Xacara do Cego andante

(_Versão da Beira-Baixa_)

--Abre a porta, Anna,

Abre o teu postigo;

Dá-me um lenço, amor,

Que venho ferido.

«Se vindes ferido,

Vinde muito embora;

Porque a minha porta

Não se abre agora.

--Abri-me vós a porta,

Ao menos o postigo;

Venham dar esmola

Ao pobre ceguinho.

«Acorde, minha mãe,

Acorde de dormir;

Ande ouvir o cego

Cantar e pedir.

--«Se elle canta e pede,

Dá-lhe pão e vinho;

E o pobre do cego

Que vá a seu caminho.

--Não quero o seu pão,

Não quero o seu vinho,

Só quero que a menina

Me ensine o caminho.

--«Péga, minha filha,

Na tua roca e linho,

Vae ao triste cego

Ensinar o caminho.

«Espiou-se a roca,

Acabou-se o linho,

Agora adiante, cego,

Lá vae o caminho.

--Ande a menina

Mais até alem,

Que eu ainda sou cego

E não vejo bem.

Ande a menina

Mais um boccadinho;

Ande mais até

Áquelle verde espinho.

Ande a menina

Por este carreiro;

Ando até áquelle

Verde centeio.

Ai, arreda, arreda

Para este altinho;

Que aí vem cavalleiros

Por esse caminho.

«Adeos, minhas casas,

Adeos minhas terras,

Adeos minha mãe,

Que tão falsa me eras;

De Condes e Duques

Me vi pretendida;

Agora de um cego

Me vejo vencida.

Que gente é aquella

De cavalleria?...

--Ai, arreda, arreda

Para este altinho.

Se vem cavalleiros,

Vem devagarinho,

Que ha muito me tardam

Por este caminho;

É a minha mãe

Mais sua madrinha,

Que a vem buscar

Para a terra minha.

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Romanceiro geral · 第 70 / 84 题