(_Versão do Algarve_)
Achava-se em Realmonte
Com sua côrte real,
Casada uma princeza,
Princeza de Portugal.
De Antonio, santo varão,
Do seu paiz natural,
Devota a princesa era,
Por crença a mais singular;
Filha infante ella tinha
Mais formosa que o luar;
Mas a infante era um anjo,
E ao céo se foi parar.
Toda a côrte lá se ajunta
Para lhe o corpo levar;
Mas não consente a princeza
Que o levem a soterrar.
Tres dias eram passados
E ainda por sepultar;
A mãe em continuo pranto,
Mas a filha a regelar;
Sómente ella não chorava,
Que estava a bom resar
Ao santo varão Antonio
Que tanto soubera amar;
A infante encommendava
Para lhe a resuscitar;
Com grande fé verdadeira
Assim começa a orar:
--«Santo que sois de mi terra
Onde não ha outro igual,
Que por todo o mundo andavas
Noite e dia a milagrar!
A esta vossa devota
Vinde por Deos escutar;
Aquella que vêdes morta
Mandae-a resuscitar,
Mais sete dias de vida
Depois fazei-a expirar:
Afugentai-me esta ausencia,
Que a não posso supportar:
Inda a oração era em meio
Já no céo ia a entrar:
--Sete dias tens de vida
Podes á terra voltar.--
Disse Deos e santo padre,
A vida lhe foi a dar.
Do atahude se erguera
A infante de Portugal,
E com divinal semblante
Á princeza foi falar:
«Senhora mãe que choraes,
Onde me quereis guardar?
Aqui me tendes na terra
Onde já não sei estar.
D’entre as virgens me arrancastes,
Sem saber, por meu pesar;
Deixae-me, senhora mãe,
Que eu no céo tenho um altar;
Eu apenas vim ao mundo
Para vos vir consolar.
Prometteis, senhora mãe,
De não mais por mim chorar?
--«Assim o prometto, oh filha,
Podes para Deos voltar:
Ora por mim tu que és anjo,
E que no céo tens altar.
Os sete dias findavam
Ao nascer de o luar,
A alma da bella infante
Para o céo se viu voar;
O corpo que era de terra,
Á terra o foram levar.
Toda a côrte se espantava
De não ver a mãe chorar.
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