(_Versão da Beira-Baixa_)
Não sei para que nasci
De tão bello parecer;
Formosa e gentil mulher,
E tão bonita.
Metteram-me a capuchinha
Cá n’este pobre mosteiro,
Onde pago por inteiro
Meus peccados.
Nunca me faltam enfados
Em cuidar em tal clausura,
Pois se me faz noite escura
Ao meio dia.
Nunca terei alegria,
Nem no mundo a pode haver,
Em cuidar que heide comer
Em refeitorio.
Lá juncto ao dormitorio
Onde dormem as mais madres,
Suspiram por seculares
Cá entre nós.
Em vêr que dormimos sós
Me causa grande agonia,
Pois lá pela noite fria
Já me alevanto.
Agora faço o meu pranto,
Já me desvaneço em choro,
Em cuidar que heide ir ao côro
Rezar matinas.
Rezando as horas divinas,
Lá por esses corredores
Me lembram os meus amores,
Por quem morro.
Toda a minha cella corro,
Indo-me ver ao espelho;
Meu rosto já vejo velho,
Sem que eu queira.
E a abbadeça ligeira,
Como malvada leôa,
Manda que tanjam a Nôa
E a disciplina.
Triste, coitada, mofina,
Que estás mettida entre redes,
Entre tão fortes paredes,
Em casa escura.
A meu pae tórno a culpa.
E a meus irmãos tambem,
Podendo casar-me bem,
Me desterraram.
A meu pae aconselharam
Que me não désse o meu dote;
Porque era melhor sorte
O ser freira.
Avisaram a porteira,
Tambem a madre abbadeça,
Que me mettesse em cabeça
Que casaria.
Eu como menina cria,
Cuidando que era verdade,
Que qualquer freira ou frade
Casar podia.
Toda a gente me dizia
Que fosse sem arreceio;
Que havia aqui mais recreio,
Divertimento.
Agora que estou cá dentro,
Que ainda casar podia,
Eu vejo-me noite e dia
Aqui fechada.
Mais valêra ser casada,
De noite embalar meninos,
Do que andar a tocar sinos
No campanario.
Quando tudo é solitario
E estão todas a dormir,
Ainda estou a carpir
Mágoa tamanha.
Minha mãe, que Deos a tenha,
Deos lhe dê contentamento;
Deixou no seu testamento
Que me casassem.
E se bem não me esposassem,
Que me botem d’aqui fóra;
E da casa arrenegasse
Que não tem homem.