(_Variante da Beira-Baixa_)
--Oh Lisarda, oh Lisarda,
Oh Lisarda meus amores,
Quem dormira uma só noite
Comvosco n’esses alvores.
«Dormirieis uma ou duas
Se não vos fôsses gabar.
--Tenho feito juramento
Na folhinha do Missal,
Menina com quem dormir
De eu a não ir diffamar.
Ainda não era manhã
Ao jogo se foi gabar:
--Dormi esta noite com uma....
Não ha na corte uma egual!
Puzeram-se uns para os outros:
Quem seria? quem será?
Aonde estava um irmão
Á mãe o veio contar;
A mãe assim que o soube
Logo a mandou fechar.
O pae perdeu confiança,
Lenha lhe mandou cortar.
«--Oh Lizarda, oh Lizarda,
O pae te manda queimar.
«Não se me dá que me queime,
Nem que me mande queimar;
Dá-se-me d’este meu ventre
Que leva sangue real.
Chegou a uma janella
Mui triste do coração:
«Haverá por’hi um pagem
O qual queira do meu pão,
Que esse levasse uma carta
Ao conde de Montalvão?
Appareceu-lhe um menino
De sete annos e mais não:
--«Eu lh’a levarei, senhora,
Escripta no coração.
«Se o achares a dormir
Deixa-o primeiro acordar;
Se o achares á janella,
Cartas lhe vás entregar.
Foi fortuna do menino
Á janella o ir achar:
--«Cartas lhe trago, senhor,
Cartas de muito pesar;
Menina com quem dormistes
Ámanhã a vão queimar.
Não se lhe dá que a queimem,
Nem que a levem a queimar;
Dá-se-lhe só do seu ventre
Que leva sangue real.
--Ala, ala, meus criados,
Cavallos ide ferrar,
Com ferraduras de bronze
Que não se hajam de gastar.
Jornada de outo dias
Esta noite se hade andar.
Vestiu-se em trajos de frade
Começou a caminhar;
Quando chegou ao pé d’ella
Então já a iam queimar.
--Quéde, quéde essa justiça,
Se não a farei quedar,
A menina que aí levam
Ainda vae por confessar.
--Confessae-a, senhor padre,
Emquanto vamos jantar;
A confissão é de um anno,
Ella hade-se demorar.
--Venha cá, minha menina,
Faça confissão geral,
No meio da confissão
Um beijinho me hade dar.
«Tenho feito juramento
Na folhinha do Missal,
Bocca que beijou o conde
Frade não hade beijar.
--Venha cá, minha menina,
Que a quero confessar;
No meio da confissão
Um abraço me hade dar.
«Não permitta Deos do céo
Nem os santos do altar,
Braços que o conde abraçaram
Frades não hão de abraçar.
Começa-se elle a sorrir
No meio da confissão:
«Pelo rir estás parecendo
O Conde de Montalvão!
--Esse sou, minha senhora,
Criado para a salvar.
Montou-a no seu cavallo,
Foi á pressa a caminhar,
Quando veio a justiça
Não a puderam alcançar.
--Digam agora a seus manos ’
Que a venham cá accusar;
Digam agora a sua mãe
Que a venha cá fechar;
Digam também a seu pae
Que a mande agora queimar!
Vae na minha companhia
Para com ella casar.
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