Romances de Iria a Fidalga

(_Versão de Santarem_)

«Estando eu á janella co’a minha almofada,

Minha agulha d’ouro, meu dedal de prata,

Passa um cavalleiro, pedia pousada:

Meu pae lh’a negou: quanto me custava!

Já vem vindo a noite, é tam só a estrada...

Senhor pae não digam tal da nossa casa,

Que a um cavalleiro que pede pousada

Se fecha esta porta á noite cerrada.

Roguei e pedi, muito lhe pezava!

Mas eu tanto fiz, que por fim deixava.

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;

Ao lar o levei, logo se assentava.

Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;

Pus-lhe uma toalha, n’ella se limpava.

Poucas as palavras, que mal me falava,

Mas eu bem sentia que elle me mirava.

Fui erguer os olhos, mal os levantava,

Os seus olhos lindos na terra os pregava.

Fui-lhe pôr a cêa, muito bem ceava;

A cama lhe fiz, n’ella se deitava.

Dei-lhe as boas noites, não mo replicava;

Tam má cortezia nunca a vi usada!

Lá por meia noite, que me eu suffocava,

Sinto que me levam com a bocca tapada....

Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,

Correndo, correndo sempre á desfillada.

Sem abrir os olhos vi quem me roubava;

Calei-me e chorei, elle não falava.

D’ali muito longe, que me perguntava:

Eu na minha terra como me chamava.

Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;

Por aqui agora Iria a cansada.

Andando, andando, toda a noite andava;

Lá por madrugada que me attentava....

Horas esquecidas que por mim luctava;

Nem força, nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange... ali me matava,

Abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sette annos passa o cavalleiro,

Uma linda ermida viu n’aquelle outeiro.

--Minha santa Iria, meu amor primeiro,

Se me perdoares serei teu romeiro.

«Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,

Que me degollaste que nem um cordeiro.

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Romanceiro geral · 第 59 / 84 题