Despedida de Lisboa

(_Versão de Coimbra_)

Dom João, que Deos guarde,

Aviso mandou ao mar,

Que se aparelhasse o Conde

Para uma manhã largar.

O Conde se aparelhou,

De uma maneira tão bella!

Era meia noite em ponto,

Deitou o tiro de leva.

Deitaram a lancha a terra

Para a maruja embarcar,

Uns abordo, outros na praia,

Outros na lancha a chorar.

Deitaram novos apitos

Encastoados em ouro;

Oh que bello commandante

Que leva o real thesouro!

Deitaram novos apitos

Encastoados em prata;

Oh que bello commandante

Que leva a real fragata!

Deitaram novos apitos

Encastoados em latão;

Oh que mestre e contra-mestre,

Tão malvado guardião.

Adeos oh Beato Antonio,

Melhor cousa de Lisboa!

Deos nos leve a salvamento

A esta coverta bôa.

Adeos oh Caes do Tejo,

Aonde está o cativo;

Eu me encommendo ao santo

Que me livre d’este perigo!

Adeos Fundição de cima

Do armamento d’el-rei;

Eu cá vou n’esta viagem,

Não sei quando tornarei.

Adeos oh venda do pezo,

Onde se vende o azeite;

Adeos Praça da Figueira,

Adeos saloias do leite.

Adeos oh caza da India,

Despacho do algodão;

Adeos oh caixões do assucar,

E os faiantes do torrão.

Adeos Terreiro do Paço,

Adeos do Paço terreiro;

Adeos memoria real

Que és de Dom José Primeiro.

Adeos tambem Arsenal

Onde se fazem navios,

Adeos escalér real,

És fama dos algarvios.

Adeos, adeos Corpo Santo,

Armazem dos pucarinhos,

Adeos oh moças bonitas,

Adeos quartilhos de vinho.

Adeos castellos e torres

Da cidade de Lisbôa;

Que eu cá vou n’esta viagem

Na Corveta Nova Gôa.

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Romanceiro geral · 第 75 / 84 题