(_Versão do Porto_)
Frei João se levantou
N’uma bella madrugada,
Chega á porta da Morena.
Da Morena engraçada:
--Abre-me a porta, Morena,
Morena da minha alma.
«Comote heide abrir a porta,
Frei João da minha alma?
Tenho o menino nos braços
O meu marido á ilharga.
--«Com quem falas, mulher minha,
A quem dás as tuas falas?
«Falo com a padeirinha,
Se cozia ou se amassava;
Se cozia pão de trigo ’
Que lhe não botasse agua;
Se cozia pão de ló
Uma pinguinha bondava;
Levantae-vos, meu marido,
Levantae a vossa casa,
Mandae as moças á lenha,
E os criados buscar agua;
Que o melhor coelhinho
É o que sae de madrugada.»
Seu marido que saía,
Ella muito se aceiava;
Seu sapato de setim,
Que de polido estalava;
Sua mantinha de seda,
Que o ventinho levantava.
Chega á porta do Convento
Por Frei João perguntava;
Frei João que tal ouvia
Por vir a correr saltava,
Pegou-lhe pela mãosinha
E para a cella a levava;
Deu-lhe muito de comer,
Deu-lhe muita marmelada,
Deu-lhe um copinho de vinho
Do melhor que a Ordem dava:
--Fica-te embora, Morena,
Morena da minha alma,
Vou á Egreja de Sam Pedro
Dizer a missa cantada.
No meio do Evangelho
O calix cahiu da mão;
Acodiu o Provincial
E toda a Religião:
--O que é isto, meus peccados!
O que é isto, Frei João?
--São amores da Morena
Que trago no coração.
Moreninha que tal viu,
Saíu muito apaixonada,
Já no meio do caminho
Seu marido encontrava:
--«D’onde vindes, mulher minha?
Que vindes tão arreiada?
«Venho de fazer visitas
A quem veio á nossa casa.
-«D’onde vindes, mulher minha,
Que vindes tão insentada?
Ou tu me temes a morte,
Ou tu não és bem fadada!
«Eu a morte não a temo,
Pois d’ella heide morrer;
Temo só os meus meninos,
D’outra mãe podiam ser.
--«Confessa-te, mulher minha,
Faz acto de contrição,
Que te não tornas a vêr
Nos braços de Frei João.
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