(_Versão do Algarve_)
Meia noite alem ressôa
Cerca das ribas do mar,
Meia noite já é dada,
E o povo ainda a folgar.
Em meio de tal folguedo
Todos quédam sem falar,
Olhos voltam ao castello
Para ver, para avistar
A linda moira encantada,
Que era triste a suspirar.
--Quem se atreve, ai quem se atreve
Ir ao castello e trepar,
Para vencer lo encanto
Que tanto sabe encantar?
Ninguem ha que a tal se atreva,
Não ha que em moiras fiar;
Quem lá fosse a taes deshoras
Para só desencantar,
Grande risco assim corrêra
De não mais de lá voltar.
--Ai que linda formosura,
Quem a pudera salvar!
O alvor dos seus vestidos
Tem mais brilho que o luar!
Doces, tão doces suspiros,
Onde ouvil-os suspirar?
Assim um bom cavalleiro
Se estava a delatar,
Em amor lhe ardia o peito,
Em desejos seu olhar.
Tres horas eram passadas
N’este continuo anciar,
Cavalleiro d’armas brancas
Nunca soube arreceiar,
Invoca a linda moirinha,
Mas não ouve o seu falar;
Nada importa a Dom Ramiro
Mais que a moira conquistar.
Vae subir por muro acima,
Sente os pés a resvalar!
Ai que era passada a hora
De a poder desencantar.
Já la vinha a estrella d’alva
Com seus brilhos a raiar.
No mais alto do castello
Já mal se via alvejar
A fina e branca roupagem
Da linda filha de Agar.
Ao romper do claro dia,
Para bem mais se pasmar,
Sahiu do castello uma nuvem,
Era apenas a pairar.
Jurava o povo, jurava
E teimava em affirmar,
Que dentro d’aquella nuvem
Vira a donzellinha entrar.
Dom Ramiro de enraivado
De não poder-lhe chegar,
D’ali parte e contra os mouros
Grande briga vae armar,
Por fim ganha um bom castello,
Mas sem moira para amar.
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