(_Variante de Trás-os-Montes_)
--Sette annos são cumpridos
Bem n’os deves de contar,
Que a Melisendra é cativa
E a vida leva a chorar.
Outrem fôra seu marido,
Já lá não havia estar!
A seu tio Dom Roldão
Tal resposta lhe foi dar:
--«Os sette annos são cumpridos
Sem a poder encontrar!
Agora a saber sou vindo
Que a Salsonha foí parar.
E eu sem armas, nem cavallo
Com que a possa ir buscar!
--Eu sempre te vi com armas,
Com cavallos a adestrar;
Agora que estás sem elles
É que a queres ir buscar?
--«As vossas armas meu tio,
Que m’as não queiraes negar;
A minha esposa cativa
Como heide eu ir buscar?
--Em Sam João de Latrão
Fiz juramento no altar
De a ninguem emprestar armas
Que m’as faça acovardar.
Saltam-lhe os olhos da cara,
De merencorio falar:
--«De covarde a mim! ninguem
Nunca me hade appellidar!
--Fôras tu mau cavalleiro,
Nunca te eu dissera tal.
Dom Roldão a sua espada
Ali lhe foi entregar:
--E mais terás o meu corpo
Para te ir acompanhar.
--«Mercês, meu tio, heide ir só,
Só, tenho de a ir buscar.
--Pois se queres ir só, sobrinho,
Esta te hade acompanhar;
Meu cavallo é generoso
Não o queiras sopear;
Dá-lhe mais rédea que espora,
N’elle te podes fiar.
Andando vae Dom Gayfeiros,
Andando a bom andar;
Por essas terras de Christo
Té á moirama chegar.
Ia triste e pensativo,
Cheio de grande pesar,
Para as portas de Salsonha,
Sem saber como hade entrar;
Melisendra em mãos de mouros
Como lh’a hade sacar?
Estando n’este cuidado
As portas se abrem de par,
El-Rei com seus cavalleiros
Sahia ao campo a folgar.
Furtou-lhe as voltas Gayfeiros,
Pelas portas foi entrar;
Deu com um christão cativo
Que ali andava a trabalhar:
--«Por Deos te peço, cativo,
E elle te venha livrar,
Assim me digas se ouviste
N’esta terra anomear
A uma dama christan,
Senhora de alto solar,
Que anda cativa de mouros
E a vida leva a chorar?
«--Deos te salve, cavalleiro,
Elle te venha ajudar!
E assim me dê outra vida,
Que esta se vae a chorar.
Pelos signaes que me déste
Já bem te posso affirmar,
Que a dama que andas buscando
Em palacio deve estar.
Toma essa rua direita,
Que leva ao passo real,
Lá verás pelas janellas
Muitas christãs a folgar.
Tomou a rua direita,
Que no palacio vae dar,
Alçou os olhos ao alto,
Melisendra viu estar
Sentada áquella janella,
Tão entregue ao seu pensar,
Que as outras em redor d’ella
Não as sentia folgar.
Rua abaixo, rua acima,
Gayfeiros a passear:
«D’onde é o cavalleiro
De tão lindo passear?
--«O cavalleiro é christão
Das bandas d’alem do mar.
«Se o cavalleiro é christão
Recado me haveis levar,
Que digaes a Dom Gayfeiros
Porque me não vem buscar,
Em quanto eu presa e cativa.
A vida levo a chorar.
--«Esse recado, senhora,
Vós mesma lh’o haveis de dar;
Dom Gayfeiros aqui o tendes,
Que vos vem a libertar.
Palavras não eram ditas
Os braços lhe foi a dar,
Ella do balcão abaixo
Se deitou sem mais falar.
Maldito perro de mouro
Que ali andava a rondar
Em altos gritos o mouro
Começava de bradar:
«--Accudam á Melisendra,
Que se vae para alem-mar.
--«Melisendra, Melisendra,
Agora é o esforçar!
Aperta a cilha ao cavallo,
Affrouxa-lhe o peitoral,
Saltou-lhe em cima de um pulo,
Sem pé no estribo poisar.
Tomou-a pela cintura,
Que o corpo ergueu por lh’a dar.
Assenta a esposa á garupa
Para que a possa abraçar;
Finca esporas ao cavallo,
Que o sangue lhe faz saltar,
Os mouros pela cidade
A correr e a gritar;
Quantas portas ella tinha
Todas as foram cerrar,
Sette vezes deu a volta
Da cerca sem a passar,
O cavallo ás outo vezes
De um salto a foi saltar.
O rei que vinha da caça
Lá deitou a desfilar.
Sentiu logo Dom Gayfeiros
Como o iam alcançar:
--«Não te assustes, Melisendra,
Que é força aqui apear;
Entre estas arvores verdes
Um pouco me hasde aguardar,
Em quanto eu volto a esses perros,
Que os heide affugentar.
As boas armas que trago
Agora as vou a provar.
«--Renego de ti, christão
E mais do teu pelejar!
Não ha outro cavalleiro
Que se te possa egualar;
Só se fosse Dom Roldão,
O encantado sem par.
--«Calla-te d’aí, rei mouro,
Calla-te, não digas tal,
Sou o infante Dom Gayfeiros,
Roldão meu tio carnal,
Alcaide mor de Paris,
Minha terra natural.
Gayfeiros, senhor do campo,
Não tem com quem pelejar;
Cheio de grande alegria
Melisendra foi buscar:
«Ai, se vens ferido, esposo,
E que ferido hasde estar?
Eram tantos esses mouros,
E tu só a batalhar!
Mangas da minha camiza.
Com ellas te heide pençar;
Toucas da minha cabeça
Faxas para te apertar.
--«Calla-te d’aí, infanta,
E não queiras dizer tal,
Por mais que foram-n’os mouros
Não me haviam fazer mal:
São de meu tio Roldão
Estas armas de provar.
A Paris já são chegados,
Já sáem para os encontrar,
Sete leguas da cidade
A côrte os vae esperar;
Sahia o imperador
A sua filha a abraçar:
Grande honra a Dom Gayfeiros,
Os parabens lhe vão dar;
Por sua muita bondade
Todas o estão a louvar,
Pois libertou sua esposa
Com valor tão singular.
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