Dona Areria

(_Variante de Coimbra_)

A cidade de Coimbra

Tem uma fonte de agua clara;

As moças que bebem n’ella

Logo se vêem pejadas.

Dona Areria bebeu n’ella

Logo se viu occupada

Estando com seu pae á mesa

Seu pae que muito a mirava:

--Dona Areria, Dona Areria,

Parece que estás pejada?

«A culpa é dos alfaiates,

Que talharam mal a saia.

Chamaram-se os alfaiates

Á sua salla fechada,

Olharam uns para os outros:

--Esta saia não tem nada.

Ao cabo de nove mezes

Ella será abaixada.

Arrecolheu-se ao seu quarto

Muito triste, desmaiada.

--Dona Areria, Dona Areria,

Ámanhã serás queimada.

«Não se me dá que me queimem,

Que me tornem a queimar;

Dá-se-me d’este meu ventre

Que é de mui nobre linhagem.

Oh quem me dera um criado

Que me comêra o meu pão;

Que me levara uma carta

Ao conde de Montalvão.

--Escreva, menina, escreva,

Escreva do coração,

Que eu lhe levarei a carta

Ao conde de Montalvão.

--Aqui tem, oh senhor conde,

Carta de muito pesar;

Menina com quem dormiu

Ella aí vem a queimar.

--«Se tu me dizes devéras,

Cavallos mando apromptar;

A jornada de oito dias

Ainda hoje se hade andar.

--Lá ao fim de nove legoas

Liteiras se hão de encontrar.

Vestiu-se em trajos de frade

Ao caminho a foi esperar;

Em chegando ao pé d’ella

Aos criados foi falar:

--«Pára, pára, oh da liteira,

Que eu te farei parar,

A menina que vem dentro

Ella vem por confessar:

--«Diga-me, minha menina,

Verdade me hade falar,

Se teve amores com clerigos

Ou com frades, mal pesar?

«Não tive amores com clerigos,

Nem frades de mal pesar;

Tive amores com Dom Carlos,

Por isso vou a queimar.

--«Lá no meio da confissão

Um beijinho me hade dar.

«Onde o conde pôz a bocca

Padre algum lhe hade tocar.

--«Pois Dom Carlos sou eu mesmo

E comtigo heide casar.

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Romanceiro geral · 第 45 / 84 题