que fazia de sua vista conhecia ser christã. Espantava-se o
enterrado na arca ouvindo linguagem da sua terra e muitas vozes juntas.
Mas nem amo, nem cativo se atreviam a dar credito um aos olhos, outro
aos ouvidos: ambos haviam que era tudo sonho. Em fim, como não é facil
de enganar o sentido da vista, e o mouro viu que tudo o desenganava,
e que estava entre christãos, não por sonhos, senão com effeito, que
via a egreja, e ouvia som de sinos que a infidelidade sobre tudo
aborrece, acabou de caír que não eram palavras mal fundadas as do
seu cativo quando tanta confiança fazia do seu santo. Lembrava-se de
tudo com estranha confusão, e só desejava saber por ultimo desengano
se estava em Portugal. Como tinha conhecimento das linguagens de
Hespanha, perguntou a um de muitos que o rodeavam espantados de tal
invenção de romeiro e tal alfaias de romaria, como chamavam a terra,
e o sitio em que estavam. Quando soube que tinha diante dos olhos Sam
Domingos da Sovereira ficou como fóra de si de pasmado e attonito; e,
conformando-se com o tempo, quiz começar a grangear com cedo quem
por boa conta trocadas as sortes havia de ser seu senhor.... Foi o
mouro logo revolvendo um molho do chaves que lhe pendiam da cinta, e
abrindo cadeados e fechaduras da sua arca. Chegaram os circunstantes
a ver que peças trazia para offerecer em tam grande arca o romeiro
estranho: senão quando dão com os olhos em um Lazaro sepultado, e em
rosto e cores defunto; mas vivo na voz, e envolto em novo genero de
mortalhas, mortalhas de ferro: e tão carregado d’ellas, que de nenhum
membro era senhor, senão só da lingua, com a qual, voz em grita chamava
por Sam Domingos, como quem tinha já sentido onde estava..... Solto em
fim sem outra palavra na bocca mais que Sam Domingos, deixa-se cahir
em terra, abraça-se com ella, beija-a, e vae-se prostrar diante do
altar do Santo...... O cativo cumpriu sua promessa, viveu e morreu
ermitão do Santo. O mouro penetrado da grandeza do milagre pediu o
santo baptismo (divina força da predestinação) e ficou em cativeiro
livre e ditoso servindo a ermida e acompanhando o seu cativo. E por
morte foram enterrados juntos á porta d’ella, onde os cobre ambos uma
só campa com um letreiro que o declara.» Hist. de S. Domingos, Liv. IV,
C. V, f. 211, v. Resumimos o facto deixando de parte os consectarios
moraes e piedosos do chronista. Todas as lendas da edade media tendiam
a _localisar-se_; eis porque apparecem reproduzidas. As tradições dos
cativeiros, e as esmolas na Arca da piedade iam formando estas creações
da mente popular. O milagre é tambem uma das formas do maravilhoso do
povo.
=41 e 42--Romances do Cativo de Argel=--Este romance foi-me offerecido
no Porto, escripto um uma letra que denuncia o seculo XVII. Guardo
este documento, que prova mais uma vez a grande intuição artistica
de Garrett, quando disse: «O romance anda por Lisboa, Ribatejo e
Extremadura fóra;--não deve de ser mais antigo que o meado do seculo
XVII, se a copla em que allude a Ceuta e Mazagão não é _rifacimento_
moderno, como tambem pode ser e me inclino a crer que é, porque
no resto o sabor e o estylo é mais velho.» A lição de Garrett,
(Romanceiro, t. III, p. 77) é mais extensa, mais dramatica, mas não
tem o mimo, a rudeza primitiva, desta versão meio portugueza, meio
hespanhola do dialecto popular usado n’este genero de composições. Diz
mais Garrett, que se não acha nas collecções hespanholas. Eis como ella
anda n’aquelles romances tradicionaes de cativos, de um modo que parece
d’onde sahiram as versões portuguezas: