--Quêdos, quêdos cavalleiros,
Que el-rei os manda contar!
Contaram e recontaram,
Só um lhe vinha a faltar;
Era esse Dom Beltrão,
Tão forte no batalhar;
Nunca o acharam de menos
Senão n’aquelle contar,
Senão ao passar do rio,
Nos portos de mal passar.
Deitam sortes á ventura
A qual o ha de ir buscar.
Que ao partir fizeram todos
Preito, homenagem no altar,
O que na guerra morresse
Dentro em França se enterrar.
Sete vezes deitam sortes
A quem no hade ir buscar;
Todas sete lhe cahiram
Ao bom velho de seu pae.
Volta redeas ao cavallo,
Sem mais dizer, nem falar...
Que lh’a sorte não cahira,
Nunca elle havia ficar.
Triste e só se vae andando
Não cessava de chorar;
De dia vae pelas montes.
De noite vae pelo val;
Aos pastores perguntando
Se viram ali passar
Cavalleiro de armas brancas,
Seu cavallo tremedal?
«Cavalleiro de armas brancas,
Seu cavallo tremedal,
Por esta ribeira fóra
Ninguem não no viu passar.
Vae andando, vae andando
Sem nunca desanimar,
Chega áquella mortandade
D’onde fôra Roncesval:
Os braços já tem cansados
De tanto morto virar;
Viu a todos os francezes,
Dom Beltrão não pôde achar.
Volta atrás o velho triste,
Volta por um areal,
Viu estar um perro mouro
Em um adarve a velar:
--Por Deos te peço, bom mouro,
Me digas sem me enganar,
Cavalleiro de armas brancas
Se o viste por’qui passar?
Hontem á noite seria,
Horas do gallo cantar,
Se entre vós está cativo
A oiro o heide pezar.
«Esse cavalleiro, amigo,
Diz’-me tu que signaes traz?
--Brancas são as suas armas,
O cavallo tremedal,
Na ponta da sua lança
Levava um branco sendal,
Que lh’o bordou sua dama
Bordado a ponto real.
«Esse cavalleiro, amigo,
Morto está n’esse pragal,
Com as pernas dentro d’agua,
O corpo no areal.
Sete feridas no peito
A qual será mais mortal:
Por uma lhe entra o sol,
Por outra lhe entra o luar,
Pela mais pequena d’ellas
Um gavião a voar.
--Não tórno a culpa a meu filho,
Nem aos mouros de o matar:
Tórno a culpa a seu cavallo
De o não saber retirar.
Milagre! quem tal diria,
Quem tal poderá contar!
O cavallo meio morto
Ali se pôz a falar:
--«Não me tornes essa culpa,
Que m’a não podes tornar;
Tres vezes o retirei,
Tres vezes para o salvar;
Tres me deu de espora e rédea,
Co’a senha de pelejar.
Tres vezes me apertou silhas,
Me alargou o peitoral...
Á terceira fui a terra
D’esta ferida mortal.
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