(_Versão do Porto e Beira-Alta_)
Estando Dona Silvana,
Mais Dom Carlos Montealbar,
Debaixo de uma roseira,
Debaixo de um rosal,
Passou por ali um pagico,
Que nunca elle passasse:
--Pagico, do que has visto
A el-rei não vás contar,
Que eu te dou a minha chave,
Quanto puderes levar;
E da parte da senhora
O que ella te quizer dar.
«Não quero ouro, nem prata,
Se ouro e prata me heis dar;
Quero guardar lealdade
A quem a devo guardar.
Pagem, como ignorante,
A el-rei o foi contar,
Á casa dos estudantes
Onde estava a estudar,
«Deos vos salve, senhor rei,
E a vossa corôa real;
Lá deixei o conde Carlos
Com a princesa a folgar,
«--Se á puridade o dissesses
Tença te havia de dar;
Mas pois tam alto falaste,
Alto hasde ir a enforcar.
--«Ganhas-te, mexeriqueiro,
Com o teu mexericar.
«Ganhei a morte, senhora,
E a vida me podeis dar.
--«Se ella está na minha mão,
A vida não te heide dar;
Para outra não fazeres
Já irás a degollar,
E ao rabo do meu cavallo
Te mandarei arrastar.
Aos sette para outo mezes
Seu pae que a estava a mirar;
-«Que me mira, senhor pae,
Que tanto me está a mirar?
«--Eu miro-te, minha filha,
Que me pareces pejada.
--«Calle-se d’ahi, meu pae,
Que é das saias mal talhadas.
Mandou chamar dois obreiros
A quem elle mais amava,
Olharam um para o outro:
»Estas saias não tem nada!
«--Call’-te, call’-te, minha filha,
Ámanhã serás queimada!
--«Não se me dá que me queimem,
Que me tornem a queimar;
Da-se-me d’este meu ventre
Que é de sangue real.
Ai quem me dera um pagico
Que me fôra bem mandado,
Que me levara uma carta
A Dom Carlos Montealbar.
«Escreva, minha senhora,
Em quanto eu vou jantar.
--«Se elle estiver a dormir
Façam-no logo acordar,
Se elle estiver a comer
Não o deixem acabar.
«Aqui lhe trago, senhor,
Novas de grande pesar,
Que a sua bella menina
Ámanhã vae a queimar.
Jornada de trinta leguas
Temol-a nós para andar.
Era meia noite em ponto
Dom Carlos a repousar;
Chamou um dos seus criados
O que lhe era mais leal,
Lhe aparelhasse um cavallo
Dos que tem melhor andar;
Doze campainhas d’ouro
Lhe puzesse ao peitoral.
Onde vás tu, oh Dom Carlos,
Sósinho por esse andar?
Vestiu-se em trajos de frade
Ao caminho foi esperar.
--Cesse, cesse, senhor conde,
Cesse se hade cessar,
Que a menina que aí vae
Inda está por confessar.
«--Confesse-a, senhor padre,
Em quanto eu vou jantar.
--Diga-me, minha menina,
Verdade me hade falar:
Se algum dia teve amor
A leigo, crelgo, ou a frade?
--«Nunca tive amor a crelgo,
Nem a leigo, nem a padre;
Tive amores com Dom Carlos,
Por isso vou a queimar.
No primeiro mandamento
O padre nada lhe disse;
No meio da confissão
Um beijinho lhe pediu.
--«Cesse, cesse, senhor padre,
Cesse se hade cessar,
Onde Dom Carlos beijou
Ninguem mais hade beijar.
--Esse sou, minha senhora,
Que a venho aqui buscar.
Tomou-a logo nos braços,
Puzeram-se a caminhar;
Correm d’alem os criados
E puzeram-se a gritar:
«Senhor padre, deixe a moça,
Que a manda seu pae queimar!
--Pois vão dizer a seu pae,
Que a venha d’aqui tirar.
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