Romance de Branca-Flor

(_Versão da Extremadura_)

--Á guerra, á guerra, mourinhos,

Quero uma christã cativa!

Uns vão pelo mar abaixo,

Outros pela terra acima;

Tragam-me a christã cativa,

Que é para a nossa rainha.

Uns vão pelo mar abaixo,

Outros pela terra acima;

Os que foram mar abaixo

Não encontraram cativa;

Os que foram terra acima

Tiveram melhor atina.

Deram com o conde Flores,

Que vinha da romaria:

Vinha lá de Sanctiago,

Sanctiago da Galliza.

Mataram o conde Flores,

A condessa vae cativa;

Mal que o soube a rainha

Ao caminho lhe sahia:

«Venha embora a minha escrava,

Boa seja a sua vinda!

Aqui lhe entrego estas chaves

Da dispensa e da cosinha;

Que me não fio de moiras,

Que me não dêem bruxaria.

»Acceito as chaves, senhora,

Por grande desdita minha!

Hontem condessa jurada,

Hoje moça da cosinha.

A rainha está pejada,

A escrava tambem o vinha;

Quiz a boa ou má fortuna

Que ambas parissem n’um dia.

Filho varão teve a escrava,

E uma filha a rainha;

Mas as perras das comadres,

Para ganharem alviçaras,

Deram á rainha o filho,

E á escrava deram a filha.

»Filha minha da minha alma,

Com que te baptisaria?

As lagrimas dos meus olhos

Te sirvam de agua bemdita.

Chamar-te-hei Branca Rosa,

Branca-Flor d’Alexandria,

Que assim se chamava d’antes

Uma irmã que eu tinha.

Captivaram-n’a os mouros

Dia da Paschoa Florida,

Quando andava a apanhar rosas

N’um rosal que meu pae tinha.

Estas lastimas choradas

Veis la rainha que ouvia,

E co’as lagrimas nos olhos

Muito depressa accudia:

«Criadas, minhas criadas,

Regalem-me esta cativa;

Que se eu não fôra de cama

Eu é que a regalaria.

Mal se alevanta a rainha

Vae-se ter com a cativa:

«Como estás, oh minha escrava,

Como está a tua filha?

»A filha boa, senhora,

Eu como mulher parida.

«Se estiveras em tua terra

Que nome lhe chamarias?

»Chamava-lhe Branca Rosa,

Branca-Flor de Alexandria;

Que assim se chamava d’antes

Uma irmã que eu tinha:

Cativaram-n’a os mouros

Dia de Paschoa Florida,

Quando andava a apanhar rosas

N’um rosal que meu pae tinha,

«Se vira’la tua irmã

Se tu a conhecerias?

»Assim eu a vira nua,

Da cintura para cima;

Debaixo do peito esquerdo

Um lunar preto ella tinha,

«Ai, triste de mim coitada,

Ai triste de mim mofina!

Mandei buscar uma escrava

Trazem-me uma irmã minha.

Não são passadas três dias

Morre a filha da rainha:

Chorava a condessa Flores

Como quem por sua a tinha;

Porem mais chorava a mãe,

Que o coração lh’o dizia.

Deram á lingua as criadas,

Soube-se o que succedia:

A mãe com o filho nos braços

Cuidou morrer de alegria.

Não são passadas tres horas,

Uma á outra se dizia:

«Quem se vira em Portugal,

Terra que Deos bemdizia!

Juntaram muita riqueza

D’ouro e de pedraria;

Uma noite abençoada

Fugiram da moiraria.

Foram ter á sua terra,

Terra de Santa Maria,

Metteram-se n’um mosteiro,

Ambas professam n’um dia.

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Romanceiro geral · 第 51 / 84 题